Para a análise e discussão dos dados deste estudo, adotamos o que Maffesoli (1984), propõe como categorias para análise da vida quotidiana, fortemente marcada pelos rituais, constituindo o verdadeiro cenário da cena social. O social é afrontado pelo
instante vivido em toda sua concretude, considerando as nuances do tempo real e tempo histórico, assim como a ambiência. Assim como algumas categorias do quotidiano: a transgressão do instituído/injuções, o jogo de socialidade, o tribalismo, a aceitação do destino, a ordem da diferença, a aparência, o cinismo, a astúcia, o duplo jogo, a teatralidade da vida e as máscaras da vida.
Apesar de termos utilizado três técnicas de coleta dos dados, vale ressaltar que não se trata de uma triangulação, mas sim, de uma associação que deram origem as imagens que foram tecendo e fortalecendo a tese que se mostra nas linhas e entrelinhas da escrita, partindo do que fora explicitado pelos participantes.
Assim como a partir dos dados das entrevistas utilizamos a Análise de Conteúdo Temática, que Bardin (2011, p. 105) define como: “a unidade de significação que se liberta naturalmente de um texto analisado segundo critérios relativos à teoria que serve de guia à leitura”. Nesse estudo, a unidade de significação foi associada às categorias do quotidiano discutida através do método de análise da Sociologia compreensiva proposta por Maffesoli.
Na Análise de Conteúdo Temática o conceito central é o tema que comporta um feixe de relações e pode ser graficamente representado por uma palavra, uma frase, um resumo. “Consiste em descobrir os núcleos de sentido que compõem a comunicação e cuja presença, ou frequência de aparição pode significar alguma coisa para o objetivo analítico escolhido” (BARDIN, 2011, p. 105).
Para as inferências e interpretações, conforme prevê a análise temática, nos embasamos no referencial teórico sobre o quotidiano e da sociologia compreensiva de acordo com os pressupostos de Michel Mafessoli. Desse modo, a Análise de Conteúdo Temática nos permitiu compreender nas falas do familiar acompanhante as facetas do quotidiano no cenário de cuidado no ambiente hospitalar. Suas inter-relações, relações com as pessoas hospitalizadas e equipe de enfermagem no ambiente em que o cuidado é vivido.
Segundo Nascimento (1995), compreender implica em perceber uma ação que parte do centro que a anima, significa apreender o outro por meio do eu. Significa buscar uma possibilidade de entendimento onde o outro não é aquilo que o eu é projeta nele, mas uma parte do eu igual e diferente, pois se trata do outro.
Sendo assim, compreender o quotidiano dessas famílias num espaço social específico, no ambiente hospitalar, não foi tarefa fácil, pois este quotidiano pode estar
concentrado por meio de ações e relações entre estes indivíduos numa dinâmica de ser- conjunto, societal, estabelecidas através de uma organicidade pautada na solidariedade.
Para Maffesoli (1987, p. 194), o quotidiano se apresenta por meio da fala, do riso, dos gestos, os quais se esgotam nos próprios atos, impregnam o dia a dia, e são vividos no presente e nele se esgotam, é a ética do instante, do aqui e agora. O quotidiano se mostra como uma complexa rede entre o aqui e agora, a junção do dito antigo ao novo, a repetição de atitudes que reporta e permite a ideia de simplicidade, e banalização deste, mas com a observação dos fenômenos que aparentemente se repetem, estamos reaprendendo e evoluindo no processo de viver.
As categorias de investigação que estavam presentes na solidariedade orgânica desses grupos que foram apreendidas através das falas dos atores e da observação durante a entrevista semiestruturada são: a duplicidade, a artimanha, a teatralidade, o cinismo, o jogo duplo, a máscara, a astúcia e o silêncio.
Assim, para analisar os dados elencados durante todo o processo da pesquisa, desenvolvemos o processo cujos momentos descrevemos a seguir:
6.6.1 – Pré-análise
A realização da pré-análise consistiu numa “leitura flutuante” de todo material coletado e transcrito, no qual nos deixamos invadir por impressões e orientações, fazendo com que aos poucos a leitura fosse ganhando clareza para posterior compreensão e análise.
Obedecemos a seguinte sequência: decomposição do material em partes (temas); distribuição dos temas em categorias; descrição dos resultados da categorização; inferência; e interpretação com o auxilio do referencial teórico (GOMES, 2010).
As observações da dinâmica relacional foram registradas no roteiro de observação. Após a descrição do que foi observado no quotidiano desses familiares, identificamos as proximidades, as repetições, as interações e relações nos três cenários estudados. Através da observação foi possível identificar e compreender os vínculos estabelecidos entre os envolvidos no cuidado.
6.6.2 Categorização
Inicialmente as categorias primárias foram identificadas através das falas dos participantes do estudo. Essas categorias foram confrontadas com as notas teóricas, metodológicas, reflexíveis e interativas obtidas através da observação. Obtendo-se as categorias geradas pela proximidade de diferenças e ideias que deram origem aos temas. Os temas agrupados deram origem às categorias do quotidiano.
Os resultados obtidos com o mapa de rede social significativa foram utilizados para confirmar a tese da formação do grupo social específico a partir da hospitalização de um membro da família, pelos seus acompanhantes familiares. Através da sua análise foi possível fortalecer os indícios de formação de grupos sociais, microagrupamentos que se estabeleceram em decorrência da similaridade do vivido no ambiente de cuidado, assim relações de proximidade e, os vínculos entre os atores e sua rede de apoio significativa.
Surgiram vários temas que agrupados representam os elementos do quotidiano desses familiares. Apresentamos as categorias analíticas e do quotidiano que emergiram a partir da análise dos dados.
Desse modo, para melhor compreendermos o quotidiano dos familiares acompanhantes apresentaremos os resultados em duas conjunções: I – O Quotidiano sendo desvelado: vínculos dos atores na dinâmica dos cenários; e II – Desvelando as categorias do quotidiano.