O saber racional surgiu a partir da fragilidade do saber fundamentado na intuição, no senso comum e na tradição, tendo como precursores os filósofos gregos Platão e Aristóteles que desenvolveram os instrumentos da lógica (distinção entre sujeito e objeto, princípio da causalidade e raciocínio dedutivo). Na Idade Média a reflexão filosófica foi dominada pela religião, que lhe imputou os dogmas do Cristianismo e o Renascimento trouxe as marcas de uma brilhante renovação nas artes e nas letras. Entretanto, a explicação do real era também marcada por superstições, magias, alquimias e bruxarias (LAVILLE e DIONNE, 1999, p. 22- 3).
Assim, a ciência moderna emergiu no século XVII em oposição ao senso comum ou qualquer forma de conhecimento “falso” e a reflexão epistemológica atingiu o seu auge no final do século XIX, período em que, também, emergiu e se consolidou a sociedade industrial e o desenvolvimento espetacular da tecnologia (SANTOS, 1989).
No pensamento científico moderno surgiu principalmente a preocupação em se proce- der à observação empírica do real antes de interpretá-lo pela mente. Um saber racional no qual se pensa cada vez mais, constrói-se a partir da observação da realidade (empirismo), co- loca-se essa compreensão à prova (experimentação) e recorre-se às ciências matemáticas para validá-las. Uma outra característica-chave do pensamento científico, conhecido como positi- vismo, é a objetividade, ou seja, respeitar integralmente o objeto do qual trata o estudo, não devendo, de modo algum, influenciá-lo, intervindo o menos possível sobre ele (LAVILLE e DIONNE, 1999). A partir da perspectiva formalizante clássica, Demo (1995) afirma:
Ciência caracteriza-se por ser instrumentação técnica, de teor formal, com vistas a dominar a realidade, sem, porém, discuti-la. O papel do cientista é estudar, pesquisar, sistematizar, teorizar, não intervir, influenciar, tomar po- sição. Retrata, descreve, dimensiona, mas não propõe, nem contrapõe, por- que seria coisa de político (DEMO, 1995, p. 23).
Uma outra perspectiva crítica é que, a ciência trabalha com objetos construídos, ou muitas vezes inventados e a realidade, quando analisada, é sempre mais rica que a análise. Assim, a ciência não gera certezas cabais porque sempre existirá uma realidade que lhe escapa (DEMO, 1995, p. 36).
Tais reflexões se tornam particularmente importantes porque elas nos remetem a al- gumas questões cruciais: o que a ciência, de fato, tem feito pelos problemas essenciais da hu- manidade como a fome, as desigualdades sociais, a pobreza e a guerra? Quais problemas ela abarca e quais ela exclui por não caber em seu método, por não conferir status científico, po- der; por não ter fins instrumentais, técnicos e de retorno financeiro para as indústrias? E os problemas éticos inerentes à pesquisa e às suas finalidades práticas têm conquistado os espa- ços científicos nas proporções merecidas, ou a cada qual cabe o seu quinhão? aos cientistas cabe pesquisar, enquanto aos políticos e empresários cabe decidir o destino do produto da ciência? Enfim, são questões que a epistemologia já não tem mais como adiar, elas suscitam reflexões imediatas no sentido de uma sociedade mais justa e humana.
Nesse sentido, a ciência moderna, em sua contradição, produziu um conhecimento que livrou-nos das amarras das instituições religiosas e das superstições; no entanto, no chamado século das luzes (Iluminismo), com o seu racionalismo cartesiano e newtoniano, ela criou outros dogmas e certezas de natureza racional, diametralmente opostos e restritivos para a compreensão do homem (GUERREIRO, 2003, p. 161). Produziu a atitude de afastamento do senso comum, do discurso estético, do discurso religioso e da compreensão do que se passa a nossa volta, encerrando o processo científico em um sistema de regras fixas e maximalistas,
impossíveis de se seguir na prática (SANTOS, 1989). Assim, de acordo com este autor:
O positivismo lógico representa [...] o apogeu da dogmatização da ciência, isto é, de uma concepção de ciência que vê nesta o aparelho privilegiado da representação do mundo, sem outros fundamentos que não as proposições básicas sobre a coincidência entre a linguagem unívoca da ciência e a expe- riência ou observação imediata, sem outros limites que não os que resultam do estágio do desenvolvimento dos instrumentos experimentais ou lógico- dedutivos (SANTOS, 1989, p. 22).
