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Dans le document 1620-CN-06X AD-APT (Page 128-133)

A construção da unidade arqueológica estilo Konduri foi um processo com o desenvolvimento paralelo das observações de Nimuendajú e as mais sistemáticas de Peter Hilbert (1955a). A aplicação da noção de “peça de troca” e a comparação por semelhança e diferenças de traços (Santarém-Konduri) evidenciam claramente o tema da constituição dos contatos culturais em arqueologia da primeira metade do século XX (ver LATHRAP, 1956; SHEPARD, 1956). A análise da cerâmica apresenta grande atualidade em sua combinação de diferentes atributos tecnológicos e a comparação entre “escolhas” distintas que aproximam seus conjuntos artefatuais da noção mais recente de estilo tecnológico (HEGMON, 1998). No entanto, o material obtido no levantamento foi tratado de uma maneira homogênea, desconsiderando variações/variabilidade. A amostra reunida por Hilbert era pequena e seu objetivo era apenas caracterizar uma

cerâmica parecida com a de Santarém. Apesar de a classificação ter sido construída como “provisória”, acabou por perdurar por mais de sessenta anos.

O termo “estilo” empregado para caracterizar os grupos Konduri e globular não foi definido e por vezes, gera certos conflitos com o sistema de classificação baseado nos conceitos de fase e tradição predominante na arqueologia brasileira. Mário Simões ora fala em “estilo”, ora em “fase” ou também “complexo” Konduri. Machado (1991, p. 21), por exemplo, cita dez fases incluídas na tradição Inciso e Ponteado e distingue o “estilo” Konduri e a “cultura” Santarém. No Baixo Amazonas o uso de “estilo” ao invés de “fase” é corrente até o presente (e.g. GUAPINDAIA, 2008; GUAPINDAIA e LOPES, 2011; PANACHUK, 2011). O próprio Peter Hilbert falou em “fase” Konduri (HILBERT, 1959, 1968) e depois retomou a denominação “complexo” e “estilo” (HILBERT, HILBERT, 1980). Esse é um conflito mais aparente do que real, a julgar que ambos os conceitos foram desenvolvidos pelo mesmo arqueólogo, com uma pequena faixa de tempo. Apesar de quase não ser utilizado na arqueologia amazônica atualmente, o conceito de estilo foi fundamental para as primeiras classificações. Na primeira sistematização das ocupações ceramistas das terras baixas da América do Sul, George Howard (1947, p. 14), valeu-se do conceito de estilo para agrupar “aggregates of pottery traces which distinguish a collection as unit”. Cruxent e Rouse (1963, p. 20), por exemplo, definem estilo como “combinación recorrente de rasgos cerámicos, ya sea de material, de forma o decoración” (ver também CRUXENT, ROUSE, 1958/59). O estilo Konduri, tal qual caracterizado por Hilbert, considera antiplástico, morfologia das vasilhas e decoração, tendo uma dispersão espacial específica, seguindo a proposta de Willey (1949). Nimuendajú pensava em “estilo” apenas em relação aos aspectos visuais dos artefatos.

O uso do conceito de “estilo” não se relaciona a uma diferença teórica ou metodológica, sendo apenas resultado de um momento específico da história da disciplina no Brasil. A monografia A monografia A cerâmica arqueológica da região de

Oriximiná é anterior aos trabalhos de Meggers e Evans (1957) e Evans e Meggers

(1960), que utilizaram o conceito de “fase” para designar culturas arqueológicas. Uma cultura arqueológica, como definida por Childe (1929: v–vi), é a reunião de “certain types of remains – pots, implements, ornaments, burial rites, house forms – constantly recurring together”. Essas culturas foram pensadas pelo autor como “the material

expression of what today we would call a people” (op. cit.). Seguindo Philips e Willey (1953), Meggers e Evans (1957) expressavam sua dúvida sobre essa perspectiva, segundo a qual uma unidade arqueológica representaria uma “tribo”etnográfica.

Há uma ambiguidade na definição do conceito de “estilo” implicitamente usado por Peter Hilbert (1955a), que é um dos problemas relacionados à maioria das unidades análogas construídas ao redor do globo no século passado. Ao mesmo tempo em que o conceito parece se referir a apenas um conjunto material, existe um pressuposto de que representa toda uma cultura arqueológica. O estilo Konduri, apesar de ter sido caracterizado por 21 atributos cerâmicos, apresenta também um traço referente à dispersão e caracterização dos sítios arqueológicos. Isso indica que mais do que uma unidade de classificação material ou tecnológica, a construção do estilo sugere uma cultura arqueológica ou fase. Por isso, Hilbert pôde intercambiar o uso de “estilo” e “fase” em trabalhos posteriores a sua monografia sobre os rios Trombetas e Nhamundá. A noção de estilo definida por Willey (1949) não equacionava cerâmica e um “todo cultural”, mas outras definições desenvolvidas no mesmo período mantém, inclusive, uma associação entre estilo cerâmico e uma população específica. Howard (1947, p. 14) defendia que “[i]deally each style (...) should represent a homogeneous population”. Cruxent e Rouse (1963, p. 20), da mesma maneira, afirmaram que “[l]a cultura compartida por um grupo de comunidades es conocida como „complejo‟, „fase‟, „estilo‟, o „industria‟.” Em uma entrevista, décadas depois, o autor manteve a mesma posição (SIEGEL, 1996). Essa sinonímia, no entanto, não é, ao menos conceitualmente, compartilhada por Meggers e Evans (1970, p. 87) que afirmam que

