Segundo o Manual UAVIDRE o apoio psicológico a utentes imigrantes não se cinge apenas ao episódio de violência ou de discriminação do qual foi vítima, embora seja fundamental conhecer
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Durante o trabalho de campo, participei na actualização da lista da UAVIDRE de centros de acolhimento existentes em Portugal. Contactou-se as instituições com o objectivo de actualizar os dados e uma das questões era se aceitavam como residentes imigrantes em situação irregular. Houve instituições que afirmaram não aceitar imigrantes em situação irregular, outras só se o imigrante se encontrassem em processo de legalização e uma das instituições explicou que embora aceitasse imigrantes independentemente de a sua situação estar regularizada ou não, estes habitualmente não se adaptavam ao Centro de Acolhimento.
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a reacção do utente a esse mesmo acontecimento. Abrange todo o processo migrante do utente, isto porque para que se planeie “o atendimento psicológico o técnico tem imprescindivelmente que considerar a fase de adaptação e integração em que o utente se encontra no contexto acolhedor” (Manual UAVIDRE: 87). Um TAV UAVIDRE psicólogo reflecte sobre a importância do apoio psicológico:
O trabalho desenvolvido (no apoio psicológico) assume-se realmente importante uma vez que estas mulheres se encontram em crise, encontram-se fragilizadas e sendo a minha formação a área da psicologia, julgo que é extremamente importante reabilitar estas mulheres, digamos utentes em termos emocionais para saberem enfrentar e lidar com o problema, com o conflito, com os maus tratos no fundo. (E.3, TAV psicólogo voluntário/remunerado)
3.3 - TAV UAVIDRE: motivações e dificuldades
Os TAV voluntários e os TAV remunerados entrevistados deram a entender que o seu trabalho na APAV/UAVIDRE lhes desperta a sensação de bem-estar porque têm consciência que o seu trabalho faz diferença na sociedade e na vida dos utentes. “Eu acho o meu trabalho muito importante porque eu consigo perceber no dia-a-dia que eu mudo a vida das pessoas com o meu trabalho e isso para mim tem um valor inestimável”. (E.16, Actual assessora e TAV jurista remunerada)
Todos os TAV entrevistados deram um enorme relevo ao contacto com a realidade, ou seja, à interacção com os utentes como experiência enriquecedora tanto a nível profissional como pessoal. A antiga gestora da UAVIDRE e o antigo assessor da UAVIDRE reflectiram em entrevista sobre as suas motivações e significado do seu trabalho na UAVIDRE:
Eu sempre (…) considerei o trabalho de um modo geral (…) uma parte muito importante minha pessoal porque eu acho que se uma pessoa não tem uma actividade profissional que a satisfaça não consegue estar bem, não consegue ser feliz, a questão é que eu, eu saí do escritório de advogados no qual ganhava muito mais, mas não quis saber, portanto, é que não quis mesmo e não quero, eu estou muito mais feliz e concretizada assim, até parece mal porque estou a ajudar vítimas de crime que é uma infelicidade porque obviamente são vítimas de crime, não é, mas realmente é um trabalho extremamente satisfatório e dentro das frustrações é um trabalho muito satisfatório, eu sinto que estou a fazer alguma coisa, a contribuir não de uma forma económica, não é, como contribuía no escritório dos advogados, mas contribuir socialmente, para a melhoria social para utilizar informações que pagavam-me muito num escritório e dizer que isto não é nada, isto é a vida de uma pessoa e de facto esta mudança na minha vida foi muito importante até em termos pessoais, até em termos repriorizar a tua vida, ou ter mais um carro
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assim ou ter…não, não é tão importante, percebes. Quando tu começas a, a percepcionar o mundo de outra forma, a ouvir histórias diferentes, a ter consciências diferentes do que é que é a realidade também vês a tua vida de forma diferente. Eu pelo menos comecei a ver, ok também continuo a comprar os meus sapatos (tom de brincadeira e sorriso), mas vejo de uma forma mais despegada certas coisas, não, eu acho que isso tem a ver com a satisfação que tu tens com o trabalho que fazes, pronto não te deixa cabeça preocupada com outras coisas mais supérfluas. (E.4, antiga gestora da UAVIDRE e TAV jurista remunerada)
