• Aucun résultat trouvé

À quoi sert la déclaration d’une fonction

Dans le document Programmer en langage C (Page 115-119)

2 Les possibilités de la fonction scanf

4.3 À quoi sert la déclaration d’une fonction

Temos uma sensação esquisita, quando, já na idade madura, mais uma vez recebemos ordem de fazer uma redação escolar. Mas obedecemos automáticamente, como o velho soldado que, à voz de ‘Sentido!’, deixa cair o que tiver nas mãos e se surpreende com os dedos mínimos apertados de encontro às costuras das calças. É estranho como obedecemos às ordens prontamente, como se nada de particular houvesse acontecido no último meio século. (FREUD, 1996, p. 247).

Na tese de Luiz Pinto de Carvalho, encontramos a definição mais direta do que seria a sugestão: “o acto pelo qual uma ideia é introduzida no cerebro e é aceita por elle” (CARVALHO, 1898, p. 6). Esta definição procura contemplar uma preocupação que reaparecerá em diversas outras teses, qual seja, o cuidado que devemos ter com ideias oriundas de outras pessoas. A educação seria a arte de fazer as crianças aceitarem certas sugestões capazes de conduzi-las a um fim desejado. Educar, embora fosse importante, não resolvia todos os problemas. Tudo dependia (como sempre!!) da herança para se tornar eficaz: “Os filhos de homens de certa educação, de qualidades elevadas, de alma boa e generosa, apresentam geralmente esses mesmos sentimentos” (CARVALHO, 1898, p. 9). A mesma sorte não terão aqueles “que tiverem a desgraça de nascer de paes que já respiram o ar putrefeito dos manicomios, filhos de ladrões, de assassinos, de usurarios, de homens de caracter baixo e miseravel”, estes seguem sempre a “róta traçada pelos progenitores” (CARVALHO, 1898, p. 9). Após esta definição, que deixa pouco espaço de ação para que os jovens escapem da sentença advinda da sua ascendência, Carvalho informa que os mestres e as escolas possuíam grande importância na confecção do novo indivíduo que busca ingressar na sociedade. Como isso seria possível, se ele já destacou a importância primordial da herança? Provavelmente, a suposição prevalente era que os sentenciados pela ascendência não chegariam à escola.

A ideia da possibilidade de transmissão da cultura via arquétipos que perpassam grupos e os conectam com a humanidade inteira sempre esteve presente no pensamento médico-psico-antropológico. O problema se apresenta

quando o termo remete de forma mais ou menos explícita a uma transmissão hereditária de caracteres culturais adquiridos, jamais demonstrada, suas pretensões explicativas parecem não só inconsistentes mas também potencialmente racistas. (GINZBURG, 2007, p. 30).

Ao que tudo indica, esta era a posição da maioria dos doutorandos e médicos da Bahia no período sob exame.

Carvalho orienta seus leitores em relação às crianças. Os pais não deveriam agredir seus filhos. As crianças aprenderiam através de “exemplos dignos de imitação, em suggestões

sabiamente dirigidas para o bem” (CARVALHO, 1898, p. 12). A imitação valeria para todas as classes sociais, e mesmo os homens mais intelectualmente dotados estariam sujeitos a esta regra. Ele cita os trabalhos de Nina Rodrigues sobre a epidemia de “astasia-abasia”,59 na qual

uma “affecção nervosa” contagiou um grande número de pessoas a partir do processo de imitação. O autor adverte para os perigos da imitação, principalmente quando acontece coletivamente. A advertência procede se lembrarmos que o Brasil, na visão dos médicos da época, era constantemente invadido por eventos coletivos de imitação em grupo, tanto no campo social, a exemplo da “abasia coreiforme epidêmica”, como no religioso, a exemplo de procissões aos santos da terra e, principalmente, os eventos ocorridos em Canudos e São Leopoldo, encarados como atentatórios ao Estado-nação. Para ele: “por isso, comtudo, não deixaremos de dizer que não há um único homem que não esteja sujeito a realisar actos automaticos: pelo contrario, todos realisam-n’os e mais commumente do que se poderia pensar” (CARVALHO, 1898, p. 30). Os perigos rondavam a sociedade e os histéricos, devido à fragilidade de suas opiniões, eram as principais presas da sugestão.