(...) deve ser notado que o complexo cerâmico é uma entre várias categorias de artefatos. Junto com um complexo lítico, complexos de outros objetos materiais, arquitetura , elementos socio-políticos e religiosos, e outras espécies de traços, formam um complexo cultural, cultura pré-histórica ou „fase‟ arqueológica.

Em trabalhos mais tardios, Meggers revisou sua definição mantendo a ideia de que as fases representariam “unidades sociais endógamas”. Permanece uma ambiguidade no uso do conceito de “fase” ora como referente a um conjunto cerâmico e ora, como definido acima, como um “complexo cultural”. Na definição de tradição, por exemplo, Meggers (1990, p. 191), o conceito de fase parece se referir apenas à

cerâmica: “Fases que compartilham um mesmo conjunto de técnicas diagnósticas de

decoração pertencem a mesma tradição”. (ênfase adicionada). Philips e Willey (1953)

defendiam que as “tradições” deveriam abranger todo o tipo de vestígio arqueológico em conjunto, um “todo cultural”. Em Method and Theory in American Archaeology, no entanto, revisaram este conceito, restringindo-o a uma única tecnologia ou “sistemas de formas relacionadas” com persistência temporal (WILLEY, PHILIPS, 1958, p. 37).

A utilização dos conceitos de fase e tradição na arqueologia amazônica tende a enfatizar apenas os complexos cerâmicos, como em Neves e Moraes (2012), mas ainda persiste sua equalização a um complexo mais amplo. Isso se mostrou possível em alguns contextos da Amazônia Central que, a partir de pesquisas intensas, mostrou uma correlação entre complexo cerâmico e outros elementos do registro arqueológico (NEVES, 2010, 2011). Neves et al. (2014, p. 138), ao definirem a Tradição Pocó- Açutuba, delimitam “conjuntos cerâmicos padronizados” combinando ao o início da formação de terras pretas na calha do Amazonas e baixo curso de seus afluentes. Dessa maneira, essa tradição não é somente cerâmica, mas combina um elemento de modificação de paisagem. A tradição Borda Incisa rediscutida por Lima e Neves (2011) inclui também elementos mais amplos, sendo tratada como uma “tradição tecnológica”, que inclui e compara cadeias operatórias. As tradições arqueológicas não são pensadas apenas como representantes da dispersão de uma tecnologia, mas também como parte de toda uma “matriz cultural” associadas a famílias linguísticas (Tupi, Arawak, Karib) e um ethos característico desenvolvido ao longo de séculos ou milênios (LATHRAP, 1970; NEVES, 2010; ERIKSEN, 2011). Em suma, parece persistir a ambiguidade dos conceitos de fase e tradição, na medida em que, podem se referir ao complexo cerâmico ou a um “todo cultural”..

Em relação a todos esses termos, é possível dizer que o estilo Konduri é um complexo cerâmico definido tanto por Hilbert (1955a) quanto por trabalhos mais recentes, especialmente do ponto de vista de sua decoração. Essa é uma unidade que mantém um caráter distintivo e a coerência não encontrada em outras unidades construídas durante as pesquisas do PRONAPA/PRONAPABA. A cerâmica da fase Borba, por exemplo, foi considerada indistinta da cerâmica da fase Guarita por Moraes (2013, 2016) ou no caso da cerâmica da cultura Baden da Europa Central (FURHOLT, 2007), em que a denominação agrupava diferentes estilos. Como uma cultura

arqueológica ou fase no sentido empregado por Meggers, a unidade Konduri é pouco desenvolvida. Além da sua associação com terras pretas e ocorrência em diferentes “compartimentos ambientais”, não há muitas informações que possam ser comparadas ou que permitam pensar nas especificidades da ocupação. Isso ainda precisa ser discutido. No estágio atual do conheciemento, não é possível dizer até que ponto existe uma sobreposição entre diferentes características dos complexos tecnológicos e dos sítios arqueológicos ou se há divergência entre uma categoria e outras.

