• Aucun résultat trouvé

A partir da leitura sistemática dos verbetes do dicionário de Tavares (1985), outras marcas sociais, constituintes das descrições sobre as personagens femininas amadianas, foram identificadas como adequadas e necessárias ao contexto do presente estudo. Nesse particular, as caracterizações das mulheres de Jorge Amado, produzidas por Tavares (1985), em alguns casos, se referem ao corpo feminino. A referência a aspectos do corpo feminino foi trabalhada através da construção de duas categorias: “corpo”, mais ampla, e “corpo erotizado”, uma especificação ou subconjunto da primeira.

Por “corpo” define-se qualquer remissão a características corporais. Não foram contabilizadas como referências ao corpo descrições cujos caminhos apontassem para as vestimentas. Além disso, cumpre ressaltar que as características corporais referidas, no caso dessa categoria, podem ter ou não caráter erótico. O seguinte verbete traz uma referência ao corpo sem erotização aparente:

“Cabrita – “meninota de quatorze anos, esverdeada e ossuda”, e já rameira havia dois anos, moradora na Rua do Cancro Mole, no bairro de Muricapeba, em Buquim. Aderiu à campanha de socorro aos variolosos por ocasião da epidemia, comandada por Teresa Batista” (TAVARES, 1985, p.54).

Os limites estabelecidos entre a descrição corporal erótica e não erótica são difíceis de serem estabelecidos teoricamente. Se o marco decisório residir no desejo de cada sujeito, e não nas representações compartilhadas sobre um corpo desejável, o debate não chega a lugar algum ou chega a algum lugar de pouco valor para a análise sociológica. Não se pode negar a possibilidade real de determinado indivíduo se atrair, justamente, por uma menina de quatorze anos ossuda e esverdeada, daí, porém, a identificar esse tipo físico como símbolo de mulher socialmente desejável vai uma imensa distância.

Em muitos casos, a descrição apresentada por Tavares (1985) deixa, claramente, à amostra a intenção de retratar um corpo de forma a lhe constituir enquanto objeto de desejo. Logo, desloca-se o debate sobre que tipo ou tipos de corpos são socialmente desejáveis e centra-se a discussão em torno da caracterização das descrições que procuram representar corpos capazes de suscitar desejos, ou seja, que constroem corpos

erotizados. O verbete transcrito abaixo procura oferecer um exemplo de descrição com vistas à erotização de um corpo:

“Lúcia – jovem “das tranças negras, seus seios redondos, suas coxas como colunas, morenas, cor de canela”. Uma das três irmãs, com Violeta e Maria, filhas dum agregado da fazenda de cacau Baraúnas. “Veio o patrão (coronel Teodoro Martins) e a levou”. Depois, ele se foi e nada deixou. Numa casa de rameiras pobres, em Ferradas, as irmãs de novo se juntaram “unidas no sofrimento, unidas no seu destino”” (TAVARES, 1985, p.203).

Dessa forma, por contraste, as descrições sobre os corpos femininos diferenciam-se entre meras referências aos corpos e referências erotizadas aos corpos. Obviamente que, mesmo deslocando o problema da identificação de um corpo erotizado ou não erotizado para o plano do contraste entre as descrições, no fundo, resta a noção do que se considera um corpo erotizado – governando o nível desse contraste.

Sobre o que se considera um corpo desejável, talvez seja interessante recuperar a idéia do desejo frente ao Outro exótico. Piscitelli (1996) trabalha com o entendimento de que o exótico participa da captura do desejo de degustação experienciado pelos sujeitos. Para os estrangeiros do Norte, o exótico das brasileiras, muitas vezes ainda meninas, se localiza na complexa intersecção entre nacionalidades, cores e vestígios das relações imperiais, atualizadas na dinâmica da geopolítica Norte/Sul.

No caso dos brasileiros, seus desejos se colariam, predominantemente, nas “orientais”, índias, ciganas e ainda nas “loiras de olhos verdes”. O presente trabalho acredita que essa noção do exótico tenha particularidades regionais. Para o Nordeste brasileiro, “loiras de olhos verdes” figuram como muito mais exóticas do que para os habitantes da região Sul.

