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2 Les possibilités de la fonction scanf

1.4 Initialisation de tableaux de pointeurs sur des chaînes

O jagunço destemeroso, o tabaréu ingênuo e o caipira simplório, serão em breve tipos relegados às tradições evanescentes, ou extintas [...] A civilização avançará nos sertões impelida por essa implacável ‘força motriz da História’ [...] no esmagamento inevitável das raças fracas pelas raças fortes.

A campanha de Canudos tem por isto a significação inegável de um primeiro assalto, em luta talvez longa [...] Aquela campanha lembra um refluxo para o passado.

E foi, na significação integral da palavra, um crime. Denunciemo-lo (CUNHA, 1995, p. XXIX).

A campanha de Canudos, como se tornaram conhecidos os enfrentamentos entre religiosos e as forças oficiais brasileiras entre os anos de 1896 e 1897 é, possivelmente, o evento mais importante de questionamento do Estado brasileiro de que se tem notícia. De acordo com Calasans (2002), que escreveu sobre o ciclo folclórico que ganhou corpo durante e após o evento, as pregações de conselheiro perduraram algumas décadas. A diferença é que, no começo, o beato estava disposto, apenas, a erguer igrejas e recuperar cemitérios, só depois liderando um movimento messiânico que pregava o fim do mundo. A exemplo dos acontecimentos do sul do país, duas décadas antes, os sertanejos religiosos foram compelidos para uma nova forma de lidar com suas crenças.

Não pretendemos, aqui, discutir em profundidade o evento de Canudos, pois ultrapassa totalmente o nosso objetivo. Além disso, quando José Calasans defendeu sua tese de livre docência, em 1950, ele já listava trinta e três documentos sobre o evento, e, hoje, eles podem ser contados aos milhares. Os interessados no conflito não terão dificuldades em encontrar farta documentação a respeito. Queremos, apenas, entender quais os motivos que levaram os médicos a se dedicarem aos acontecimentos ocorridos na Bahia e silenciarem em relação aos do Sul do Brasil. Assim como Jacobina, Antônio Conselheiro também foi tachado de “doente mental” (que, embora perigoso e requerendo ser controlado, era digno de pena), de possuir apóstolos, de atentar contra a harmonia social etc. Em Calasans (2002), livro escrito em 1950, com a finalidade de revisar as ideias acerca do conflito, encontramos referências à fragilidade mental dos seguidores de Conselheiro, a Maciel como “profeta bronco” e a última fase do evento como sendo de um “messianismo da raça”.

Os diversos autores que trataram do movimento, no período que estamos analisando, a exemplo de Nina Rodrigues e Euclides da Cunha, concordavam que aquela não era uma situação normal e evidenciavam a necessidade de se recorrer a explicações acerca da fragilidade mental/racial para explicar os eventos considerados (CUNHA, 1995; RODRIGUES, 2006; CALASANS, 2002). Cunha (1995, p. 51) apresentava esta conexão

quando, estudando o homem brasileiro, afirmava desolado: “não temos unidade de raça. Não a teremos, talvez, nunca”. A crença comum dos cientistas da época era que a raça gerada a partir do meio ambiente e da biologia do indivíduo poderia explicar os diversos acontecimentos que se desenrolavam na Bahia. Este raciocínio funcionava bem em relação aos seguidores de Conselheiro, mas apresentava dificuldades para explicar Jacobina e seu grupo.

Embora semelhantes, os dois eventos messiânicos se distanciavam, exatamente, nas hipóteses científicas utilizadas para explicá-los. Comparando-se os dois acontecimentos sociais, percebemos as dificuldades que os médicos e os pensadores nacionais do período enfrentariam se tivessem que lidar com os episódios do Sul do país. Como nos lembra Jean Roche:

E eis aqui tantos motivos de surpresa e perplexidade (uma crise diametralmente oposta à de Canudos): no extremo sul do Brasil, nada tropical, nem seco; numa zona de imigração européia, sem mestiços; numa sociedade constituída por

pequenos proprietários; uma população alfabetizada (pelo menos, em alemão) e

com dois terços de religião protestante. (ROCHE, 2003, p. 14, grifos nossos). Seguramente, quando o evento de Canudos ocorreu, não deveria ser fácil relembrar as “desordens” ocorridas no sul do país. A memória não permite que qualquer evento se transforme em fato histórico, ela faz uma seleção a partir das necessidades dos atores sociais que estão responsáveis pelos registros (NIETZSCHE, 2005; DARNTON, 1986).

