Claro que o processo de deslocamento dos indesejados, miseráveis de toda ordem, dos cortiços para as favelas cariocas se constituiu em expoente do pensamento administrativo e sanitário da época.
No bojo desse ideário, havia também em curso um
[...] projeto da psiquiatria para cuidar daqueles considerados alienados pela medicina (...), a opção dos homens de governo, para sanear a metrópole e emprestar-lhe um ar civilizado como tanto desejavam, seria trilhar o caminho da exclusão. Tanto o subúrbio, quanto o hospício apareceriam como alternativas para a retirada dos indesejáveis, loucos, miseráveis, mendigos, prostitutas e ambulantes do convívio urbano. Aos dirigentes do regime que se instalava cabia “livrar a cidade de convívios promíscuos e desestabilizadores da saúde pública”
A proposta de modernização da cidade carioca, orquestrada por autoridades, médicos e engenheiros, começava a marcar códigos de ordem e controle dos espaços. Seus citadinos, atordoados com as novas condições urbanas, seriam alvo de registro e intervenção dos médicos alienistas, por exemplo. Alargaram-se assim as fronteiras da psiquiatria para o domínio moral da urbe. A tentativa da República de reordenar e modernizar a cidade, encontrou no discurso cientifico as explicações de que precisava para sustentar e legitimar esse projeto:
A legislação republicana deixaria evidente essa premissa, a partir do momento em que determinava o recolhimento das ruas de qualquer indivíduo que perturbasse a ordem ou ameaçasse a vida de outra pessoa (...) Tudo aquilo que não pudesse ser identificado com uma sociedade que se pretendia civilizada, devia ser excluído (CERQUEIRA, 2002, p. 38).
O escritor Lima Barreto, em seu livro Diário do hospício e o cemitério dos vivos (relato do período em que ficou internado no Hospital Nacional de Alienados, no bairro da Urca, no Rio de Janeiro, entre 1919 e 1929, por suposto abuso de álcool) faz uma análise certeira do cenário de asilamento, à época:
Os loucos são de proveniências as mais diversas; originam-se, em geral das camadas mais pobres da nossa gente pobre. São pobres imigrantes italianos, portugueses, espanhóis e outros mais exóticos; são negros roceiros, que levam a sua humildade, teimando em dormir pelos desvãos das janelas sobre uma esteira ensebada e uma manta sórdida; são copeiros, são cocheiros, cozinheiros, operários, trabalhadores braçais e proletários mais finos: tipógrafos, marceneiros, etc.” (BARRETO, 2010, p.25)
Uma vez que atuou como um dos operadores do projeto de organização da cidade, a psiquiatria também precisou ampliar a classificação de louco. A hipótese da degenerescência (deslocada da teoria da evolução darwinista,
características do campo social, moralmente concebidas pela ciência em pactuação da lógica de desenvolvimento vigente) raças inferiores, negros e índios, e raças superiores, brancos) contribuiu para que a vagabundagem e a prostituição, por exemplo, pudessem ser alvos de intervenção do Estado, legitimando o confinamento da horda de degenerados excedentes das mudanças urbanas.
Para os alienistas, a cidade aparecia como lugar propício ao desenvolvimento de indivíduos degenerados, que não se identificavam com a nova ordem social que a República buscava implementar, o que tornava o caminho da exclusão inevitável. Mesmo com as inúmeras reformas que a legislação sofreu ao longo dos primeiros anos republicanos, a exclusão ainda seria o ponto central na assistência ao alienado (CERQUEIRA, 2002, p. 39).
Nesse sentido, Foucault (1978) faz algumas observações acerca do advento moral da loucura e dos pobres na cidade,
Se a loucura no século XVII está como que dessacralizada é de início porque a miséria sofreu essa espécie de degradação que a faz ser encarada agora apenas no horizonte da moral. A loucura só terá hospitalidade doravante entre os muros do hospital, ao lado de todos os pobres. É lá que a encontraremos ainda ao final do século XVIII. Com respeito a ela, nasceu uma nova sensibilidade: não mais religiosa, porém moral. Se o louco aparecia de modo familiar na paisagem humana da Idade Média, era como que vindo de um outro mundo. Agora, ele vai destacar-se sobre um fundo formado por um problema de “polícia”, referente à ordem dos indivíduos na cidade (FOUCAULT, 1978, p. 72).
Exemplo disso, foi a inauguração do Hospício Dom Pedro II, em 1852, na região carioca da Praia Vermelha. À época, aqueles que perturbavam a ordem pública (vagabundos e loucos), quando não acabavam nas prisões, eram colocados em celas da Santa Casa de Misericórdia, que atuava no campo da psiquiatria de forma improvisada. Com o Pedro II, o projeto alienista de exclusão dos desviantes da ordem vigente, enfim, ganhou um espaço
degenerescência contribui decisivamente para esse processo, atuando como instrumento eficaz do ideário do controle social.
Sobre a loucura, nota-se que o modo asilar operava de acordo com as necessidades do capital, sendo inclusive um dos motivos explícitos para justificar a internação muito variados:
A teoria da degenerescência formulada por volta dos anos cinquenta do século XIX, ao definir uma etiologia da loucura, negava a concepção de que a doença mental era sobretudo causada por um desvio da razão. A degeneração transmitida hereditariamente seria responsável pela demência, para a qual, muitas vezes, o indivíduo seria fatalmente conduzido. Esta concepção revertia os fundamentos do alienismo clássico e trazia à discussão temas fundamentalmente voltados para a sociedade. A preocupação passava a ser com a limpeza e a disciplinarização da cidade, pois esta apresentava elementos que seduziam os indivíduos e arrastavam-nos para o desatino, como o álcool, o jogo e a prostituição (CERQUEIRA, 2002, p. 56).