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Partie II : La place du psychomotricien auprès d’un enfant et ses parents : Sécurité et

D. Je joue donc j’explore

1. Le jeu dans le développement de l’enfant

meninas (THORNE, 1993). A pesquisadora investiga as maneiras como as crianças brincam e o papel ativo em criações. Aponta que os meninos encontram recompensas para interagir com brinquedos de meninos, e com os meninos, e as meninas, para interagir com brincadeiras de meninas juntamente com as meninas.

Explica que a segregação entre meninos e meninas é uma questão de interesses compartilhados, porque as meninas apreciam as mesmas atividades que outras meninas, e os meninos apreciam as mesmas atividades que outros meninos. Segundo as professoras, quando meninos e meninas brincam juntos, brincam com os papéis masculinos e femininos muito bem definidos.

Os meninos também gostam muito de brincar na casinha pequena, eles colocam o carro na garagem, eles brincam de papai, mamãe, e filhinha. Agora os carrinhos eles não deixam elas pegarem, os carrinhos são propriedade dos meninos. Se uma menina pega um carrinho, o bicho pega, para eles as meninas têm as boneca para brincar”. (Professora Neuza)

Alguns meninos brincam junto com as meninas, vão ao supermercado com os carrinhos, brincam de fazer compras, brincam de panelinha. (Professora Raquel)

Eles brincam com as meninas, principalmente naquele lugar onde tem uma cortininha, eles brincam de papai e mamãe, sempre tem dois agarrados ali. As meninas tentam se agrupar e elas brincam com brincadeiras de meninas, panelinha, fogãozinho, boneca, carrinho, carrinho de boneca, é claro! (Professora Maria)

Já na brinquedoteca, que é uma atividade mais livre, eu já não vejo tanta distinção, eles brincam na casinha com meninas, meninas com

grupos de meninos e misturado. (Professora Jaqueline)

Se as meninas atrapalharem nas brincadeiras dos meninos, eles vêm reclamar para mim. “Eu to brincando com isso e ela quer tirar de mim”. É porque eles mesmos se agrupam. (Professora Sara)

Porém a classificação de que as crianças pequenas brincam aleatoriamente e, ao crescerem, aproximadamente com 6 ou 7 anos, as brincadeiras já vão se tornando mais segmentadas pelo sexo, também é uma condição da natureza, natural do desenvolvimento do corpo? Se brincar é um elemento cultural e não é natural (HUIZINGA, 1973; BROUGÈRE, 1995, 1998) não se aprende a brincar? Brinca-se naturalmente? Se pensarmos assim, será comum pensar, então, que os desejos e os gostos pelas brincadeiras de meninos e meninas são naturalmente diferenciados. Não é possível conceber a classificação etária, ou sexual, para a forma como meninas e meninos brincam? Se o brincar é concebido como uma atividade inata da criança? Então, por que tantos esforços para definir essa separação?

As brincadeiras na Educação Infantil podem estar servindo, por meio de estratégias sutis, como um recurso para a produção de relações desiguais de gênero. A brincadeira não é vista simplesmente como um contexto no qual a interação ocorre, mas como um fenômeno que tanto produz como é produzido por relações de poder e gênero. É necessário desconstruir a lógica binária na apresentação do mundo para as crianças: enquanto os brinquedos e as brincadeiras forem associados a significados masculinos e femininos, que hierarquizam coisas e pessoas, apresentaremos a meninos e meninas significados excludentes.

O fato de uma prática ser intencional não significa que seja uma prática neutra, “é importante ressaltar a necessidade das práticas regidas por uma intencionalidade educativa, visto que a não interferência, ou seja, a neutralidade não garante o favorecimento de algo e/ou de algum propósito, enfim de um objetivo” (SAYÃO, 2003, p. 37). Essa prática intencional, que atue diretamente para o não favorecimento de práticas sexistas (ação afirmativa), não se limita a

dizer para as crianças que é possível que meninos brinquem de boneca ou meninas de carrinho; com isto, estaremos oportunizando relações mais solidárias ou menos hierárquicas quanto ao gênero, o que é importante, mas ainda é pouco...com a mediação de profissionais que se reconheçam em sua condição social de homens ou mulheres possam, através de diferentes experiências, tomar consciência de que “anti-valores” como hierarquia, poder e dominação precisam ser constantemente desmistificados, ajudando, assim, a ampliar as concepções de infância e gênero (p. 84).