Os médicos baianos se depararam com a seguinte dificuldade: se usassem os eventos que envolviam alemães brancos e submetidos a condições metereológicas totalmente distintas daquelas encontradas na Bahia, teriam que abrir mão de todas as certezas que a ciência da época oferecia aos grupos que se debatiam em relação ao futuro branco do Brasil. Como o meio acadêmico baiano poderia lidar com um evento histórico que negava toda e qualquer possibilidade de melhorar o futuro do país? Os acontecimentos de São Leopoldo precisavam ser esquecidos, e o ocorrido em Canudos, que envolvia mestiços em um ambiente inóspito, deveria ser lembrado – assim, a ciência da época seria salva e, com ela, nosso futuro como nação.

Tanto em São Leopoldo como em Canudos os profetas faziam curas, ocupando indevidamente o lugar do médico, e lidavam com o mundo do sagrado, usurpando o espaço dos religiosos profissionais. Mesmo com o advento da República, o Brasil continuou a ser um país religioso e os representantes de Cristo continuaram a ter bastante influência nas decisões praticadas no território nacional. Os profetas messiânicos conseguiam a façanha de colocar lado a lado todos os defensores da ciência e da fé – uma situação impensável para o século

dezenove, principalmente a partir da década de 1850, quando os lados foram cada vez mais se distanciando. Poucos eram os que ousavam, na “basílica do ensino médico baiano”, se autodeclarar homem de ciência e de Deus ao mesmo tempo.

Sobre Conselheiro, o doutorando Luiz Pinto de Carvalho afirmou, logo após o conflito, em 1898, que era “o retrato exacto do novo desequilibrado” e que usava “[...] vestes especiais, que eram longa tunica presa á cintura por grosso cordão, andava em vagabundagens pelos sertões, dizendo-se o novo Messias, e fazendo mesmo diversas curas.” (CARVALHO, 1898, p. 69-70, grifos nossos). Os grifos permitem identificar os problemas sobre os quais já havíamos chamado a atenção anteriormente, os profetas interferindo nos ofícios dos médicos e dos padres. Além disso, desconsideravam a forma correta de agir na sociedade (pois andavam em “vagabundagens”) e serviam de exemplo negativo para a população do sertão baiano. Para o doutorando, Conselheiro “incitava a acompanharem-n’o as populações do interior, alimentando a preguiça e incitando-as nas tristes doçuras da indolência” (CARVALHO, 1898, p. 112, grifos nossos). Em verdade, autores como Carvalho estavam se posicionando contra todas as religiões e, em especial, os diversos tipos de cristianismo. É nessa tese que ele tenta mostrar que Jesus Cristo era apenas mais um dos muitos loucos que circulavam na Jerusalém do passado. Temia que o estado de atraso social retornasse através de figuras como Antônio Conselheiro. Compara os dois “profetas”, aproximando o “louco” do presente e o do passado: “o que nos interessa mais de perto é que o maniaco ambicioso, o louco que pretendia elevar-se á altura de um Christo, arrastava atraz de si a todos aquelles pobres de espiritos, infelizes propensos a todas as adorações, a todas as crenças, exactamente como segiam a Jesus as mulheres e a plebe de Jerusalem” (CARVALHO, 1898, p.112-113).

