1. Découverte et maitrise de la cétose
1.3. Du jeûne alimentaire à la découverte de la cétose
Em relação ao método, a pesquisa se ancorou no método semiótico, por entendermos que apesar do instituto da ouvidoria já estar disseminado nas organizações, este instituto ainda carece de teorização que lhe garanta uma clareza metodológica, pois mesmo no setor público, onde é amplamente praticado, existem diferentes maneiras de exercício da ouvidoria.
A semiótica é a ciência geral dos signos e pode ser considerada também como a ciência da significação. O nome “semiótica” vem da raiz grega semeion, que quer dizer “signo”. Por isso, utilizamos como principal aporte teórico a “teoria geral dos signos” que resulta da semiótica americana de Charles Sanders Peirce. Nesse sentido, elegemos Lúcia Santaella (1983, 1992, 1995, 1997, 2000, 2001, 2003, 2004, 2008), dentre outros, como guia na compreensão da teoria peirceana.
A semiótica estuda todos os tipos possíveis de signos (a linguagem verbal e não- verbal), configurando-se como uma ciência que abarca todas as linguagens, com enfoque interdisciplinar, abrangendo uma área de estudo muito vasta e complexa, visto que estuda a realidade cultural, o contexto.
Para Santaella (2001, p. 115), “a Semiótica é uma disciplina filosófica e científica que compõe a tríade das ciências normativas: estética, ética e lógica, ou semiótica, estas, antecedidas pela quase-ciência da fenomenologia”.
Salienta essa autora que o método semiótico depende do conhecimento de outras áreas, pois funciona como um mapa lógico que traça as linhas de diferentes aspectos através dos quais uma análise deve ser conduzida, mas não traz conhecimentos específicos dos signos. Por isso, a aplicação desse método exige do pesquisador o conhecimento do contexto sociocultural em que se insere o seu objeto de estudo, pois sem entender as questões socioculturais e a trajetória histórica que envolve um signo não se podem detectar as marcas deixadas por ele no contexto de elaboração da mensagem.
Segundo informa Iasbeck (2006, p. 194), “a semiótica é uma ciência que propõe metodologias para pesquisa em todas as ciências, sem agredir ou contestar os paradigmas de cada uma delas”.
Para Iasbeck (2006, p. 198):
O método semiótico tem muita utilidade para promover o diálogo entre paradigmas distantes e até mesmo estranhos. Assim, com fundamentação semiótica, o pesquisador pode ir buscar na Antropologia, na Sociologia, na Física ou na Psicanálise conceitos familiares a essas ciências e associá-los na articulação argumental em torno de peculiaridades de seu objeto de estudo.
A semiótica de Peirce é triádica: todas as coisas que se apresentam ao ser humano podem ser caracterizadas em três categorias, estabelecidas por ele como sendo os três modos de os fenômenos se apresentarem à consciência. Para Peirce, o signo opera em três categorias universais que, inter-relacionadas com os três constituintes do signo – representamen, objeto e interpretante –, compõem 10 classes responsáveis pela apreensão humana da realidade, denominadas firstness ou primeiridade (sentimento imediato, qualidade da impressão, da qualidade ainda não distinguida, sem provocar reação), secondness ou secundidade (relação de um fenômeno a outro, ação, fato) e thirdness ou terceiridade (mediação, hábito, continuidade).
A primeiridade (firstness) é a categoria da possibilidade qualitativa, a qualidade sensível das coisas. É o domínio do virtual. Um sentimento aparece sem relação com outras coisas; a qualidade absoluta de uma cor, por exemplo, a branquidão, a azulidade, sem remeter a outros sentimentos.
Nesse caso, o primeiro é um signo presente e imediato, de modo que não entra em relação com o outro, e não é segundo para uma representação. Ele é iniciante, original, fresco e livre, porque se ele envelhecer já se secundariza. Ele não pode ser pensado, nem afirmado, porque afirmá-lo também é secundarizá-lo, pois as afirmações pressupõem uma negação de alguma coisa.
