Além da condição histórica, a noção de campo suscita um nomos que lhe é próprio, ou seja, sua lei fundamental. Desse modo, para Bourdieu (2001) o arbitrário situa-se no princípio de todos os campos, cada um deles possui sua lei de constituição. Irredutível e imputável a qualquer outra, ela só é válida no seu próprio campo de origem, como exemplo pode ser citado, o caso do campo artístico de final do século XIX cujo nomos “arte pela arte” se opõe ao que se passa no campo econômico cuja lei obedece a tautologia “negócios são negócios”.
Bourdieu (2005a) nos fala que a teoria dos campos que progressivamente foi sendo elaborada, nada deve ao pensamento econômico. Entretanto, reconhece o autor, que ao reinterpretar, numa perspectiva relacional, a análise que Weber aplicava à religião com alguns conceitos retirados da economia, se viu cercado de propriedades gerais que a teoria econômica tinha assinalado sem delas possuir o adequado fundamento teórico. Sendo assim, Bourdieu (2005a) argumenta que em vez de ser a transferência que está na origem da construção do objeto, é a construção do objeto que exige a transferência e a fundamenta.
Desse modo, tratando-se de analisar os usos sociais da língua, a ruptura com a noção vaga da situação obriga a que se pensem as relações de intercambio lingüístico como outros tantos mercados que se especificam segundo a estrutura das relações entre os capitais culturais dos grupos. Isso leva a supor que a teoria econômica, no lugar de ser modelo fundador, deve antes ser pensada como um caso particular da teoria dos campos que se constrói aos poucos. Tal proposição permite compreender as contribuições e os limites de transferências como as que Weber realiza, e obriga a repensar os pressupostos da teoria econômica à luz principalmente dos conhecimentos conquistados a partir da análise dos campos de produção cultural19 (BOURDIEU, 2005a).
A teoria dos campos, desenvolvida por Bourdieu (2005a) autoriza descrever e definir a forma específica de que se revestem, em cada campo, os mecanismos mais gerais: capital, investimento, ganho, evitando assim o reducionismo econômico que nada mais conhece a não ser o interesse material e a maximização do lucro monetário. Assim, para o autor, compreender a gênese social de um campo e apreender a crença que o sustenta, o sentido do
19 A análise (...) de um universo econômico como o do campo dos produtores de habitação, reconhece um certo número de características já observadas em campos como o da alta costura ou mesmo o da pintura e da literatura: sobretudo o papel dos investimentos destinados a produzir a crença no valor de um produto simultaneamente econômico e simbólico, ou o fato de, neste domínio como em outros, as estratégias das operações dependerem da sua posição no campo da produção (...)” ( Bourdieu, 2005: 69).
jogo que nele se joga, é explicar os atos dos produtores e as obras por eles produzidas e não reduzi-los ou destruí-los.
Não obstante, o princípio de visão e divisão e o modo de conhecimento seja ele religioso, filosófico, jurídico artístico, entre outros, só podem ser conhecidos e compreendidos em relação a legalidade específica do campo do qual fazem parte. Dito de outra forma, as estruturas de pensamento do filósofo, do escritor ou do artista, bem como os limites de seus pensáveis e impensáveis, são sempre dependentes das estruturas de seu campo, logo da história das posições constitutivas desse campo e das disposições nele valorizadas (BOURDIEU, 2001).
Para Bourdieu (2001) cada campo é a institucionalização de um ponto de vista nas coisas e no habitus. O habitus específico imposto aos novos agentes como um direito de entrada é um modo de pensamento particular, princípio de uma construção própria da realidade, fundado numa crença pré-reflexiva no valor indiscutível das ferramentas de construção e dos objetos assim construídos. Assim, para o autor, o novo agente deve trazer para o jogo um habitus suficientemente próximo, e acima de tudo maleável de forma a poder ser convertido em habitus ajustado, ou seja, congruente e dócil aberto às possibilidades de uma reestruturação.
Segundo Bourdieu (2001) essa é a razão pela qual as operações de cooptação prestam atenção aos indícios quase imperceptíveis, como os sinais corporais, postura, maneiras e disposições. Um exemplo disso pode ser retirado do livro deste autor “A Distinção”: as disposições estéticas, tacitamente exigidas pelo campo artístico e inculcadas por sua estrutura e funcionamento tendem a apreender as obras de arte como elas aspiram sê-lo, obras de arte. Assim, a lógica do que, às vezes, é designado como a “leitura” da obra de arte, oferece um fundamento objetivo desta oposição, qual seja a obra de arte só adquire sentido e só tem interesse para quem é dotado do código segundo o qual ela é codificada.
