O ano de 1958 é emblemático para o Nordeste e especificamente para o Rio Grande do Norte. O aumento populacional o qual sofreu Natal durante as décadas de 1940 e 1950 contribui para as necessidades de mudanças na economia e na infraestrutura da Capital em virtude do aumento urbano. Do lado rural, 1958 é mais um ano de seca que o Estado enfrenta. Porém, neste ano a seca chama mais atenção do governo federal em virtude do Plano de Metas de Juscelino Kubitscheck que já fazia fortes investimentos no centro-sul do país, agora deveria voltar os olhos para a situação caótica vivenciada no Nordeste devido à seca.
Natal depois de ter quase dobrado o número de habitantes entre os 1940 e 1950 continua crescendo durante a década de 1950, porém com o ritmo mais vagarosos do que foi na década passada. Segundo Clementino, apesar da retirada das tropas americanas a capital continua com tropas nacionais tanto do exército, da marinha e da aeronáutica, o que possibilitou que os soldos advindos do erário federal circulassem na capital aquecendo a
economia, sobretudo em serviços e comercio, sendo estas atividades a principal fonte de renda da população civil.
A população do Rio Grande do Norte aos poucos vai fixando moradia nos centros urbanos. Segundo Clementino (1995), em 1940, 19,4% da população é composta por moradores urbanos e suburbanos chegando ao ano de 1950 com a porcentagem de 26,2%. As elites oligárquicas que detinha o controle eleitoral de quase a totalidade da população do Estado desde a queda dos Albuquerque Maranhão até meados dos anos 1950, se deparam com um aumento na população nos centros urbanos, onde tradicionalmente ocorre maior independência delas.
É neste cenário que Aluízio Alves se apresenta como liderança para essa massa urbana. Ao crescer dentro do seu partido, a UDN, a nível nacional, também almejava crescimento a nível estadual, porém dominada por oligarquias agrárias centrada na pessoa de Dinarte Mariz. Ao se colocar como uma iminente liderança dentro da UDN local, Aluízio Alves irá se deparar com Dinarte Mariz disposto a dificultar ao máximo a sua escalada no partido. Para Aluízio era necessário romper com Dinarte e, segundo Trindade (2004), Aluízio espera o momento certo para romper, o que acabou acontecendo no ano de 1958.
A cisão entre Aluízio e Dinarte já dava mostras logo na posse de Dinarte Mariz para governador do estado em 1956. Segundo Aluízio Alves (2001), durante a campanha em 1955, Dinarte o procura e pede que falasse com o então governador Sylvio Pedroza, que deixasse em dia o pagamento do funcionalismo que ele deixaria de lado a promessa de fazer devassa da administração passada assim que assumisse. Proposta esta aceita pelo governador. Em um almoço para homenageá-lo Dinarte pediu que Aluízio escrevesse o discurso, porém ao discursar Dinarte não leu o que fora escrito por Aluízio e através de outro discurso violento prometeu que iria fazer devassa da administração passada, deixando Aluízio em má situação diante de Sylvio Pedroza. Mas é em 1958 que o rompimento acontece. Primeiramente, Aluízio tenta juntamente com outros políticos fazer de José Augusto Bezerra o candidato a senador, o qual foi afastado da bancada da UDN desde 1954, segundo Aluízio “reparando-o pela fraude promovida em São Paulo do Potengi” (Alves, 2001, p.94). Dinarte não acata a sugestão e lança o nome de Dix-huit Rosado do Partido Republicano (PR), o que segundo Aluízio Alves (2001), devido ao ocorrido ele não iria se candidatar e sairia da vida pública o que não aconteceu, pois fora convencido por todos os deputados estaduais e boa parte dos deputados federais além de José Augusto e do presidente nacional do partido, Juraci
Magalhães, que mandara um telegrama para Aristófanes Fernandes o qual foi publicado na
Tribuna do Norte com a justificativa de que a presença de Aluízio Alves era indispensável no
congresso “ao prestígio e crescimento da UDN” (Tribuna do Norte, 31 de jul. de 1958, p. -). A partir desta fissura criada em torno da escolha do nome para o senado, Aluízio Alves começa a articular a sua campanha para reeleição a deputado federal em 1958. Esta campanha seria o termômetro para a campanha estadual de 1960. Seguindo o mesmo diapasão da UDN nacional, quando, em 1957, Juraci Magalhães assume a presidência do partido e leva o partido para mais próximo do povo com as “Caravanas da Liberdade”, Aluízio articula sua campanha em torno do eleitorado urbano mais independente das oligarquias rurais que dominavam a política estadual até então. Segundo Aluízio Alves (2001), juntamente com seu irmão Agnelo Alves e do jornalista Erivan França organiza a campanha “Um amigo em cada rua” que tinha o objetivo de fazer 160 comícios em 16 dias e das “Vigílias da Esperança”.