A secundidade (secondness) é a categoria da existência, o domínio do fato atual. Se a qualidade é uma parte do fenômeno, quando ela se incorpora e passa a existir em algum lugar, em relação a alguma coisa, entra na categoria da secundidade. No momento em que se identifica o sentimento relacionando-o a algum fato, ele se torna segundo, singular e passa a existir. A secundidade é a categoria do reagir e interagir, é o plano da interação dialógica.
A terceiridade (thirdness) é a categoria da lei, o domínio da legislação. A terceiridade aproxima o primeiro e o segundo numa síntese explicativa. Ela corresponde ao pensamento em signos no momento em que se interpreta as relações estabelecidas entre eles. O terceiro é um signo mediador entre o intérprete e os fenômenos, o signo que traduz um objeto de percepção em um julgamento de percepção. Por isso, ele é um legislador.
A partir dessa divisão lógica do signo, Peirce estabeleceu uma rede de classificações sempre triádicas (três a três) dos tipos possíveis de signo. Dentre várias tricotomias existe o quadro de nove tipos de signos, que se tornou a mais conhecida.
O signo em relação a: Primeiridade Secundidade Terceiridade
Si mesmo (representamen) Qualisigno 1.1 Sinsigno 1.2 Legisigno 1.3
Objeto Ícone 2.1. Índice 2.2. Símbolo 2.3
Interpretante Rema 3.1. Dicisigno ou Dicent 3.2 Argumento 3.3 Quadro 1 - As tricotomias fundamentais do signo
Fonte: Souza (2011)
Assim, dentre as mais conhecidas tríades formuladas por Peirce estão as que dizem respeito ao signo em si mesmo (quali-signo ou primeiridade; sin-signo ou secundidade; e legi- signo ou terceiridade), bem como as tríades que fazem a relação do signo com o objeto dinâmico (ícone, índice e símbolo) e a relação do signo com o interpretante (rema, dicente e argumento). Segundo Santaella (2000), essa correspondência se desdobra em uma teoria triádica da objetivação (signo/objetos), significação (signo/signo) e interpretação (signo/interpretantes).
Figura 1 - O signo peirceano e as tricotomias Fonte: Pires (1999)
Feitas essas reflexões, salientamos que o método de análise proposto nessa dissertação teve como base os estudos do signo8 de Charles Sanders Peirce e suas categorias fenomenológicas, dividindo-se, assim como todo o seu pensamento, em três princípios:
a) No Signo como qualidade, em primeiridade, predominam os elementos qualitativos e são encontrados no fundamento, objeto e interpretante imediato; b) No Signo como existente, em secundidade, predominam os elementos relacionais.
Aqui ele deve ser analisado pela suas conexões, significações e associações com o objeto e o interpretante. A interação entre signo, objeto e interpretante concretiza-
8Para Peirce, signo é uma tríade semiótica em aberto, processual, contínua, abrangente, sendo a dimensão cultural apenas
uma faceta desse processo amplo e infinito, também chamado semiose. Os estudos dos signos são apenas uma parte da teoria peirceana, que se estende por domínios bem mais abrangentes que a comunicação humana. Mas, sob alguns aspectos, a teoria peirceana pode ser entendida como uma teoria da comunicação.
se através de uma qualidade que determina uma característica do signo, está fixada no objeto dinâmico e é interpretada pelos interpretantes dinâmicos;
c) Finalmente, no signo em sua generalidade, em terceiridade, predominam os elementos internalizados em regras e leis.
Assim sendo, apoiando-nos nesses conceitos, utilizamos essa abordagem semiótica para analisar aspectos da comunicação pública organizacional no âmbito da Ouvidoria Parlamentar da Câmara dos Deputados, proposição essa que não exclui outras possibilidades.
No entanto, vale aqui ressaltar, conforme lembra-nos Santaella (2004), que em todo ato de análise semiótica sempre ocupamos a posição lógica do interpretante dinâmico, pois analisar significa também interpretar. Na postura de receptores ou de intérpretes singulares de uma semiose específica, aventamos possibilidades de respostas, mas sempre falíveis já que imbuídas de singularidade.