As crianças mostravam que eram capazes de ultrapassar as fronteiras e os preconceitos em relação à carga de estereótipos que sofrem. Pois, além do prazer e da necessidade que a criança sente de brincar, a brincadeira contribui para sua formação como indivíduo crítico, criativo, autônomo e atuante; por isso, vivenciar a brincadeira de forma livre e espontânea é muito importante para a participação cultural, crítica e criativa. Compreender e respeitar as escolhas das crianças é fundamental para que, entre professores/as e crianças, haja uma relação horizontal, não adultocêntrica.

As crianças brincavam entre si indistintamente, brincavam entre meninos e meninas, também brincavam sozinhas e entre grupos de meninas e grupos de meninos. Brincavam com diferentes brinquedos e brincadeiras de vários temas: posto de gasolina, caixa eletrônico, feira de frutas, castelo encantado, casinha, hospital, escritório. Brincavam com diferentes brinquedos, bonecas, secador de cabelo, espada, carrinho, panelinhas, kit de ferramentas, mamadeiras, trenzinhos, animaizinhos... Meninos e meninas compartilhavam e representavam diferentes papéis.

Brincavam de faz-de-conta, de jogo de papéis. Brincar de ser noiva, pirata, príncipe ou rumbeira, brincar de ter cabelos compridos, brincar ora de ser papai, ora de ser filhinha, ora de ser mamãe, de “ter dois maridos”16, ser médica ou monstro, professor, secretária ou frentista, brincar... Brincando, a criança experimenta diferentes formas de ser. Brincar com os jogos de papéis é diversão e improvisação, é imprevisível e rico de oportunidades para reflexão e aprendizagem. (CORSARO, 2007). Ao longo das observações foi identificado, com o poder transformador da brincadeira, que o brincar na brinquedoteca pode dar às crianças a possibilidade de brincar de corpo inteiro, de fantasiar com o corpo e brincar com os pensamentos; a possibilidade de brincar de “ser”, de ser o que desejam da forma que desejam:

O que não se pode negar, entretanto, é que as crianças podem muito mais do que ser o que não são, ou o que ainda não são, durante as brincadeiras. Nelas, impulsionadas pelo desejo de se apropriarem das coisas do mundo, que inclui não somente o imaginário, mas também o afetivo, o corpo, o sonho, o prazer, o riso, o movimento, as crianças estão sempre prontas para mostrar outras novas possibilidades para e nesta apropriação. Desta forma, elas podem também ser o que são, expressando as diferentes dimensões humanas constitutivas do ser e tornando-se crianças a sua moda. (PRADO, 1998, p. 9)

Como nos propôs Débora Sayão, temos que ter “um olhar investigador, o qual proporciona às professoras uma qualidade em seu trabalho e reduz drasticamente o

16 Este episódio de brincadeira é relatado nos estudos de Willian Corsaro (2005) para explicar o conceito

de “reprodução interpretativa”, mostra a importância das brincadeiras de dramatização de papéis por permitirem trazer elementos próprios das crianças, para além da imitação direta dos modelos adultos.

prejuízo que os preconceitos e as atitudes moralizantes impõem às crianças com quem trabalhamos.” (2004, p. 46). É necessário pensar em formas de “como evitar que as crianças se prendam às semióticas dominantes ao ponto de perder muito cedo toda e qualquer verdadeira liberdade de expressão?” (GUATARRI, 1977, p. 54). Não podemos ignorar, desencorajar, negar ou impedir as diferenças que meninos e meninas apresentam.