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Antes de nos deter na análise dos paratextos das edições dos títulos de José Lins do Rego que foram publicado pela Livros do Brasil, em Portugal, cabe considerar que, mesmo que algumas obras da literatura brasileira já circulassem no sistema literário lusitano, quando lançadas por Sousa Pinto se tornaram algo novo, apesar de não ser uma novidade, de não carregar o caráter de ineditismo, como é o caso dos livros de Jorge Amado, que já possuíam uma fortuna crítica.

As edições dos livros de Jorge Amado circulavam em Portugal desde a década de 1930, sendo, segundo Edvaldo Bergamo (2015, p. 333-346), bem recepcionados pelos críticos ligados ao neorrealismo português, entre eles Telmo Cruz, João Rubem, Mário Dionísio e António Ramos de Almeida, cujas características ressaltadas eram a “vocação social” amadiana para documentar a realidade brasileira, com intuitos políticos explícitos (BERGAMO, 2015, p. 339), o “sabor poético” e a conciliação entre militância e tratamento estético da linguagem ficcional.

Todos esses argumentos destacados pela crítica literária neorrealista foram absorvidos por Sousa Pinto nos paratextos das edições dos livros de Jorge Amado, facilitando ainda mais sua recepção entre os leitores. Mas e os demais autores até então pouco conhecidos? Como apresentá-los ao mercado editorial português?

Uma das soluções encontradas por Sousa Pinto foi inserir um conjunto de paratextos nas orelhas das edições lançadas na Coleção Livros do Brasil, sendo este o nosso foco de análise nesta sessão. Assim, procuramos identificar como o editor lusitano criou condições de possibilidades para a recepção das obras de José Lins do Rego no mercado editorial português.

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De José Lins do Rego foram publicados os seguintes títulos: Menino de Engenho, Fogo morto, Pedra bonita, Cangaceiros, Banguê, Eurídice, Riacho doce, O moleque Ricardo, Água mãe, Usina, Pureza e uma edição com os romances Menino de Engenho e Doidinho em único volume.

A publicação de Menino de Engenho e Doidinho em volume único foi motivada pela morte do autor, em 1957, e marca a trajetória de José Lins do Rego na Coleção Livros do Brasil, além de apresentar ao leitor lusitano uma síntese das qualidades literárias do autor, destacando:

Mas o tempo veio a demonstrar que, nesses dois livros que contam a infância e a adolescência de um menino bem nascido no Nordeste brasileiro, numa época decisiva de transformação social, estava tudo o que viria a brilhar esplendorosamente na teoria magnífica dos seus romances posteriores: a poesia, a frescura, a graça, a ternura, a violência, a penetração, o amor das figuras simples e bravias, a profunda compreensão ao nível universal, de um povo e de seu mundo21.

Ao final, como uma espécie de autoafirmação dos qualificativos direcionados a José Lins, foi inserido um texto de uma crítica de Otto Maria Carpeaux, em que o crítico afirma: menino de engenho é o maior escritor do Brasil. Outros trechos de Carpeaux foram utilizados em edições de outros títulos de José Lins do Rego, como em Água-mãe, que conclui a apresentação feita pela Livros do Brasil, afirmando o seguinte: nunca mais veremos um homem assim22.

Pode-se considerar, portanto, que a sequência de adjetivações destinadas a José Lins do Rego, e aos demais autores que compuseram a coleção [pois o mesmo tratamento editorial foi destinado aos demais literatos], foram criando uma singularidade para José Lins do Rego para destacar seu lugar num conjunto de literaturas de língua portuguesa, sugerindo ao leitor uma unidade entre os falantes do idioma.

Apesar de se utilizar de generalizações como é o caso da classificação “literatura de língua portuguesa”, determinados parâmetros adotados pela crítica literária brasileira para compreender a literatura de José Lins do Rego se mantiveram nas apresentações elaboradas pela Livros do Brasil.

Assim, os títulos que compõem o chamado ciclo da cana de açúcar, em que José Lins do Rego aborda a decadência dos engenhos açucareiros do nordeste brasileiro, foram classificados como as marcas de uma expressão regional.

21. LIVROS DO BRASIL In REGO, José Lins. Menino de Engenho Doidinho. Lisboa: Livros do Brasil, s/d. 22. LIVROS DO BRASIL In REGO, José Lins. Água-mãe. Lisboa: Livros do Brasil, s/d.

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Para a Livros do Brasil, o que tornava Usina (1936) uma grande obra era que ela consegue arrematar a narrativa iniciada em Menino de Engenho, seguida por Doidinho (1933) e Banguê (1934).

Essas publicações chegaram a contar com um prefácio do próprio autor explicando o seu projeto literário, cujo esplendor [para usarmos um adjetivo frequente dos paratextos produzidos pela Livros do Brasil] se encerrava com Usina, último título do ciclo, o qual foi comparado no paratexto de apresentação com o mesmo valor estético dos ensaios sociológicos de Gilberto Freyre.

Cito o paratexto:

[...] aparece-nos [ele, José Lins do Rego] como uma figura de ímpar beleza, dando-nos, através dos seus livros, toda a história de uma época que ainda não está suficientemente decifrada e de uma situação geográfica que, apesar de tão afastada dos sítios onde cotidianamente existimos, nos é próxima pela humanidade e ternura que o grande escritor nos transmite23.