Para a referida autora:
Saber que estamos na posição de interpretante dinâmico, ou seja, de uma interpretação singular é um indicador de um certo teor de humildade que deve sempre nos acompanhar, pois interpretações singulares são sempre incompletas e falíveis. Mas é a consciência mesma da falibilidade que deve nos munir de energia e empenho para que a análise seja tão cuidadosa e escrupulosa quanto possível, o que implica um conhecimento seguro dos conceitos e de sua operacionalização analítica (SANTAELLA, 2004, p. 39).
Em relação a essa constatação da autora, cabe esclarecer que em uma análise semiótica peirceana, três são os tipos de interpretantes requisitados para que uma interpretação se realize. O primeiro nível do interpretante é o imediato e está relacionado com a 1ª categoria fenomenológica: a primeiridade. Consiste naquilo que o signo está apto a produzir numa mente interpretadora. É a potencialidade interpretativa antes que alcance qualquer intérprete. Pura potencialidade ainda não realizada, mera possibilidade.
O segundo nível, o interpretante dinâmico, é o efeito que o signo efetivamente produz numa mente interpretadora individual. Ao atingir o intérprete, o signo produz três efeitos que consistem respectivamente em sentimentos, esforços e mudanças de hábito; são os interpretantes emocional, energético e lógico. O primeiro efeito significativo de um signo é o sentimento provocado por ele. Esta qualidade de sentimento inanalisável e intraduzível é o que caracteriza o interpretante emocional, interpretante dinâmico de primeiro nível. Seu sentido é vago e indefinível. O interpretante energético corresponde a uma ação concreta em resposta ao signo. Exige esforço e, por isso, alguma energia é despendida. Pode ser ação física, mas na maioria das vezes é mental. Se o signo é conhecido, a energia despendida é pouca; se desconhecido, há maior esforço.
Se o signo é de lei, conforme explica Santaella (1995), o interpretante será um pensamento que traduzirá o signo anterior em um outro signo da mesma natureza, num processo sem fim [...] Uma lei, princípio condutor que conforma o efeito produzido a um certo padrão, será o interpretante lógico. Um interpretante lógico é uma regra geral, um hábito de ação que pode ser expresso em palavras.
Na continuação de seu raciocínio, explica Santaella (1995) que no seu processo de geração, o interpretante lógico subdivide-se em três níveis: as conjecturas que se constituem em hipóteses construídas por desempenhos voluntários do mundo interior, imaginando-se diferentes situações e linhas de conduta alternativas; a definição desse interpretante é identificada com o significado que é descrito como um hábito de ação imaginativa e, finalmente, o argumento que consiste numa mudança de hábito.
Feitas essas considerações e seguindo a linha de raciocínio dessa autora, entendemos também, tal qual afirma Santos (1989), que para se chegar a um nível compreensivo da construção social da realidade, devemos recorrer à interpretação, embora se saiba que a realidade como tal não depende dela para existir: ela existe com ou sem intérprete. Para esse autor, a realidade conhecida é inevitavelmente aquela interpretada.
Por meio da hermenêutica, é possível perceber que a interpretação é inevitável e, consequentemente, rompe-se o círculo vicioso do objeto-sujeito-objeto e se amplia no campo da compreensão, da comensurabilidade e, portanto, da intersubjetividade. A reflexão hermenêutica possibilita descobrir as entrelinhas além dos limites, os contextos além do texto, as significações além da palavra.
Em consonância com as argumentações dos referidos autores, desenvolvemos uma análise teórico-crítica com certa liberdade, por entendermos que a esfera metodológica não é um campo sagrado que gera uma verdade inquestionável. Acreditamos que no máximo se pode alcançar a construção de pensamentos mais verdadeiros por meio do pluralismo metodológico que dá conta da multiplicidade de arranjos discursivos ou de combinatórias, de efeitos de sentido e de dimensões figurativas e aleatórias que proliferam na atualidade.
