• Aucun résultat trouvé

Introduction to active monitoring

A enfermagem enquanto profissão só existe na perspectiva relacional: relações entre si (equipe de enfermagem); com o ser cuidado (pessoa hospitalizada, paciente, cliente, usuário, família); institucionais e com a equipe de saúde. Relações plurais em que a enfermeira no desempenho de suas funções, precisa da comunicação para relacionar-se com as pessoas das várias equipes existentes nas instituições de saúde, bem como para estabelecer uma relação de cuidado com a pessoa adoecida e sua família.

Nesse sentido, fazendo uma analogia à ideia de Maffesoli (2010a, p.66), é na complexidade das relações que se identificam as “minúsculas criações que constituem a trama da socialidade que repousam sobre essa pluralidade funcional”. Pois é na vida quotidiana que encontramos uma “multiplicidade de situações de diversos entrecruzamentos, de atividades comunicacionais e instrumentais”.

A enfermagem de origem feminina e do cuidado caritativo está imbricada numa

socialidade mecânica, em microgrupos que Maffesoli denomina de tribos que nem

sempre se apoiam numa lógica de identidade (MAFFESOLI, 2010a).

A lógica de identidade da instituição de saúde está para a ordem da cura, enquanto que a da enfermagem está para o cuidado. A instituição de saúde num espaço/tempo comporta dimensões do real, do fantástico, da ficção, da dualidade e da banalidade. É nesse espaço que de acordo com o tempo (período) que vivenciamos o avanço tecnológico, as experiências, a consolidação do conhecimento, os sonhos na cura e as relações têm sido pouco valorizados. Neste espaço recria-se o conflitual numa

possibilidade de vir a ser lugar de promoção da vida, que é marcado por jogos de poderes instituídos e instituintes (GIRONDI; HAMES, 2007).

Segundo Meyer (2001), a enfermagem, nesse contexto, inicia discussões e testagens de novas formas de entendimento, configurando a contemporaneidade, marcada por crises e incertezas nos diversos segmentos da sociedade. Sendo assim, de acordo com Ramminger e Nardi (2008), o trabalho não deve ser visto apenas como as relações com a técnica voltada para a produção e dominação, mas a maneira como os sujeitos vivenciam e dão sentido as suas experiências no seu quotidiano, que variam de acordo com o contexto social, histórico, econômico e cultural.

Nessa perspectiva, a enfermagem desponta na pós-modernidade como profissão que apresenta uma pluralidade de ações inseridas nos diversos segmentos institucionais, ampliando as possibilidades de atuação, no entanto, a enfermagem ainda, como no passado, se depara numa crise de identidade que repercute na autonomia profissional. As escolhas das enfermeiras e as tomadas de decisões refletem sua identidade.

No estudo de Araujo Netto e Ramos (2004 p. 53), quando pesquisavam sobre a identidade do enfermeiro no cotidiano de trabalho, mostraram que a construção dessa identidade se apresentava “repleta de sentidos, dentre os quais uma qualidade própria deste espaço e tempo, fundada na dimensão cotidiana da vida, interiormente experienciada como realidade dominante”. O fazer diário do enfermeiro se apresentou “repleto de tensões/conflitos e de elementos normatizantes/estruturantes - através dos quais o caos é contido e o ser trabalhador constitui suas ações em hábitos”.

Dessa forma, percebemos que o enfermeiro diante das estruturas apresentadas pelas instituições de saúde se adequam as normas político-institucionais. Essas permeiem as relações e ações do seu quotidiano, mesmo que não satisfaçam suas necessidades e não respondam suas inquietações profissionais. É neste espaço que o profissional se mantem num ir e vir, permitindo que seja construída a imagem do enfermeiro dominado, caritativo. A posição que ele ocupa no grupo de cuidado à saúde recebe influências dessa imagem.

A identidade da enfermeira no trabalho institucionalizado é corporificada numa tipificação de papel: social, cultural e historicamente constituída. (ARAUJO NETTO e RAMOS, 2004). As configurações e reconfigurações presentes no cotidiano do trabalho da enfermagem, num constante ir e vir (devir) ainda encontram-se fortemente marcadas pela influência do cuidado fragmentado técnico assistencialista, onde a socialidade pós-

moderna não investe mais no dever ser, mas naquilo que é aqui entendido como a exigência do mercado (LEMOS, 1997).

Segundo o mesmo autor citando Baudrillard (1985), a socialidade encontra suas forças na astúcia das massas, marcada por uma espécie de passividade ativa, intersticial, subversiva, e não por um ataque frontal de cunho revolucionário, ou seja, “antes de lutar contra o sistema, nós estamos ignorando-o” (LEMOS, 1997 p. 16).