Além disso, Bourdieu (2007) salienta que o expectador desprovido do código próprio de um campo, como o da arte, sente-se submerso diante do que lhe parece ser um caos de sons e de ritmos, de cores e de linhas. Para o autor, o agente assim desprovido das disposições adequadas, limita-se ao que é designado por Panofsky como “propriedades sensíveis”, identificando uma pele como aveludada ou uma renda como vaporosa ou ainda, uma melodia como austera ou alegre. Assim como o campo artístico, cada campo possui sua doxa20
20Trata-se de um conceito husserliano que Bourdieu sociologizou para basear a “atitude natural da vida diária” na coincidência das estruturas sociais e mentais por meio das quais o mundo magicamente aparece como auto- evidente e sua composição é posta além do alcance do debate e da elaboração (WACQUANT, 2002).
específica, conjunto de pressupostos inseparavelmente cognitivos e avaliativos cuja aceitação está ligada a própria pertinência.
A disposição constituinte de um campo é, segundo Bourdieu (2001), uma adesão tácita ao nomos - a lei válida num campo específico. Essa lei engendra uma forma particular de crença, a illusio21 que supõe a suspensão dos objetivos da existência ordinária, em favor de
novos interesses, suscitados e produzidos pelo próprio jogo. A illusio como pronta adesão à necessidade de um campo tem chances tanto maiores de emergir a consciência quando ela se encontra a salvo da discussão. Ela constitui a condição indiscutida da discussão, ela faz parte da ação, da rotina, das coisas que se faz porque sempre foram feitas assim.
Deste modo, para Bourdieu (2005b) o campo é tanto um “campo de forças”, uma estrutura que constrange os agentes nele envolvidos, quanto um “campo de lutas”, em que os agentes atuam conforme suas posições relativas no campo de forças, buscando conservar ou transformar a sua estrutura. Nesse sentido, Thiry-Cherques (2006), em seu artigo salienta que os campos não são estruturas fixas, mas produtos da história das suas posições constitutivas e das disposições que elas valorizam. O que determina a existência de um campo e demarca os seus limites são os interesses específicos, os investimentos econômicos e psicológicos que ele solicita dos agentes dotados de um habitus e das propriedades nele inseridas.
Os campos são “espaços estruturados de posições” em um determinado momento e podem ser analisados independentemente das características dos seus ocupantes. São microcosmos sociais, com valores (capitais), objetos e interesses específicos. O conceito de campo é fruto do “estruturalismo genético” de Bourdieu. Um estruturalismo que se detém na análise das estruturas objetivas dos diferentes campos, mas que as estuda como produto da incorporação das estruturas preexistentes. O campo estrutura o habitus e o habitus constitui o campo, ou seja, o habitus é a incorporação da estrutura social, enquanto o campo é a exteriorização ou objetivação do habitus (THIRY-CHERQUES, 2006).
No interior de cada campo dá-se uma dinâmica de concorrência e dominação, derivada das estratégias de conservação ou subversão das estruturas sociais. Nestes espaços sociais a distribuição de capital é desigual, o que implica que os campos vivam em permanente conflito, com os indivíduos e grupos dominantes procurando defender seus privilégios. As estratégias mais comuns são as centradas na conservação das formas de capital; no investimento com vistas à sua reprodução; na sucessão, com vistas à manutenção das heranças
21 A illusio é estar preso ao jogo, preso pelo jogo, acreditar que o jogo merece ser jogado, é dar importância para um jogo social e admitir, portanto que os alvos engendrados merecem ser perseguidos; é reconhecer o jogo e os alvos (BOURDIEU, 2005b).
e ao ingresso nas camadas dominantes; na educação, com os mesmos propósitos; na acumulação, econômica, mas, também, social, cultural, e, principalmente, simbólica (THIRY- CHERQUES, 2006).
Um campo, segundo Bourdieu (1983, p. 9) se define através da identificação dos objetos em disputa e dos interesses específicos que são irredutíveis aos objetos de disputa e aos interesses de outros campos. O autor fornece um exemplo disso ao citar que “não se poderia motivar um filósofo com questões próprias dos geógrafos”. A admissão no campo suscita a posse de diferentes formas de capital na quantidade e qualidade do que conta na disputa interna e que constitui o propósito do jogo específico e as disposições e aprendizados, que conformam o habitus do campo. O campo é caracterizado pelas relações de força resultantes das lutas internas e pelas estratégias em uso, sejam elas defensivas ou subversivas. A estrutura de um campo é um estado da relação de força entre os agentes dotados de certa quantidade e qualidade de capital acumulado no curso de sua trajetória no campo. Esta estrutura que está na origem das estratégias destinadas a transformá-la, está sempre em jogo. As lutas no campo objetivam o monopólio da violência legítima, propriedade que possibilita a imposição de uma visão de mundo. Assim, aqueles que, num estado determinado das relações de força, monopolizam o capital específico22, fundamento do poder de um campo, tendem à estratégias de conservação. Contudo, aqueles que possuem menos capital, que frequentemente são os recém chegados no campo tendem às estratégias de subversão, quase sempre inconscientemente (BOURDIEU, 1983).