Alguns homens não estariam sujeitos à hipnose, pois suas doenças os tornariam insensíveis a esta técnica:

os loucos em geral formam essa cathegoria. Os maníacos, os que tem ideas fixas, em verdadeiro estado de monoideísmo, repellem qualquer ideia nova que se lhes queira suggerir. Os neurasthemicos, os hypocondriacos fazem também parte d’esse grupo. Todos esses são em geral inhypnotisaveis. (CARVALHO, 1898, p. 39).

A sugestão tanto poderia produzir as doenças quanto curá-las: “a suggestão póde de fato modificar a todas as funcções principaes do nosso organismo.” Dessa forma, deveria ser usada como “therapeutica suggestiva” (CARVALHO, 1898, p. 45), para curar as doenças e não só para produzi-las (como no caso das sugestões religiosas).

Dez anos antes, em 1888, esse tipo de argumento se apresentava em duas teses com o mesmo título: “Da suggestão no Tratamento das Doenças Psychicas”. Isso possibilita deduzir que a Academia baiana estava de portas abertas para aceitar práticas acionadas tanto dentro como fora dos portões da Faculdade, já que esta era, de acordo com alguns doutorandos, uma técnica utilizada pelos espíritas. Segundo o doutorando Carlos Affonso Alves, que, ao que tudo indica, pretendia se estabelecer como especialista no tratamento das doenças psíquicas utilizando a sugestão como terapia, “se no estado de saúde, a imaginação póde determinar uma molestia, é certo que no estado pathologico póde restabelecer a saúde” (ALVES, 1888, p. 20). Em relação às doenças psíquicas, diversas curas poderiam ser obtidas a partir da fé do

59 Possivelmente, está se referindo à comunicação A abasia coreiforme epidêmica no Norte do Brasil, apresentada por Nina Rodrigues ao 3º Congresso Médico Brasileiro, que aconteceu na Bahia em 15 de outubro de 1890 (RODRIGUES, 2006).

paciente em um objeto inanimado qualquer. A confiança no poder da relíquia, atuando sobre a imaginação, lograria o resultado benéfico. Mesmo nas doenças físicas, bastaria “dirigir a imaginação em um certo sentido”, para as partes doentes, “que o resultado não se fará esperar, mesmo sem recorrer ao emprego de medicamentos inertes” (ALVES, 1888, p. 30). Para Alves, os amuletos poderiam produzir as diversas curas que, supostamente, ocorriam nas situações de epidemia. Opinião similar pode ser encontrada na outra tese sob o mesmo titulo: “Não param por ai os beneficios da suggestão: é assim que ella mostra o bom reultado na nostalgia, na insomnia, nas moléstias symphaticas, taes como a pseudo-choréa, vulgo treme- treme, molestia mui conhecida na cidade de S. Salvador” (D’ANDRADE, 1888, p. 47). Os autores estão trabalhando, intuitivamente, com a noção de “eficácia simbólica” defendida por Lévi-Strauss (1988), mais de meio século depois. Não seria apenas a farmacologia da droga administrada ao paciente que serviria para curar, mas, também, uma predisposição socialmente baseada na forma simbólica e ritualizada com a qual os doentes tratavam suas doenças.

Oscar Freire de Carvalho, refletindo sobre a produção das doenças nervosas, encontrou um meio termo entre a educação e a herança. Defendeu não ser possível definir, com um grau mínimo de segurança, qual dos dois eventos seria mais eficaz na produção daquele tipo de doença. Os transtornos psíquicos ocorreriam em presença de uma educação viciada, em um indivíduo já degenerado pela herança. O autor designa educação a todos os estágios da vida de um ser humano: desde o dia em que é concebido até aquele em que está sendo analisado. Tanto o indivíduo intelectual, formado pela herança, como o indivíduo moral, formado pela educação, “só se formam por uma integração progressiva de suas personalidades” (CARVALHO, 1902, p. 88). Como resultado do encontro da educação (mundo social) com a herança (mundo biológico) é que seria gerado o indivíduo como produto final. Esta fórmula valeria, também, para a formação das raças. A má educação seria nociva para o cérebro de brancos, negros e mestiços, indistintamente: “se o fato da degeneração entra, como eu acredito, em grande numero de casos não é, entretanto, a causa de facto assignalado; a causa é a má educação” (CARVALHO, 1902, p. 91).