Piscitelli (1996, p.32) chega a afirmar que, em determinado conjunto de textos tomados para análise, as mulatas não se constituem em um outro exótico para os brasileiros, não lhes convocando o desejo: “Os textos que apresentam a prostituição envolvendo apenas brasileiros e brasileiras apontam também para “marcas” e noções do “exótico”. Porém, as jovens que chamam atenção dos brasileiros não são “mulatas””.

Também se observa que a prostituição voltada ao mercado interno “comercializa”, prioritariamente, loiras e morenas de pele clara. No momento, faltam estatísticas a esse respeito. Contudo, quem se der o luxo de despender algumas horas em frente ao computador, investigando os sites que anunciam prostitutas, garotas de

programa e acompanhantes ou procurar contabilizar o número de mulatas e negras, por exemplo, nas capas de algumas revistas masculinas, poderá constatar essa prioridade.

Essa realidade não parece afastar, necessariamente, a mulata (símbolo sexual nacional) do desejo de inúmeros brasileiros e brasileiras. Apesar de ocuparem um número reduzido das páginas das revistas masculinas e de sua pequena presença nos sites de prostituição de luxo, as negras e mulatas parecem continuar a figurar nesses espaços como algo exótico a ser consumido. Se não suscitam o desejo declarado da grande maioria, são capazes de suscitar o desejo de alguns que as identificam, minimamente, enquanto exóticas.

Da mesma forma que o exotismo das loiras de olhos verdes parece variar entre as diversas regiões brasileiras, a morenas, mulatas e negras talvez suscitem interesses, diferentemente, de acordo com as particularidades de cada local. A mulata para exportação, construção largamente difundida por Sargentelli nos seus shows de mulatas, parece continuar despertando ativamente o desejo hetero ou homossexual.

Em Jorge Amado, as estatísticas apontam para a persistência da mulata como símbolo sexual nacional, dado que suas descrições fazem apelo, recorrentemente, ao campo do corpo exuberante voltado ao exercício da sexualidade. Os números que sustentam essa observação sobre a mulata, na literatura de Amado, serão trabalhados na secção reservada ao estudo da prostituição feminina na obra desse autor.

Para um estudo cuja temática aborda a prostituição praticada por mulheres, parece de fundamental importância observar a natureza e intensidade das referências feitas ao corpo feminino. A discussão sobre se as prostitutas vendem seus corpos ou apenas vendem serviços e/ou fantasias soa, em algum sentido, superficial. A condição básica à venda de um serviço ou fantasia se constrói, na grande maioria das vezes, sobre a materialidade do corpo: o fato de usá-lo, de tal ou qual forma, repercute na percepção de si mesmo e, logo, nos processos de construção de identidade.

Tabela 7: Corpo

Corpo Freqüência Percentual Válido

Presença do Corpo 312 35,1%

Ausência do Corpo 576 64,9%

Total 888 100,0%

Nesse momento do trabalho, não se pretende investigar que ocupação, por exemplo, possui o maior número de personagens cujos corpos foram utilizados nas

descrições das criaturas de Jorge Amado pelos verbetes do dicionário de Tavares (1985). Muito menos objetiva-se empreender o estudo sobre que raça, cor ou etnia se correlaciona, mais fortemente, com a categoria corpo. Esses desdobramentos se reservam quando da análise do “mundo da prostituição”.

O que importa reter é que em quase 65% dos verbetes do dicionário de Tavares (1985), as personagens femininas não foram descritas a partir de suas características corporais. De alguma forma, esse fato parece sugerir uma possível relativização do peso definidor das características corporais na construção das representações sobre as mulheres criadas pelo romancista baiano. No entanto, se um grupo específico de personagens ou de ocupação concentrar sobre si a maior parte das referências ao corpo, a possível relativização da presença do corpo na produção das representações sobre as mulheres amadianas se reveste de novos significados.

Documents relatifs