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No século XIX, os fatos políticos trouxeram mudanças. Em especial, o ano de 1808208 foi marcante, devido à ocorrência de transformações pelas quais passou o Brasil, ao transitar de colônia a Reino Unido209, com a chegada da Família Real em solo brasileiro. Esse fato trouxe um grande desenvolvimento local e a necessidade de se criarem condições para que localmente se ampliassem a indústria, os portos, a educação e a cultura.

Esse cenário abre espaço para certa independência de Portugal e que a colônia começasse a construir sua identidade. Isso, logicamente, iria se refletir na cultura como um todo, sobretudo, no teatro, pois criava condições para que, enfim, nascesse o teatro brasileiro. Em 1810, o príncipe regente, o futuro D. João VI, decretou que fosse construído um teatro, já que não se admitia, naquela época, uma casa real sem um teatro. Cerca de três anos mais

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No ano de 1808, a Corte portuguesa, juntamente com cerca de 10 mil pessoas, entre elas a Família Real, a nobreza, alguns funcionários públicos e empregados domésticos, embarcou para o Brasil, sob ameaça da invasão francesa ao território português.

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tarde, o Teatro S. João210 fica pronto, o primeiro construído no Brasil. Esse teatro sofreu um incêndio em 1824, sendo reconstruído. Em sua inauguração, importou-se a companhia portuguesa de Mariana Torres, a mais famosa atriz trágica de Portugal. Em suas várias fases “materiais e com nomenclatura diversa”, o edifício teatral teve períodos de ascensão e de decadência, tendo os mais variados gêneros encenados durante sua existência, desde tragédias, dramas e comédias, a óperas, melodramas, entremezes, farsas, vaudeviles, operetas, revistas e burletas. O teatro era usado também para comemorar festivamente acontecimentos da corte, como aniversários e casamentos, além de acontecimentos públicos, como a coroação de D. João VI e a proclamação da Independência, ocorrida em 07 de setembro de 1822.

A década da Independência trouxe uma intensa crise política que se refletiu na sociedade, como um todo, e também no teatro. Mesmo assim, houve certa movimentação, graças a companhias vindas de Portugal para o Brasil. A primeira dramática a chegar é a de Mariana Torres, em 1812 ou 1813. Retorna novamente, em 1819, e permanece até 1822. Um grupo ou companhia teatral que vem completa ao Brasil é a de Ludovina Soares da Costa, chegando ao Rio por volta de 1829. Em 1833, João Caetano estreou a primeira companhia profissional moderna, composta exclusivamente por atores brasileiros.

A peça O Príncipe amante da liberdade ou a Independência da Escócia211 foi fruto dessa época, importante em dois momentos cruciais da história brasileira. Em 1822, foi representada no Teatro São João, em comemoração ao aniversário de D. Pedro I e em celebração por sua aclamação como Imperador do Brasil.

A crítica afirmou, durante um longo tempo, não haver teatro até meados do século XX, isso, sempre tendo como ponto de partida uma comparação com o teatro existente em outros países europeus, sobretudo a França e a Inglaterra. Muitos desses relatos se baseavam em viajantes estrangeiros, já que a crítica das representações cênicas daquela época eram escassas ou quase nulas. No entanto, não se pode esquecer que o teatro reflete o momento histórico-social. Assim, seria praticamente impossível a existência de um teatro brasileiro, no modelo dos clássicos europeus, porque, simplesmente, não havia uma sociedade brasileira que pudesse ser refletida nesses moldes (HELIODORA, 2013, p. 376).

O espetáculo teatral típico, naquele período, constituía-se de três partes:

Uma noite de espetáculo típica, naquela altura, era constituída de três partes. Começava por um número sério, que podia ser tanto uma tragédia como um drama romântico ou um melodrama – os

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Faria (2012, p. 67) relaciona uma série de cinco edifícios teatrais que se sucederam sempre no mesmo local e com seus respectivos nomes, dados de acordo com as circunstâncias históricas, sendo quase todos destruídos pelo fogo. 211

Faria (2012, p. 57) transcreve relato de um jornal de 1822 sobre “como se festejava no teatro um importante evento cívico”.

três gêneros do repertório de João Caetano, a partir da segunda metade da década de 1830. Em seguida, para encerrar, vinham dois números mais leves: comédia, farsa ou bailado. Sendo tragédia, a peça seguia o padrão neoclássico, acentuando a contenção em termos de ação, de espaço e de tempo, além de ostentar notável virtuosismo formal. O drama, por sua vez, era de caráter histórico ou, então, simplesmente contava uma história sentimental. Nesse caso, as peças seguiam um estilo melodramático, que facilmente agradava o grande público. Isso acontecia na França, onde o melodrama tinha se desenvolvido, e em Portugal, que acatara a moda. No Brasil, o processo é semelhante, acrescido de uma particularidade: o melodrama toma o espaço dos gêneros tradicionais, como é o caso da tragédia, com velocidade muito maior do que naqueles países. Provavelmente são duas as razões implicadas: o nível de exigência da plateia responsável pela tendência para preferir diversões menos sofisticadas e a fórmula intrinsicamente otimista do melodrama, que encoraja heróis e heroínas a lutar por uma sorte melhor (FARIA, 2012, p. 76).

Corrobora esse formato de espetáculo o relato de Jacques Arago, que esboçou um quadro do teatro nacional, a partir do que viu, durante sua estadia no Rio. Ao se referir ao espetáculo Zaíra, de Voltaire, criticou o figurino e a interpretação dos atores, mas como todo o teatro aplaudiu, ele não quis destoar da maioria. Depois da tragédia, representaram-se ainda comédias e farsas. Faria (2012, p. 54) acrescenta que o “espetáculo comportava, além de

Zaíra, três entremezes (intermèdes, no original) e um balé completo, Psyché, a cargo, nos

primeiros papeis, de bailarinos franceses”.

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