Antecipadamente, os entrevistados foram informados sobre os objetivos da pesquisa: compreender as práticas e as percepções dos entrevistados sobre as questões relativas à alfabetização, que podem levar à reprovação e dificuldades no prosseguimento dos estudos, no contexto da escola integral, levando-se em consideração que vários são os fatores que influenciam no sucesso/fracasso nos processos de alfabetização.
Após os esclarecimentos iniciais, e antes do início das entrevistas agendadas, formalmente todos os participantes tomaram ciência dos procedimentos a serem efetuados, por meio da assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido – TCLE (modelo no Apêndice 1) e informados que a pesquisa e seus resultados correriam em sigilo em relação a identidade dos participantes, garantindo o seu anonimato, para que tivessem mais liberdade de expressar suas práticas, intenções, vivências e expectativas, evitando constrangimentos que pudessem ocasionar situações de dificuldade no ambiente de trabalho.
As entrevistas foram realizadas com a intenção de obtermos uma investigação que possibilitasse identificar e analisar as percepções dos profissionais da educação – um professor, duas professoras dos anos iniciais do EF e a coordenadora pedagógica –, de maneira mais profunda do que extensiva. Tendo em vista os objetivos da pesquisa, isso nos pareceu mais adequado que um levantamento extensivo das experiências e impressões, as quais temos a intenção de refletir ou problematizar.
Já, que tais objetivos não se limitam ao exame dessas experiências, mas, sim, utilizar o conhecimento sobre elas como subsídio para a reflexão e a problematização da questão da alfabetização na escola pública de tempo integral, optou-se pelo enfoque qualitativo e os dados foram coletados a partir das entrevistas semiestruturadas, como já citado.
As quatro entrevistas foram realizadas na escola, em condições individualizadas, uma vez que a disponibilidade de horários de cada um dos envolvidos era diferente. Tomamos o cuidado de conversar pessoalmente e individualmente com cada um, para explicar os objetivos da pesquisa e os cuidados que já tinham sido tomados, assim como as autorizações obtidas. Após assinatura dos termos de participação (subitem 2.1.3 – Os instrumentos da pesquisa e da coleta de informações), agendamos o primeiro encontro.
Optamos por iniciar as entrevistas pela Professora P3, do 3° ano, exclusivamente, por disponibilidade de conciliação da sua agenda com a agenda da pesquisadora. Encontramo-nos em suas aulas vagas (eram duas no dia agendado para a entrevista), na sala de leitura, a qual já tinha sido reservada com a coordenação para tal finalidade. Ela estava apreensiva, fez diversas perguntas sobre como faríamos, se ela poderia falar tudo que pensava, como estas informações seriam divulgadas e, após tudo esclarecido iniciamos, porém, sem gravar neste momento, em virtude de sua solicitação.
No primeiro encontro, a Professora P3 não autorizou a gravação, alegando que estava se sentindo nervosa, explicando, porém, que num segundo momento já estaria mais segura para gravar. No segundo encontro, conforme combinado, a docente autorizou a gravação.
Após a Professora P3 ter acesso a algumas perguntas, ela foi se sentindo mais confortável, sendo mais espontânea na fala, demonstrando segurança e conhecimento acerca daquilo que relatava. No segundo encontro, que ocorreu em condições muito semelhantes e no mesmo espaço, ela autorizou a gravação e, desde, o início demonstrou segurança e tranquilidade para responder as questões propostas.
A segunda entrevistada foi a Professora P2. Também nos encontramos na escola, durante suas aulas vagas, com agendamento prévio e na mesma sala. Esta professora não fez questionamentos adicionais, demonstrava tranquilidade e permitiu a gravação logo de início. Foi mais objetiva em suas respostas, mesmo quando eram incluídas perguntas complementares para que explicasse melhor seus conhecimentos e vivências, ela se manteve sucinta. Foi necessário reformular algumas questões, pois percebemos que ela não havia compreendido o objetivo da mesma e, algumas vezes, também precisamos realizar comentário ou afirmações complementares, em virtude de não termos compreendido o que ela quis dizer.
Concluímos a entrevista em apenas um encontro.
Com o Processor P1, único professor desse grupo de entrevistadas, nos organizamos da mesma forma e ele não tinha perguntas adicionais ou novas e também demonstrava tranquilidade e segurança. Respondeu a todas as perguntas com calma, clareza e bom humor. Nosso segundo encontro precisou ser cancelado na última hora, em virtude dele precisar usar as aulas vagas do dia para substituir um colega que havia faltado sem aviso prévio. Em virtude do contratempo, reagendamos a entrevista, que transcorreu como planejado. Nosso último encontro aconteceu após o término das aulas do dia, em sua própria sala de aula –, há um dia na semana que eles possuem a última aula do dia vaga, após a saída dos estudantes.