Partindo dessas premissas, e como parte de um encadeamento lógico, a pesquisa se fundamentou no conceito de “dialogismo” proposto pelo teórico russo Mikhail Bakhtin (1997) em sua obra “Marxismo e filosofia da linguagem”, que trata das relações entre a linguagem e a sociedade, colocando como elemento centralizador o signo enquanto efeito das estruturas sociais, ou seja, o signo ideológico.
Desde que o trabalho desenvolvido por Bakhtin passou a ser conhecido no ocidente, entre os anos 60 e 70, é impossível não reconhecer a imensa influência que suas reflexões
vêm exercendo sobre os mais variados estudos acerca da linguagem humana, quando entendida não apenas como um meio de comunicação, mas, principalmente, como promotora de interação social, conhecimento humano e expressão ideológica.
Ao tratar do papel da consciência individual e da palavra na formação das ideologias, Bakhtin apresentou uma série de reflexões no sentido de facilitar nossa compreensão sobre a importância dos processos de interação semiótica dos grupos sociais.
Essa cadeia ideológica estende-se de consciência individual em consciência individual, ligando umas às outras. Os signos só emergem, decididamente, do processo de interação entre uma consciência individual a uma outra. E a própria consciência individual está repleta de signos. A consciência só se torna consciência quando se impregna de conteúdo ideológico (semiótico) e, consequentemente, somente no processo de interação social (BAKHTIN, 1997, p. 34).
Para o autor, a palavra, além de constituir o mais puro signo ideológico no estabelecimento e manutenção das relações sociais, ainda serve de suporte para todo signo não-verbal, sendo eles também entendidos como signos ideológicos. Temos, pois, que todo signo – verbal ou não – só existe enquanto tal devido à carga ideológica que comporta de forma a tornar possível tanto a formação das subjetividades quanto os processos de interação humana.
Segundo esse autor:
A palavra acompanha e comenta todo ato ideológico. Os processos de compreensão de todos os fenômenos ideológicos (um quadro, uma peça musical, um ritual ou um comportamento humano) não podem operar sem a participação do discurso interior. Todas as manifestações da criação ideológica – todos os signos não-verbais – banham-se no discurso e não podem ser nem totalmente isoladas nem totalmente separadas dele (BAKHTIN,1997, p. 37-38).
Portanto, quando partimos do princípio de que a linguagem humana que se manifesta pela palavra constitui o mais forte e presente meio de interação social e construção de ideologias, podemos concluir que a palavra é a grande responsável pelas relações intersubjetivas, pela historicidade dos diferentes povos, bem como pela produção, recepção e transmissão de seus dados culturais, expressos ou não pela língua natural, embora, certamente, explicados por ela.
Assim, afirma Bakhtin (1997, p. 36):
Mas esse aspecto semiótico e esse papel contínuo da comunicação social como fator condicionante não aparecem em nenhum lugar de maneira mais clara e completa do que na linguagem. A palavra é o fenômeno ideológico por excelência. A realidade toda da palavra é absorvida por sua função de signo. A palavra não comporta nada que não esteja ligado a essa função, nada que não tenha sido gerado por ela. A palavra é o modo mais puro e sensível de relação social.
Convém ainda mencionarmos que nos estudos bakhtinianos, a palavra não é concebida dentro do sistema estrutural da língua – da mesma forma como é tratada pelas concepções
tradicionais – e sim como elemento fundamental do fazer ideológico. Em consonância com o pensador russo, podemos afirmar que qualquer reflexão em torno da palavra só ganha sentido e importância se a linguagem for considerada em sua perspectiva pragmática, ou seja, como o lugar mais indicado para a manipulação de valores sociais.
Enfim, do pensamento de Bakhtin (1997) aqui exposto, buscamos demonstrar que o instituto da Ouvidoria Pública representa uma instância privilegiada de relações intertextuais, de construção ideológica e interação social, devido ao inter-relacionamento das mais variadas modalidades de signos, não apenas pelas palavras, mas igualmente pela imagem e pelo som que podem ser produzidos.
2 REVISÃO DE LITERATURA