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Daily dietary intakes of trace elements of importance in nutrition

8. DISCUSSION

8.1. Diet study

8.1.2. Daily dietary intakes of trace elements of importance in nutrition

E esse trabalho é um fazer que parte do presente para seguir “na direção do passado”– expressão que Saramago insiste em sublinhar: na direção (Saramago, 2000, p. 17). Mas “não estou a dizer nada de original”, escreve Saramago nesse texto de 1999. E segue, para então esclarecer seu dizer: “No seu livro O Mediterrâneo, Fernand Braudel escreve, com a simplicidade de uma iluminação”, diz ele, algumas linhas que resumem seu entendimento a esse respeito: “A História não é outra coisa que uma constante interrogação dos tempos passados, em nome dos problemas, das curiosidades, e também das inquietações e angústias com que nos rodeia e cerca o tempo presente.” E para Saramago, essa definição “poderia ser transposta, palavra por palavra, para a Ficção” (SARAMAGO, 2000, p. 17).

Assim sendo, história e ficção – e mais propriamente a operação historiográfica e a operação ficcional – seriam então dois trabalhos de anacronia, para aqui fazer uso do termo e da concepção de Jacques Rancière, em seu texto “O conceito de anacronismo e a verdade do historiador”. No qual entende anacronia como “modos de conexão” (de acontecimentos, noções, significações) “que tomam

1. “Michel de Certeau pergunta: o que fabrica o historiador quando faz história? Querendo com isso ressaltar que o que faz o historiador é um trabalho; um trabalho de fabricação de uma narrativa, de um artefato escriturístico; um trabalho de fabricação dos acontecimentos do passado. [...] Concordo com a ideia de que a historiografia é produto de um trabalho [...]. Concordo que o historiador exerce um trabalho de produção do passado [...]. Mas considero que o trabalho que realizamos não tem o caráter maquínico, o caráter fabril [...]. O trabalho do historiador me parece ter mais analogias com o trabalho artesanal [...]” (Albuquerque Júnior, 2019, p. 27-28).

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o tempo de frente para trás, que fazem circular sentido de uma maneira que escapa a toda contemporaneidade, a toda identidade do tempo com ‘ele mesmo’.” O trabalho da anacronia, nos termos de Rancière, tem a “capacidade de definir direcionamentos temporais inéditos, de garantir o salto ou a conexão de uma linha de temporalidade com uma outra.” (RANCIÈRE, 2011, p. 21-49). Nesse sentido, pode-se dizer, creio eu, que a anacronia é uma ferramenta de ficcionar sem a qual não se realiza a operação ficcional, assim como sem ela também não é possível a operação historiográfica.

Sendo essa, aliás, uma concepção de conhecimento de Saramago. Pois que ela está expressa por Guy Lardreau no prefácio a seu livro de entrevista com Georges Duby, Diálogos sobre a Nova História, obra de leitura (e encantamento) de Saramago. Tanto que desejou fazer partilha disto a um seu entrevistador, nos idos de 1989, quando esteve no Brasil a lançar História do cerco de Lisboa:

O escritor português José Saramago, que desembarcou no Rio sábado [22/04/1989] à noite para lançar hoje [24/04/1989] a partir da [sic] 20h, na Livraria Timbre, no Shopping Center da Gávea, o seu novo romance História do cerco de Lisboa , atravessou o Atlântico mergulhado em um livro: Georges Duby/Diálogos sobre a história , do francês Guy Lardreau, na versão espanhola da Alianza Editorial (CASTELLO, 1989).

Nela, Lardreau, em seu prefácio, pergunta a seu leitor: “que outra coisa poderia dar origem ao discurso da história, a não ser um anacronismo original, fundamental?” Para ele, é no problema do anacronismo onde se opera a “inversão” (partir do presente “na direção do passado”, para usar a expressão, devidamente sublinhada, de Saramago) que torna possível historiografar (DUBY; LARDREAU, 1989, p. 18).

Nessa perspectiva, terá razão Saramago em considerar que as iluminadas palavras de Braudel, em sua definição de história, sejam aplicáveis à ficção. Aliás, mais que considerá-las aplicáveis, Saramago aplicou-as em sua ficção. Estão lá, em O homem duplicado (2002), onde podemos ler, por via da opinião de um professor de história:

Em minha opinião, disse ele [Tertuliano Máximo Afonso, o professor], a única opção importante, a única decisão séria que será necessário tomar no que respeita ao conhecimento da História, é se deveremos ensiná-la de trás para diante ou, segundo a minha opinião, de diante para trás, todo o mais, não sendo despiciendo, está condicionado pela escolha que se fizer, toda a

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gente sabe que assim é, mas continua a fazer-se de conta que não (SARAMAGO, 2002, p. 46).