A campanha “Um amigo em cada rua” consistia em fazer comícios nas casas de eleitores na cidade de Natal que enviavam seus endereços por telefone ou via carta para a
Tribuna do Norte. O programado era realizar do dia 16 de setembro a 1º de outubro dez
comícios por dia que seria transmitido para todo Estado pela rádio Nordeste. No dia marcado, 16 de setembro, a Tribuna do Norte noticiava: “Antes de ser iniciado: Mais de 80 casas de Natal já aderiram á [sic] campanha popular ‘Um amigo em cada rua’” (Tribuna do Norte, 16 de set. de 1958, p. -).
Além da Tribuna do Norte, Aluízio se utilizou fartamente do rádio. Segundo Lima (1984), até a década de 1940 não existia no Rio Grande do Norte emissoras de rádio. Ao receber a concessão, do Ministério de Obras e Aviação no dia 16 de maio de 1941, a Rádio Educadora de Natal (REN) foi imediatamente ao ar. Em 1944 as rádios associadas, de propriedade de Chateaurbriand, adquiriram a REN a qual passou a ser denominada de Rádio Poty. Durante os anos 1950 surgiram em Natal a Rádio Nordeste de propriedade de Dinarte Mariz, e a Rádio Cabugi fundada pelo Senador Georgino Avelino, ambas foram fundadas no ano de 1954.
O rádio foi utilizado como mediador entre Aluízio e o povo. Nos horários próximos ao almoço Aluízio “Conversava com o povo” tanto na rádio Poty quanto na rádio Nordeste: “CONVERSA COM O POVO – Programa do dep. Aluizio Alves, diariamente ás [sic] 11,30 na Radio Poty, e 12,45 e 19,05 [sic] na Nordeste” (Tribuna do Norte, 30 de ago. de 1958, p. ).
A campanha “Um amigo em cada rua”, as vigílias noturnas e as programações diárias no rádio conferiram a Aluízio Alves a sua maior votação sendo este o deputado federal mais bem votado no Estado. Se a campanha de 1958 seria o termômetro para que Aluízio Alves medisse a possibilidade de uma candidatura numa dissidência da UDN para governador em 1960, então esta campanha de 1958 sinalizou positivamente para um possível sucesso de uma quebra da hegemonia política das oligarquias agrarias do Rio Grande do Norte. Segundo Aluízio Alves (2001) a oposição que era representada pelo PSD e pelo PTB começava a dar sinal de aproximação a uma possível candidatura sua para o governo juntamente com alguns correligionários insatisfeito com o Governo de Dinarte Mariz.
Em 1960 a UDN local estava dividida em torno do nome para a candidatura do pleito daquele ano. Dos 63 diretórios municipais o líder do partido e então governador, Dinarte Mariz, teve que intervir em 33 diretórios com o voto de minerva. Com as relações já desgastadas desde 1956, Dinarte Mariz na Convenção da UDN local lança a candidatura de Djalma Marinho, restando a Aluízio se candidatar por uma dissidência através de alianças com partidos de oposição. No estado o maior partido de oposição ao governo era o PSD de Teodorico Bezerra. Iniciam-se as conversas entre Aluízio e os correligionários do PSD e a maioria do partido votam no nome de Aluízio Alves para candidato pelo PSD. Teodorico Bezerra procurou saber do presidente Juscelino Kubitscheck, principal eleitor do PSD nacional, qual seria sua opinião no lançamento da candidatura de Aluízio pelo PSD. Aluízio Alves apesar de ser oposição do Governo na câmara tinha boas relações com o presidente, e Kubitscheck orienta Teodorico em lançar a candidatura de Aluízio para governador pelo PSD. Como o PSD já havia lançado a candidatura de Teodorico Bezerra fora necessário realizar uma nova convenção do partido para substituir este por Aluízio Alves numa coligação denominada “Cruzada da Esperança” (ALVES, 2001).
Assim Aluízio Alves rompe de vez com Dinarte num cenário de mudanças na estrutura do estado uma vez que a população urbana começa a crescer e sua economia começa a possibilitar mudanças com a criação da SUDENE em 1959 que tinha o “objetivo de promover e coordenar o desenvolvimento da região” (OLIVEIRA, 20-). Aluízio desenvolveu boas relações no cenário nacional, transitando pelas duas alas da UDN, e com o próprio presidente Kubitscheck. Afinado com o programa desenvolvimentista de Kubitscheck, faz uma campanha com promessas de romper com o atraso em que o estado vivia através de três pilares: energia, industrialização e transporte (Tribuna do Norte, 13 de ago. de 1960, p.1). A proposta não beneficia apenas a população e a burguesia urbana, antes beneficiava também os
proprietários de terras rurais, uma vez que estes eram os principais interessados em uma economia local forte para escoar e beneficiar, no caso do algodão, suas matérias-primas. Nesse sentido Aluízio não rompia com as elites agrárias, sua cisão com Dinarte como observou a professora Góes “não tinha divergências ideológicas de fundo. Houvera a pretensão do primeiro de ser candidato ao governo estadual na sucessão de Dinarte Mariz, rejeitado por este, que preferiu apoiar o deputado federal Djalma Marinho” (GOES, apud CAPISTRANO, 2010).
3 A PRÁTICA DA IDEOLOGIA DA ESPERANÇA NA CAMPANHA ELEITORAL