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Nas entrevistas, percebe-se que alguns dos primeiros contatos marcantes de Samuel, de Daniel e de Henrique com a música, foram com familiares. Samuel menciona seus familiares que tocam instrumentos, ao ser questionado sobre o que o incentivou a se tornar músico profissional: “meu avô é músico, toca acordeom, meu pai é músico, toca sax, eu tenho uma tia minha que tocava órgão, meu irmão toca trompete, a minha irmã toca teclado e órgão, tem um outro irmão meu também que toca flauta, um outro que ia pra área da percussão” (Samuel, Caderno de entrevistas, 03 de nov. 2016, p. 10).

Devido a esse contato, desde a infância, com familiares que tocam instrumentos, Samuel (Caderno de entrevistas, 03 de nov. 2016, p. 10) acredita que não poderia se dedicar a outra profissão, embora tenha tentado fazer outras atividades também, mas estas não deram muito certo. Para ele, estar em contato com esses familiares que tocam instrumentos é parte da definição do “ser músico”.

Ao relatar que tem contato desde a infância com familiares que tocam instrumentos, Samuel afirma que é “músico desde sempre” (Samuel, Caderno de entrevistas, 03 de nov. 2016, p. 10), ou seja, ser músico não é apenas tocar o instrumento musical profissionalmente, mas também ter contato com familiares músicos na infância. As experiências vivenciadas por Samuel nas relações sociais de formação do “ser músico” estabelecidas no seu núcleo familiar são semelhantes às concepções sobre “família” abordadas na pesquisa de Bruschini (1989):

as famílias foram conceituadas como unidades de reprodução social - incluindo a reprodução biológica, a produção de valores de uso e consumo - localizadas em determinado ponto da estrutura social, definido a partir da inserção de seus provedores na produção. Foram definidas também comunidades de relações sociais, no interior das quais, hábitos, valores e padrões de comportamento são transmitidos a seus novos membros, configurando assim, unidades de reprodução ideológica. São espaços de convivência nos quais se dá a troca de informações entre os membros e onde as decisões coletivas a respeito do consumo, do lazer e de outros itens são tomadas. Nesse sentido, elas são também unidades nas quais indivíduos maduros se re- socializam a cada momento, revendo e rediscutindo seus valores e seus comportamentos na dinâmica do cotidiano, em função das necessidades do grupo, que se renovam a cada etapa da vida família, e também de acordo com as possibilidades oferecidas pela sociedade na qual o grupo se insere (BRUSCHINI, 1989, p. 13).

Daniel (Caderno de entrevistas, 08 de abr. de 2018, p. 57), ao ser questionado sobre vivências marcantes com a música em sua trajetória musical, fala que o seu contato com a música e seu aprendizado se deu desde cedo em sua casa. Então, para ele, sua aprendizagem musical iniciou com o contato com seus familiares. Ele cita seus familiares que não apenas tocavam instrumentos musicais, mas que trabalhavam com música:

o meu pai, ele sempre foi dono de banda. A família inteira do lado do meu pai sempre foi de músicos, sempre viveram da música. O meu pai toca acordeom muito bem, teve banda de forró, trio de baile [durante] muito tempo. Eu tenho um tio meu que faz parte da orquestra da cidade também, toca trombone, eu tenho um outro tio que toca também violão... a minha tia cantava... Então, desde cedo, eu sempre tive muito contato com a música (Daniel, Caderno de entrevistas, 08 de abr. de 2018, p. 57).

Semelhantemente a Samuel, Daniel também acredita que as experiências com seus familiares que tocam instrumentos musicais foram marcantes e fundamentais em sua trajetória musical. Ele também tentou realizar outras atividades, que não eram musicais, mas depois retornou para a música, buscando aprender instrumentos diferentes daqueles que seu pai o havia ensinado:

eu fui para o lado do esporte. Eu gostava muito de jogar futebol e eu retornei pra música aos doze anos. Foi quando eu resolvi tocar violão porque meus tios tocavam e eu achava muito bacana. O violão eu achava ainda mais interessante do que o próprio teclado – que o meu pai tentava me ensinar desde os sete [anos] – e do que acordeom que eu já não tinha interesse assim [de aprender] (Daniel, Caderno de entrevistas, 08 de abr. de 2018, p. 57).

Em determinada idade, tocar os instrumentos que o pai tocava já não interessava a Daniel. Era como se ele tivesse informações suficientes sobre os instrumentos que o satisfaziam, de modo que ele tinha dificuldades em vivenciar novas experiências com esses instrumentos. Larrosa (2011) denota uma das “dificuldades da experiência” (p.19) ao dizer que “a informação não deixa lugar para a experiência, é quase o contrário da experiência, quase uma antiexperiência” (LARROSA, 2011, p. 20) e complementa explicando que, pelo fato de o sujeito possuir excesso de informação, “o que consegue é que nada lhe aconteça” (LARROSA, 2011, p. 20). Em contrapartida, Daniel encontrou no violão - instrumento que seus tios tocavam - a oportunidade do desvelamento ou do “princípio da liberdade da

experiência” (LARROSA, ibid., p.19). Sob uma perspectiva social de família, elucidada por Bruschini (1989), circunstâncias como a que foi vivenciada por Daniel são comuns nas famílias:

é também no cotidiano da vida familiar que surgem novas ideias, novos hábitos, novos elementos, através dos quais os membros do grupo questionam a ideologia dominante e criam condições para a lenta e gradativa transformação da sociedade (BRUSCHINI, 1989, p. 14).

Henrique (Caderno de entrevistas, 24 de abr. 2018, p. 81) também referencia sua família e afirma que o contato com a música que ele lembra, antes de entrar em Conservatório, era por meio de seu pai (percussionista). Para esses músicos entrevistados (Samuel, Daniel e Henrique), a família teve um papel fundamental em suas trajetórias musicais. Isso porque, além das experiências musicais “aleatórias” (LARROSA, 2011) que aconteceram ao longo de suas vidas, o fato “pertencer a uma família de músicos” se configura como uma experiência social que colabora na constituição do “ser músico”.

5.1.2 Exploração do instrumento musical: o princípio da liberdade e

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