1.7 Conclusão

O refinamento teórico e a ampliação do escopo da arqueologia não suplantaram a necessidade da construção de unidades arqueológicas, que sirvam para delimitar continuidades e descontinuidades materiais, em grande parte do mundo (ROBERTS, LIDEN, 2011). Todavia, já não é mais possível fazer o equacionamento de potes, culturas e povos. A padronização da cultura material e sua dispersão geográfica ainda conformam uma questão a ser resolvida a partir de contextos particulares (NEVES, 2011). A desilusão com o conceito de cultura arqueológica e sua falta de correlação direta com uma “realidade social” (HODDER, 1982; SHENNAN, 1989; JONES, 1997) choca-se com a própria discussão sobre conceitos sociológicos e antropológicos, como “cultura” e “sociedade” (WOLF, 1982; INGOLD, 1994; LATOUR, 2005). Vários autores tem criticado a forma que essas noções tomaram nos discurso das ciências sociais por terem sido reificadas. Esses termos, por mais que pareçam indicar “realidades em si”, são também formas de classificação. As culturas arqueológicas são “muletas” da mesma maneira que as culturas e áreas etnográficas (WAGNER, 1981). O problema, no caso das fases e tradições, foi sua proliferação sem efetividade, quase a procura de “tribos” (MACEACHERN, 1998) ou ainda a satisfação de interesses particulares (NOELLI, 1999). As unidades classificatórias da arqueologia são ferramentas analíticas construídas para delimitar um determinado conjunto artefatual. Sua escala varia de acordo com os próprios problemas de pesquisa e sua capacidade heurística.

No caso desta dissertação, optamos por manter o termo apresentado “estilo” apresentado por Nimuendajú e Hilbert apesar da predominância de “fase”. A justificativa para isso é de que ambos os termos expressam um conjunto material delimitado no tempo e no espaço, mas apenas “estilo” deixa explícito interesse por um

modo de fazer característico (HEGMON, 1992; SILVA; DIAS, 2001). Além disso, a noção de estilo deixa claro que não se trata de uma “cultura arqueológica” tal como defendido por Meggers e Evans (1957, 1970) composto de vários complexos materiais, mas de um único, a cerâmica. Em parte da literatura, especialmente etnoarqueológica, o tratamos como estilo é denominado “tradição técnica”, o que evitamos para não gerar uma confusão com os conceitos desenvolvidos por Philips e Willey (1953). A palavra “fase” ainda gera um problema adicional ao fazer uma referência quase direta a “tradição”, uma unidade de classificação cuja a aplicabilidade impõe desafios em alguns contextos amazônicos. A ideia de uma cultura arqueológica Konduri, com padrão de assentamento e complexos materiais padronizados ainda não foi plenamente debatida. Ainda é necessário ampliar as pesquisas e comparações para verificar em que medida a padronização da cerâmica corresponde ou não a outras evidências arqueológicas, à maneira que foi feita na Amazônia Central (NEVES, 2011).

. O estilo Konduri é a unidade mais consolidada das que foram propostas por Hilbert (1955a). Não há motivos para descartá-lo ou dividi-lo. Apesar disso, suas características diagnósticas não foram rediscutidas, sendo apenas reproduzidas. A maioria dos atributos, a julgar pelas descrições presentes na bibliografia, mantém-se, mas outros poderiam ser excluídos, como no caso dos cachimbos angulares que datam de outro período, ou ampliados, como o tipo de pintura. Em todo caso, há uma grande variabilidade da cerâmica que não pode ser resumida a apenas um conjunto de traços genéricos. A decoração continuidade sendo o principal elemento para a identificação desse conjunto. Toda a variabilidade tecnológica imbuída na produção desse estilo ainda precisa ser explicada em sua multidimensionalidade (REEDY;REEDY, 1994; SCHIFFER; SKIBO, 1997).

O termo Konduri, (sem o acento agudo como permaneceu na literatura arqueológica) merece algum cuidado para que não se pressuponha que a cerâmica arqueológica seja a manifestação material de uma “nação” indígena específica – “os Konduri”. Muitos etnônimos são conhecidos para a região do rio Trombetas no século XVII e alguns outros para o rio Nhamundá. Heriarte deixa clara a diversidade de etnônimos (1874, p.38) “(...) está o rio das Trombetas, mui povoado de Indios de diferentes naçôes; como sam Conduris, Babuis, Aroases, Tabaos, Curiatos e outros muitos.” A denominação Conduri – e suas variantes – foi a que os cronistas mais

mencionaram (ALVES, 2016), o que reforça a importância dessa coletividade no início da colonização naquela região, mas não permite uma associação direta com um grupo étnico. O próprio Nimuendajú (2004) falava com cautela sobre os povos produtores do estilo cerâmico. A relação entre a ocupação histórica Conduri e os sítios arqueológicos deverá ser tratada a partir de fontes escritas primárias – ainda pouco pesquisadas – e escavações em contextos das primeiras missões religiosas do século XVII na região.

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