A modalidade usada a título de procedimento metodológico foi a pesquisa participante, em que existe um pensamento comum aos pesquisadores que trabalham de forma engajada com os grupos sociais, que fazem parte do universo pesquisado, ou seja, a possibilidade de transferir conhecimentos para os interlocutores, a depender de qual seja o campo. De acordo com Borda (1986),
A potencialidade da pesquisa participante está precisamente no seu deslocamento proposital das universidades para o campo concreto da realidade. Este tipo de pesquisa modifica basicamente a estrutura acadêmica clássica na medida em que reduz as diferenças entre objeto e sujeito de estudo (BORDA, 1986, p. 60).
Pode-se entender que o processo de investigação realizado possibilitou a mobilização de alguns representantes da população local, tanto da sociedade civil, como do poder público, estimulando o interesse coletivo para uma discussão em torno do objeto analisado. Essa mobilização pode ser relacionada com a perspectiva de uma ação dentro da pesquisa. De acordo com Thiollent (1988),
Em geral, a ideia de pesquisa-ação encontra um contexto favorável quando os pesquisadores não querem limitar suas investigações aos aspectos acadêmicos e burocráticos da maioria das pesquisas convencionais. Querem pesquisas nas quais as pessoas implicadas tenham algo a dizer e a fazer (THIOLLENT, 1988, p. 16).
Neste sentido, a investigação das representações sociais sobre os riachos urbanos e a natureza na cidade foi realizada com instrumentos metodológicos que facilitaram a interação entre o pesquisador e os pesquisados: entrevistas, questionários e oficinas de grupos focais, compostas por sujeitos portadores de interesses diferentes.
Na escolha dos participantes para as oficinas de grupos focais, usou-se como referência a categoria de atores que Raffestin (1993, p. 143) chama “[...] ator sintagmático (ator que realiza um programa) em qualquer nível”. Neste caso o termo “sintagmático” não se refere a uma relação negativa de dominação entre sujeitos com cargos diferentes, o que levaria a inviabilidade da comunicação e do diálogo, mas se trata de sujeitos propositivos, sempre com a ideia de autonomia de cada um dos atores. Através da articulação em rede, o ator “paradigmático” – o citadino, que é um ator não engajado, que não participa da política, que não se articula nem mesmo para se tornar ativo e relevante na produção do espaço – pode se tornar “ator sintagmático”, engajado, participativo, reivindicativo, um ator que:
[...] manifesta, com precisão, a ideia de processo e de articulações sucessivas no interior do processo. Assim, todas as organizações da família ao Estado, passando pelos partidos, pelas igrejas e as empresas, são atores sintagmáticos. O ator sintagmático combina todas as espécies de elementos para “produzir”, lato sensu, uma ou várias coisas. O Estado é o ator sintagmático por excelência quando empreende uma reforma agrária, organiza o território, constrói uma rede rodoviária etc. A empresa é um ator sintagmático quando realiza um programa de produção. Isso significa que o ator sintagmático articula momentos diferentes da realização do seu programa pela integração de capacidades múltiplas e variadas. Esses atores sintagmáticos são, portanto, constituídos por atores-indivíduos que se integram ou são integrados num processo programado (RAFFESTIN, 1993, p. 40).
O que faz os atores se tornarem sintagmáticos é o fato de eles, nas articulações sociais, terem a capacidade e a autonomia para propor ideias e ações, no sentido de contribuir com as escolhas políticas governamentais que os atingem diretamente enquanto cidadãos.
A escolha dos sujeitos que participaram da pesquisa na composição de oficinas e em geral nas entrevistas ou conversas menos formais foi baseada no princípio que considera os atores/agentes relevantes. Vale, portanto, refletir sobre o que se entende por agentes sociais relevantes. Bijker et al (1989), ao se debruçarem sobre a construção social do conhecimento científico e tecnológico introduzem o conceito de agentes sociais relevantes, numa abordagem de desenvolvimento empírico, mas que produz conhecimento a partir dos agentes ou grupos sociais, procurando mostrar como diferentes significados atribuídos ao objeto de estudo podem sugerir diferentes linhas de desenvolvimento. Segundo esses autores (1989, p. 32, tradução nossa)11, “Outra questão que precisamos resolver é se um grupo social definido provisoriamente é homogêneo em relação aos significados atribuídos ao artefato”. Estes artefatos representam no nosso objeto de pesquisa o ponto de partida para a definição dos grupos envolvidos no processo empírico de investigação. De acordo com Bijker et al (1989, p. 34, tradução nossa)12, “Temos de ter uma descrição detalhada dos grupos sociais relevantes, a fim de definir melhor a função do artefato em relação a cada grupo”.