Todos os encontros com o professor e as professoras transcorreram em um clima assertivo e participativo, sem intercorrências ou interrupções.
A Coordenadora Pedagógica (CP) foi a última a ser entrevistada. Em virtude de sua agenda ser muito atribulada e cheia de imprevistos, e apesar de sugerir que nos encontrássemos em qualquer horário e local que fosse melhor para ela. Conseguimos agendar nossos dois encontros no final do período de aula, após a saída dos estudantes e professores. Esta escolha foi dela, justificando que estaria mais tranquila e, dessa forma, não seríamos interrompidas. Os encontros ocorreram de forma tranquila, a CP apresentou-se segura e expôs, com franqueza, suas experiências e impressões.
No segundo encontro, mesmo sendo no final do expediente dos professores, fomos interrompidas três vezes, duas presencialmente por uma professora e uma inspetora, as quais ela sinalizou que não poderia atender, pedindo que retornassem depois, e a terceira pelo telefone, neste momento interrompemos a gravação e retomamos em seguida, após ela comentar, de maneira lastimosa, que nunca consegue fazer nada sem ser interrompida.
As gravações das entrevistas foram submetidas à escuta atenta e cuidadosa por parte da pesquisadora que, na sequência, iniciou o processo de transcrição na íntegra, porém, foram aplicados pequenos ajustes e insertos para facilitar o entendimento do discurso pelo leitor, mas sem alterar o teor das informações prestadas pelo entrevistado, mantendo, portanto, a fidedignidade das respostas obtidas no processo de pesquisa. Estes recursos também foram incorporados aos recortes dos discursos do(as) entrevistado(as), seguindo os critérios especificados
por Manzini (2012, p. 6).
Após as transcrições, as entrevistas foram submetidas a análises individuais, a partir do próprio conteúdo disponibilizado pelos entrevistados, pois este tipo de entrevista pode trazer informações bastante ricas sobre o fenômeno que se pretende estudar, conforme declara Szymanski (2002).
Com o objetivo de aprofundar a reflexão, ao final foi elaborada uma análise global de todas as entrevistas, sob a perspectiva de observar as especificidades de cada profissional envolvido nos anos iniciais do Ensino Fundamental, que correspondem ao período de alfabetização, de modo que as análises das narrativas dos(as) protagonistas da situação na alfabetização, aqui representados pelos(as) docentes e coordenadora entrevistados(as), possa ampliar a possibilidade de diálogo no interior da escola de tempo integral sobre o tema da alfabetização sob uma perspectiva integral e crítica.
Com esse propósito, a escuta, as transcrições e as análises das entrevistas realizadas basearam-se na Metodologia de Análise de Conteúdo, formulada por Franco (2008, p. 14), que se apresenta como “[...] um procedimento de pesquisa que se situa em um delineamento mais amplo da comunicação e tem como ponto de partida a mensagem”. A mensagem pode expressar-se de forma verbal, gestual, silenciosa, figurativa ou documental, mas, sempre, plena de significados e sentidos cognitivos, afetivos, valorativos e ideológicos do sujeito pesquisado, a serem interpretados pelo(a) pesquisador(a). Após esta explicação, Franco (2008) aponta três fases do trabalho de análise de conteúdo:
[1] A descrição, que relaciona todas as características do conteúdo coletado nas entrevistas, e que é apresentado e analisado.
[2] A interpretação do(a) pesquisador(a), mediante os seus pressupostos iniciais sobre a pauta da entrevista e revisão literária prévia, acrescida de sua própria experiência no âmbito em que desenvolve a sua investigação. [3] A inferência, que apresenta, mediante conciliação teórica e trabalho de campo, as conclusões que levaram a pesquisa e que foram deduzidas pelo(a) pesquisador(a), constituindo um novo conhecimento sobre o assunto da pesquisa (FRANCO, 2008).
Na sequência, com base na metodologia proposta e em conformidade com as informações obtidas nas entrevistas transcritas e pela compreensão dos vários sentidos presentes no discurso, que formam as hierarquias dos sentidos, o material
foi analisado e deu origem às considerações formuladas e apresentadas pela pesquisadora, neste trabalho. Para Franco (2003, p. 16), outra estudiosa do assunto, a análise de conteúdo “[...] implica comparações textuais. Os tipos de comparações podem ser multivariados. Mas, devem, obrigatoriamente, ser direcionados a partir da sensibilidade, da intencionalidade e da competência teórica do pesquisador”.