A literatura especializada tem explorado a possibilidade de os empreendedores sociais apresentarem características pessoais distintas (Nga & Shamuganathan, 2010), procurando certos traços, comportamentos, tendências cognitivas ou competências pessoais que permitam distinguir o empreendedor social dos seus pares não empreendedores, bem como dos empreendedores económicos (Light, 2006a). Alguns dos traços que têm sido atribuídos ao empreendedor social são a criatividade, coragem, ambição, proatividade, resiliência, ou a presença de um forte sentido ético (Beugré, 2011; Drayton, 2002; Martin & Osberg, 2007; Mort et al., 2003; Zahra et al., 2009). Alguns autores aplicaram os métodos da genética comportamental para estudar a tendência manifestada por algumas pessoas para se tornarem empreendedoras (Zhang et al., 2009). A investigação tem sugerido que a componente genética influencia vários constructos relacionados com os comportamentos organizacionais, tais como atitudes no emprego, interesses vocacionais, valores no trabalho, liderança ou propensão para o empreendedorismo (ibidem). Nicolaou e Shane (2010) encontram nas diferenças genéticas a explicação para o facto de determinados indivíduos serem mais predispostos para ser empreendedores do que outros, encontrando ainda uma influência significativa da hereditariedade na propensão para o empreendedorismo, que consideram mais expressiva do que os fatores ambientais.
De um modo idêntico, os investigadores têm estudado os fatores que impulsionam o empreendedorismo social, procurando compreender quais os traços de personalidade que são preditores e catalisadores do comportamento (Nga & Shamuganathan, 2010; Zhao & Seibert, 2006). Os traços de personalidade são entendidos como um conjunto de características estáveis, relativamente duradouras e que diferenciam os indivíduos uns dos outros (Lukeš & Stephan, 2012). Gordon Allport (1937) (citado em Wood, 2012) descreve os traços de personalidade como os sistemas generalizados e focalizados (peculiares ao indivíduo), com capacidade para prestar estímulos funcionais para iniciar e conduzir formas consistentes de comportamento. Para Lukeš e Stephan (2012), os traços de personalidade explicam porque as pessoas diferem umas das outras nas suas ações, emoções e pensamentos. Segundo Wood (2012), os traços de personalidade, que são função quer da hereditariedade quer do ambiente, moldam cada pessoa de um modo único e conduzem à consistência de comportamentos individuais. Por isso, os autores afirmam que os traços definem as características-chave do comportamento.
De um modo geral, estes traços têm sido descritos como (Brandstätter, 2011):
(i) Capacidades, como a inteligência em geral, inteligência numérica, verbal, espacial ou inteligência emocional;
(ii) Motivos, que impulsionam e direcionam as ações, tais como necessidade de realização, poder ou afiliação;
(iii) Atitudes, como por exemplo valores; (iv) Características temperamentais e ações;
Desde cedo os investigadores desenvolveram esforços no sentido de estudar e mensurar a personalidade (Wood, 2012). Na investigação tem predominado o modelo dos cinco fatores, também conhecido na literatura como modelo dos Big Traits (Brandstätter, 2011). Como o seu nome sugere, o modelo considera a existência de cinco dimensões gerais de personalidade: (i) abertura à experiência; (ii) extroversão; (iii) conscenciosidade; (iv) agradabilidade; e (v) estabilidade emocional/neuroticismo. A dimensão abertura é entendida como a extensão com que uma pessoa é curiosa, imaginativa, criativa, confortável com a ambiguidade, procura novas experiências e explora novas ideias (Wood, 2012; Zhao & Seibert, 2006). Esta dimensão está relacionada com uma forte tendência para se aprender coisas novas, com a capacidade de perceção de alterações e com uma adaptação eficaz (Wood, 2012). Os resultados
indicam que os indivíduos com um elevado nível de abertura apresentam uma maior curiosidade intelectual, uma maior afinidade para participar em novas experiências e um pensamento mais divergente (Nga & Shamuganathan, 2010; Zhao & Seibert, 2006). Para Wood (2012), indivíduos com um maior nível de abertura são percebidos como recetivos à mudança e predispostos para assumir riscos. Pelo contrário, pessoas com baixa abertura à experiência são caracterizadas como mais convencionais e confortáveis com métodos e questões conhecidas (Chlosta, Patzelt, Klein & Dormann, 2012; Zhao & Seibert, 2006). Chlosta et al. (2012), constatam que são vários os estudos empíricos que têm demonstrado de uma forma consistente que a dimensão abertura representa um importante papel na decisão de criação do próprio emprego. Na aceção de Nga e Shamuganathan (2010), indivíduos com maior abertura têm uma maior propensão para serem empreendedores na medida em que são mais versáteis, imaginativos e receiam menos os novos desafios.
A extroversão, por sua vez, descreve a extensão com que as pessoas são assertivas, dominantes, enérgicas, ativas e conversadoras (Zhao & Seibert, 2006). De acordo com Wood (2012), pessoas extrovertidas procuram estímulos e entusiasmo, especialmente na companhia de outros. A esta dimensão está associado um pronunciado compromisso para com o mundo exterior, sendo extroverdido alguém que estabelece facilmente ligação com os outros e que gosta da interação social (Bolton, Becker & Barber, 2010). De um modo distinto, pessoas com baixos níveis de extroversão preferem despender mais tempo sozinhas, são reservadas, calmas e independentes (Zhao & Seibert, 2006). A extroversão é também uma característica atribuída aos empreendedores sociais. Segundo Nga e Shamuganathan (2010) e Brandstätter (2011), a presença deste traço contribui para: (i) uma personalidade proativa, necessária à visão carismática dos empreendedores sociais; (ii) a capacidade de comunicação com os diversos stakeholders; e (iii) a construção do networking social.
