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De tão importante para a comunidade ao longo de todos esses anos a antiga associação Dom Aloísio Lorscheider daria também um belo objeto de estudo. A antiga associação de moradores e moradoras, transformada em espaço onde são realizadas atividades socioculturais, sempre se entrelaçou aos meus fazeres de pesquisadora - quer há 12 anos atrás, fechando com chave de ouro a passeata com as mulheres e a comunidade que de certo modo inspirou o presente trabalho, quer durante a pesquisa dissertativa, quando por várias vezes lá estive para observar as ações de formação e os ensaios das Meninas do Rap.

Pouco tempo depois da conclusão da pesquisa de mestrado, com o fim das atividades da associação, boa parte das ações culturais, inclusive as que envolviam as

Meninas do Rap, também foram canceladas.64 O prédio, porém – uma estrutura simples formada por dois salões, duas salas menores, dois banheiros e uma pequena cozinha, todos com piso apenas “no cimento” –, continuou a pertencer à comunidade. Passaram a ocorrer com uma frequência maior eventos religiosos, missas, velórios e encontros de confraternização. Se o fazer político propriamente dito ficara comprometido com o fim legal da associação, sua sede ia se consolidando no Gereba como um importante espaço de sociabilidade, uma verdadeira “Casa do Povo”, onde os moradores e moradoras teciam outras maneiras de se associar.

Aos poucos, novas atividades socioculturais foram sendo implementadas. E eis que os moradores e moradoras da comunidade Gereba, alguns com um histórico de trabalho comunitário nessa antiga associação, são procurados no início de 2016 por um padre com um

perfil pouco convencional.65 Ele estava interessado em fazer parcerias para a implantação de

um projeto realizado também em outras áreas periféricas da cidade, intitulado Amo Cuidar –

ações socioculturais desenvolvidas sem o apoio dos órgãos governamentais e voltadas para a socialização, formação e minimização da problemática da violência e da pobreza, envolvendo algumas iniciativas na área de assistência.

Um grupo de mulheres se interessa em participar, dentre elas: Dona Orquídea, Lótus, Dália, Flor, Alfazema e Sálvia. Mulheres negras em sua maioria. Todas mães. Orquídea já é avó. Algumas delas com experiência de atuação em outros projetos sociais do bairro Jangurussu. Juntos iniciam um trabalho com a comunidade. O padre ficaria responsável pela coordenação geral, por conseguir doações para o projeto, facilitar parte das atividades e conseguir outros facilitadores e facilitadoras que fariam um trabalho voluntário, algumas vezes por semana.

As mulheres também comporiam a coordenação e ficariam responsáveis pelas atividades gerais, dando suporte na parte de tesouraria, articulação mais direta com os facilitadores e facilitadoras e os movimentos sociais, divulgação, alimentação, limpeza e preparação do ambiente. Elas também ajudariam na distribuição de cestas básicas conseguidas mediante doações. Uma taxa de R$ 5,00 seria cobrada por cada associado, sendo utilizada

64Na verdade, em uma redefinição da sua parceria com o Conselho Nova Vida (CONVIDA), a ONG Visão

Mundial que viabilizava o projeto, passa a priorizar as ações com o projeto Meninos de Deus . Com isso as jovens Meninas do rap acabaram por perder a ajuda de custo que recebiam na forma de bolsas, tendo que procurar um emprego para manter-se e ajudar a família.

65Pedagogo, filósofo e estudante de serviço social, ligado aos direitos humanos e com uma visão mais aberta

sobre diversidade sexual, divórcio, celibato, e a própria visão de espiritualidade: “Minha mãe é médium e eu cansei de ver as entidades que ela recebia. Eu tenho um profundo respeito por todos os credos que levam a Deus.” Admirador de São Francisco de Assis. Ligado a Igreja Católica Apostólica Brasileira (ICAB).

basicamente para o pagamento das contas de água e luz. 66 Conhecer essa história gerou em mim um sentimento de empatia e interesse, que influenciou na escolha de algumas das mulheres que participaram da pesquisa.

Nosso primeiro contato com as atividades do projeto Amo Cuidar ocorreu por acaso. E o que seria cuidar? A noção de cuidado envolve o cuidar de si, cuidar do outro e cuidar do ambiente, nos âmbitos comunitário, social e natural. Cuidar é tocar na complexidade da força e da fraqueza que envolve cada um desses elementos. Assim afirmo o humano em mim e mobilizo o humano no outro (GAUTHIER, 2012).

Eu havia marcado um encontro com Lótus, mas chegando a sua casa fui informada por seu companheiro que ela estava na associação. Apesar do estranhamento inicial, senti que poderia ser aquele um bom momento para rever aquele espaço. Fazia tempo que não o visitava e desde a pesquisa dissertativa ele se mostrara como uma referência importante para a comunidade como pode ser visto nas anotações do diário de campo:

O prédio da associação comunitária desativada, uma casa de esquina, agora estava pintado de branco, sem o grafite da época da antiga pesquisa. Cheguei ao final de uma reunião com um grupo de mulheres gestantes, grupo semanal, facilitado por uma psicóloga e pelo padre idealizador do projeto, que ficava responsável pela parte pedagógica. (Diário de Campo, 06 de julho de 2016).

Figura 16 – Encontro do grupo de gestantes na associação

Fonte: arquivo pessoal da pesquisadora (06/07/2016).

Há em média de 15 a 20 mulheres presentes nas reuniões do grupo de gestantes. Participam das reuniões também as mulheres que estão à frente do projeto, dando suporte na

66Com o passar do tempo o padre e suas ideias começam a ficar conhecidas e as ações do projeto começam a ser

de certo modo boicotadas. Outros projetos sociais com atuação no Gereba passam a se sentir ameaçados e inicia-se uma disputa “subliminar” na comunidade.

parte da organização do espaço, acolhida, alimentação, limpeza, distribuição de cestas básicas e peças de enxoval. Eis as anotações do diário de campo:

Naquele dia, havia acontecido uma reunião, marcada de última hora, sobre as relações interpessoais no grupo, apelidada de” lavagem de roupa suja” – disso eu ficaria sabendo momentos depois de chegar. O padre já havia saído, mas as mulheres estavam reunidas ainda em círculo com a psicóloga em uma conversa informal, num tom que parecia amigável. Apresentei-me e fui convidada a falar sobre a minha pesquisa. Foi uma fala rápida, uma vez que o local precisava ser limpo e preparado para as atividades que aconteceriam logo mais na calçada da associação. Era um grupo de mulheres bastante alegres. Ficamos conversando com algumas delas após a reunião. Quase todas iriam participar de uma aula de Zumba67 .

Pedi que me explicassem que aula era essa e elas me disseram parecer com uma ginástica aeróbica, envolvendo vários ritmos musicais. Após a limpeza do salão iriam em casa trocar-se:” Sei, vocês vão é se produzir!”, disse brincando, e todas riram. (Diário de Campo, 06 de julho de 2016).

Havia algo de subversivo na alegria contagiante e no agir-dançar daquelas mulheres, que tantas vezes eu iria rever. Algo de instigante, potente e formador que fazia com que em alguma medida (e a mim não importa exatamente qual), elas pudessem se recriar, se redescobrir e se refazer, se percebendo e se revelando como corpo consciente. Se para a cidade elas eram invisíveis, e por isso mesmo, muitas vezes impedidas de dizer a sua voz, em

momentos como aqueles, prevalecia a máxima de Pierre Weil (1999, p. 88): “O corpo fala”.

Por outro lado, ao tratarem os conflitos “na roda”, demonstravam uma dinâmica que me pareceu interessante. “Quando tem problema a gente diz logo: ‘vamos sentar, vamos sentar e conversar!’”, comentou Flor, certo dia. Mais uma vez me remeto a Freire ao defender e acreditar em uma educação dialógica, visto que, se a práxis é o motor da transformação e a educação é justamente um de seus componentes mais relevantes, o diálogo é o fio condutor desse processo: “O diálogo é o encontro amoroso dos homens que, mediatizados pelo mundo,

o “pronunciam”, isto é, o transformam” (FREIRE, 1977, p. 43).Diálogo esse que ao invés de

romântico, ou negador do humano em nós, se faz por vezes radical, combativo, sem ser sectário. Eis o desafio da amorosidade proposta por Freire.

A continuação de nosso diário segue sinalizando dentre outras coisas, a necessidade desse exercício:

Somente duas mulheres ficaram para a limpeza do local, dentre elas Lótus, cujas filhas pequenas já estavam por cercá-la, querendo a sua atenção. Me prontifiquei para ajudá-las, acabando por distrair as crianças, distribuindo giz de cera e papel trazido de casa. Enquanto Lótus varria o salão, ela conversou comigo dizendo estar tensa e com dor de cabeça. Contou-me de uma questão que acabara de colocar na reunião: Em um evento que acontecera recentemente, havia sobrado um panelão de sopa. Com o intuito de ajudar uma família da comunidade que naquele momento

67Exercício físico aeróbico baseado em movimentos de danças latinas, como o merengue, a cumbia e a salsa

estava em uma situação muito difícil, Lótus sugeriu distribuir parte do que havia restado, ideia rejeitada por uma das participantes, por achar que só o grupo que trabalhou na organização deveria ter direito. “Cadê a solidariedade? Disse Lótus. A gente é um grupo coordenado por um padre e ainda tem esse tipo de egoísmo?” (Diário de Campo, 06 de julho de 2016).

O registro no diário de campo, ao contrário de uma visão idealizada do projeto e das ações por ele desenvolvidas, revela um movimento de luz e sombra (não será esse o movimento da própria vida?), sinalizando alguns limites e possibilidades da vivência grupal que me reportam a um conhecido poema de Madalena Freire (2011, p. 30-31):

Eu não sou você Você não é eu.

Mas encontrei comigo e me vi Enquanto olhava pra você Na sua, minha insegurança Na sua, minha desconfiança Na sua, minha competição Na sua, minha birra infantil Na sua, minha omissão Na sua, minha firmeza Na sua, minha impaciência Na sua, minha prepotência Na sua, minha fragilidade doce Na sua, minha mudez aterrorizada.

E você se encontrou e se viu, enquanto olhava a pra mim? [...] Eu não sou você

Você não é eu

Mas somos um grupo, enquanto somos capazes de, diferenciadamente, eu ser eu, vivendo com você e você ser você, vivendo comigo.

A existência de conflitos, ao invés de algo necessariamente ruim, pode evidenciar fecundos territórios de aprendizagens onde se gestam horizontes formativos sutis, cotidianos e pulsantes, capazes de fortalecer os vínculos entre as pessoas de um grupo ao invés de inviabilizar o caminhar coletivo, como vemos na conclusão do diário de campo:

Mesmo irritada com a colega do grupo, ao falar sobre as ações sociais que eram realizadas ali, e de como vinha participando, os olhos de Lótus brilhavam, seu sorriso resplandecia e ela era toda intensidade. Pude ver um entusiasmo genuíno naquela mulher tão sofrida e perceber o quanto contribuir na organização das atividades da associação era importante para o seu crescimento e formação. (Diário de Campo, 06 de julho de 2016).

Delory-Momberger (2006) apreende uma implicação direta entre sujeitos e processos formativos, considerando-os como os atores responsáveis por sua própria formação. Essa capacidade auto formativa segundo a autora é um construto que envolve a reflexividade e a leitura das experiências num movimento que lhes permite agir sobre si mesmos e sobre o seu ambiente, tendo acesso às ferramentas necessárias à reescrita de suas histórias pessoais e coletivas, tendo como pressuposto que “[...] toda atividade humana, desde a mais rotineira até

a mais excepcional, implica um horizonte de possibilidade, um espaço diante dela mesma que

a conduz à existência e que lhe confere sua finalidade e sua justificação.” (DELORY-

MOMBERGER, 2006, p. 364).

O projeto Amo Cuidar, afora o grupo de gestantes possui outras atividades: As crianças podem brincar durante as aulas de dança e a contação de histórias que ocorre aos sábados. Há também capoeira para os jovens, karatê e aulas de violão. Os adultos no passado

iam com R$ 1,00 para o cinema comunitário, assistir filmes como “Os Trapalhões”, atividade

suspensa dada a violência. As mulheres por sua vez podem ocupar outros espaços para além do espaço doméstico, chegando a ter aulas de zumba em espaço aberto, na entrada do antigo prédio da associação. Elas participam também de palestras educativas e de oficinas de artesanato. Um grupo de mulheres ligado ao projeto teve início no ano de 2017, mas devido à impossibilidade da antiga voluntária e coordenadora, uma assistente social colega do padre, continuar a frente das atividades, houve um período de suspensão das atividades, retomando meses depois, mas desvinculado do projeto e com outra coordenação e proposta.

O projeto possui fases de expansão e contração. No meio do ano de 2017 ele enfrentou uma séria crise financeira, dada à inadimplência dos contribuintes. Houve corte de água e de luz em virtude das contas que ficaram atrasadas. Afora isso o coordenador adoeceu e uma das principais lideranças precisou fazer uma cirurgia. Tudo isso fez diminuir o número de atividades e gerou um clima de ansiedade e preocupação no grupo. O padre também começou a ficar desmotivado com o fato de muitos moradores e moradoras atrelarem a participação das ações ao recebimento de cestas básicas e outros tipos de ajuda, assim como com o interesse de outros grupos, dentre eles o de jovens educadores e artistas da cidade, em realizar ações em parceria com a associação.

Após alguns meses de conversas e da realização de bingos e rifas para a regularização das contas de água e luz, as ações foram aos poucos sendo retomadas, algumas delas num outro formato e perspectiva, como ocorreu com o grupo de mulheres. Do mesmo modo se deu com o grupo de artesanato, o qual passou a ter autonomia e uma atuação mais direta das mulheres à frente das atividades. Sobre esses grupos falarei mais detalhadamente no capítulo seguinte, assim como sobre as ações que envolvem a biblioteca recém criada pelas mulheres (em parceria com os jovens educadores), com sede também no prédio da associação. Acredito que parte das motivações sobre o refluxo nas ações do projeto Amor Cuidar, no segundo semestre de 2017, deveu-se ao acirramento da violência na comunidade em função dos crimes ligados ao narcotráfico. “Tu tá no meio da bala!” Disse o padre em uma das reuniões com o grupo de mulheres, aludindo ao comentário de um colega de fora, sobre o

trabalho idealizado por ele no Gereba. “Em uma das reuniões, tivemos que fechar tudo e ir embora porque estava tendo bala mesmo!” - complementa.

A importância desse tema nos faz começar a discorrer a seguir, sobre esse contexto de agudização da violência, os impactos na qualidade de vida das mulheres da

pesquisa e sobre os desafios que essa questão traz para a própria pesquisadora.68

2.2.4 Os conflitos territoriais, o medo e as primeiras expressões de resistência – em meio a