Com base no processo criativo da videodança “MERGULHANDO” neste trabalho de conclusão de curso, o que se pretende é compreender as formas estruturantes que se organiza na feitura da videodança. Nessa perspectiva, a utilização dos métodos empregados para criação dos roteiros cinematográficos e de vídeo são referência na criação da videodança apresentado como produto artístico final oriundo das reflexões e estudos acerca da videodança.
Neste sentido, o caminho trilhado para realização da videodança foi expandido graças aos métodos de construção do roteiro literário e roteiro técnico. Esses métodos possibilitam a criação - através da língua escrita - das imagens que serão captadas no processo de filmagem, definindo planos, enquadramento, montagem das cenas entre outros procedimentos.
Todos os roteiros pretendem contar uma história. Mas, ao contrário dos livros narrativos, as histórias escritas para roteiros cinematográficos, utilizam, primordialmente, recursos visuais. São as imagens, enquanto linguagem, que fazem o fio condutor para a compreensão do enredo. Então, nesse caso, as narrativas não se sustentam por si só. (CAMPOS, 2008. p. 22).
Na construção dos roteiros visando à produção da videodança, no presente trabalho realiza-se o processo de decupagem do roteiro, ou seja, são feitas alterações e mudanças necessárias à criação e efetivação das ideias. Esse procedimento contribui para esclarecer e refinar as ideias que surgem no papel, bem como corrobora para produção da videodança.
FORMULAÇÃO DA IDEIA PARA A VIDEODANÇA “MERGULHANDO”
Antes da construção dos roteiros, é importante que a ideia sobre a videodança, seja clara, objetiva e imageticamente formulada. Assim, no ato criativo dos roteiros, a fluência na construção técnica da escrita é facilitada.
Dessa forma, foi feita uma pesquisa antes da construção dos roteiros da videodança a fim de utilizar de forma coerente os conceitos relativo às relações tecidas no passado e no presente entre o corpo e a tecnologia e como a dança dialoga de forma colaborativa com o suporte tecnológico, visando produzir obras em vídeo .
A ideia motriz para a realização desta videodança, parte da experiência e das vivências compartilhadas como discente do curso de Licenciatura em Dança da UFRN e dos estudos na condição de aluno de iniciação científica junto ao Grupo de Pesquisa intitulado: Linguagens da Cena, Imagem, Cultura e Representação. Os conhecimentos e pesquisas realizadas acerca da relação da dança e da tecnologia na iniciação científica são fatores responsáveis pelo interesse na videodança.
Inicialmente, na criação do roteiro, cria-se o personagem, assim, este é o autor do presente trabalho que interpreta as ideias propostas do trabalho “MERGULHANDO”. Essa opção advém da constatação de que as experiências e experimentações fazem parte do aprendizado empírico do autor. Portanto, acredita- se que a criação e a realização das cenas poderá ser feita de maneira mais orgânica e compatível com os objetivos pretendidos pelo criador.
O roteiro da videodança conta a história de um estudante de dança que ao se deparar com os conhecimentos provenientes de sua prática de edição de vídeo, passa a consumir profundamente os conteúdos de sua investigação sobre a videodança. De posse dos conhecimentos acerca da relação da dança e do vídeo, corpo e câmera, dentre outros conhecimentos basilares sobre a dança e o vídeo, o autor trabalha no limiar da realidade e da virtualidade. Nesse viés, a concepção da videodança se expande e ocupa suas ideias e seu modo de pensar a vida em seus diferentes contextos.
A ideia dessa história cujo personagem imaginado para a obra em videodança é o autor do presente trabalho, encontra eco com a reflexão de Machado (2010) sobre a “Filosofia da caixa-preta” de Vilém Flusser (1985), com base em três partes do texto:
A primeira parte escolhida do texto do autor Arlindo Machado se relaciona com ideia de que o ato criativo frente aos aparelhos tecnológicos, é uma das maneiras de entender as possibilidades inerentes a esses aparelhos. No caso específico da criação proposta em videodança, a questão que se apresenta difere do texto relativo a emissão de ondas. Não há emissão de ondas no trabalho ora proposto, o que se tem são as possibilidades advindas do computador, quando manuseado pelos seres humanos.
o conceito de caixa-preta deriva mais propriamente da cibernética. Nesse campo particular dá-se o nome de caixa-preta a uma dispositivo fechado e lacrado, cujo interior é inacessível e só pode ser intuído através de experiências baseadas na introdução de
sinais de onda (input) e na observação da resposta (output) do dispositivo. Em geral, caixa-preta traduz um problema de engenharia: como deduzir acerca do que há dentro de uma caixa, sem necessariamente abri-la[...]. (MACHADO, 2010. p. 44)
Em seguida, a segunda parte do texto está relacionada com a concepção de que a interação da tecnologia e os corpos produzem formas estéticas criadas no seu meio. Assim, a dança também adquire e redimensiona suas formas estéticas e dramatúrgicas.