O doutorando Francisco Pontes de Miranda defendeu situação similar quando afirmou que o caráter do indivíduo era formado, lentamente, pela educação, entendida em um sentido mais largo, como na tese de seu colega do mesmo ano. A vontade seria adquirida “demoradamente pela acção synergica da educação, instrucção e varias outras circumstamcias, formando-se então o caracter individual, seu elemento primordial” (MIRANDA, 1902, p. 32). Havia doutorandos, a exemplo de Gonçalves (1902, p. 83), que

atribuíam à educação um papel de “uma verdadeira selecção social”. Os jovens seriam recrutados pelas escolas do crime e aprendiam através dos exemplos que os maus feitores já formados forneciam. A educação poderia seguir em qualquer direção; daí a sua importância para os médicos baianos.

Uma questão interessante que recorre as teses do mesmo ano e que tratam do mesmo tema de pesquisa (muitas vezes lançando mão do mesmo título) é que elas convergem em diversos aspectos teóricos e práticos. O fato de os alunos não escolherem o tema sobre o qual vão dissertar pode lançar alguma luz sobre os motivos desse tipo de concordância. Ao que tudo indica, eles tentavam escrever algo próximo daquilo que o professor selecionador do tema para aquele ano pensava.

Os objetivos eram bastante claros em relação ao tipo de interação/intervenção pretendida para aqueles considerados mentalmente inapropriados para o mundo social. Os doutorandos estavam dispostos a fazer uma “prophylaxia das molestias mentaes”, como no caso de Aurelio Domingues de Souza, que tentou empreender uma cruzada moralista no campo médico, com o objetivo de prevenir e controlar os portadores dessas doenças. Acreditava que: “uma boa educação das edéas na creancice e na primeira infancia é um grande factor de prophylaxia das moléstias mentaes”. O autor coloca a responsabilidade nos ombros das famílias. Estas deveriam ser as principais responsáveis pela educação moral das crianças: “antes de qualquer iniciativa no sentido propriamente da instrucção do espirito, da aprendizagem da leitura, da escripta de materias cada vez mais complexas”, a criança deveria ser preparada, no aconchego do lar, para seguir as regras morais da sociedade (SOUZA, 1907, p. 24). Para ele, seria um erro colocar as crianças na escola muito cedo, situação que as obrigaria “cerebrações” para as quais ainda não estavam espiritualmente preparadas. Essa situação poderia abrir caminho para as doenças mentais na idade adulta. Proteger o cérebro das crianças dos possíveis agentes perturbadores era o objetivo desse tipo de admoestação aplicada por Aurélio Souza60.

Com os representantes das “classes perigosas” invadindo as grandes cidades brasileiras, os trabalhadores negros e mestiços (que buscavam a cidade após o fim da escravidão), vagabundos dedicados aos pequenos furtos, anarquistas oriundos das imigrações,

60

Possivelmente, o doutorando Florival Ulysses Barbuda, que escreveu em 1910 sobre a “Genese da

Personalidade Psychica”, possuía uma opinião diversa de seu colega Aurelio Domingues Santos. Florival

Barbuda reclamava do pouco conhecimento que os jovens possuíam e das dificuldades para realizar os exames finais. Diz ele: “Na Bahia, a falta de preparo dos aspirantes ao curso normal os inhibe de fazerem sem esforço o curso, de modo que na maior parte das materias levante grande celeuma, por parte dos interessados, contra inhabilitações finaes do curso lectivo” (BARBUDA, 1910, p. 79). A partir do título da tese, caso o doutorando julgasse relevante, deveríamos encontrar alguma referência aos perigos da educação dos muito jovens para a “personalidade psychica” do adulto, mas isso não ocorre.

representantes das novas religiões (a exemplo dos espíritas), estrangeiros buscando fortunas fáceis etc. os doutorando se preocupavam com a sugestão e com a imitação que essas classes ofereciam aos que possuíam um cérebro pré-disposto, que, no Brasil, se acreditava ser a maioria. Na França, principal fonte de conhecimento do Brasil da época, os médicos estavam assustados com as possiblidades nefastas produzidas a partir da sugestão/hipnose e da imitação. Alguns defendiam que era possível controlar a mente de homens frágeis mesmo à distância. No caso brasileiro, há os diversos trabalhos de Nina Rodrigues, através dos quais ele procurava evidenciar os perigos presentes tanto na imitação (A abasia coreiforme

epidêmica no Norte do Brasil), como na sugestão para o cometimento de crimes (O regicida

Marcelino Bispo). A hipnose se apresentava como tendo um grande potencial, fosse para o bem ou para o mal.

Dans le document Programmer en langage C (Page 115-119)