PART 6 - RESULTING CONTRACT CLAUSES
6.12 D ISPUTE R ESOLUTION
Esta categoria trata das práticas cívicas, culturais e de lazer dos montealegrenses e cidade-novenses, mas a ênfase será dada trata do relacionamento entre patrões e empregados. Ao todo, são 28 as notícias que abordam o relacionamento e a vivência em Monte Alegre, tendo 04 delas este tema como assunto principal.
Notícia publicada em 1953 trata do comportamento esperado dos atletas que, por ventura, desejassem se tornar flamenguistas. Entre os comportamentos esperados estão a disciplina e o rigoroso seguimento às diretrizes, das quais é possível destacar: obediência às instruções do técnico, “mesmo que na sua opinião estejam erradas”250, empenhar-se a fundo nos treinos e jogos e zelar pelo material que lhe foi confiado. Ao término da notícia, acrescentam: “que seu exemplo seja emitado por todas agremiações no afan de arregimentar espíritos bem formados para o engrandecimento do desporto montealegrense e de nossa terra”251. A partir da leitura deste fragmento é possível dizer que esta discursividade visava a modulação de comportamentos, podendo, muitas vezes, contribuir sentidos para além da esfera do esporte.
Sobre o relacionamento e a vivência em Monte Alegre, Lauro Nery também contribui à modulação de comportamentos quando da primeira publicação de sua coluna, intitulada Harmonia. À escolha do nome justificou:
Bem traduz o nome desta cidade de trabalhadores, com a finalidade das aspirações sociais, na mentalidade da hora presente: harmonia entre empregadores e empregados e vice-versa, para uma produção mais eficiente, na contribuição da riqueza coletiva. Harmonia é cooperação e compreensão de todos na consecução de um fim252.
Em uma “Carta a um bom amigo”, Karl Zappert se dirige aos funcionários da Klabin, aconselhando-os a como agir em situações delicadas invés de pedir demissão. Entre tais situações é possível citar a demora da concessão do aumento do salário; linha de ônibus lotada, forçando o funcionário se deslocar à pé até à fábrica; desentendimentos com colegas de trabalho; ausência de determinado gênero alimentício nos mercadinhos locais; reclamações
249 É importante lembrar, mais uma vez, que os sujeitos tem autonomia, por este motivo é possível afirmar que haviam conflitos dentro dos limites da Fazenda Monte Alegre. Entretanto, como trata-se de uma análise discursiva do jornal O Tibagi, o que se expõe a seguir trata-se exclusivamente da perspectiva do periódico acerca do relacionamento e vivência em Monte Alegre.
250 Mens sana in corpore sano. O Tibagi. Monte Alegre – Tibagi – Paraná, p.14, 23 de novembro de 1953. 251 Mens sana in corpore sano. O Tibagi. Monte Alegre – Tibagi – Paraná, p.14, 23 de novembro de 1953. 252 NERY, Lauro. Harmonia. O Tibagi. Monte Alegre – Tibagi – Paraná, p.01, 23 de novembro de 1948.
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em relação à habitação; roubo de ferramentas dentro das instalações fabris; brigas de vizinhos; entre outros.
Antes de iniciar suas considerações, o diretor-técnico da Klabin ressalta: “leia e avalie bem, os casos de seus colegas e, aqui somente alguns são transcritos e, cuide também, de conhecer a minha opinião em cada caso”253. Interessante observar mais uma vez a utilização da palavra amigo. Em seu texto, Zappert se dirige ao leitor, bem específico neste caso (o operariado da fábrica), 05 vezes chamando-o de amigo.
Quando das reclamações em relação ao clima (chuva demais ou de menos), Zappert escreve que o clima não pode adaptar-se ao gosto de cada morador, mas que “em todo o Paraná o clima é saudável, especialmente para aqueles, que estão dispostos a trabalhar”254. Resposta semelhante recebe o caso do colega que foi promovido: “quando há uma vaga de condutor, naturalmente só uma pessoa poderá preenche-la e, si você continuar trabalhando eficientemente, também progredirá no futuro”255. Outro exemplo, digno de nota, trata do falecimento do filho de um funcionário e, por este motivo, o trabalhador não deseja mais residir em Monte Alegre:
Realmente, este é um caso muito triste e lamentavel, porém, por causa desta pouca sorte com este seu filho, o resto da sua família não deveria ser exposto a futuros sofrimentos. Seria muito melhor pensar nos filhos que têm e os que ainda poderão vir, pois, eles poderão desenvolver se bem aqui. (...) Aqui em Monte Alegre todo aquele que deseja e quer trabalhar, ganha para a sua manutenção, goza de amparo nos casos de emergência, e têm um futuro para si e para a sua família256.