De fato, temos que reconhecer os feitos da ciência moderna, entretanto, segundo De- mo (1995), o seu signo formalizante se evidencia na produção tecnológica, uma produção que demonstra uma extrema inventividade humana, mas descolada dos conteúdos históricos; de modo que a ciência tem um grande débito social porque não há a mínima relação entre o que se progride em conhecimento e as soluções que se dá aos problemas humanos.
Ao refletir sobre essa questão, Santos (1989) trás importantes contribuições para a sua compreensão crítica. Para este autor a aplicação técnica é a forma e a verdade social da ciên- cia moderna. E por esta não se adequar a um conhecimento científico pautado na ciência pós- moderna, ele propõe, como modelo dominante de aplicação do conhecimento pós-moderno, a “aplicação edificante” e apresenta as suas características, dentre as quais se destacam: a) a aplicação edificante não prescinde de aplicações técnicas, mas submete-se às exigências do
know-how ético, devendo este ter prioridade na argumentação; b) ampliar o espaço de comu-
nicação e a distribuição eqüitativa das competências argumentativas entre os grupos que lu- tam pela decisão dos conflitos que emergem da aplicação; c) a aplicação edificante respeita as definições emergentes e alternativas da realidade buscando superar os limites de saberes lo- cais no intuito de preservar o processo argumentativo; d) o cientista deve lutar pelo equilíbrio de poder nos vários contextos de aplicação, tomando sempre o partido daqueles que têm me- nos poder; e) os atores que promovem a aplicação edificante devem estar existencial, ética e socialmente comprometidos; e, por fim, f) a aplicação edificante objetiva transformar os sabe- res locais com a transformação do saber científico, de modo que, simultaneamente, também ocorra a transformação do sujeito epistêmico, do ser cientista.
Essa proposta, segundo o autor, traz embutida a utopia de uma sociedade mais justa e menos desigual, desaloja o poder instituído na sociedade moderna, seja este de ordem intelec- tual, econômica ou política. Em vista disso, apresenta-se não só como uma proposta desafia- dora, mas também conflituosa. Um embate que espero se propague na própria comunidade científica e entre esta e a sociedade. Então, não podemos prescindir da noção de utopia descri- ta por Demo:
A utopia (...) engloba nossos desejos infinitos, nossas esperanças absolutas, nossas pretensões eternas, embora todos somente se realizem na relativida- de histórica. Sem eles, porém, seríamos seres pobres, que não almejam nada além do dado. Sem utopia não há revolução, no campo das condições subje- tivas (DEMO, 1995, p. 39).
Diante de todas essas reflexões, onde, então, situar os conhecimentos (atitudes, valo- res, comportamentos, sentimentos, realidade social etc.) que por sua natureza não se subme- tem à experimentação, à mensuração e à objetividade? Não se prestam a fins tecnológicos? Seriam eles exilados da ciência? Estariam fadados a viver no limbo, às margens da ciência? Nesse sentido, Demo afirma:
Métodos experimentais não “experimentam” valores. Estes não são consta- táveis (...), valorar um fato seria uma questão, de fora, não da própria tessi- tura factual (DEMO, 1995, p. 178).
Nesse caso, se os valores e as outras formas de conhecimentos subjetivos não são ex- perimentáveis e nem podem sofrer validação matemática, então não cabem no método, não são inerentes à ciência moderna. Tal constatação coloca em minha frente o desafio de pensar em qual paradigma de ciência caberia o meu objeto de pesquisa, que não negando a possibili- dade de buscar algum aporte de natureza quantitativa é um objeto, predominantemente, de natureza qualitativa, visto que carrega em si as marcas da subjetividade. Então, invertendo a ordem típica da pergunta científica de como adequar o objeto de pesquisa ao método, eu per- gunto: Quais abordagens de conhecimento cabem em meu objeto? Tentarei, a partir daqui, buscar respostas para essa questão.
Para Santos (1989, p. 11), o movimento de desdogmatização da ciência – fruto de re- flexões de cientistas e filósofos – orientado para resolver crises, inconsistências e contradições produzidas na prática científica, acabou por produzir vários “rombos” no modelo de raciona- lidade do paradigma das ciências modernas. Com base nas críticas subjacentes a esse movi- mento, o autor assegura (p. 24) que a ciência moderna se encontra mergulhada numa profunda crise, de modo que esta é uma época de transição entre a ciência moderna e um novo para- digma que o autor designa de “ciência pós-moderna”.
