A utilização do termo desporto é frequentemente utilizada de forma redutora. A riqueza que o termo possui tende a ser esquecida e a tendência é para reduzir o desporto à sua vertente de Alto Rendimento. Contudo, o desporto é um fenómeno bem mais abrangente. Presentemente, coexistem diferentes culturas desportivas, que por sua vez originam diferentes morais no desporto. O conceito de desporto, à luz do modelo tradicional de desporto alterou-se, porquanto perdeu a sua unidade interna, a sua identidade fechada, a sua autonomia e a sua independência (Matos, 2007).
Neste sentido, e segundo Costa (1997), o Desporto é um fenómeno social total, de natureza e funcionamento simbólicos, perfeitamente integrado na realidade social concreta, capaz de todos os investimentos sociais e de representar simbolicamente a sociedade tanto no seu funcionamento global, como nas suas vertentes mais diversas. Deste modo, e sendo o desporto uma prática cultural intrínseca ao ser humano, tem-no acompanhado ao longo da sua evolução. E assim, o desporto é aceite como um produto social, historicamente condicionado e culturalmente datado.
O desporto é um fenómeno humano tão ligado à origem, às estruturas e ao funcionamento da sociedade que nós poderemos afirmar que é possível analisar qualquer sociedade através dos desportos que ela pratica (Costa, 1992). Sabendo que as mudanças ocorrem rapidamente, será necessário ter uma atitude de abertura ao mundo. É necessário introduzir mudanças necessárias, para aproximarmos as práticas desportivas da população, para que estas, no seu tempo livre, procurem a atividade desportiva (Correia, 2000). Neste quadro, a gestão do tempo de lazer no espaço cultural, no quadro das preocupações sociais atuais, transformou-se numa questão crucial. E fenómenos como o desporto, que integra um conjunto de valores inestimáveis, não pode deixar de estar, de uma forma adequada, integrado no processo de desenvolvimento económico e social dos países. Nas palavras de Garcia (2000),esta noção fica bem evidente: “O desporto assume nos dias de hoje uma importância que pode ser evidenciada no nosso quotidiano por meio das
32
mais disparas formas que vão desde o número de espectadores de um desafio de futebol; passando pelo número de concorrentes de provas de maratona, ( …) pelo número de períodos dedicados exclusivamente ao desporto (diário, semanal, mensal); pelo número de programas televisivos e radiofónicos; pela publicidade em redor de uma arena desportiva, o que pressupõe investimentos da ordem de muitos milhares de unidades de conta”.
Por sua vez, Bento (2004) refere que hoje assistimos a milhões de pessoas a dirigirem-se cada vez mais para cenários formais e informais de práticas desportivas, pelas mais variadas razoe, este movimento levou multidões aos ginásios, às piscinas, a estúdios de condição física e de ginástica aeróbica, assim como aos locais mais aprazíveis e menos poluídos das cidades.
A evidência de que a melhoria do nível de vida das pessoas originou um aumento de novas práticas desportivas surgindo, assim, um conjunto de atividades económicas de serviços desportivos, designadamente centros de fitness, empresas de animação desportiva, piscinas, ginásios, é indiscutível. Esta afluência a estes novos espaços de lazer, colocaram em destaque a prática de exercício físico como lugares de animação, recreação e lazer das populações.
Estamos numa «cultura do tempo livre» onde se projetam de uma forma permanente novas necessidades, novas aspirações e novos valores, sejam quais forem as circunstâncias, seja qual for o contexto de vida de cada um. Neste sentido, na sociedade contemporânea, as atividades físicas de índole desportiva ganharam uma relevância acentuada. Nesta perspetiva Constantino (1994, p.86), refere que “a partir do momento em que a parcela do tempo livre foi superior à do tempo de trabalho, o tempo disponível criou novos valores, novos modos de vida” e que “a passagem das «sociedades do trabalho» para a «sociedade do trabalho, do lazer, da cultura» colocou a utilização social do «corpo» na primeira linha das práticas sociais”.
O desporto tornou-se, também, um grande meio desta cultura do tempo livre, e o que fez com que o modelo tradicional caracterizado, em primeiro lugar, pelo treino e competição (e inspirado no trabalho) começasse a dar lugar
33
a outros valores, ligados a uma forte acentuação de comportamentos hedonistas, já que os valores tradicionais não são mais suficientes para tratar de todas as necessidades e exigências do contexto atual (Queirós,2004; Stigger, 2002).