Nesse contexto, o processo de cuidados prestado pela enfermeira ainda se apresenta hierarquizado, disciplinar, verticalizado e sobrecarregado de funções. Evidenciamos uma inquietação e uma tentativa de revalorização do cuidar, capazes de resgatar a totalidade do ser humano e possibilitar a construção de eixos teóricos e práticos. Esses eixos distanciados do mecanicismo possuem a finalidade de valorizar a subjetividade, a complexidade e a integralidade da assistência (PESSOA JUNIOR; NOBREGA; MIRANDA, 2012, p. 605).

A redescoberta da subjetividade ocorre na valorização do encontro com o outro onde se delineia as formas de cuidar na contemporaneidade. O objeto de trabalho da enfermagem passa a ser o sujeito, que é receptor e participante das ações do cuidado. Essa nova percepção ainda permeada pelos ideais do tempo anterior já começa a dar sinais de uma necessidade de repensar os cuidados de enfermagem na atualidade.

Considerando a subjetividade nas nossas relações identificamos que a subjetividade permite pensar com base na indissociabilidade entre individual e coletivo, interior e exterior, dentro e fora, indivíduo e sociedade, rompendo com as dicotomias que tradicionalmente marcaram essa disciplina. A raiz não só da palavra, mas, sobretudo, do conceito “subjetividade”, remete à experiência de sermos sujeitos, no duplo sentido da palavra (aquele que é submetido e aquele que realiza a ação), em cada tempo e em cada contexto (SZNELWAR et al., 2011).

A subjetividade é o modo pelo qual o sujeito faz a experiência de si mesmo em um jogo de verdade. O conhecimento e o cuidado de si são percebidos pelos indivíduos através da sua relação com o conhecimento teórico e com a transformação espiritual. (GROS, 2012). A pessoa se reconhece pertencente a um lugar de saber e de produção de verdade através das práticas, das técnicas, dos exercícios, num determinado campo institucional e numa determinada formação social (FISCHER, 1999).

A produção da verdade no encontro com o novo paradigma gera incertezas, entretanto, identificamos fortemente as novas tendências em todas as nossas relações e principalmente no trabalho. Dessa forma, é urgente o retorno do cuidado como

libertador e nos livrarmos da “acomodação, apagamento das subjetividades e inaugurar um cuidado que priorize a liberdade de criação dos sujeitos” (MACHADO et al., 2009 p. 1032).

Dessa forma, segundo Collière (1999), o processo de cuidados delineia-se a partir daquilo que se descobre, manejando as informações provenientes da situação, decodificando-as com ajuda dos conhecimentos para compreender o seu significado e como os utilizar nas ações de cuidar.

A descoberta das informações referentes ao processo de cuidados só é possível através do processo de interação, relação que ocorre no espaço e no tempo em que se encontra o sujeito. Nesse processo, a disponibilidade e envolvimento do profissional se faz necessária para a efetivação do dever-ser e do precisa-ser no contexto da enfermagem.

Assim, é na relação e interação com o outro, que o trabalho da enfermagem se apresenta de forma criativa. É sempre o fazer que deve ser julgado, e não o ser (RAMMINGER, NARDI, 2008). No entanto, a enfermeira durante suas relações com ser receptor do cuidado, usualmente, manifesta suas realizações em expressões sensíveis. Sua vivência se constitui num importante elemento de sua forma de ser manifestado através de uma sensibilidade experienciada e nas relações estabelecidas por ela (ARAUJO, RAMOS, 2004).

Nesse sentido, segundo Maffesoli (2010a), o fazer e o ser não devem ser qualificados de forma normativa, mas basta reconhecer que não é fácil evacuar da estruturação individual, assim como da estruturação social tudo aquilo que nos liga ao primitivo, e que essa dicotomia pode ser entendida como indícios de um enraizamento numa ordem mais ampla na qual se associam a razão e a paixão.

Dessa forma, podemos compreender as divergências encontradas no processo de cuidado da enfermagem que vem tentando submergir do modelo biomédico enraizado na cultura. O modelo tecnicista, fragmentado, ora se associa ora se contrapõe ao holismo apregoado na contemporaneidade. Nesse contexto, o holismo estuda o todo sem dividi-lo, examina-o em sua totalidade, agrega as partes sem interligá-las, mas correlacionando-as (MORIN, 2000).

O processo de cuidado agora se afirma e se firma numa intrínseca teia de atitudes e relações. De um lado observam-se os aspectos ligados às condições mais amplas e estruturais ligadas ao sistema econômico, as políticas, as crises e a própria

pós-modernidade e do outro as condições singulares, que se referem ao ato em si do cuidado, ao encontro interpessoal (MACHADO et al., 2009).