Assim, a emergência da ciência pós-moderna se sustenta em uma dupla ruptura epis- temológica. A primeira, a ruptura com o senso comum e a segunda, ainda em processo, a rup- tura com a hegemonia incondicional da ciência moderna, ou seja, um paradigma que, progres- sivamente, foi conformando o mundo pela ciência e pela técnica que cobra um distanciamen- to, um estranhamento entre sujeito/objeto; que se orienta pelos princípios da racionalidade instrumental, mas que não se responsabiliza pela eventual irracionalidade das aplicações téc-
nicas que produz; um paradigma que marginaliza outros saberes (religioso, artístico, literário, mítico, poético, e político) vigentes na sociedade; que separa teoria e prática, ciência e ética; enfim, um paradigma que produz um discurso que se pretende rigoroso e objetivo, mas desen- cantado, triste e sem imaginação (SANTOS, 1989).
Desse modo, uma reconceitualização da ciência (uma ciência pós-moderna) exige que a epistemologia se submeta a uma reflexão hermenêutica61, cujo objetivo é democratizar e aprofundar a sabedoria prática. O princípio hermenêutico é, assim, a “compreensão do mundo da vida”, é a compreensão de que todas as suas partes são determinadas pelo todo, assim co- mo o todo por suas partes (SANTOS, 1989). Para esse autor:
A reflexão hermenêutica visa transformar o distante em próximo, o estranho em familiar, através de um discurso racional [...] orientado pelo desejo de diálogo com o objeto da reflexão para que ele “nos fale” numa língua não necessariamente a nossa mas que nos seja compreensível. Um objeto que é capaz de nos comunicar as suas valências e os seus limites, os seus objeti- vos e o que realiza aquém e além deles, um objeto que, por falar, será mais adequadamente concebido numa relação eu-tu [...] do que numa relação eu- coisa [...] e que, nessa medida se transforma num parceiro de contemplação e da transformação do mundo (SANTOS, 1989, p. 12-3).
Na reflexão hermenêutica, busca-se fazer o saber cientifico romper com o seu “código de leitura” do real, congregando em um mesmo campo cognitivo outros saberes, inclusive o próprio senso comum, um conhecimento evidente cujos protagonistas pensam o que existe tal como existe, têm opinião e julgam conhecer o que a ciência se propõe a conhecer (SANTOS, 1989). Nessa perspectiva, Demo (1995, p. 18) adverte que a ciência está pervadida de senso comum porque jamais conseguiremos dominar de todo a realidade, ou discursar sobre ela com conhecimento especializado de todas as suas facetas. Compreende que o senso comum, apesar de ser marcado pela falta de profundidade, de rigor lógico, de espírito crítico, é também posi- tivo porque é um saber que organiza o cotidiano das pessoas, e, apesar de simples, é inteligen- te e sensível ao óbvio.
Com base nessa compreensão de ciência, situarei, agora, algumas características da ci- entificidade na perspectiva de elaboração desse trabalho; dentre elas, a ideologia, a neutrali- dade e a objetividade. Estes conceitos são, na verdade, inseparáveis e são interpretados e as- sumidos de diferentes maneiras tendo como referência o paradigma de ciência no qual o pes- quisador se coloca.
61 A hermenêutica é a metodologia da interpretação, ou seja, dirige-se a compreender formas e conteúdos da comunicação humana, em toda a sua complexidade e simplicidade (...) Na comunicação humana há magia, pola- rização, contradição, confronto, carinho e ódio (...), há signos quase imperceptíveis, que são insinuações estraté- gicas (DEMO, 1995, p. 248-9).
A ideologia se aproxima da postura de alguém que dá primazia ao processo de conhe- cimento apenas ao que interessa. É a posição a serviço de algum interesse pessoal e social. Entretanto, a ideologia discutível não faz mal porque a presença de juízos de valor não traz, em si, problema metodológico, visto que ela é componente integrante do diálogo com a reali- dade social. Podemos, em contrapartida, evitar a deturpação ideológica e uma das saídas para isso é revelar honestamente os valores pelos quais lutamos ou acreditamos. Portanto, o con- trole da ideologia é feito, primeiro, pelo reconhecimento crítico e, segundo, pela submissão de toda postura ideológica ao critério da discutibilidade62, impedindo que ela se torne fechada, fanática e ativista (DEMO, 1995, p. 81).
