Représentation graphique d'événements spatio-temporels
3.1 L'intégration du temps et de l'espace au sein de la même représentation graphique
Os desafios que se colocam hoje à China e aos seus líderes são imensos, a começar pelos internos. David Lampton afirma que “o mundo exterior surge no topo da agenda [dos líderes chineses] apenas quando actores externos indisciplinados ou circunstâncias que ameaçam ligar-se a forças internas instáveis e agressivas, e assim perturbam o frágil equilíbrio doméstico” (2014: 141). Os “pesadelos domésticos”, como apelida Lampton os problemas da RPC, começam numa população imensa, constituída por cerca de 1440 milhões de pessoas, na maior parte urbana, cada vez mais envelhecida (o que coloca muitos problemas em termos da construção de um modelo de segurança social pelos potenciais custos envolvidos), e que tem de ser alimentada.
Por outro lado, assiste-se periodicamente a incidentes em massa com trabalhadores, fruto de descontentamento, expresso em suicídios e outros actos violentos, que incluem layoffs, condições de trabalho precárias nas fábricas, questões ligadas à remuneração e horas extraordinárias, e conflitos de interesses entre trabalhadores “permanentes” ou “regulares” (com residência legal) e trabalhadores migrantes de outras províncias e sem residência legal. Estas são questões que preocupam, mas que, por enquanto, a liderança da RPC tem conseguido gerir.
Os problemas ligados ao ambiente, à industrialização e urbanização do país, que levam a um forte aumento da poluição, têm provocado recentemente muita apreensão, não só pela natureza intrínseca dos problemas existentes, mas também pelas reacções negativas que geram da parte dos cidadãos. Não têm sido raras as manifestações, que terminam em violência, contra determinadas decisões de implementar indústrias em certos locais e mesmo contra responsáveis provinciais por essas mesmas decisões. A qualidade do ar também preocupa e já é normal em algumas cidades, como Pequim, haver avisos à população para não sair de casa em determinados períodos. Os desastres, tanto naturais como aqueles provocados pelo Homem, são outro tipo de problemas que deixam sobremaneira preocupados os governantes chineses. “A cada dia que se levantam da
72 cama, os líderes chineses têm na cabeça deles o conhecimento de que forças naturais ou subordinados incompetentes (e talvez malévolos) no sistema podem criar uma circunstância catastrófica com a qual terão lidar e que pode mesmo desferir um golpe na legitimidade do regime”, resume Lampton (2014: 153).
A corrupção é outro problema grave que a liderança do país tem de combater. Há a noção clara, expressa em relatórios, de que se se falhar nesse combate é o PCC e o próprio estado que podem cair. Não surpreende, por isso, que Xi Jinping tenha elegido o combate à corrupção como uma bandeira dos seus mandatos. Há ainda perigos que a liderança civil teme em relação aos militares da RPC. Lampton destaca quatro: é provável que o complexo industrial-militar na China se torne progressivamente “mais central à economia chinesa, e por isso mais influente”; os militares podem tornar-se um forte símbolo das aspirações nacionalistas da China na mente dos cidadãos; os militares podem simplesmente expandir a sua influência no sistema; as personalidades ligadas aos militares e os interesses relacionados podem tornar-se tão fortes que o controlo civil dos militares pode tornar-se difícil ou impossível (2014: 227-228).
O surgimento de uma classe média com algum poder de compra e informada, potenciada por meios de comunicação social e de informação (como redes sociais) cada vez mais disseminados e difíceis de travar, também coloca desafios. Lampton aponta que o surgimento de uma classe média “oferece a longo-prazo a esperança de uma administração mais humana, aberta à participação e previsível, embora também transporte em si as sementes da instabilidade, extremismo e a tirania da assertividade nacionalista”. Por isso, defende que a existência de uma constituição efectiva, que a China não possui, que possa ser interiorizada pelos cidadãos, é necessária (2014: 225-226).
Mas a principal preocupação dos líderes chineses é mesmo o crescimento económico e a estabilidade de preços (inflação baixa), pré-condições para a estabilidade política, pois, como afirma Lampton, “o PCC mantém o poder e obtém a sua legitimidade com base na performance”, que é definida essencialmente como melhores e mais seguras condições materiais (2014: 150-151). No que se refere à economia, este académico afirma que “a santíssima trindade para a liderança nacional chinesa é: alcançar um elevado crescimento, evitar grandes volatilidades (tanto nos preços, como no emprego) e evitar perder o controlo sobre a política e performance económica doméstica” (2014: 151).
Externamente, e apesar de ser considerado um assunto interno por Pequim, Taiwan surge à cabeça das preocupações da liderança chinesa. Ao longo dos anos houve, como já foi referido, várias tensões entre os dois lados do Estreito, sempre com os EUA
73 na equação. Para Miguel Monjardino, “as alterações em curso na política interna chinesa, a importância da posição geopolítica de Taiwan e a possível convergência dos interesses de Taipé com Washington no Pacífico e no Índico levarão Pequim a prestar ainda mais atenção a esta ilha”, podendo ali estar “uma importante linha vermelha da China” e também “a tentação de Xi Jinping” (2018: 31).
Como aponta David Lampton, “um aspecto principal de qualquer legitimidade da liderança chinesa é a protecção da soberania nacional e da dignidade”, pelo que a China tem receio de voltar a ser alvo de bullying. Este é um discurso impregnado na narrativa nacional do país, e que remete para o tempo, durante os séculos XIX e XX, em que partes do território chinês foram ocupadas por várias potências estrangeiras. Claro que, ao certo, não se sabe o que pode ser considerado de bullying para os chineses, pois é uma categoria bastante lata. Por outro lado, e ironicamente, este receio da China, e à medida que esta se vai tornando cada vez mais poderosa, principalmente a nível militar, provoca o mesmo efeito nos países vizinhos, que temem passar a ser alvo de bullying por parte da RPC. Ao mesmo tempo, e à medida que os interesses chineses se expandem globalmente, os cidadãos chineses esperam dos líderes que os consigam proteger, num mundo perigoso no qual pontuam estados falhados, terrorismo, pirataria e catástrofes naturais e provocadas pelo Homem (Lampton, 2014: 160-164).
No entanto, e tendo em conta a sua história recente, como nota Lampton, “a China vê-se a si própria como um actor forte e independente num mundo de Estados soberanos nominalmente iguais”. Fica patente que a RPC aceita as estruturas económicas e sociais do actual sistema internacional, mas rejeita em absoluto o sistema de alianças dominado pelos EUA (2014: 231). Assim, será sempre essencial, a cada momento, analisar o pulsar do relacionamento RPC-EUA, para se poder aferir a viabilidade dos objectivos estratégicos da China.
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Capítulo IV. O Indo-Pacífico e a Capacidade de Influência Chinesa