Segundo Girondi e Hames (2007, p. 370), o cuidado de enfermagem como ação dialógica precisa ser observado nas relações que envolvam “o respeito, a cumplicidade, a amizade e uma ética da estética, ou seja, elementos necessários para a manutenção e renovação de cada corpo individual, vividos num tempo fundamentado na lógica do presente, da conjunção, da reversibilidade, da mistura, da heteronomia, numa razão sensível”.

A relação entre o ser que cuida e o ser cuidado não tem razão de ser se não se enraizar no modo de viver de cada um, levando em consideração sua doença, e suas limitações. O processo relacional do cuidar ocorre através da descoberta-elucidação- ação e possui uma competência diferente e complementar. Visa encontrar uma realização a partir das capacidades e recursos de cada um (COLLIERE, 1999). Esse cuidar fundamentado no processo relacional é prestado com o intuito de tornar o individuo liberto das necessidades de cuidado.

As relações da enfermeira no ambiente de cuidado devem priorizar o “estar- disponível” diferentemente do estar-com, onde o estar disponível requer conhecimento das necessidades da pessoa adoecida que só pode ser apreendida através de um relacionamento entre essa e sua família numa perspectiva holística. (WALDOW, 2004).

No entanto, ainda observamos nas nossas práticas assistenciais e acadêmicas, um cuidado voltado para a tecnicidade, à especialidade que fortalece a fragmentação do cuidado. Comportamento que pode ser justificado em decorrência da influência do modelo biomédico e dos modos de produção que valoriza as ações técnicas em detrimento das relações interpessoais nas instituições de saúde.

Nas instituições de saúde os profissionais desenvolvem suas atividades em cenários modulados por decisões de outros e que de alguma maneira determinam aquilo que deve-ser feito. São eles que definem os preceitos organizacionais que pautam as relações dentro de determinada organização, definem as tarefas e a maneira como os sujeitos serão avaliados (SZNELWAR et al., 2011).

Esse tipo de produção racionalizada, expansionista, centralizada, espetacular e barulhenta apresenta um fazer qualificado como consumo que se caracteriza pela astúcia, mostrando-se numa quase-invisibilidade, pois dessa forma, não consegue dar

visibilidade ao seu produto, mas pela arte de utilizar os sujeitos através da imposição (CERTEAU, 2008).

Nesse contexto, trabalhando em cenários nos quais parte significativa das suas possibilidades de agir é definida de modo heterônomo, cabe aos sujeitos negociar suas margens de manobra e constituir coletivos nos quais poderão encontrar espaços para criar formas de solidariedade e de cooperação (SZNELWAR et al., 2011).

A estrutura rígida das organizações e o processo de trabalho, não devem ser compreendidos como impeditivos das ações de cuidados voltados para a solidariedade e cooperação, visando o holismo. Fazendo uma analogia a ideia de Maffesoli, (2010a p. 13) “[...] a não participação política são como índices de perda do individualismo e do social num confusional societal indefinido”.

Cuidar em enfermagem é um desafio individual no qual os sentimentos de fracasso não devem ser tratados como um reflexo exclusivo de características pessoais. Estão em jogo relações de poder e dominação. No entanto, trabalhar na enfermagem exige compaixão, nada se pode fazer com relação ao outro se a subjetividade não for mobilizada. É evidente que não se trata de uma profissão em que se possa “cumprir procedimentos” sem se deixar invadir pelo outro, pelo sofrimento do outro. Exigir que a enfermagem se atenha exclusivamente ao “técnico”, “procedimental”, portanto frio e exclusivo do mundo da tarefa, seria destruir um dos pontos centrais da profissão que é o sentir junto. São fundamentais na constituição deste corpo de profissão, sobretudo, poder compartilhar com colegas e valorizar este aspecto torna-se importante para evitar um processo de reificação dos trabalhadores e também das pessoas que necessitam de cuidados. O que fazemos é com os outros e para os outros (SZNELWAR et al., 2011).

O corpo de enfermagem, enquanto categoria profissional apresenta-se fragmentado dentro da própria equipe, no qual enfermeiras, técnicos e auxiliares de enfermagem, se conformam numa divisão manual e intelectual do trabalho historicamente definidas. Na enfermagem, essas transformações deixaram de lado o caráter religioso, atribuído originalmente às suas práticas, onde as leigas e religiosas foram substituídas por profissionais de enfermagem que parcelam suas atividades, dividindo-as entre as mais e menos qualificadas. Os atos técnicos e socialmente mais qualificados, herdados por sua vez dos atos médicos, ficam com os enfermeiros, que gerenciam o cuidado e o supervisionam. Os técnicos e auxiliares de enfermagem de nível médio executam o trabalho menos qualificado, expondo-se mais tempo aos enfermos. Além de conviver mais tempo com os enfermos, os técnicos e auxiliares os

acompanham mais de perto, anotam suas reações ao tratamento cumprindo a estratégia de vigiar a vida e a morte dos internados, que é, em si, a atribuição de todos no hospital (PITTA, 1999).