E concluindo seus aconselhamentos, escreveu:
Continue trabalhando com afinco e interesse, como sempre o fez assim procedendo, Você e a nossa indústria e com ela, toda a nação progredirá, dando margem a que cada filho da nossa terra melhore suas condições de vida. Continuemos, pois, trabalhando para o bem estar de todos257.
Para escrever este texto, o diretor-técnico se utiliza de discursos que há muito vinham fazendo sentido em Monte Alegre, como o que trata em relação à prosperidade local e da contribuição dos montealegrenses, enquanto trabalhadores da Klabin, ao progresso da nação. É possível perceber também o incentivo dado à melhoria qualitativa do empregado, incentivando-o a trabalhar mais e melhor. Pressupõem-se ainda que este texto tenha sido
253 ZAPPERT, Karl. Um pouco de filosofia do trabalho (Carta a um bom amigo). O Tibagi. Monte Alegre – Tibagi – Paraná, p05 – terceiro caderno, 23 de novembro de 1953.
254 ZAPPERT, Karl. Um pouco de filosofia do trabalho (Carta a um bom amigo). O Tibagi. Monte Alegre – Tibagi – Paraná, p05 – terceiro caderno, 23 de novembro de 1953.
255 ZAPPERT, Karl. Um pouco de filosofia do trabalho (Carta a um bom amigo). O Tibagi. Monte Alegre – Tibagi – Paraná, p05 – terceiro caderno, 23 de novembro de 1953.
256ZAPPERT, Karl. Um pouco de filosofia do trabalho (Carta a um bom amigo). O Tibagi. Monte Alegre – Tibagi – Paraná, p05 – terceiro caderno, 23 de novembro de 1953.
257ZAPPERT, Karl. Um pouco de filosofia do trabalho (Carta a um bom amigo). O Tibagi. Monte Alegre – Tibagi – Paraná, p05 – terceiro caderno, 23 de novembro de 1953.
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escrito visando a diminuição da evasão dos trabalhadores do local. Nesse sentido, a oferta de residências258, bem como outros serviços, aos empregados da Klabin podem ter sido um grande influenciador de sua permanência e potencializador desse processo de modulação de comportamentos.
O discurso que trata do relacionamento e vivência em Monte Alegre empresta sentido a categorias como autovalorização, gratidão à Horácio Klabin, progresso e prosperidade na Fazenda Monte Alegre, desenvolvimento industrial, feitos da Klabin, personalidades ilustres e Cidade Nova e seu desenvolvimento.
Entre os discursos que tratam do relacionamento e a vivência em Monte Alegre é possível destacar o apoio da população às atividades desenvolvidas pela indústria259; a satisfação da população ao homenagear seu chefe, Horácio Klabin260; o conforto das casas residenciais oferecidas pela Klabin tanto para “chefes como para empregados”261; a harmonia existente no ambiente de trabalho262; o trabalho tanto de técnicos das firmas fornecedoras, “como também aos nossos próprios técnicos e operários, que não pouparam esforços para completar esta obra que deu a Monte Alegre o privilégio de possuir a maior usina hidro- elétrica do Paraná, ainda com a vantagem de haver agora excesso de energia elétrica, coisa, hoje, tão rara no país”263; instituições de ensino modelares construídas pela Klabin264; a alegria recorrente do montealegrense, especialmente em datas comemorativas265; o ininterrupto ritmo de vida em Monte Alegre, em favor de um “progresso constante e sempre
258 Aviso – Departamento Florestal das Indústrias Klabin do Paraná de Celulose S.A em Lagoa (Fazenda Alegre). O Tibagi. Monte Alegre – Tibagi – Paraná, p.19 – segundo caderno, 23 de novembro de 1952.
259Monte Alegre e os festejos de 15 de novembro – Solenidades Cívicas – Consagradora Homenagem ao dr. Horácio Klabin – Churrascada – Inauguração do pôsto de reabastecimento “Esso”. O Tibagi. Monte Alegre – Tibagi – Paraná, 23 de novembro de 1949, p.08.
