Apesar de constatarmos um novo olhar para a infância após as idéias de Rousseau, observamos que o período entre o fim do século XIX e começo do século XX foi marcado por uma perspectiva, a primeira vista, distante e diferente da rousseauniana, mas que também traz à tona aspectos infantis.
Tratamos agora, de um tempo em que a infância foi considerada o lócus onde são firmados os alicerces pessoais do indivíduo, tendo seu conceito arrolado ao processo de desenvolvimento da personalidade. Tal idéia advém das postulações do médico psicanalista Sigmund Freud nas análises de pacientes acometidos por “doenças nervosas”. Ao investigar a história de vida desses pacientes, para buscar a gênese de suas manifestações neuróticas, Freud observou que elas procediam de situações desagradáveis experimentadas pelo indivíduo ainda na infância, e que eram esquecidas ao longo do seu desenvolvimento. Fenômeno este, destacado como amnésia infantil, a qual por sua vez, “[...] oculta os inícios mais precoces da infância” (FREUD, 2006, VII, p. 178).
Em suas pesquisas analíticas, Freud (2006, XIII, p. 218) observou que:
A psicanálise foi obrigada a atribuir a origem da vida mental dos adultos a vida das crianças e teve de levar a sério o velho ditado que diz que a criança é o pai do homem. Delineou a continuidade entre a mente infantil e a mente adulta e observou também transformações e os remanejamentos que ocorrem no processo. Na maioria de nós existe, em nossas lembranças, uma lacuna que abrange os primeiros anos da infância, dos quais apenas algumas recordações fragmentárias sobrevivem.
Entrementes, não é conveniente imaginar com isso, que o teórico descarta a dimensão do que é vivido durante os primeiros anos. Vejamos o que Freud observa nessas linhas:
Temos bons motivos para acreditar que não há período em que a capacidade de receber e reproduzir impressões seja maior do que precisamente durante os anos da infância - durante esses anos, dos quais posteriormente nada retemos em nossa memória, a não ser umas lembranças ininteligíveis e fragmentárias, reagimos de maneira vívida a impressões, somos capazes de expressar dor e alegria de maneira humana, damos prova de amor, ciúme e outros sentimentos apaixonados
que nos emocionam fortemente na época, e chegamos mesmo a fazer observações que são consideradas pelos adultos como boa prova de que possuímos discernimento e os primórdios de uma capacidade de julgamento (2006, VII, p. 179).
Ainda que muitos não se lembrem das próprias vivências infantis, Freud nos adverte sobre as marcas encerradas no indivíduo durante a meninice. Em suas análises ele ressalva:
Por outro lado, devemos supor, ou podemos nos convencer mediante um exame psicológico de outras pessoas, de que as mesmas impressões que esquecemos deixaram, não obstante, os mais profundos traços em nossas mentes e tiveram um efeito determinante sobre a totalidade de nosso desenvolvimento subseqüente. (2006, VII, p. 179).
Assim era chamada a histeria, que à época era considerada um quadro de manifestações sintomáticas isentas de comprometimento orgânico que as justificasse. Em Estudos sobre a histeria (1893-1895), Freud publica junto com Josef Breuer, considerações importantes sobre o mecanismo psíquico dos fenômenos histéricos e de casos clínicos tradicionais que ilustram o assunto. Além de enumerar importantes relações entre as neuroses do adulto e as lembranças inconscientes da infância. Essas reflexões constam do volume II das Obras Psicológicas Completas. Interessantes estudos descrevem as pesquisas realizadas por Freud para explicar claramente sua proposta teórica. Mais especificamente Interpretação dos sonhos,
Um caso de histeria, Três ensaios sobre sexualidade, Cinco lições de psicanálise, Conferências introdutórias sobre psicanálise, (volumes IV E V, VII, XI E XV
respectivamente, nas Obras Psicológicas Completas). Aborda a abolição real das impressões da infância, mas antes de uma amnésia semelhante àquela que os neuróticos exibem em relação a eventos ulteriores, e cuja essência consiste em simplesmente afastar estas impressões da consciência, ou seja, reprimi-las (FREUD, 2006).