A neutralidade e a objetividade significam, ambas, a possibilidade de refletir a realida- de assim como ela é, sendo que a neutralidade se dá na perspectiva do sujeito e a objetividade, na perspectiva do objeto (DEMO, 1995, p. 82). Para o autor, não existe sujeito objetivo, todo sujeito é necessariamente subjetivo na forma de captar os fenômenos sociais, portanto não há neutralidade. Diante dela pode-se assumir três posturas: primeiro, a neutralidade esperta ou ingênua, que não passa de truque de cientista que pretende viver tranqüilamente à sombra do poder, “sem dor na consciência”; segundo, a adesão a ativismos baratos; e terceiro, assumindo uma posição histórico-estrutural, ou seja, uma busca de equilíbrio crítico e autocrítico entre condições objetivas e subjetivas e entre sujeito e objeto. Quanto à objetividade, do mesmo modo, Demo advoga que ela não existe porque nunca conhecemos a realidade assim como ela é. Reflete, entretanto, que é fundamental se manter o princípio da objetivação que é o esforço de conhecer a realidade naquilo que ela é (DEMO, 1995).
Nessa perspectiva, Laville e Dionne (1999, p. 33) compreendem que o pesquisador tem preferências, inclinações e interesses particulares que são considerados a partir do seu sistema de valores. Esse jogo de vontades dos atores sociais, que também inclui os sujeitos que são objetos de estudo, tem como conseqüência um saber que, embora seja construído com prudência e método, pode variar, produzindo, no máximo, tendências e não verdades cabais.
Ao explicitar, desde o primeiro capítulo desse trabalho, os valores que construí ao longo de minha formação, busquei evitar a deturpação ideológica, a crença cega na neutrali- dade e na objetividade. Cada leitor saberá a partir de que ângulo enxergo a formação do den- tista (do seu perfil social, ético e humano). Isso fica claro, inclusive, na própria definição do meu objeto. Com esse olhar, por mais que eu buscasse uma aproximação da posição de “neu- tralidade”, tão aspirada pela ciência moderna, não conseguiria, porque a minha cultura e o
62 Somente pode ser científico, o que for discutível, ou seja, que recorra a argumentos, que seja competente em termos formais (DEMO, 1995).
meu sistema de valores de algum modo, interferem na interpretação da realidade estudada. Um professor-pesquisador especialista, provavelmente, ao se defrontar com o tema da forma- ção profissional valorizaria outras dimensões, possivelmente as mais técnicas. Penso, então, que esta tomada de posição facilita a discutibilidade e a intersubjetividade63, de modo que, Demo afirma:
O direito que assiste ao sujeito de valorar segundo seus interesses equivale na exata proporção ao direito do outro sujeito de contravalorar (DEMO, 1995, p. 81).
Em síntese, não é a minha pretensão, nesse trabalho, assumir uma postura de neutrali- dade diante do meu objeto de pesquisa, tampouco de enxergá-lo com base na objetividade, entretanto, também não pretendo dogmatizar o meu ponto de vista e nem eliminar a objetiva- ção. O meu objeto se insere na idéia da humanização e da ética em saúde, exigindo, portanto, uma abordagem metodológica também humanizada, como nos propõe Santos e Demo. Dentro da perspectiva hermenêutica, buscarei, principalmente, compreendê-lo no contexto de onde os seus significados sociais – e, portanto, humanos – emergem. Ou seja, nos ambulatórios nos quais ocorrem as atividades clínicas das disciplinas profissionalizantes. Um campo social no qual se evidenciam diferentes níveis de relações humanas, como: aluno-professor, aluno- monitor, aluno-pessoal auxiliar, aluno-paciente e paciente-professor.
Assim, diante de um fenômeno tão humano, frágil e sensível como a formação ético- humanista de um profissional de saúde, é mister, como diz Demo (1995, p. 249), buscar um método adequado, dotado de humildade de quem se dispõe a escutar primeiro, para depois pronunciar-se, de quem se compromete a compreender sentidos, significações e valores. Para essa tarefa é preciso equilibrar capacidade formal com percepção política64.
63 A intersubjetividade significa a opinião dominante da comunidade científica, em determinada época e lugar, sobre a produção científica. Em vista disso, o científico será sempre a opinião dominante do clube dos grandes que avalia essa produção sempre sob as marcas de um paradigma dominante. A intersubjetividade é entendida como o critério externo da cientificidade (DEMO, 1995, p. 47).
64 A qualidade política aponta para a dimensão do cientista social como cidadão, como ator político, que inevita- velmente influencia e é influenciado (DEMO, 1995, p. 25).