Naquele momento minha afetação social era com a música, me conectei à caixa de som e os processos de afetação sonora e social me tomaram o corpo. De forma que me sociabilizava com a caixa de som. De acordo com Massimo Di Felice (2009):
Compreendi então que as relações e as formas de sociabilidade nas raves não eram somente antropomórficas, ou seja, não aconteciam somente entre sujeitos, grupos, etc., mas entre corpos, ondas sonoras, circuitos elétricos (sequenciador, computadores, mixer, amplificadores etc.) e drogas sintéticas. (...). As mesas dos DJs, as caixas e os circuitos elétricos que não só produziam música, mas criavam um ambiente, determinando uma situação social transorgânica. (DI FELICE, 2009, pp. 294-295).
A sociologia clássica restringe a sociabilidade aos seres vivos; alguns autores reduzem o círculo aos seres humanos. Para ter uma compreensão mais universal sobre o termo, é preciso buscar o significado no radical da palavra, - soci, e chegar à conclusão de que a sociabilidade é uma forma de associação entre humanos, não humanos e entre ambos.
Para compreender o significado de sociabilidade aqui é importante refletir sobre qual tipo de social aborda este texto. Para Latour (2012), a palavra geralmente é usada para tratar daquilo que já está reagregado e age como um todo. O social é algo em movimento, um alvo móvel que pode conectar-se e desconectar-se. Esse algo é um ator social que pode ser um objeto, um animal, um ser humano, basta ter a habilidade de associar-se a outra coisa. É preciso encarar os atores sociais como mediadores que engendram outros mediadores e daí surgem novas e imprevistas situações que vão traçando cartografias e redes. O que se tem é uma rede em que há movimento, deslocamento, transformação, translação e registro entre os atores. Uma associação entre entidades de modo algum reconhecíveis como sociais, no sentido corriqueiro, exceto durante o curto instante em que se confundem. Latour (2012) denomina de teoria do ator-rede, ou ANT, aquela em que o social é o nome de um tipo de associação momentânea, que se caracteriza pelo modo como se aglutina e assume novas formas. Esse social pressupõe
fluidez, conexões, movimentos, assim como a máquina, puro fluxo, é desse significado que se desdobra a definição de sociabilidade desta tese. A sociabilidade proposta ultrapassa a entre humanos e entende que coisas e animais também podem sociabilizar-se.
Nos estudos sociológicos, a palavra sempre esteve situada no campo dos sujeitos. Para o filósofo alemão Georg Simmel (2006), as relações sociais estabelecem-se na atuação com o outro, provocando efeitos sobre os sujeitos, formando uma integração entre eles movida por seus impulsos e finalidades, formando uma sociedade. A sociedade é construída por indivíduos que tratados isoladamente são apenas átomos do mundo humano, porém, quando colocados em interação, em conjunto, formam uma sociedade. As diversas formas de interação e de intercâmbio entre os seres humanos aparecem em casos isolados de maneira não significativa, mas que, inseridos nas formalizações ditas oficiais e abrangentes, sustentam, mais que tudo, a sociedade tal como se conhece. Faz-se necessário ressaltar que o ser humano, em toda a sua profundeza e expressão, é determinado pelo fato de viver em constante processo de interação com os outros seres humanos, criando laços em algumas ocasiões, que podem ser feitos e desfeitos, para que então sejam refeitos. Forma-se, então, uma fluidez e uma pulsação que ligam os indivíduos mesmo quando não atingem a forma de verdadeiras organizações. A visão trazida por Simmel (2006) restringe a sociedade aos sujeitos como também as relações sociais, as interações e trocas que constituem a matéria do social.
A natureza da sociabilidade, para Simmel (2006), tem a necessidade de criar seres humanos desapegados dos conteúdos objetivos e materiais da vida cotidiana. Por isso, os indivíduos modificam o significado interno e externo dos conteúdos para se tornarem sociavelmente iguais. Cada qual só pode obter para si os valores de sociabilidade se os outros com quem interage também os obtenham. É um jogo do “faz-de-conta”, em que cada um faz- de-conta que todos são iguais e, simultaneamente, faz-de-conta que cada um é especialmente honesto. O filósofo alemão entende a sociabilidade como uma forma lúdica de associação entre sujeitos. Na sociabilidade, o que é levado em consideração é o contentamento do instante vivido. O “estar-junto”, que faz parte de toda forma de interação, ganha autonomia como forma de vida na sociabilidade. A essência da sociabilidade consiste em eliminar a realidade das interações concretas e objetivas entre os indivíduos e edificar um reino no ar de acordo com as leis formais dessas relações que se movimentam em si mesmas, sem reconhecer nenhuma finalidade que esteja fora delas. (SIMMEL, 2006).
