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8.2 ITERATIVE RECONSTRUCTION

Num ponto onde a beleza e o seu conceito são evocados, tendo presente o enquadramento teórico e a sua ligação à juventude, toda a análise efectuada seleccionou as referências a alterações das formas do corpo, das características da pele, das implicações na aparência física e da sua responsabilização pela diminuição da capacidade de atrair o sexo oposto. Perante um discurso de pendor negativo, onde o balanço da harmonia presente no organismo feminino, antes da menopausa, e o desequilíbrio que se instala, quando surge instabilidade hormonal, valorizam as perdas da beleza física e dos atractivos femininos, a mulher é instigada a colocar-se numa posição defensiva face à menopausa por sentir que só tem a perder com a sua chegada.

É o que podemos verificar na notícia com o título O papel do marido na menopausa

feminina:

Um dos maiores terrores da mulher durante a menopausa, em especial nos primórdios, é que o facto de ter entrado neste ciclo ter perdido a menstruação a torna menos «atraente sexualmente», além disso, as carências hormonais afectam a beleza e a frescura da pele, cabelo, a elasticidade dos músculos, tende a aumentar a propensão para a obesidade etc. Todavia, a verdade é bem outra: agora que o «papão» da gravidez indesejada se encontra infinitamente abolido, o marido sente maior atracção pelo corpo da mulher, experimentam-se novos processos, descobrem-se horizontes que até então haviam sido proibidos. Em cada 8 mulheres

130 com menopausa, 3 afirmam que a actividade sexual aumentou e o casal descobriu

um universo fantástico neste campo, mais ainda, quase todas concordam que se o seu matrimónio se havia solidificado e conquanto a paixão já não seja a chama fulgurante, a amizade firme e consciente transforma a união em algo novo e diferente, principalmente se os filhos já saíram de casa: estes são os fantásticos e recentíssimos resultados de um inquérito feito pelo Centro de Estatística Americana em torno de «A Mulher e a capacidade de Ajustamento à vida». (Maria, nº 75 de 16-22 Abr/80, Fich 11D)

Podemos constatar que a introdução ao tema, com a frase ter perdido a menstruação a

torna menos “atraente sexualmente”, remete-nos para o campo discursivo da valorização

social da mulher pelo biológico e em função da procriação e da maternidade. A perda da menstruação induz, imediatamente, para o pensamento de que, quando as suas capacidades de concepção cessam, deixa de ser sexualmente interessante para o sexo oposto. Todavia, o facto de a expressão atraente sexualmente se encontrar entre aspas é intrigante, pois o resto da notícia não nos permite compreender a razão desta escrita. Poderá, no entanto, significar que não deverá ser tomado à letra.

Neste excerto, existe a associação clara entre a perda da beleza e a chegada da menopausa, quando, de forma explícita, se refere que as carências hormonais afectam a

beleza e a frescura da pele, cabelo, a elasticidade dos músculos, tende a aumentar a propensão para a obesidade. A descrição das alterações promovidas pela depleção

hormonal, um factor endógeno, traduz-se exageradamente por uma afectação da beleza de acordo com os parâmetros descritos.

Podemos verificar uma estrutura discursiva hegemónica, convencional e normativa pela associação entre a perda da menstruação e diminuição da atracção sexual, e, em simultâneo, um discurso desafiador e emancipatório, quando enunciado o “papão” da

gravidez indesejada se encontra infinitivamente abolido, o marido sente maior atracção pelo corpo da mulher, experimentam-se novos processos, descobrem-se horizontes que até então haviam sido proibidos, reforçado pela divulgação de mais um estudo americano (ver

ponto 1.2) que comprova o aumento da actividade sexual e que o casal descobriu um

universo fantástico.

Esta contraposição da diminuição da atracção sexual com a maior atracção pelo corpo feminino não procriativo resulta numa contradição ambígua do discurso praticado em

131 relação à beleza física feminina e os seus atractivos perante a ―entidade‖ masculina, mas certamente induz a mulher na ―busca de algo mais‖ para manter uma beleza ideal.

Prosseguindo na análise do mesmo artigo, percebemos que mais uma contradição discursiva surge quando, inicialmente, se dá ênfase à preparação psicológica da mulher para que esta atravesse um período de relativa tranquilidade. Aliás, há sempre, ao longo do texto, uma relativização da menopausa como um período tranquilo, revelando, posteriormente, que o marido tem um papel importante, mais do que o médico, para ajudar a mulher a superar um período de crise e carência:

Mas é ao marido mais do que ao médico, que cabe o papel importante (…) Mas voltemos ao ponto de partida: o papel do marido no sindroma da menopausa. A mulher merece e deve receber todo o apoio físico e espiritual do cônjuge, é recomendável que se consulte um médico, um bom médico, ou então um ginecologista de confiança e se exponha a situação. O uso das hormonas poderá ser recomendado, mas, claro, sob controle e vigilância médica constante. Cabe ao companheiro apoiá-la, ajudá-la na decisão. (…)

Rodear a esposa de atenções, demonstrar-lhe que o seu corpo, o seu rosto, o seu ser continua a atrair, a serem desejados, mais simpatia, compreensão, ternura e amizade são os factores básicos.