260 NERY, Lauro. Sem Crônica. O Tibagi. Monte Alegre – Tibagi – Paraná, 23 de novembro de 1949, p.07. 261 Monte Alegre. O Tibagi. Monte Alegre – Tibagi – Paraná, 23 de novembro de 1950, p.21. O argumento de oferta de residências aos funcionários da empresa é ressaltado em outra notícia, acompanhado de outros feitos da Klabin em relação à população, que pode ter contribuído na modulação do relacionamento entre patrões e empregados: “numerosas casas novas foram construídas em Harmonia e, continua-se a construir casas a fim de proporcionar a todos os operários e funcionarios de Monte Alegre um lar, onde estes possam viver confortavelmente e satisfeitos. Iniciou-se a construção de um novo grupo escolar, com a capacidade 1000 crianças e, um jardim de infância que, toda petizada de Harmonia poderá frequentar num futuro próximo. Tambem foi aumentado o hospital adicionando-se ao mesmo um novo e grande prédio de material, que dobrará a capacidade a sua capacidade atual, devendo esta nova ala do hospital ser posta em serviço dentro de poucos meses” (ZAPPERT, Karl. A História de Monte Alegre. O Tibagi. Monte Alegre – Tibagi – Paraná, p.05. 262 WILLER, Vilém. Retrospecto. O Tibagi. Monte Alegre – Tibagi – Paraná, 23 de novembro de 1941, p.25. 263 WILLER, Vilém. Retrospecto. O Tibagi. Monte Alegre – Tibagi – Paraná, 23 de novembro de 1941, p.25. 264 Página Escolar – Ensino Primário em Monte Alegre. O Tibagi. Monte Alegre – Tibagi – Paraná, 23 de novembro de 1953, p. 16 – segundo caderno.
265 ZAPPERT, Karl. História de Monte Alegre. O Tibagi. Monte Alegre – Paraná, p.12 – terceiro caderno, 23 de novembro de 1953.
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maior”266; a construção da cantina e a complementação da verba para a oferta de merenda escolar por parte da Klabin267; a firme diretriz do Clube Atlético Monte Alegre e os divertimentos oferecidos pelo mesmo268; as melhorias ocorridas no Harmonia Clube, algumas delas proporcionadas pela Klabin, permitem horas tranquilas de diversão aos seus sócios269, “gente em perfeita amizade, o que caracteriza a nossa população270. Especialmente nos escritos de Karl Zappert o desenvolvimento das escolas, dos clubes locais, as atividades desenvolvidas pela assistência social e médica estão sempre presentes.
A ênfase nos serviços oferecidos à população contribui a um sentimento de gratidão à Klabin pelos serviços prestados, ao mesmo tempo em que tais benefícios contribuíam à permanência de mão-de-obra no local. Tal permanência é considerada importante porque além do próprio realizar do serviço, que poderia atrasar quando de constantes contratações, os trabalhadores mais antigos já estariam habituados ao funcionamento local. Outro viés argumentativo digno de destaque na temática relacionamento e vivência em Monte Alegre diz da modulação de comportamentos por meio do discurso, no qual a cidade, bem como diz o nome do lugar, vive em Harmonia: “harmonia entre empregadores e empregados e vice-versa, para uma produção mais eficiente, na contribuição da riqueza coletiva. Harmonia é cooperação e compreensão de todos na consecução de um fim”271.
Sobre a modulação de comportamentos, as narrativas sobre o relacionamento entre patrões e empregados chama a atenção:
Peça importante em Monte Alegre, tão importante como as próprias máquinas de papel, é o dr. Karl Zappert. Diretor Técnico da Fábrica, sôbre seus ombros pesa uma grande parte da vida de Monte Alegre, cuja razão única de existir é devido a êsse colosso de organização, que são as Indústrias Klabin do Paraná de Celulose S.A.Todos nós conhecemos Dr. Zappert. Sabemos da sua bondade, do seu espírito de justiça, do seu cavalheirismo, da sua alta capacidade, do seu valor, enfim. Mas, êle, por outro lado, também, conhece a todos nós. Sabe, de-cor, os nossos nomes. Interessa-se pela vida de cada um. Com zêlo e carinho paternais. E porque nós somos tantos e êle um só, eis o interessante de êle nos conhecer assim tão bem. Em nós há a obrigação de conhece-lo; nele revela-se aquêle espírito fino dos homens trabalhados para missões elevadas na vida.