Apesar de mencionar o estilo como ponto de encontro com a escrita freyriana, nos parece ser mais evidente que o fator que conectava o sociólogo e o literato eram os jogos mobilizados tanto por Freyre quanto por Lins do Rego para manusear o tempo em suas escritas: o esplendor do Nordeste açucareiro em oposição ao nordeste em processo de industrialização evidenciada pela modernização, pelo desenvolvimento e pelo progresso.

Ainda sobre os romances de José Lins do Rego, pertencentes ao ciclo da cana de açúcar, a Livros do Brasil fez questão de deixar claro para o público que

De modo algum queremos identificar a personagem principal com autor, mas a sua verdade é tão incisiva e decisiva, que sentimos que esse notável romance, autêntica revelação a marcar uma época na literatura mundial, é uma das mais dolorosas e apaixonadas experiências de José Lins do Rego. A melancolia do intelectual desterrado no meio citadino, o seu amor obsessivo por uma mulher estranha, o realismo das vidas que processa na obra, a decadência do engenho, são dados com extraordinário e pujante relevo, substância humana, verdade e intensidade de atmosferas e paisagens, de sentimentos e paixões24.

Mesmo que Banguê pertencesse ao exercício inventivo do autor de revelar os meandros da vida nas fazendas e a decadência dos engenhos do nordeste brasileiro ou, conforme aponta o paratexto, o realismo das vidas, foram os temas

23. LIVROS DO BRASIL In REGO, José Lins. Moleque Ricardo. Lisboa: Livros do Brasil, s/d. 24. LIVROS DO BRASIL In REGO, José Lins. Banguê. Lisboa: Livros do Brasil, s/d.

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como o amor, a melancolia, a paixão e os dilemas humanos que descolaram a sua escrita da fixidez do espaço sertanejo e fez com que José Lins do Rego fosse inserido ao lado de autores considerados universais, conforme podemos observar quando cotejados os paratextos em sua totalidade.

Além disso, quando analisamos a coleção de modo amplo, pode-se perceber que nem todos os títulos dos literatos originários do Nordeste brasileiro foram divulgados sob o chamamento de um certo tom de regionalismo, assim como também não ocorreu com as demais obras de José Lins do Rego.

O que interessava ao editor português eram os qualificativos estilísticos de José Lins para, dessa forma, inseri-lo no conjunto de literaturas de língua portuguesa, conforme podemos observar a seguir:

Na literatura de língua portuguesa, José Lins do Rego aparece-nos como uma figura de ímpar beleza, dando-nos, através dos seus livros toda história de uma época que ainda não está suficientemente decifrada e de uma situação geográfica que, apesar de tão afastada dos sítios onde cotidianamente existimos, nos é próxima pela humanidade e ternura que o grande escritor nos transmite. As suas obras têm aparecido frequentemente na Coleção Livros do Brasil e a sua força criadora, o seu poder de transmissão, a par de um magnífico estilo e de uma extraordinária capacidade de compreensão do homem ficaram bem afirmados através de livros tão expressivos como o impressionante Banguê e os Cangaceiros, essa expressiva e humana saga dos sertões brasileiros25.

Portanto, mesmo que tenham sido mobilizados certos aspectos do regionalismo, como no caso das obras do Ciclo da Cana-de-açucar, este não ganhou centralidade na divulgação e na análise das obras dos escritores brasileiros editados por Sousa Pinto. De José Lins do Rego deveriam, em maior medida e proporção, serem destacadas as suas singulares características, estando dentro do regional dá[va]-nos o universal. Podemo-lo considerar o revelador eletrizante de almas, tipos e costumes de seu povo, inteiramente vivos e vividos pela sua presença própria26.

Diante das questões brevemente apresentadas, pode-se considerar que o conjunto dos livros de José Lins do Rego lançados pela Livros do Brasil cumprem a função de estabelecer um crivo discursivo de comparação e análise das qualidades de literárias do escritor e inseri-lo num conjunto, em uma rede e numa trama

25. Idem. 26. Idbem.

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inventiva sobre o que era a literatura brasileira no século XX diante das literaturas de língua portuguesa.

Assim sendo, Usina, o último livro do ciclo da cana-de-açúcar, ao mesmo tempo que estabelece uma escala analítica ou parâmetros de análise literária para as obras de José Lins, atribuindo-lhe, desse modo, uma singularidade dentro da coleção, possibilita, também, compreender suas relações com os demais autores, entre eles Rachel de Queiroz, Jorge Amado, José Américo de Almeida e outros.

Assim, apesar das diferenças dos sistemas literários brasileiro e português, as mobilizações realizadas por Sousa Pinto para construir a Coleção Livros do Brasil, principal projeto editorial do catálogo de sua editora, evidenciam aspectos relacionados a potência da literatura e as condições de recepção das obras dos escritores brasileiros, incitando novas temporalidades a partir da relação entre o texto e o autor, entre as formas editoriais e as prescrições de leitura, na medida em que os modo de circulação de valorização e apropriação dos discursos variam em cada cultura (FOUCAULT, 2020, p. 68-69).

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