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Dans le document Asterisk : The Future of Telephony ™ (Page 87-90)

A tecnologia foi uma excelente aliada a popularização do estilo. A internet ajudou através das comunidades do Orkut, sites especializados, e atualmente páginas do Facebook também divulgam as festas. O desenvolvimento tecnológico sempre andou de mãos dadas com a música eletrônica, afinal trata-se de uma música produzida por tecnomáquinas. As máquinas tecnológicas nos afetam cotidianamente, o homem ocidental não consegue mais imaginar sua realidade sem ser afetado pela técnica e pela tecnologia. As afetações maquínicas fazem parte da nossa vida, e as máquinas antecedem a própria técnica.

Embora seja comum tratar a máquina como um subconjunto da técnica, penso há muito tempo que é a problemática das técnicas que está na dependência das questões colocadas pelas máquinas e não o inverso. A máquina tornar-se-ia prévia à técnica ao invés de ser expressão desta. (GUATTARI, 2012, p. 43).

A realidade humana – social, cultural, biológica – é atravessada pela técnica desde os tempos pré-históricos, não se pode pensar a técnica como algo novo ou que nasceu junto com as novas tecnologias. A técnica é arcaica, fundadora, primeira, constituinte do ser e das coisas;

153 O mesmo que ficar, beijar ou transar apenas por uma noite, sem compromisso. 154 Dançar em par, a dois.

tanto a cultura quanto a sociedade são fundadas sob a mediação da técnica. “As técnicas não são novas e nem modernas no sentido mais banal da palavra, mas sim coisas que desde sempre fazem parte de nosso mundo. Mais que qualquer outra, nossa geração as digeriu, integrou ou mesmo humanizou. ” (LATOUR, 1994, p. 125).

De acordo com a etimologia a palavra técnica deriva do grego techné155 e significa arte, artifício, produção. Para os antigos gregos a técnica estava muito ligada à produção, a modos de produzir que visam um novo sentido ou uso. Martin Heidegger (2006) em A questão da técnica, irá questionar qual a essência da técnica e afirmar que a sua essência não é técnica, ela está além da produção e é também provocação. A técnica moderna não é qualquer tipo de técnica, por meio do seu desvelamento/desencobrimento/provocação a natureza é colocada à sua disposição como fundo de reserva, tendo sua energia extraída, manipulada e acumulada. A situação atinge o homem, que uma vez inscrito no ciclo desse desvelamento, é incitado a provocar, a interpelar forças. Isso significa que o homem é apenas uma fração desse desencobrimento e não seu causador. Heidegger (2006) adverte ao perigo que esse desencobrimento pode causar ao homem, pois atinge o Ser. (OLIVEIRA, 2014)156.

Para Heidegger (2006), a essência da técnica é o perigo e a sua ameaça não vem por meio da tecnologia ou dos equipamentos técnicos, mas atinge a essência do homem, pois destrói a possibilidade humana de voltar-se a um desencobrimento mais originário de uma verdade mais inaugural. A visão de Heidegger (2006) sobre a técnica não é nada otimista. É preciso situar a técnica no plano da cultura, do sujeito, a técnica como ação e vivência da práxis humana e como criadora de uma realidade objetiva. A história da técnica está atravessada por uma vontade de poder que se manifesta em múltiplas formas, não apenas na violência, mas também na exploração e na aventura, na produção que constrói um mundo novo, no cuidado protetor e na ocupação do espaço. Essa vontade de poder é primitiva e se manifesta na rebeldia e na transgressão. Os limites do corpo são superados, a necessidade de sobrevivência e de domínio da técnica para poder alimentar-se e viver, o domínio do fogo como exemplo. Diante da vontade de dominar a natureza para poder existir surge também à comunicação com ela. Há comunhão com o natural, que se manifesta de diferentes formas, como no marinheiro que se lança ao mar com o objetivo de explorar novas terras, este impulso adquire nos tempos atuais formas novas e grandiosas, como o domínio do ar e do espaço, do meio submarino, tudo isso possibilitado

155 HOUAISS, Antonio. VILLAR, Mauro de Salles. Dicionário houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro:

Objetiva, 2001.

156 Ver verbete Técnica in: FILHO, Ciro Marcondes (org.). Dicionário de Comunicação. São Paulo: Paulus,

pelos avanços técnicos. (PARÍS, 2002). Natureza e cultura formam uma aliança mediada pela técnica.

É preciso enxergar na técnica moderna seu potencial libertário, sua potência criadora. Não adianta mais encara-la como um Leviatã que domina os homens ou que aliena a humanidade. Os herdeiros do pensamento da Escola de Frankfurt e toda a crítica fomentada contra a indústria cultural compartilham um pouco dessa visão apocalíptica sobre a técnica moderna e o aparecimento dos meios de comunicação de massa, consequência do desenvolvimento técnico e tecnológico da época. Essa visão dos intelectuais alemães que pensam a técnica moderna como uma força negativa em si mesma precisa ser combatida.

A técnica é liberdade, mas em que sentido? A técnica é a possibilidade de manipular as causas de maneira que elas tenham as consequências que o homem queira. Por exemplo, as leis da dinâmica dos gases, com base nelas é possível construir uma caldeira que move as locomotivas, de maneira que a própria técnica é uma consequência do desenvolvimento científico. A técnica liberta no momento em que ela é o conhecimento da necessidade. (FLUSSER, 2014). Por meio desse conhecimento o ser humano adquire poder, sua potência é aumentada e ele domina o meio, a natureza é transformada/tecnificada/culturalizada e numa relação recursiva e dialógica o homem é naturalizado. A técnica abre possibilidades de criação e produção, é libertária.