Incentivá-la a manter a beleza do corpo e do rosto, a tentar ocupar os seus tempos livres da melhor forma, oferecer-lhe algo que lhe fale dos seus sentimentos para com ela, fazer planos para férias, ou para pequenas-férias-descanso, uma 12ª lua- de-mel, porque não? (Maria, nº 75 de 16-22 Abr/80, Fich 11D)

Mais uma vez, compete à ―entidade‖ masculina atestar e incentivar a manutenção da beleza feminina, pois o homem tem o dever de demonstrar-lhe [à mulher] que o seu corpo, o

seu rosto, o seu ser continua a atrair, a serem desejados, para além de a incentivar a manter a beleza do corpo e do rosto, a tentar ocupar os seus tempos livres da melhor forma. Nesta

perspectiva do autor, assume-se que o homem mantém o papel de responsável e controlador dos actos da mulher e da sua sexualidade, aliás, um discurso que sempre existiu na sociedade portuguesa durante séculos e com maior preponderância no período salazarista (ver Pacheco, 2000; e Vicente, 1985). Assim, esta prática é da responsabilidade exclusiva do marido, como pessoa habilitada para o fazer, não se estendendo a outros homens, nomeadamente o médico, apesar de recomendável a consulta de um bom médico.

Já na notícia intitulada Mantenha-se atraente na MENOPAUSA, os conselhos fornecidos pela autora pretendem levar a mulher madura a preocupar-se com o seu aspecto

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A dieta

Normalmente, as mulheres queixam-se que, com a idade aumentam gradualmente de peso. Além de outros, o principal motivo para que isso aconteça é que, à medida que a idade avança, a taxa metabólica do indivíduo vai decrescendo, e isto é particularmente notório no período pós-menopausa. (…)

Assim, se por volta dos 50 anos são necessárias menos calorias diárias para manter o peso, se continuar a comer como até aqui, certamente aumentará de peso.

Outro factor é o sedentarismo a que muitas mulheres se acomodam. Então que fazer? Terá de comer menos e fazer exercício.

(…) Pele

Com o avanço da idade, a pele tem tendência para secar. Por isso, antes de executar a sua maquilhagem, deve usar sempre um bom creme hidratante de protecção e à noite um creme nutritivo anti-rugas.

(…) A boca

Também a boca começa a perder definição com o decorrer da idade e quantas vezes aquelas ―ruguinhas‖ ao longo da linha dos lábios fazem esborratar o baton… (…) O corpo

Tal como aconteceu com a pele do rosto, a do corpo também vai secando cada vez mais com o avanço da idade. (…) Mantenha o seu cabelo brilhante e bem penteado, conservando as suas tendências naturais (…) em muito a ajudarão a gostar mais de si própria. Texto: Helena Gameiro (Maria, Nº 483 de 10-16

Fev/88, Fich 27B)

O destaque dado pelo título do artigo corresponde a um dos parâmetros associados à ―beleza real vs. beleza ideal‖ através da inclusão da expressão mantenha-se atraente. São os pontos nodais normalmente e queixam-se os indutores para a constatação de que as mulheres engordam e, igualmente, expressam o seu desgosto por aumentarem

gradualmente de peso e, consequentemente, sentirem que perderam a beleza e o potencial

de atracção, por alteração física do corpo (deformação). São os termos menos calorias e

dieta que se apresentam como solução para controlar o peso e manter um corpo desejável e

atraente. É de realçar que este apelo à dieta não é para a mulher se manter saudável, antes para se manter sexualmente atraente.

Além da perda da forma física, a autora alerta para o facto de a tendência para secar,

vai secando e pele se associarem a uma perda de beleza física. Já a expressão perde definição, apesar de neste contexto estar relacionado com os lábios, está também associado

ao corpo como ―arma de sedução‖, mas que se encontra em processo de ―desactivação‖, porque até a simples aplicação de batom pode estar comprometida, já que as ruguinhas…

fazem-nos borratar.

Em suma, toda construção social em torno da beleza física da mulher está aqui patente e todas as soluções propostas, apesar de não invasivas, pressupõem a possibilidade de

133 combater a perda da beleza real através da ―construção‖ da beleza ideal ou idealizada, por recurso a dietas, cosméticos, etc.

Apesar de não dito, mais uma vez, é a perda da juventude que aqui está implícita, já que é feita a atribuição do receio de perder forma física e beleza através da prerrogativa ―queixas‖ femininas que encerram uma ainda maior preocupação, a da perda da feminilidade e capacidade de atracção perante o olhar masculino. Este discurso convencional de perda de beleza, associada ao avanço da idade, implica a recuperação dessa perda pelo recurso a uma panóplia de artefactos.

Para finalizar, é também de referir uma outra faceta ainda mais marcante, intimidadora e possessiva, em que impera o domínio explícito do masculino sobre o feminino e que se encontra aqui expressa:

Desde a mulher simplesmente decorativa ou instrumento de prazer… se pensar que continua a ser mulher e se, apoiada neste sentimento, tiver consigo cuidados estéticos e higiénicos favoráveis à sua feminilidade, a menopausa apenas lhe causa algumas perturbações (Maria, Nº 439 de 08-14 Abr/8, Fich 15B)

É neste simplesmente decorativa e instrumento de prazer que estão implícitos os conceitos marcantes da beleza e da feminilidade, caso contrário não seria decorativo se não fosse belo, e não daria prazer se não fosse atractivo. E, mais uma vez, são os conselhos de práticas de embelezamento – cuidados estéticos e higiénicos favoráveis – que sustentam a necessidade de ter cuidados extra, quando a juventude foge.

No ponto seguinte, apresentamos com mais detalhe a análise de discurso que sustenta a construção social da menopausa como um problema de saúde.