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3.5. CONCLUSION G´ EN´ ERALE SUR LA PRODUCTION D’ 232 U EN REP Explication du tableau
4.1.1 Inventaires ` a l’´ equilibre
As minhas vivências na Quinta do Granjal constituíram-se como um palco perante as transformações da paisagem envolvente, ainda que tenha demorado a desvendar os processos dessa exibição. É quase inegável o modo apelativo como o vernacular seduz a audiência conduzindo-a para uma nostalgia de uma era, que possivelmente nem lhes pertenceu, suscitando-lhes o desejo de pertença e vivência, onde a emoção desafia as próprias lógicas económicas, sociais, e temporais.
A este sentimento de perda bucólica, acrescenta-se uma banalização da representação paisagística do Douro, possivelmente com origens nas fotos de Domingos Alvão e Karl Biel, entre outros, criando um “regime de visibilidade”, um código encriptado para ver o Douro e instaurar avaliações automáticas do ético e do estético, do bonito e do feio, do adequado e do desadequado, desprovidas de qualquer discernimento crítico.
O processo arquitetónico revelou-se deste modo como uma ferramenta evolutiva da interpretação da paisagem duriense, ao procurar uma relação contínua com o território em que se inseria, abrindo também a amplitude da sua compreensão num questionamento das lógicas das várias narrativas que tendenciosamente se procuravam ignorar.
O confronto com a realidade no ato de projeto, e tendo a conta a prematuridade com que se sucedeu, seria suscetível para incorrer num percurso de utopia, no entanto, a formação académica (por mais incompleta que estivesse), já fornecia as raízes necessárias para a procura incessante de significados de um ponto de vista menos abstrato.
Numa confluência de vários fatores, a adega da Quinta do Granjal materializou-se, traduzindo-se em várias interpretações que na altura considerei pertinentes para a transformação daquele território, prolongando-se até à atualidade, numa contínua leitura de vários fatores que surgem num regime de imprevisibilidade, surpresa, e criam novas relações com o edificado, sem serem necessariamente negativas para o mesmo, numa região que se tem desenvolvido exponencialmente.
A transmissão dos vários temas que surgiram relacionados com a minha experiência procuraram obter uma clarificação de tendências interventivas. Ao estudar algumas das obras mais mediatizadas na região, percebe-se claramente que a atitude de intervenção no Douro conota-se com uma contensão iconicista, em que a maioria dos arquitetos (e também clientes) privilegiam a procura da integração na paisagem, em detrimento das liberdades formais e materiais de
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um edifício de caráter promocional através da sua espetacularidade, fortemente abordada pelas influências do enoturismo no estrangeiro.
A vigorosa condição identitária da região reflete uma forte influência na moderação do pretensiosismo instalado na região, em que até ao momento compreende-se que as várias empresas têm procurado soluções menos extravagantes para a divulgação da sua imagem, mas poderá ser uma questão de tempo até este aparente conservadorismo ser substituído por novas ideologias e intervenções.
O enoturismo surge supostamente como um novo fôlego económico, explorando a conotação do vinho a uma combinação cultural, do território e “estilo de vida”. A proposta é “saborear” um povo, uma terra, uma condição geográfica. Defende-se que esta é uma das formas de viabilidade e desenvolvimento da região Duriense, que “sabe” no presente tirar proveito do passado, “garantindo” o seu futuro (transformando a paisagem num produto).
Reveste-se a realidade e a sua perceção, introduz-se o charme numa sociedade que procura essa mesma sedução, mitifica-se, mediatiza-se, domestica- se a complexidade histórica e afasta-se a negatividade do real, procurando manipular cenários, modos, produtos, para um consumo global por parte dos cidadãos e turistas.
Apesar de corresponder a um espaço lido por muitos como idílico, a Região Demarcada do Douro envolve-se em múltiplos problemas, desde a estrutura fundiária, na tipologia dos vinhedos, no deficiente perfil sociocultural dos vitivinicultores, na falta de infraestruturas, no crescimento não controlado do turismo e nas lacunas interpretativas do significado da região.
A paisagem cultural do Douro é uma obra multissecular, de adaptação de técnicas e saberes específicos de cultivo da vinha, de evoluções sociais, económicas e sobretudo tecnológicas. É uma paisagem repleta de técnicas do “saber fazer”, que se passam de geração em geração, onde é cada vez mais difícil arranjar quem o saiba. A paisagem cultural e tecnológica duriense expressa-se cada vez mais com as soluções decorrentes das alterações tecnológicas num contexto evolutivo de relação do homem com a natureza continuamente desafiado pela necessidade de encontrar melhores soluções económicas e influenciado pelas variações do mercado.
A tecnologia está impressa na história do Douro, intrínseca a cada época, assim como no presente, sendo o motor de construção da paisagem atualmente. A lógica da paisagem articulada entre patamares escavados pela máquina parece de contorno congénito, associando-se a uma representação fractal em matemáticas menos rigorosas. Entre lasers de medições de declives, bulldozers, estratégias científicas de construção e cultivo de vinha, materialidades exóticas, o conceito de um Douro rural é destituído. As técnicas tradicionais agrícolas
desassociaram-se da viticultura e soleniza-se a tecnologia, e o Douro é desruralizado.
Esta dissertação pretendeu focar-se em torno das polémicas da estetização e tecnologia, entre o preservar e o transformar, considerando a interpretação do património classificado pela UNESCO como um bom argumento para a compreensão dessas tensões.
O Douro estará sempre dependente da relação das pessoas, das atividades, da história, da tecnologia, da inovação e economia. A vastidão da RDD divide-se entre múltiplas situações que não se podem unificar nem ligar numa unidade paisagista, nem procurar traços considerados patrimoniais no ADV, pois a lógica do seu património é mais complexa que esses traços.
O Douro transforma-se a cada dia, vendendo a sua memória histórica, reformulando os métodos do presente, expandindo-se e invadindo novos concelhos, desenhando novas montanhas, planaltos e vales. O Douro globalizou- se e debruça-se ainda com incertezas sobre o seu futuro e sobre o significado das transformações que lhe são impressas.
“As paisagens não se podem congelar nem meter nas vitrinas dos objectos do museu e os agricultores não são os jardineiros da paisagem dos Jardins de Versalhes” 32
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33- Domingues, Álvaro, Douro à la carte, 2009, p.7
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Índice de Siglas
RDD - Região Demarcada do Douro ADV - Alto Douro Vinhateiro
CCDR-N - Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte UNESCO - Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura