O trabalho de pesquisa foi iniciado com uma revisão bibliográfica ampla sobre o tema a ser investigado e seus desdobramentos, tanto em meio editorial (livros e
informativos impressos), quanto virtual (textos postados on-line em vários sites e portais) – uma ação necessária para consubstanciar a pesquisa de campo com os sujeitos selecionados, e que representa a principal característica que define a pesquisa de natureza bibliográfica e documental, conforme a metodologia definida por Godoy (1995).
O aspecto documental da pesquisa refere-se à coletânea e análise de diplomas legais e normativos (leis, decretos, portarias, emendas, resoluções e demais publicações institucionais), periódicos, teses, dissertações, materiais de eventos, disponibilizados em meio editorial ou virtual, além dos documentos fornecidos pela escola pesquisada durante os trabalhos de pesquisa.
Trata-se, portanto, de uma fase da investigação e estudos imprescindível para munir o(a) pesquisador(a) com subsídios teóricos para pesquisar os fenômenos, fatos e circunstâncias da vida real, em profundidade, tendo como parâmetro inicial a base teórico-conceitual e os estudos desenvolvidos por outros(as) pesquisadores(as) que o(a) precederam na análise da temática – no caso do presente trabalho, alguns deles citados no Estado da Questão da Temática Pesquisada, na Introdução.
A revisão literária e a releitura do trabalho de outros estudiosos são de extrema importância, pois além de embasar novas buscas e pesquisas, inspirar e instigar novos autores e pesquisadores, promovem uma contínua e necessária reflexão sobre a temática a ser debatida à luz de concepções e aspectos diferenciados. Trata-se, a nosso ver, de um diálogo entre autores e de uma conciliação dos conhecimentos produzidos em diversas épocas, que possibilitam a constituição de um corpo teórico sólido e aprofundado sobre o assunto pesquisado. Na opinião de Minayo e Sanches (1993):
A Pesquisa é a atividade básica da Ciência na sua indagação e construção da realidade [...] embora seja uma prática teórica, a pesquisa vincula pensamento e ação, ou seja, nada pode ser intelectualmente um problema se não tiver sido, em primeiro lugar, um problema da vida prática (MINAYO; SANCHES, 1993, p. 247; p. 240).
Na sequência, para definição da natureza, métodos, técnicas e instrumentos mais apropriados à pesquisa proposta neste trabalho, foram consultados autores que discorrem com propriedade sobre os vários tipos de pesquisas científicas e acadêmicas, seus métodos e a sua adequação ao fenômeno a ser investigado. Entre eles destacam-se: Minayo e Sanches (1993; 1996), Godoy (1995), Richardson
(1999), André (2001), Szymanski (2002), Lima e Mioto (2007), Stake (2011) e Manzini (2012).
De acordo com Minayo e Sanches (1993) cabe, em princípio, destacar a importância das pesquisas científicas e acadêmicas, sua função social e a relevância dos conhecimentos por elas revelados e analisados para a compreensão da vida, da sociedade, dos fenômenos que emergem do universo humano, de sua realidade sociopolítica, econômica, cultural e histórica, bem como das relações interpessoais do homem na sociedade e sua ação sobre o meio em que vive:
[...] A pesquisa trata-se, assim, de uma ferramenta fundamental no sentido de pensar a realidade. O debate em torno da pesquisa está longe de ser homogêneo, pois envolve realidades sociais, circunstâncias cotidianas e ideologias distintas.
[...] O conhecimento científico é sempre uma busca de articulação entre uma teoria e a realidade empírica; o método é o fio condutor para se formular esta articulação. O método tem, pois, uma função fundamental: além do seu papel instrumental (MINAYO; SANCHES, 1993, p. 247; p. 240).
A partir das concepções dos autores citados, bem como em vista que “[...] a realidade, a Ciência e a pesquisa são elementos vivos e em movimento” (PUCETTI, 2016, p. 65), portanto, ricos em significados e em representações, optamos por uma pesquisa de natureza qualitativa em relação aos sujeitos envolvidos no processo foco, que é definida por Richardson (1999, p. 90) como uma “[...] tentativa de apreensão detalhada dos significados e características situacionais apresentadas aos entrevistados, em lugar da produção de medidas quantitativas de características de comportamento”. Tal escolha deve-se, ainda, ao fato de que esta modalidade de pesquisa atua sobre a realidade da seguinte forma, segundo Minayo e Sanches (1993):
[a pesquisa qualitativa] atua em níveis da realidade, onde os dados se apresentam aos sentidos: "níveis ecológicos e morfológicos", na linguagem de Gurvitch (1955). [...] trabalha com valores, crenças, representações, hábitos, atitudes e opiniões. [...] adequa-se a aprofundar a complexidade de fenômenos, fatos e processos particulares e específicos de grupos mais ou menos delimitados em extensão e capazes de serem abrangidos intensamente (MINAYO; SANCHES, 1993, p. 247).
Para a abordagem dos sujeitos da pesquisa foi utilizada a técnica de entrevista presencial gravada, posto que o contato pessoal, frente a frente, é uma situação de interação humana em que as percepções do outro, suas expectativas, sentimentos e preconceitos são mobilizados e podem contribuir com a reflexão
crítica do tema pesquisado.
Assim, conforme os enunciados teóricos apresentados, foram desenvolvidas quatro entrevistas reflexivas (SZYMANSKI, 2002), de forma individual, com abordagem qualitativa como referência, por abarcar um conjunto heterogêneo de perspectivas e análises, buscando a compreensão das questões postas a partir das pessoas que atuam e trazem o olhar “de dentro” do contexto desta escola. As entrevistas, depois de gravadas, foram transcritas na íntegra, e encontram-se sob a responsabilidade da pesquisadora.
A técnica da entrevista reflexiva, é importante distinguir, apresenta-se como um instrumento largamente utilizado em pesquisas qualitativas para estudos de significados subjetivos e complexos, a serem investigados por instrumentos padronizados, conforme Szymanski (2002), que elucida:
Foi na consideração da entrevista como um encontro interpessoal no qual é incluída a subjetividade dos protagonistas, podendo se constituir um momento de construção de um novo conhecimento, nos limites da representatividade da fala e na busca de uma horizontalidade nas relações de poder, que se delineou esta proposta de entrevista, a qual chamamos de reflexiva, tanto porque leva em conta a recorrência de significados durante qualquer ato comunicativo quanto a busca de horizontalidade [...]. Reflexividade tem aqui também o sentido de refletir a fala de quem foi entrevistado, expressando a compreensão da mesma pelo entrevistador e submeter tal compreensão ao próprio entrevistado, que é uma forma de aprimorar a fidedignidade, ou como lembra Mielzinska (1998, p. 132), “assegurar-nos que as respostas obtidas sejam „verdadeiras‟ – isto é, não influenciadas pelas condições de aplicação e conteúdo do instrumento” (SZYMANSKI, 2002, p.14-15).
Portanto, a opção pela entrevista com os(as) professores(as) selecionados(as) deveu-se ao potencial que esta técnica oferece, e mostrou-se, na prática, como um procedimento apropriado – condição constatada efetivamente durante o desenvolvimento o trabalho de campo. Este instrumento forneceu, ainda, elementos para compreender e problematizar a grande complexidade inerente ao tema proposto, lançando mão, como afirma André (2001), de um vasto arsenal de enfoques e percepções capazes de proporcionar um maior entendimento das questões a serem investigadas neste trabalho.
De forma complementar, Minayo (1996) afirma que, ao mesmo tempo em que há a representatividade da fala na entrevista, há os ocultamentos e distorções inevitáveis. Assim, o movimento reflexivo que a narração exige contribui para colocar o entrevistado frente ao pensamento organizado, de uma maneira inédita até para
ele mesmo.
Além disso, durante a entrevista, algumas situações são passíveis de serem observadas pelo entrevistador, a partir da manifestação do entrevistado e de suas posturas mais espontâneas ou rígidas assumidas no evento. Ao mesmo tempo, a entrevista reflexiva fornece liberdade de expressão ao entrevistado para construir suas respostas, de acordo com seu ritmo e raciocínio e, como afirma Szymanski (2002):
Não há um roteiro fechado – ele pode ser visto como aberto, no sentido de basear-se na fala do entrevistado; mas os objetivos da entrevista devem ser claros, assim como a informação que se pretende obter, a fim de se buscar uma compreensão do material que está sendo colhido e direcioná-la melhor (SZYMANSKI, 2002, p. 18).
A flexibilidade ofertada pelo instrumento da entrevista ao sujeito pesquisado permite-lhe ter maior confiança nas respostas, à medida que concede ao(a) pesquisador(a) a reflexão sobre a fala do entrevistado. O(a) entrevistador(a), ao expressar compreensão em relação ao discurso obtido na entrevista, pode submeter este seu entendimento ao entrevistado como uma forma de aprimorar a fidedignidade das respostas, ou como afirma Mielzinska (1998, p. 132 apud SZYMANSKI, 2002, p.14-15), cuja concepção vale reiterar: assegurar-se “que as respostas obtidas sejam verdadeiras – isto é, não influenciadas pelas condições de aplicação e conteúdo do instrumento”.
A técnica da gravação, por sua vez, permite ao(a) pesquisador(a) uma escuta mais atenta e cuidadosa do discurso do entrevistado e, portanto, um maior potencial de análise reflexiva, o qual pode ainda ser ampliado durante o ato da transcrição, no momento da transformação das palavras faladas em palavras escritas.
Além disso, a transcrição dos discursos traz ainda como benefício a possibilidade de documentar as respostas e torná-las rastreáveis, a qualquer tempo e momento, dependendo da necessidade do(a) pesquisador(a) e, segundo Queiroz (1983, p. 84 apud Manzini, 2012, p. 4), “[...] ao efetuar a transcrição, o pesquisador tem, então, a invejável posição de ser ao mesmo tempo interior e exterior à experiência” da entrevista e de contato pessoal com o entrevistado. Para Manzini (2012), a transcrição da entrevista “[...] implica fazer recortes, implica estabelecer regras e critérios para transcrição”, conforme esclarece a seguir:
A transcrição terá como meta transpor algo sonoro, que pode ser escutado e reescutado, algo que foi vivenciado, para uma
representação gráfica, que passará a ser objeto de análise por parte do pesquisador. Assim, essa passagem deverá ter recortes e o pesquisador deverá escolher seus critérios para representar graficamente aquele dado que foi coletado (MANZINI, 2012, p. 7). Tomamos por base essa concepção, que nos orientou nos trabalhos de investigação inicial, de reprodução de trechos dos discursos na dissertação e sua conciliação com informações coletadas na pesquisa de revisão literária, formando um contexto maior para a análise da temática.