O tema que mais preocupava o doutorando era a ocupação do espaço médico por alguém não habilitado para o ofício. O interessante é que os médicos não discutiam se as “receitas” dos profetas estavam funcionando, nem se posicionavam contra a terapêutica (que, na maioria dos casos, era a sugestão), apenas discutiam quem estaria apto a utilizar a sugestão como técnica para curar: “Importa saber que Antonio Maciel era também medico dos seus ardentes proselytos, e por certo era a suggestão religiosa o seo medicamento predilecto” (CARVALHO, 1898, p. 113). Segundo o doutorando, as curas realizadas pelo “delirante religiosos da Bahia” só faziam efeito devido “[à] convicção d’aquella pobre gente, cerebralmente enfraquecida pela fatal degeneração da raça latina, já de antemão preparada para todos os desvios mysticos pelo ensinamento religioso exclusivo” (CARVALHO, 1898, p. 113, grifos nossos). O medo em relação aos perigos que a religião,

supostamente, poderia acarretar era freqüente entre os doutorandos baianos. O pior dos mundos se instalava quando um dos degenerados superiores se tornava profeta e aproveitava a fragilidade cerebral dos seus seguidores para direcionar as pregações para ações contra o Estado, ameaçando a sociedade como um todo. A matéria prima para construção desses seres perigosos estava em toda parte, tanto no Sertão, devido à pobreza a que os seres humanos estavam submetidos, como nas grandes cidades, consideradas espaços de degeneração moral por excelência, nos quais os abusos de drogas e sexuais levavam ao desenvolvimento desenfreado dos males sociais. Perdurava, ainda, a certeza de que o cérebro dessa gente, tanto da cidade como do interior, era frágil, só necessitando a intervenção de um louco com capacidade de oratória para que as pessoas enveredassem pelo que realmente assustava as classes dirigentes do Brasil – o crime.

Analisaremos, agora, o que realmente assustava os médicos baianos, considerado caminho “natural” de uma “raça” com cérebro inferior quando se dedicava à religião, como no caso da “raça brasílis”. A raça instável empurrava as pessoas para uma religião que, após despertar as doenças presentes em seus cérebros frágeis, as conduzia ao mundo do crime.

No Quadro 3 a seguir, é possível visualizar os autores discutidos no capítulo e identificar em quais outros capítulos eles reaparecem.

Quadro 3 – Autores citados no terceiro capítulo desta Tese

AUTOR NOME DA TESE ANO CAPÍTULOS

1. Eugenio Guimarães

Rebello As Raças Humanas Descendem de uma só origem? 1869 1º, 2º, 3º 2. Pedro Americano Corrêa

Filho A Genealogia Humana 1895 1º, 2º, 3º, 4º

3. Pery Guimarães Ligeiras Considerações sobre as raças humanas 1911 1º, 2º, 3º 4. Genaro Veiga Sampaio Espiritismo e Loucura: Contribuição ao Estudo das Chamadas “Psychoses

Espiritas”

1926 2º, 3º 5. Luiz Pinto de Carvalho O Sobrenatural em Therapeutica 1898 1º, 2º, 3º 6. Carlos Affonso Alves Das Suggestões no Tratamento das doenças psychicas 1888 3º, 4º 7. Atistêo Ferreira

D’Andrade Das Suggestões no Tratamento das doenças psychicas 1888 3º 8. Francisco Pontes de

Miranda A Insanidade Mental como Dirimente dos Delictos 1902 1º, 3º, 4º 9. Antônio Ribeiro

Gonçalves Menores Delinqüentes 1902 1º, 3º, 4º

10. Oscar Freire de

Carvalho Etiologia das Formas Concretas da Religiosidade no Norte do Brasil 1902 1º, 2º, 3º, 4º 11. Aurelio Domingues de

Souza Prophylaxia das Molestias Mentaes 1907 2º, 3º 12. Ulysses Florival

Barbuda Genese da Personalidade Psychica 1910 3º 13. Manuel Sampaio

Marques Hysteria no Homem 1890 1º, 3º

14. Eduardo Jansen Mello Hysteria no Homem 1890 3º 15. Fabio Lopes dos Santos Hypnotismo e Livre Arbítrio 1880 3º, 4º 16. Landulpho M. de

Magalhães Hypnotismo e Livre Arbítrio 1889 1º, 3º, 4º 17. Nestor Pires Necessidade de uma Campanha Anti-Espírita 1927 2º, 3º 18. Octavio Vieira de Mello Paralysia Geral dos Alienados 1902 2º, 3º, 4º 19. Francisco de Souza

Ponde Assistencia Publica aos Loucos Delinquentes no Brazil 1902 1º, 3º, 4º FONTE: Produção do autor.

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