Relativamente à dimensão conscenciosidade, para Bolton et al. (2010), esta diz respeito não só ao modo como se controlam, regulam e direcionam os impulsos, mas também ao nível de organização, persistência e motivação na realização dos objetivos (Wood, 2012; Zhao & Seibert, 2006). A conscenciosidade é entendida, ainda, como um indicador da vontade e capacidade do indivíduo para trabalhar árdua e zelosamente (Zhao & Seibert, 2006), sendo vista como positiva para a prossecução dos objetivos (Brandstätter, 2011).
A agradabilidade, por seu lado, traduz a orientação interpessoal do indivíduo (Zhao & Seibert, 2006). No entendimento de Wood (2012), representa alguém que tem tendência para ser amigável, cooperativo e que valoriza a convivência. Pessoas com um elevado nível de agradabilidade expressam uma preocupação constante com o bem-estar dos outros, tendem a ser altruístas e cooperativas (Chlosta et al., 2012; Zhao & Seibert, 2006). Pelo contrário, indivíduos com baixo nível de agradabilidade caracterizam-se como manipuladores, egocêntricos e desconfiados (Zhao & Seibert, 2006). A dimensão sociabilização (agradabilidade) é identificada por Nga e Shamuganathan (2010) como importante para o empreendedorismo social, pois potencia a capacidade de influenciar relações interpessoais e promove a obtenção de consensos sociais.
Por último, a dimensão neuroticismo representa as diferenças individuais ao nível da estabilidade emocional (Zhao & Seibert, 2006). Indivíduos com um elevado nível de neuroticismo tendem a viver uma pluralidade de emoções negativas, tais como ansiedade, hostilidade, depressão, impulsividade ou vulnerabilidade (Bolton et al., 2010; Wood, 2012; Zhao & Seibert, 2006). Pelo contrário, indivíduos com baixa classificação neste traço de personalidade são caracterizados como autoconfiantes, calmos, temperados e relaxados (Zhang et al., 2009; Zhao & Seibert, 2006). Os empreendedores deparam-se com fortes pressões provenientes de todos os processos organizacionais, assumem responsabilidades e operam em ambientes dinâmicos. Por isso, Zhang et al. (2009) defendem que indivíduos com baixo nível de neuroticismo apresentam uma maior probabilidade para serem empreendedores, pois são autoconfiantes e persistentes. Do mesmo modo, Brandstätter (2011) considera que a autodeterminação e independência, associadas à estabilidade emocional, são positivas para o empreendedorismo. Inversamente, indivíduos com baixa estabilidade emocional não terão a confiança e a resiliência necessárias para fazer face às pressões que o empreendedorismo implica (Zhang et al., 2009). Nga e Shamuganathan (2010) sugerem, ainda, que a baixa estabilidade emocional poderá estar negativamente associada à propensão para se apoiar causas sociais.
De acordo com Baron e Markman (2005) (citados por Chlosta et al., 2012) os efeitos dos traços de personalidade diferem consoante as etapas da criação da organização. Os autores reconhecem a abertura à experiência como particularmente importante nas fases iniciais do processo, designadamente para o reconhecimento de oportunidades,
enquanto a conscenciosidade é essencial após a criação da iniciativa, quando o empreendedor se foca na produção do bem ou na prestação do serviço.
Embora não imune a críticas, o modelo dos cinco fatores de personalidade é entendido como robusto e preditor dos diferentes padrões de comportamento (Wood, 2012), permitindo incluir quase todos os tipos de personalidade utilizados num pequeno, embora significativo, conjunto de construções de personalidade (Schmit, Kihm & Robie, 2000; Zhao & Seibert, 2006). Para além do modelo dos cinco fatores, alguns dos constructos de personalidade utilizados na investigação em empreendedorismo baseiam- se em teorias específicas, tais como: locus de controlo, autoeficácia, orientação para a ação, foco regulamentar, escalas de orientação empreendedora, personalidade empreendedora, necessidade de realização, propensão para o risco, ou iniciativa pessoal (Brandstätter, 2011). Porém, algumas destas dimensões estão contempladas no modelo dos cinco fatores. Acresce que o modelo dos Big Traits se encontra bem estabelecido do ponto de vista experimental (Lukeš & Stephan, 2012), tendo produzido resultados consistentes entre diferentes culturas (Schmit et al., 2000), o que favorece a comparação entre estudos empíricos. Os estudos sustentam que o modelo é relevante para a mensuração da personalidade no empreendedorismo, assim como, mais recentemente, no empreendedorismo social (Brandstätter, 2011; Lukeš & Stephan, 2012; Nga & Shamuganathan, 2010; Obschonka et al., 2010).
A investigação de Nga e Shamuganathan (2010), aplicada à formação das intenções no empreendedorismo social, apenas confirma a influência positiva de três traços de personalidade - agradabilidade, abertura à experiência e conscenciosidade. Os resultados destacam, sobretudo, a dimensão agradabilidade, que é suscetível de influenciar a visão social, a inovação, a sustentabilidade, o networking social e os retornos financeiros. Lukeš e Stephan (2012) reconhecem um perfil semelhante nos dois tipos de empreendedor (económico e social), indicando um elevado nível de extroversão, abertura à experiência, agradabilidade, conscenciosidade e estabilidade emocional.