Para chegar a essa conclusão, Bijker et al (1989) dão ênfase a três tipos de relações: 1) entre os artefatos e os grupos sociais relevantes, ou seja, para cada artefato existem inúmeros grupos sociais de interesse; 2) entre os grupos sociais e os interesses, ou seja, cada grupo social demanda múltiplos interesses; 3) entre os interesses dos distintos grupos sociais e as soluções para os problemas. Com isso, para cada grupo social há vários problemas, e para cada problema, várias soluções. A finalidade de trabalhar no sentido da articulação dos sujeitos envolvidos, não é somente gerar conhecimentos através da troca, mas é antes de tudo provocar ou reforçar o interesse em participar de discussões sobre determinados assuntos que envolvem diretamente suas vidas; a prática dos encontros em grupo possibilita
11
Another question we need to address is whether a provisionally defined social group is homogeneous with respect to the meanings given to the artifact.
12
We need to have a detailed description of the relevant social groups in order to define better the function of the artifact with respect to each group.
essa meta. Para Cardoso (1986),
A relação intersubjetiva não é o encontro de indivíduos autônomos e auto- suficientes. É uma construção simbólica que supõe e repõe processos básicos responsáveis pela criação de significados e de grupo. É neste encontro entre pessoas que se estranham e que fazem um movimento de aproximação que se pode desvendar sentidos ocultos e explicitar relações desconhecidas (CARDOSO, 1986, p. 103).
Falar de ‘encontro entre pessoas’ significou, neste estudo, estabelecer relações entre os diversos sujeitos e grupos. Com esse intuito foi escolhido o grupo focal como procedimento de investigação que, baseado na proposta de Morgan (1996; 1988), consiste num pequeno grupo de sujeitos que se debruça coletivamente sobre uma determinada questão, podendo-se também enquadrar quase como uma entrevista coletiva, com a diferença de que no grupo focal não existem perguntas diretas postas pelo pesquisador para os participantes, mas sim um diálogo livre entre os participantes, onde as opiniões de cada pessoa são formadas e expressas também a partir de ideias, provocações, sentimentos e pontos de vista dos outros participantes. Por isso que, diferente das entrevistas, a interação entre os participantes no grupo focal é fundamental para gerar os dados qualitativos da pesquisa.
O conjunto dos materiais obtidos a partir dos questionários, entrevistas e grupos focais foi analisado e interpretado para desvendar as representações sociais e os outros elementos utilizados para revelar as lógicas de pensamento. Para isso se fez necessário utilizar o procedimento da análise do discurso, que “[...] visa fazer compreender como os objetos simbólicos produzem sentidos, analisando assim os próprios gestos de interpretação que ela considera como atos no domínio simbólico, pois eles intervêm no real do sentido” (ORLANDI, 2010, p. 26).
Mas esse tipo de análise não se restringe à livre interpretação, ela busca saber como funcionam os processos de interpretação, quais são e de onde vêm os elementos que podem construir as interpretações, já que a dimensão simbólica dos espaços, objetos, fatos e relações humanas possibilita sempre dar algum sentido às coisas. Assim, ao analisar o discurso que alguém faz sobre um determinado assunto, acontece inevitavelmente um processo de interpretação livre e espontâneo que pode atribuir significados sempre novos e diferentes.
Entre os métodos que podem guiar em linhas gerais os processos interpretativos, utilizou-se a análise do discurso, e Orlandi (2010) propõe um
“dispositivo de análise” que pode orientar o processo de interpretação nos mais variados contextos de leitura.
Esse dispositivo tem como característica colocar o dito em relação ao não dito, o que o sujeito diz em um lugar com o que é dito em outro lugar, o que é dito de um modo com o que é dito de outro, procurando ouvir, naquilo que o sujeito diz, aquilo que ele não diz, mas que constitui igualmente os sentidos de suas palavras (ORLANDI, 2010, p. 59).
Significa dizer que as informações obtidas num questionário ou numa entrevista não se esgotam naquele produto, a entrevista, já que este é mais um levantamento de dados do que um resultado ou um procedimento de análise. A análise do discurso leva em consideração tanto as informações concretas, quanto as subjetivas. Além disso, neste estudo os dados qualitativos vêm também de outras fontes como as falas nas oficinas, as matérias jornalísticas nos blogs, sites, jornais e rádio locias e, sobretudo, as conversações com os moradores da cidade.
2 O PERCURSO HISTÓRICO DAS ATITUDES HUMANAS SOBRE A NATUREZA NA CIDADE
Sendo que em princípio os riachos urbanos de Juazeiro-BA eram belos ambientes naturais cheios de vida, com o crescimento urbano e sem a cultura do bom relacionamento com a natureza, foram desprezados e transformados em canais de despejos. Mas, apesar de alterados, continuam constituindo elementos naturais na cidade; daqui a necessidade de abordar o tema da natureza.