É certo que tal proposição assenta num debate central (e que passa ao largo de algum mínimo consenso) ao ofício da história. Como se atritam o tempo historiado e o tempo que historia? Como se tensionam esses tempos? Qual deles orienta os direcionamentos na compreensão histórica? Eis o vespeiro a que a formulação de Saramago adentra. Não é nenhum acaso que os mais fecundos pensadores e pensadoras da história tenham tido a necessidade de dizer algo sobre a questão.

Henri-Irénée Marrou (1904-1977) dentre os quais. Em sua obra de 1954, Sobre o conhecimento histórico, Marrou escreveu:

Conhecimento do passado humano, conhecimento do homem, ou dos homens, de ontem, de outrora, de antanho, pelo homem de hoje, o homem de depois, que é o historiador, essa definição faz com que a realidade da história resida na relação assim estabelecida pelo esforço de pensamento do historiador [...] (MARROU, 1978, p. 32).

Como lemos a Marrou, é na “relação” (no ir e vir, no tensionamento, no estabelecimento de elos, etc.) que se faz a história; relação entre tempos (o ontem e o depois), sendo, todavia, esse depois, ou mais propriamente, “o homem de depois, que é o historiador”, a direção donde parte o esforço pensador para o estabelecimento da relação. Algo a que Marrou sintetiza numa imagem, numa fórmula:

Através dessa imagem, quero simplesmente colocar em evidência o fato de que, tal como em matemática, a grandeza da relação é algo completamente diverso de cada um dos termos correlacionados, assim a história é a relação, a conjunção, estababelecida, por iniciativa do historiador, entre dois planos de humanidade, o passado vivido pelos homens de outrora, o presente onde se desenvolve o esforço de recuperação desse passado [...]. [...] na história, esses dois planos só são inteligíveis no seio do conhecimento que os une. Não nos é possível isolar, exceto por uma distinção formal, de um lado um objeto, o passado, e, do outro, um sujeito, o historiador (MARROU, 1978, p. 32).

Salientando que essa “recuperação” não é (não deve ser postulada como) “ressurreição”. O “‘passado realmente vivido’, essa evolução da humanidade não é a história [...]. Ao readquirir vida na consciência do historiador, o passado humano torna-se outra coisa, depende de uma outra maneira de ser.” E uma “outra coisa”

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advinda justamente da capacidade de sentimento de “distanciamento” de que é capaz o historiador, ou, num termo, “sentido histórico”. Para Marrou, em suma, “a história é inseparável do historiador”, ou, numa definição: “a história é o resultado do esforço, num sentido criador, através do qual o historiador, o sujeito do conhecimento, estabelece essa relação entre o passado que ele evoca e o presente que é o seu.” (Marrou, 1978, p. 36-37, p. 45)

Da análise das reflexões (textos interventivos) e da criação literária de Saramago, compreendo que seu olhar em relação à história, sua admiração pelo pensamento e o trabalho historiográfico de autores como Georges Duby e Fernand Braudel, aproximam-se das reflexões de Marrou aqui trazidas. Para o historiador falhado (mas tentado), que ele diz ter sido, alguém que aprendeu nos bancos escolares uma história de datas e fatos, de nomes gloriosos e feitos monumentais (e monumentalizáveis), uma história a ser memorizada e reproduzida quando solicitada, não admira que o contato com uma história problematizante, uma história declaradora de seu lugar de partida (o presente do historiador que a faz), tenha lhe causado profundo impacto. E ainda mais quando esse modo de conceber a história, que, à sua maneira, herdara fundamentos da tradição marxista, tão cara a Saramago, aliava a essa herança, além de um novo modo de fazer história, o reclame da imaginação como um elemento fundamental, como uma importante ferramenta de uso nesse trabalho.

Não estava muito longe deste sentimento, suponho eu, o grande Georges Duby, quando escreveu na primeira linha de um dos seus livros: “Imaginemos que...”. Precisamente aquele imaginar que antes havia sido considerado o pecado mortal dos historiadores positivistas e seus continuadores de diferentes tendências (SARAMAGO, 2000, p. 13).

O “sentimento” a que alude Saramago, identificado por ele no pensamento e no trabalho de Duby, é o de se poder “buscar as potencialidades da ficção” para melhor construir nossas relacionações com o tempo passado por meio história (SARAMAGO, 2000, p. 12)

Pelo que aqui se leu, penso ter sido possível dar a ver como, em sua operação ficcional, o “historiador falhado” José Saramago não deixou de ceder às tentações de se fazer como o sapateiro do apólogo antigo e, desafiando o autorizado saber de Apeles, subir acima da chinela. E não para matar a história a golpes de ficção, mas para, como declarou, realizar seu trabalho de ficcionista como colaborador do historiador.

56 Referências bibliográficas

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Ainda o Nacional-popular? Nação Cariri e a reinvenção de um