Ah…sim, o ordenado não é de certeza (a motivação), a gente ganha aqui fortunas (risos), não, é assim, eu já fazia este trabalho de borla, tu podendo fazer pago, claro que o faço. É assim, trabalhar na APAV tem a grande benesse, sentimos que o trabalho é válido, ajudamos pessoas e ajudamos mesmo, vemos isso, algumas mais que outras claro, há umas que não fiz, não fiz grande diferença, outras haverá que se não sou um? Adivinho? Fico lá perto, nem que fosse a definir planos, a ajuda-las a capacitarem-se de perigos, a fazer o modelo de segurança, o plano de segurança pessoal e por ai fora ou seja, ajudar, ajudei muito boa gente e é muito bom saber e sentir isso. (E.2, antigo Assessor e TAV jurista remunerado)
No apoio a vítimas de crime, nomeadamente, a vítimas imigrantes é difícil medir a taxa de sucesso, havendo entraves gerais e específicos: as instituições, em geral, queixam-se que têm que trabalhar com escassos recursos financeiros e humanos; ao nível particular, os TAV da UAVIDRE têm que aprender a contornar as inúmeras barreiras a nível legal e burocrático porque na área de imigração o Estado e as suas instituições têm implementado “políticas públicas” baseadas em “modelos de selecção e fechamento” (Togni, 2009:165), que não só condicionam o percurso dos imigrantes como também o apoio prestado pelas diversas instituições de solidariedade social aos imigrantes.
Os TAV em geral sublinham a necessidade de ter grande tolerância à frustração porque pode não ser fácil aceitar determinadas decisões dos utentes, mas “é impensável um técnico (…) impor a sua vontade” (…) (E.15, TAV psicóloga, actual gestora da UAVIDRE). Há utentes, que segundo o que relatam em atendimento, correm perigo de vida e apesar de poder haver alternativas, nomeadamente, serem acolhidas, optam por regressar para o agressor, correndo o risco de fazer parte da lista anual de mortes que ocorrem por violência doméstica. Nesta área, segundo os TAV, é essencial os técnicos terem capacidade de auto-gestão emocional, de lidar com situações e relatos de vida “pesados” para que o trabalho não afecte negativamente as suas vidas.
Uma TAV jurista referiu que não é fácil dizer que não a alguns pedidos dos utentes, a nível social. Há utentes muito carenciados que precisam de apoio económico e de habitação, mas a instituição não está nem vocacionada nem dispõe de recursos para atender este tipo de pedidos, por
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isso são normalmente encaminhados para a Segurança Social e para a entidade que gere os bairros municipais de Lisboa (Gebalis).
(Um dos constrangimentos com os quais se depara em atendimento) é não poder dar a resposta que as pessoas querem porque a APAV não é o paraíso como algumas pessoas pensam, é o facto de nós termos que dizer não às vezes, não conseguimos, não podemos ajudar, quer dizer nós não dizemos isto, não é, mas ao fim ao cabo é o que acontece. (E.1, TAV jurista, voluntária)
Observei que os TAV encaram os atendimentos a vítimas de crime como um exercício que requer muita responsabilidade. Quando iniciam a efectuar atendimentos têm receio de não estar à altura, de não conseguirem dar resposta a todas as problemáticas expostas pela vítima. O antigo assessor da UAVIDRE relembrou a inquietude que sentiu quando iniciou a realizar atendimentos:
Encontra (dificuldades) no início a exercer funções, o TAV… (risos) o TAV, é assim, eu aí não posso generalizar muito, vou falar por experiência pessoal. Eu quando comecei estava sempre com algum receio de não conseguir dar conta do recado porque, porque achava que era uma grande responsabilidade, o falar com a vítima, o encaminhar a vítima, depois ao longo do tempo temos que saber lidar com questões novas, ou seja, nós estamos a lidar com pessoas e há sempre problemáticas diferentes, há sempre situações que nós não conhecemos e temos que estar prontos (…) para dar uma resposta nessas situações. (E.2, Antigo assessor da UAVIDRE e TAV jurista remunerado)
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