266 ZAPPERT, Karl. História de Monte Alegre. O Tibagi. Monte Alegre – Paraná, p.12 – terceiro caderno, 23 de novembro de 1953.
267 Direção das IKPC. Cantina Escolar – Grupo Escolar “Manoel Ribas”. O Tibagi. Monte Alegre – Tibagi – Paraná, p.16 – terceiro caderno, 23 de novembro de 1953.
268 Clube Atlético Monte Alegre. O Tibagi. Monte Alegre – Tibagi – Paraná, p.01 – terceiro caderno, 23 de novembro de 1954.
269 Harmonia Clube. O Tibagi. Monte Alegre – Tibagi – Paraná, p.01 – segundo caderno, 23 de novembro de 1954.
270 ZAPPERT, Karl. História de Monte Alegre. O Tibagi. Monte Alegre – Tibagi – Paraná, p.07, 23 de novembro de 1954.
99 Eis porque êstes ligeiros Traços Biográficos representam, antes de mais nada, um preito de reconhecimento que todos nós, montealegrenses, lhe tributamos272.
A postura de Karl Zappert, apresentada pelo jornal, em relação aos seus empregados comunga com práticas adotadas pelo “pai dos pobres”, Getúlio Vargas. A ausência de intermediários entre o chefe e os empregados – ou entre o presidente e as gentes comuns – contribui à ideia de igualdade entre os mesmos, sublimando as diferenças e objetivos entre uma classe e outra, enquanto os trabalhadores, na ilusão de pertencimento, acabam por trabalhar ainda mais.
De modo semelhante a passagem a seguir conota sentido:
No retrospecto do ano de 1957, uma data ficou marcada para sempre nos anais da vida em Monte Alegre. No dia 15 de março de 1957 chegou do Rio de Janeiro, a notícia do falecimento do Sr. Wolff Klabin, sendo que que [sic] tôda Monte Alegre ficou abalada com esta infausta notícia. O Sr. Wolff Klabin, o Grande Chefe e Amigo, foi um dos idealizadores e criadores não só da indústria pròpriamente dita mas também de tôdas as instalações sociais de nossa nova cidade, sendo que êle sempre acompanhou, com vivo interesse pessoal, os desenvolvimentos de nosso novo núcleo industrial. A perda dêste grande homem foi um rude golpe para Monte Alegre, porém o seu espírito continuará e a sua memória ficará sempre no coração de todos os que com êle colaboraram durante os primeiros anos de desenvolvimento
de Monte Alegre273.
O relacionamento entre patrões e empregados foi posto em versos e publicado em O Tibagi:
Sendo o Péricles o chefão, / Mas um chefão camarada. / É cabra bom de coração. / Se do meu voto valesse / Vitório numa eleição, / Esse cabra já seria, / Hoje o chefe da Nação. (...) / E enfim pros amigos todos, / Que moram nesse rincão, / Ia tê vida de conde, / Cada um ia tê bonde / Isso se o Pericles fosse / Mesmo, o chefe da nação. / Mas como ele ainda não o é, / Eu vô andando mesmo a pé / E vô guentando o rojão274.
Nota-se em tais passagens que os chefes da indústria receberam a conotação de amigo de seus funcionários. Tal alcunha é reiterada diversas vezes nas publicações de O Tibagi, que torna possível dizer que tal relacionamento amigável era oriundo também de tais discursividades. Outro elemento contribuinte à construção desse imaginário a respeito dos chefes, como já mencionado, é a oferta de benefícios aos empregados – que podem não ter percebido tais ações enquanto uma estratégia para o aumento da produção no trabalho.
272 MARENDA, João. Traços Biográficos Dr. Karl Zappert. O Tibagi. Monte Alegre – Tibagi – Paraná, p.01 – terceiro caderno, 23 de novembro de 1956.
273 ZAPPERT, Karl. História de Monte Alegre. O Tibagi. Monte Alegre – Tibagi – Paraná, p. 08, 23 de dezembro de 1957.
274 VIEIRA, Luiz. Poema para Monte Alegre. O Tibagi. Mone Alegre – Tibagi – Paraná, p.11, 23 de dezembro de 1957.
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