Essa divisão do trabalho na enfermagem, relacionada ao saber científico, intelectual e ao manual, pode ser entendida como um microgrupo ao qual a enfermeira também estabelece relações e inter-relações no cotidiano de cuidado, muitas vezes através de uma solidariedade mecânica fortemente marcada pela hierarquia e pelo poder.

No misto do saber, fazer e do poder podemos identificar a fissura das relações e do produto do trabalho da enfermeira que se transforma na gerente do cuidado, distante fisicamente do sujeito. Não que este trabalho não apresente relevância nos cenários de cuidado, no entanto esta forma de gerenciamento deve ser pautada na interação entre os envolvidos. Desse modo, utilizando as ideias de Maffesoli (2007 p. 35), a ligação do saber com o poder leva ao triunfo de uma semi-cultura midiática, designando o contrário do que é invocado, transformando o saber instrumentalizado numa verdadeira ignorância.

Nas relações entre as enfermeiras e equipe de enfermagem existe uma hierarquização que leva consequentemente a uma subordinação. Essa equipe é controlada e comandada pela enfermeira que planeja, distribui tarefas e supervisiona sua execução. Essas relações podem às vezes tornar-se conflituosas, no entanto as enfermeiras que desenvolvem um comportamento de cuidado podem influenciar não somente a equipe de enfermagem, mas aos envolvidos no processo de cuidar (WALDOW, 2005).

A posição hierárquica que a enfermeira assume na equipe de enfermagem lhe confere poder, tanto dentro da equipe como em relação ao cuidado. Um poder que segundo Foucault (1984), pode ter características de repressão com consequente comodidade, mas por outro lado é a base para as relações de confronto das forças. A relação de confronto das forças na visão de Maffesoli (1981) refere-se à potência que não deixa de ser uma forma de poder, nem sempre associada à dimensão do político instituído, mas é uma força que orienta a ação tanto na esfera da contaminação de ideias como através de articulações individuais e coletivas.

Utilizando as referências de Foucault e Maffesoli sobre poder e potência e fazendo uma associação ao papel da enfermeira nos cenários de cuidado, podemos inferir que a posição ocupada por ela na equipe de enfermagem propicia as táticas de

mudança nas ações de cuidado. A articulação da tecnicidade necessária às práticas da profissão à sensibilidade inerente as situações vividas pelas pessoas que buscam atendimento nestes cenários fortalecem as táticas de mudança.

Quando o “valor da vida”, aqui entendida como as ações para propiciar a cura utilizando cuidados técnicos, dá lugar ao “valor da utilidade” no sentido de considerar a sensibilidade nas relações, assistimos o valor da degenerescência (adulteração). Numa analogia as ideias maffesoliana são urgentes à utilização de uma tática de reconciliação com os outros e com este mundo, que com eles compartilhamos (MAFFESOLI, 2007).

Desse modo, a liderança da enfermeira no cenário do cuidado de enfermagem pode se constituir numa experiência fundamentada na relação com o outro, através da qual um e outro, se apresentam como sujeitos. Contudo, seria artificial não considerar que o encontro do outro se dá em um cenário carregado de obstáculos externos e internos. A atuação da enfermeira enquanto líder pode promover estratégias que determinem um bom desempenho interdisciplinar com criatividade e ética nas relações (MENDES et al., 2000).

Dessa forma, as relações e interações no quotidiano precisam ser privilegiadas uma vez que cada elemento, nesse contexto, possui sua individualidade e importância nas várias maneiras de dever-fazer, dever-ser nesse espaço coletivo, mantendo-se mais atentas para o que precisamos-ser.

O quotidiano do cuidado da enfermagem observados da modernidade até a pós- modernidade sofreu influências das transformações políticas, sociais e econômicas. O cuidado de origem caritativa e feminina, entendido como sensível, evoluiu para o cuidado que privilegiou a especialização, a tecnicidade, a fragmentação da pessoa. Nesse contexto, as discussões e estudos em tempos pós-modernos tem buscado resgatar a sensibilidade inerente ao processo de cuidados.

Um resgate que envolve as atividades técnicas da enfermagem, essencial a sua competência enquanto profissional e a sensibilidade do cuidado às pessoas adoecidas e suas famílias. Nesse sentido, é que a busca da subjetividade presente nas pequenas coisas no quotidiano do cuidado da enfermagem são repletas de importância, fazer essa congruência precisa ser a meta desses profissionais enquanto cuidadores, em tempos pós-modernos.

CAPÍTULO 5