As criaturas de Jorge Amado envolvidas com o “mundo da prostituição” (caftinas, prostitutas, dançarinas e cantoras de cabaré) foram alocadas em três classes sociais distintas: classe trabalhadora, classe média e classe alta. O critério de pertencimento a cada uma dessas classes sociais já foi definido, em secção anterior, pelo presente estudo.
De maneira resumida, cumpre observar que caftinas, prostitutas, dançarinas e cantoras de cabaré, não havendo qualquer menção a propriedades ou acúmulo de riquezas, são agrupadas na classe trabalhadora. As caftinas, quando proprietárias de seus prostíbulos, figuram, imediatamente, na classe média; contudo, se acumulam grandes ganhos econômicos, passam a pertencer à classe alta33, assim como ocorre em relação às prostitutas, dançarinas e cantoras de cabaré.
O contraste entre o “mundo da prostituição” e o conjunto de todas as outras ocupações analisadas (“do lar”, “ocupações femininas”, “esotéricas e religiosas”, “comerciantes”, “sem ocupação definida”, “outras ocupações”, “artistas” e “letradas”) aponta para uma aproximação mais acentuada da prostituição feminina em relação à classe trabalhadora.
Com efeito, as representações sobre a prostituição feminina na obra de Jorge Amado, de acordo com a metodologia adotada e com os verbetes do dicionário de Tavares (1985), localizam o “mundo da prostituição”, prioritariamente, com 69% de suas integrantes, na classe trabalhadora.
À classe média, cabem 27,2% das personagens do “mundo da prostituição”, enquanto que a classe alta abarca, tão somente, 3,8% das mulheres pertencentes a esse “mundo”. As personagens de Jorge Amado que desempenham quaisquer outras ocupações diferentes das do “mundo da prostituição” se distribuem da seguinte maneira de acordo com o critério de classe social adotado: 36,1% na classe trabalhadora; 28% na classe média e 20,7% na classe alta.
Entre o “mundo da prostituição” e o conjunto de todas as outras ocupações desempenhadas por mulheres, pode-se observar certa equiparação no número relativo de personagens femininas pertencentes à classe média. Todavia, a classe trabalhadora do
33
Apesar de algumas personagens do “mundo da prostituição” obterem elevados ganhos econômicos e, com isso, serem classificadas como integrantes da classe alta, reconhece-se que essas personagens não possuem livre trânsito nos salões da burguesia. Dessa forma, seu pertencimento de classe é escamoteado devido à ocupação que desempenham.
“mundo da prostituição” tem quase o dobro do percentual da classe trabalhadora formada por todas as outras ocupações das personagens femininas em conjunto. Além disso, o percentual de mulheres da classe alta envolvidas com o “mundo da prostituição” é cinco vezes menor se comparado com o número relativo de personagens femininas que, encontrando-se em outras ocupações, figuram nessa mesma classe social.
Nas obras analisadas de Amado, as representações sobre “o mundo da prostituição” estão associadas à classe social. O estudo estatístico, desenvolvido a partir do teste qui-quadrado, demonstrou uma relação significativa entre o “mundo da prostituição” e classe social. O valor do qui-quadrado foi de 89,175 – com uma probabilidade associada (valor – p) de menos de 0,05 para um grau de liberdade 3. Isso evidencia que o relacionamento (“mundo da prostituição” e classe social) é assaz improvável apenas como resultado produzido pelo acaso.
Dentre as 184 personagens femininas envolvidas com o “mundo da prostituição”, 127 pertencem à classe trabalhadora. Com efeito, a prostituição feminina encontra-se estreitamente vinculada a uma condição social marcada por dificuldades econômicas. Destaca-se, nesse contexto, o caso da prostituta Maria Romão, do romance
Tereza Batista cansada de guerra.
“Na cidade, as raparigas de Justiniano Duarte da Rosa eram debatidas no parlamento das comadres, nas tertúlias dos letrados. Uma delas, Maria Romão, causou intenso rebuliço ao ser vista, de braço dado com o capitão na calçada do cinema, rebolando ancas fartas e busto soberbo; logo se soube da conta aberta para a mulata na loja de Enock, acontecimento inédito, digno de notícia nos jornais da capital. Alta, trigueira, de cabelos lisos, uma estátua. Estranhamente, não era menina nova, já completara dezenove anos quando o capitão Justo a adquiriu numa leva de paus-de-arara trazidos do alto sertão, destinados às fazendas do sul. Um colega de patente de Justiniano Duarte da Rosa, o capitão Neco Sobrinho [...] trocou Maria Romão por carne-seca, feijão, farinha e rapadura. [...]
— É verdade o que falam, capitão? Que aquela moça Romão já não está em sua companhia? [...]
— Faço umas barganhas com Gabi, seu doutor. Quando ela tem novidade me avisa, se gosto compro, troco, alugo, faço qualquer transação. Quando enjôo da bichinha, a gente negocia de novo” (AMADO, 1972, p.122-123).
A condição miserável de Maria Romão se traduz pela total ausência de autonomia sobre seu próprio corpo, sendo objeto de comercialização entre dois sujeitos. Transfigurada em mercadoria, Maria Romão é trocada, primeiramente, por carne-seca, feijão, rapadura e farinha. Em seguida, após a avaliação do Capitão Justo, Maria Romão
é comercializada mais uma vez; agora, com a caftina Gabi que, na negociação, ficando com Maria, oferece ao capitão uma prostituta sua em troca.
O “mundo da prostituição”, devido ao fato de ser constituído também por caftinas, indica, imprecisamente, a realidade socioeconômica das prostitutas – visto que das 52 caftinas analisadas, apenas 2 foram alocadas na classe trabalhadora. As outras 50 se subdividem entre a classe média (84,6%) e a classe alta (11,5%). A elevada porcentagem de caftinas, nas classes média e alta, perturba a visão real sobre a condição social das prostitutas.
Das 121 personagens femininas prostitutas, 115 (95,0%) são da classe trabalhadora; 5 (4,1%) foram classificadas como classe média e apenas 1 prostituta (0,9%) pode ser identificada como pertencendo à classe alta. Dessa forma, assim como as representações sobre o “mundo da prostituição” estão associadas à classe social, as representações sobre a prostituição, nas obras amadianas tomadas para estudo, também se encontram associadas significativamente à classe social.
No caso específico das prostitutas, o valor do qui-quadrado é de 249,571 – com uma probabilidade associada (valor – p) de menos de 0,05 para um grau de liberdade 9. Esses valores demonstram que a relação entre as representações sobre as prostitutas e a classe trabalhadora é bastante improvável apenas como resultado produzido casualmente.