Tais afirmações, dentre outras, fizeram com que o teórico de Viena alterasse de maneira drástica, o modo de pensar a vida psíquica das pessoas. O psiquismo que até então, era considerado apenas pelos aspectos da consciência, teve seus processos emblemáticos colocados em evidência para que fossem averiguados cientificamente. Dessa forma, a interioridade do homem, seus esquecimentos, sonhos e fantasias ganham relevância na investigação da vida psíquica do indivíduo,
em detrimento da supervalorização da consciência, uma vez que, nas postulações freudianas, os conteúdos inconscientes constituem a base geral da vida psíquica, porque reúnem aspectos não presentes no campo da consciência, pelo fato da representação penosa que têm.
Tal episódio evidentemente, consequência de algum trauma (infantil), acaba esquecido, ou seja, relegado à instância não consciente da mente, por intermédio de um mecanismo que busca preservar o indivíduo do incômodo vivido à época traumática. Outrossim, aqueles conteúdos não deixam de existir. Eles ficam latentes na psique humana, em forma de lembranças carregadas de emoção que escapam na vida adulta, sob a forma de sintoma neurótico.
De acordo com Freud, “[...] a propensão à neurose deve provir por outra maneira, de uma perturbação do desenvolvimento” (2006, XI, p. 43). O que nos revela de imediato, a importância de vivências infantis libertas de situações que possam desencadear traumas responsáveis por manifestações neuróticas no adulto.
Entendemos, com esse autor, que a criança logo ao nascer começa a experimentar necessidades de sobrevivência e a presença de um adulto é indispensável para auxiliá-la na satisfação dessas necessidades. A cada etapa do desenvolvimento, os imperativos infantis vão se diferenciando, contudo a presença do adulto e a maneira como ele se dispõe nessa relação, é fundamental. Todo o tratado freudiano encontra-se reunido nos vinte e quatro volumes que compõe sua obra. A saber:
Edição standard brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud.
Deteremo-nos neste estudo, às questões específicas a respeito da importância da infância na formação da personalidade do indivíduo. Referimo-nos aqui ao mecanismo de defesa do ego, conceituado por Freud como repressão, processo psíquico que tem por objetivo encobrir e/ou retirar da consciência aspectos insuportáveis que se encontram na origem do sintoma, e são „levados‟ à instância psíquica notada inconsciente (Volume XIV, das Obras Completas), importante para que a criança internalize aspectos do meio externo, no sentido de formar sua percepção deste. A partir da percepção que ela tem, dentro das relações estabelecidas com o outro no meio onde se desabrocha ela conquista seu modo de
sobrevivência, o qual lhe atribui características específicas que são traduzidas na sua personalidade.
Esse entendimento do funcionamento da psique humana, com ênfase nas lembranças inconscientes (dos infantes), marca a diferença do pensamento freudiano sobre a estruturação do aparelho psíquico, não apenas por trazer à tona obscuridades da vida psicológica dos indivíduos, mas, também, por atribuir à infância considerações significativas quanto ao seu papel na história de cada pessoa adulta. Mais do que uma fase de aumento físico, ela é o tempo em que o indivíduo apropria-se de seus instrumentos para viver, ou mais, é nos primórdios da existência humana que instalam-se as possibilidades futuras de uma estruturação psicológica sadia ou não.
Sendo assim, de acordo com a perspectiva do psicanalista vienense, a infância assume um papel decisivo na história de vida do indivíduo, pois as experiências iniciais de cada um afetam (de modo positivo ou não), não somente a formação básica do caráter adulto, mas, também, do equilíbrio das emoções intra e interpessoais nas pessoas. Freud adiciona ainda:
Vemos que os indivíduos adoecem quando, por obstáculos exteriores ou ausência de adaptação interna lhes falta na realidade a satisfação das necessidades. Observamos que então se refugiam na moléstia, para com auxílio dela encontrar uma satisfação substitutiva (2006, XI, p. 46).
As reflexões freudianas ao pensarmos o conceito de infância podem ser assim sintetizadas:
Algumas descobertas notáveis foram efetuadas no curso dessa investigação da mente infantil. Assim foi possível confirmar – o que já fora muitas vezes suspeitado – a influência extraordinariamente importante exercida pelas impressões da infância (e particularmente pelos seus primeiros anos) sobre todo o curso da evolução posterior. Isso nos conduz ao paradoxo psicológico – que somente para a psicanálise não é paradoxo – de serem precisamente estas, as mais importantes de todas as impressões, as que não são recordadas em anos posteriores. A psicanálise pode estabelecer o caráter decisivo e indestrutível dessas primeiras experiências da maneira mais clara possível. (FREUD, 2006, XIII, p. 218)