No contexto da cultura contemporânea, falar em técnica remete à tecnologia. A tecnologia é consequência do desenvolvimento da técnica, é a “arte, ciência da técnica”, o estudo das técnicas, instrumentos, máquinas e componentes eletrônicos, meios e recursos com que as sociedades humanas fazem frente ao seu entorno material e o transformam. Nesse sentido, a tecnologia pode ser compreendida como uma junção formada por aptidões humanas, máquinas operatórias e estruturas materiais. De acordo com Glick157 (2001), na medida em que os antropólogos têm reconhecido o homo faber como arquétipo social e têm destacado a utilização de ferramentas como um dos conjuntos dos artefatos culturais, a tecnologia não deixou de estar presente no repertório antropológico. Os indivíduos selecionam inconscientemente a ferramenta mais apropriada para uma tarefa específica, modificando gradativamente o artefato até que a forma corresponda de maneira ótima a sua função.

Flusser (2007) classificou a história da humanidade como uma história da fabricação, o homo faber como a espécie antropoide que fabrica algo. Os períodos históricos são os das mãos,

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Ver verbete Tecnología in: BARFIELD, Thomas, ed. Diccionario de antropologia. Barcelona: Edicions Bellaterra, 2001.

das ferramentas, das máquinas e dos aparelhos eletrônicos, nos quais o processo de transformação da natureza pelo homem tem quatro movimentos de transformação – apropriação, conversão, aplicação e utilização – que são realizados primeiramente pelas mãos, depois por ferramentas, em seguida pelas máquinas e, por último, pelos aparatos eletrônicos. A fábrica do futuro irá reconfigurar a relação homem-ferramenta, a arquitetura humana irá dar lugar à arquitetura das máquinas. Hoje, temos as tecnomáquinas e a música eletrônica como uma expressão desse desenvolvimento tecnológico.

Atualmente é impensável para a sociedade urbana ocidental viver sem tecnologia, a dependência dos aparelhos técnicos só aumenta. O ser humano precisa estar conectado a algum objeto tecnológico, os celulares inteligentes, conhecidos como smartphones, viraram uma extensão do “eu”. Marshall McLuhan (2007) já profetizava isso quando disse que os meios de comunicação são extensões do corpo humano. De acordo com Sherry Turkle (2011) os computadores estão mudando e afetando a vida das pessoas. O ser humano é afetado pelas ferramentas que constrói, pelas suas criações, a tecnologia é sedutora e quando o que ela oferece se encontra com a vulnerabilidade humana, o grau de afetação é maior. Há uma reconstrução do eu e das relações humanas através da intimidade que é criada com as máquinas, o que acaba gerando uma humanização das máquinas e uma tecnologização do humano, em que os homens passam a dar qualidades humanas aos objetos e a tratar o outro como coisa.

Talvez o homo sapiens demens tenha se tornado de fato ciborgue, a tecnomáquina se tornou parte vital do seu corpo. Os indivíduos estão cada vez mais conectados à Internet, aos computadores, aos smartphones, aos tablets, estar on-line passou a ser uma premissa para a existência, porque permanecer off-line dá a sensação de se estar morto, de não existir e de ter invisibilidade social. As pessoas amam as tecnologias da conexão, pois são afetadas de forma ativa por essas tecnomáquinas, mas essa afetação maquínica expressa alegria, deslumbre, encantamento e dependência. A tecnologia da conexão tem feito pais e filhos se sentirem mais seguros, sem contar na revolução gerada nos setores de negócios, educação, medicina e nos relacionamentos amorosos. A conectividade oferece novas possibilidades de experimentar novas identidades e, particularmente na adolescência, o senso de espaço livre. (TURKLE, 2011).

A tese principal de Turkle (2011) é a de que o ser humano está só nesse mundo tecnológico, porém cada vez mais junto por causa da conectividade. O indivíduo carrega a tecnologia consigo, de modo que estar só na verdade é um pré-requisito para estar junto, pois é mais fácil se comunicar se o sujeito pode focar, sem interrupção, usando somente a tela como interface. As consequências são verdadeiros mal-estares contemporâneos, o isolamento, a

insegurança e a solidão, uma constante conexão trazendo novas ansiedades de desconexão. Hoje em dia trabalha-se em diferentes empregos, o tempo passado na escola é maior, as pessoas não namoram, apenas ficam, não há tempo para compromissos sérios. São os amores líquidos de Bauman (2004) ganhando vida na sociedade contemporânea.

É nesse espaço de conexões e desconexões que as pessoas não experimentam nenhum senso de ter se comunicado depois de horas de conexão, o computador se tornou um segundo eu, um verdadeiro espelho da mente onde são refletidos todos os afetos e problemas existenciais. Vivemos na era da religião das máquinas, que afetam e são afetadas. Pela lógica das tecnologias atuais, é o humano que é absorvido pela máquina, tornando-se mais um sistema de informações entre outros. (FELINTO, 2005). O ser humano só é “absorvido” pelas máquinas ou se torna um tipo de extensão maquínica por causa dos agenciamentos maquínicos, são eles que permitem que esse processo se realize. As tecnomáquinas afetam diretamente o homo sapiens demens, modificando sua subjetividade, sua consciência e inconsciência, afinal nosso inconsciente é também maquínico, no sentido de produção e operação.

Dentro dessa esfera maquínica de produção e expressão é importante destacar também a função das drogas nesse cenário. Na fase áurea do Psytrance em Natal, as drogas tiveram e ainda tem um papel indispensável nas festas de música eletrônica, incluído as raves de psy.

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