Pensamos que podemos escolher e, como decorrência disso, nós imaginamos criativos e livres, mas nossa liberdade e nossa capacidade de invenção estão restritas a uma software, a um conjunto de possibilidades dadas a priori e que não podemos dominar inteiramente. Esse é justamente o ´ponto em que a Filosofia de Flusser quer intervir: ela quer produzir uma reflexão densa sobre as possibilidades de criação e liberdade numa sociedade cada vez mais programada e centralizada pela tecnologia. (MACHADO, 2010. p. 46)
Por fim, a organização da ideia dialoga com a terceira parte do texto, dessa maneira, acredita-se que a dança em mediação tecnológica é uma das formas de discutir a relação de um corpo que dança em outro suporte, sem contudo, abdicar dos aspectos estéticos do movimento e suas relações espaço-temporais. Esses elementos contribuem na transformação das formas de representação da dança e das formas de fruição da audiência.
Para produzir novas categorias, não previstas na concepção do aparelho, seria necessário intervir no plano da própria engenharia do dispositivo, seria preciso reescrever o seu programa, o que quer dizer: penetrar no interior da caixa-preta e desvendá-la. (MACHADO, 2010. p. 48).
Por fim, a organização da ideia dialoga com a terceira parte do texto, dessa maneira, acredita-se que a dança em mediação tecnológica é uma das formas de discutir a relação de um corpo que dança em outro suporte, sem contudo, abdicar dos aspectos estéticos do movimento e suas relações espaço-temporais. Esses elementos contribuem na transformação das formas de representação da dança e das formas de fruição da audiência.
A estética do vídeo referente aos efeitos utilizados na edição, foi feita e idealizada com base de referência na Glitch art. “Deste modo, a Glitch art é um gênero que utiliza a tecnologia para trabalhar com a computação, corrupção de
dados e erros de transmissão e recepção digitais.” (GAZANA; BERTOMEU; BERTOMEU, 2013 p. 83)
Nessa perspectiva, esses efeitos são obtidos a partir de erros, assim, o erro na Glitch art é utilizado como alternativa expressiva no processo investigativo. Esse efeito, será utilizado na videodança para retratar as mudanças corporais e espaciais no personagem da história. Dessa forma, variadas estéticas de efeito surgem nas experimentações dos erros, a exemplo o Datamosh. A videodança não utilizará uma forma padrão de Glitch. Entretanto, o Glitch-alike que tem a característica exploratória dos erros por parte do artista, será trabalhado nesta videodança, a fim de descobrir os efeitos estéticos que mais se adequa a obra.
Na estética Glitch não existe o compromisso de criar uma ponte entre conteúdo e significado, nem mesmo de criar um significado inteligível, ela pode simplesmente satisfazer a um processo de criação para si mesmo ou para uma satisfação de uso e sentido próprio. Assim, o Glitch-alike muitas vezes é usado como um elemento de estilo visual. (GAZANA; BERTOMEU; BERTOMEU, 2013 p. 84)
Posteriormente, a escolha da movimentação na videodança, utiliza como referência as ideias e as pesquisas de movimento de William Forsythe (1949), tendo em vista que seus estudos sobre as linhas dos movimentos e pontos são qualitativamente articuladas com a edição das imagens e as transformações no corpo provenientes desses efeitos.
A história desta videodança, articula conceitos que dialogam entre si com o objetivo de potencializar a dança na linguagem do vídeo.
3.1. ROTEIRO LITERÁRIO
Neste momento da criação da videodança é necessário constar as características inerente à relação de espaço e tempo da obra, visando a definição das imagens, a fim de informar sobre o lugar, o horário e as ações realizadas. “Chamamos de roteiro literário, aquele texto que é escrito e estruturado por ações separadas e determinadas. É no roteiro literário que são pontuadas as ações da história.” (CAMPOS, 2008. p. 22).
O roteiro literário proposto obedece as premissas abaixo relacionadas: ● A locação deve se passar em dois ambientes, casa e rua;
● Os cômodos utilizados da casa devem ser quarto, corredor e sala; ● A cena deve ser feita durante o período da tarde.
● A ação do personagem se iniciará em uma mesa de estudos no quarto, continua no corredor, depois na sala, na rua e retorna ao quarto.
O espaço montado das cenas e as ações desejadas para a produção das imagens, cria-se o ambiente onde será realizado a filmagem e as possibilidades de movimentação de câmera no espaço viabilizando a criação do roteiro técnico.
ROTEIRO LITERÁRIO (VIDEODANÇA)