INTERFERENCES AVEC LE DIALECTE
5.2. INTERFERENCES PHONETIQUES
5.2.1. Interférences avec le système vocalique dialectal
Dois anos após o nascimento de Armando Artur (na província da Zambézia), em 1964, se daria início à Guerra da Independência pela libertação de seu país, resultado da revolta pela perda da identidade cultural, pelo desprezo e desrespeito ao povo. Moçambique estava cansado da política do colonizador português, uma vez que os africanos165 tinham acesso restrito à educação e ao emprego.
A independência obtida em 1975, em vez de ser uma era de prosperidade para o país foi, de fato, um pesadelo ainda maior, pois seguiu-se quase de imediato uma guerra civil. Após a Independência, a disputa entre FRELIMO166e RENAMO167gerou instabilidade, ainda
164Proust, M. (1992:151). 165Newitt, M (1997:450). 166Ibid., 465.
com mais impacto do que durante a época colonial, reduziu a economia, aumentou o número de mortes, de pessoas famintas e miseráveis, e levou à destruição parcial do país, acrescida de catástrofes naturais como as cheias e a seca, que muito contribuíram para aumentar a fome e desestabilização da economia rural.168
De acordo com Newitt, há vários fatores responsáveis pela decadência de Moçambique:
Os alvos principais da Renamo foram a população rural. Atacou aldeias comunais e cooperativas, infra-estruturas sociais como hospitais, escolas e edifícios governamentais e as instalações da economia rural, como os edifícios e os armazéns das plantações.169– Mas grande parte da actividade da Renamo consistia
em tácticas de terror. Homens, mulheres e crianças eram massacradas ou mutiladas, e os jovens e os rapazes com frequência raptados e obrigados a cometer crimes horríveis a fim de os iniciarem na mentalidade dos bandos da Renamo.170– o
banditismo e as chefias militares sempre se tornaram mais agudos durante os períodos frequentes de seca em que a frágil base agrícola do campesinato nas zonas mais secas sofre uma quebra e as pessoas famintas são levadas ou a tornar-se bandidos ou a submeterem-se a domínios dos chefes militares.171
Em 1992, veio o acordo de paz172e hoje Moçambique luta para superar a catástrofe ocorrida em todo o país.
A poética de Armando Artur seduz pela capacidade em articular as palavras ou “sílabas”, como atesta o próprio poeta: E sílabas relampearam no verso do poeta.173O poeta aborda nas obras, O Espelho dos Dias (1986), O Hábito das Manhãs (1990), Estrangeiros de
Nós Próprios (1996), Os Dias em Riste (2001), A Quintessência do Ser (2004) e No Coração da Noite (2007) fatos históricos, políticos e sociais (na esteira da revista Charrua), bem como
a preocupação por uma poética que não descura elementos do conflito civil ocorrido na sua pátria. E apresenta fundamentação desta atitude poética, e da missão de um poeta em vigília, ou seja, atento ao seu tempo e à história social e política do seu país.
O poder de observação (social e histórico) e o engenho do poeta zambeziano torna-o por excelência porta-voz de um dos períodos marcantes para a história da sua nação (a Guerra Civil), expressa na sua escrita, frequentemente, através da metonímia (o efeito pela causa). O sujeito poético evidencia por vezes uma atitude de desencanto, de incerteza, refletindo também o estado emocional da sociedade moçambicana. A sua produção poética transforma- se, neste sentido, numa mensagem de amor e de sonho, e tem toda uma intenção
168Newitt, M (1997:484). 169Ibid., 483. 170Ibid., 486. 171Ibid., 490. 172Ibid., 489. 173Artur, A. (2004:36).
argumentativa sobre a problemática social do homem. E em particular o homem moçambicano.
Se tivermos em conta as reflexões filosóficas de grandes pensadores como Sócrates e de seus seguidores como Platão, constatamos nos poemas de A. Artur um pendor para a reflexão discursiva, filosófica, com um tom coloquial, encenado por certa teatralidade.
A poesia é o fio condutor de Armando Artur, que relata de uma forma sintética, no seu singular processo intelectual e criador (de forma subentendida), a barbárie ocorrida, e mostra o cenário destrutivo, consequência histórica e social do seu país. Por outro lado, a poesia é apresentada como breves quadros da realidade quotidiana, onde África, simbolicamente, é o tema central: Ar/céu (horizonte) – papagaio de papel que voa (jogo infantil) … hoje, o meu
sonho/ tem a forma dum papagaio/ que voa até se desprender/ no horizonte;174 Sol: …
(oferto-vos, pois nasceram/na alvorada – à luz do sol nascente);175Céu/terra: … no remanso
da aurora/ chega-me o perfume adocicado/ das espigas de milho;176Ar/ céu e água/ olhos de
forma implícita: … e marcando um ponto de vida/no arco-íris da nossa insónia/ eu aprendia
no azul dos teus olhos/outra maneira de ser.177E sobretudo o amor à pátria e também ao
próximo: … (é esta urgência de amar/ mesmo não sabendo se a ti ou a mim).178
Certa desilusão, marcante nos seus versos, pode ser associada a vários aspetos da vida humana: solidão, medo, família, pátria (desestruturada e sem rumo). Tendo em conta esta situação, o poeta A. Artur defende atitudes de solidariedade em relação ao apoio coletivo para superar o passado, tendo em mente que é necessário manter o sonho e a utopia.
Esta dimensão filosófica mostra um poeta consciente do seu dever cívico e a preocupação com o bem-estar de outros. A. Artur adota uma postura crítica e reflexiva ao incluir, em sua obra, a influência artística ou poética de forma implícita e explícita, tais como os diálogos socráticos, a mitologia grega, a Bíblia, ou, noutra dimensão intertextual, a poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen e de Eugénio de Andrade. Existem também referências mais breves a Camões, Fernando Pessoa e também a poetas franceses e ainda à escrita de compatriotas, Alberto de Lacerda e Glória de Sant’Anna,179entre outros. Porventura, bebeu de todos o gosto pela palavra singela e pelo verso curto e musical, mas com enorme expressividade poética, filosófica e social. A este propósito, afirma Sophia, sobre a criação poética: 174Artur, A. (1990:8). 175Artur, A. (1986:9). 176Artur, A. (1990:10). 177Artur, A. (1986:35). 178Artur, A. (2002:11). 179Leite, A. (2003:148).
Se o poeta diz “obscuro”, “amplo”, “barco”, “pedra” é porque estas palavras nomeiam uma visão do mundo, a sua ligação com as coisas. Não foram palavras escolhidas esteticamente pela sua beleza, foram escolhidas pela sua realidade, pela sua necessidade, pelo seu poder poético de estabelecer uma aliança.180