Percebe-se, então, que a atividade desportiva assume
progressivamente uma maior presença e protagonismo nas sociedades modernas. Cada vez mais os cidadãos procuram na prática desportiva, o bem- estar físico, a saúde e a ocupação dos tempos livres. A consciência crescente sobre os benefícios para a saúde pública, o papel potencial do desporto e da atividade física no desenvolvimento das crianças e jovens, assim como a necessidade de incrementar as práticas de exercício na população idosa, tiveram um grande impulso no sentido de um melhor entendimento da atividade física por parte dos cidadãos (Mota, 1999). O desporto contribui para um espírito de cidadania essencial para o crescimento sustentado das sociedades modernas, melhora o espírito de equipa e os laços sociais entre as pessoas. Este está, segundo Neves (2003), associado a um estilo de vida pró-ativo, dinâmico, de convívio e saudável, que caracteriza a sociedade atual.
Esta discrepância justifica, em parte, o facto de atualmente se atribuir uma importância ao desporto como nunca. Segundo Dias (2000) este é um fenómeno global integrado e independente da modernização, quer local, nacional ou internacional.
Puig e Heinemann (1991) referem que o movimento de “Desporto para todos” se iniciou na Europa nos anos sessenta notando-se, a partir daí, uma transformação dos serviços desportivos nos países mais avançados. O Desporto deixou de ser uma atividade limitada, sobretudo ao âmbito federativo, e passou a ser uma atividade diversificada própria da sociedade de massas. Deste modo, o Desporto deixou de ser de âmbito exclusivo das federações desportivas ampliando notavelmente o seu âmbito de competência social.
Em Portugal, com o aparecimento da primeira Lei das Finanças Locais, em 1979, as Câmaras Municipais puderam iniciar uma ação que, gradualmente se alargou a toda a dinâmica do desenvolvimento global dos seus municípios. Estas rapidamente passaram a desempenhar um papel fundamental na
34
promoção, fomento e desenvolvimento das práticas desportivas, sendo a década de 80 fundamental neste processo de promoção (Dias, 2002). A mesma autora refere que o Desporto dos anos 90 é socialmente reconhecido como sendo cada vez mais complexo e difícil de gerir. Esta complexidade fez aparecer novos parceiros, essencialmente ligados às esferas económicas, ligando-se igualmente ao aumento de serviços do Estado e descentralização da multiplicidade de instâncias e níveis de decisão.
Estas alterações ocorridas no aparecimento do desporto, ilustram bem que o fenómeno desportivo não pode ficar indiferente a uma sociedade em constante mudança. Segundo Cachada (2003), o inicio do século XXI é um período de uma profunda mutação, uma vez que se verificam enormes transformações em todos os setores da sociedade. A transição para o novo século, foi vivenciada com sentimentos contraditórios, sendo que as nossas organizações desportivas se depararam com desafios jamais sentidos, as quais não se encontravam preparadas para dar resposta (Pinto, 2002).
Outra ideia que emerge é a convicção de que o desporto se desenvolveu de forma mais rápida que os sistemas de organização política que o enquadram. Também (Constantino,1999) refere que nos sistemas desportivos existiam fenómenos novos para os quais as soluções políticas tradicionais não pareciam ser suficientes.
Em suma, se no passado o desporto era uma atividade orientada e estruturada para o alto rendimento, atualmente “o desporto passou progressivamente a ser uma prática aberta a todas as pessoas, de todas as idades e a todos os estados de condição física e sociocultural” (Bento 2007, p.21). Agora, o desporto de alto rendimento, com vista à excelência, expandiu- se assumindo novos fins e significados: saúde, recreação e lazer, aptidão e estética corporal, reabilitação e inclusão, entre outros.
Neste sentido, segundo o mesmo o autor, o desporto alicerça-se hoje num entendimento plural constituindo um fenómeno polissémico e manifestando-se numa realidade polimorfa.
35
Assim, constituíram aspetos determinantes na génese do desporto moderno a melhoria das condições de vida das classes trabalhadoras, com o aumento do tempo livre; o envolvimento da medicina no desporto com objetivo de otimizar a preparação dos atletas conduzindo a elevados investimentos financeiros; bem como, a mutação do próprio sistema capitalista. Este novo sistema adaptou-se às novas características das sociedades, desenvolvendo “uma ideologia assente no princípio de que a responsabilidade do capital não é apenas económica, é também cívica” (Constantino, 1990b, p.170).
Constantino (1999) concluiu também que esta nova cultura determinou um conjunto de mudanças diretas no sistema de práticas desportivas. Assim, paralelamente ao modelo formal (desporto de competição) surgiram novas posturas organizacionais do desporto tornando-o como um novo direito ao alcance de todos, independentemente da idade do género ou da capacidade de rendimento desportivo.