Não obstante, a intenção aqui é extrapolar o conceito de sociabilidade para abarcar os não humanos, é entender a sociabilidade como uma capacidade que os objetos, os animais e os humanos têm de se associar/conectar e se desassociar/desconectar, através de fluxo constante e
de diferentes combinações. Trata-se de uma sociabilidade transorgânica e maquínica, os elementos envolvidos na dinâmica da sociabilidade vão além do vivo, do orgânico e abriga também os objetos, as tecnomáquinas. O social numa festa de música eletrônica é uma espécie de mash-up de músicas, afetos, interações, conexões, fluxos misturados de diferentes intensidades.
O intuito é apresentar as festas de música eletrônica como um campo em que se pode visualizar tal sociabilidade, no qual pessoas, caixas de som, drogas, djs, telões de LED, banheiros, aparelhos de celular, etc. De modo que todos compõem o cenário em que se desenvolvem as conexões, a sociabilidade e os vários atores sociais se encontram, se associam e se combinam, para a maquinaria social ser formada. Pode-se falar de uma sociabilidade transorgânica/maquínica, em que as coisas e os indivíduos estão em fluxo; no qual o movimento é uma constante, os sujeitos dançam sozinhos, acompanhados (casos raros), ao lado das caixas de som onde milhões de decibéis fazem o corpo todo tremer. A imagem do tipo de sociabilidade acontecida nas festas de música eletrônica entre máquinas-corpo e tecnomáquinas é bem representada pelo indivíduo que se funde à caixa de som como se compusessem uma só entidade, que responde aos estímulos sonoro-tecnológicos com a vibração do corpo na mesma frequência da música. O corpo aqui é uma extensão da caixa, ou seria a caixa uma extensão do corpo? Pois as fronteiras entre corpo humano e a tecnologia desvanecem. Nesse sentido, tudo é máquina, fluxo e conexões através de agenciamentos maquínicos. É um círculo de afetação onde tudo é ação e dessas ações podem acontecer os bons encontros de Spinoza. (1677/2010). A próxima imagem exemplifica bem essa sociabilidade maquínica/transorgânica, como também as afetações social, sonora e maquínica (que será explicada no próximo capítulo). A garota que está sendo afetada pela música que sai das caixas também se sociabilizou durante a festa com drogas, outros corpos, com a iluminação da festa, com as gotas de chuva que molhavam seu corpo. Trata-se de uma sociabilidade dinâmica, ativa, afetada e afetante, que abraça os humanos e os não humanos.
Figura 9 Garota em conexão com a caixa de som no segundo dia do King festival
Essa sociabilidade também se fez presente no Dream Valley, por meio dela aconteciam as afetações sociais, mesmo as interações, as conexões, tendo acontecido em menor escala no Dream Valley do que no King festival, sociabilidades também aconteciam.
Era hora de me despedir do Dream Valley, não tinha mais energia para assistir a atração mais esperada da noite, a dupla belga Dimitri Vegas e Like Mike, pois o cansaço invadia o meu corpo. Indo em direção ao taxi ainda consegui escutar a entrada do set deles e os gritos da plateia. Ao entrar no taxi um pouco molhado, o taxista me perguntou:
– E aí como foi o festival?
A chuva se intensificou, Beautiful Lie128 tocava ao fundo, olhei pela janela do carro e
me entreguei mentalmente à canção que eu adorava e me preenchia por inteiro. O festival seguia dentro de mim, o som estava muito alto e a melodia se expandia por todos os meus poros; a chuva, o carro, a música e a pouca luz solar que surgia voltavam a se conectar comigo, as afetações sociais continuavam e as associações entre o meu corpo e àqueles elementos não cessavam de formar diferentes combinações. Que momento mágico!
– Agora sim o Dream Valley acabou.