Caroline Machado Cortelini Conceição
UNIOESTE/UNISINOS [email protected]
Estudos que buscam refletir sobre o “lugar” que a infância tem ocupado na sociedade, buscando ampliar a compreensão dos diferentes modos de ser criança, a partir da observação da multiplicidade e heterogeneidade de contextos e a sua presença nos espaços sociais, culturais e educacionais são de grande relevância para a compreensão da infância como categoria social. Este texto coloca em discussão o cuidado à primeira infância na segunda metade do século XX em Francisco Beltrão – estado do Paraná, Brasil – destacando ações de atendimento em espaço domiciliar. Em período em que não havia creches no município, cuidadoras domésticas se responsabilizavam pelo cuidado e educação das crianças. Aborda relato de uma mulher que cuidava de crianças em sua casa e mais tarde irá se tornar, em função dessa experiência, monitora de creche. Ao invés da babá, pessoa responsável pelo cuidado da criança na casa desta, a cuidadora doméstica recebia em sua casa várias crianças, algumas para permanecerem durante o dia e outras para passarem a semana, em regime de internato, saindo com suas mães somente no final de semana para passear. Essas práticas eram destinadas às famílias pobres, principalmente, aquelas que não possuíam a figura do pai, pois se tratavam de mulheres trabalhadoras que não tinham com quem dividir a criação de seus filhos, entregando-as ao cuidado de outra pessoa. A cuidadora doméstica aparece na comunidade como uma estratégia de organização e como uma alternativa à falta de creches, ou, outras alternativas institucionais, para apoiar a mulher trabalhadora. O relato demarca as diferenças entre infâncias, a partir de diferentes práticas de atenção e cuidado. Tem em consideração que um modo específico de ser criança, que começou a se estabelecer desde o início da modernidade e tomou contornos e proporções mais amplas no final do século XX, conformou novos modos de viver a infância em sociedade, atrelando-a gradativamente à instituições extra-familiares, demarcando um processo de mudança do atendimento à infância da esfera do privado (família) para o público (institucional). Desse modo, compreende-se nesta análise que a prática da cuidadora doméstica trata-se já de um modo de institucionalização da infância, mesmo que considerada uma prática informal de atenção à criança. Diante disso, é possível estabelecer relação dessas práticas com a cultura de maternagem estabelecida em instituições públicas de atendimento à primeira infância, as creches?
Palavras-chave: infância; atendimento à infância; memória
Introdução
Estudos que buscam refletir sobre o “lugar” que a infância tem ocupado na sociedade, buscando ampliar a compreensão dos diferentes modos de ser criança, a partir da observação da multiplicidade e heterogeneidade de contextos e a sua presença nos espaços sociais, culturais e educacionais são de grande relevância para a compreensão da infância como categoria social. Nessa perspectiva, coloco em discussão o cuidado à primeira infância destacando ações de atendimento em espaço domiciliar, no município de Francisco Beltrão –
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localizado na região sudoeste do estado do Paraná, Brasil – na década de 1970, a partir de uma experiência de cuidadora doméstica.
Francisco Beltrão é um município relativamente jovem – tem 60 anos de existência. A origem do município está vinculada, conforme acentua Flávio (2011, p. 64) a processo que contempla uma “dinâmica de reterritorialização [...], de descendentes de imigrantes italianos, alemães e poloneses a partir das décadas de 1940 e 1950”. As décadas de 1960 e 1970 são consideradas as de maior crescimento populacional, “quando grandes contingentes de imigrantes gaúchos e catarinenses chegaram à região” (Beltrão, 2012, s/n). Ainda nas décadas de 1980 e 1990 o município obteve índices significativos de crescimento populacional; mantendo índices crescentes, embora moderados, até os dias atuais. E a partir da 1980 a maioria da população passará a viver no meio urbano. Nesse período a população urbana cresceu mais de 100% certamente contribuindo para alterar costumes e práticas sociais1.
Tomando a memória como recurso privilegiado este texto contempla a narrativa de Noeli, que na década de 1970 cuidou de crianças em casa, e mais tarde, na década seguinte, irá se tornar, em função dessa experiência, monitora de creche. Considero que a memória pode constituir-se em importante recurso para problematizar temas não contemplados em outras fontes.
Lanço mão da metodologia de História Oral e guio-me pela perspectiva da História Cultural. Um dos campos de pesquisa da História Cultural é a Memória. A História e a Memória, nas palavras de Pesavento (2008, “são representações narrativas que se propõem uma reconstrução do passado e que se poderia chamar de registro de uma ausência no tempo”, (p. 94) é representação da experiência vivida em outro tempo, portanto, aquele que rememora realiza uma reelaboração do vivido, tendo em vista que olha o passado com o olhar de agora, de acordo com seus saberes e papéis sociais. Nas palavras de Fischer (2011) “narrativas memorialísticas não necessariamente guardam uma verdade, mas uma representação, restando esta tensão entre o que aconteceu e o que o sujeito desejaria que tivesse acontecido, ou como ele concebe hoje o acontecido” (p. 21-22). Na perspectiva da História Cultural as memórias são tomadas como documento e servem para refletir e compreender o passado, ao lado de outros documentos, escritos, imagens e outros tipos de registros. Stephanou e Bastos (2005) destacam que os mesmos cuidados necessitam ser observados tanto para documentos de memória, quanto para outros.
O interesse na presente abordagem está no que foi lembrado, nas recordações que foram escolhidas para perpetuar-se na história de vida de nossa depoente. Para além dos fatos retratados, interessa-me como esses foram vivenciados e percebidos por ela, considerando que os sujeitos se constituem a partir de práticas historicizadas, o que significa que ao “focalizar o indivíduo, é necessário dimensioná-lo no contexto mais amplo” (Weiduschadt; Fischer, 2009, p.71).
1Em 1970 maioria da população vivia no meio rural – de 36.807 habitantes, a população urbana era de 13.470. A partir da década de 1980 esse panorama se altera, de maneira que a população urbana supera a rural, a população total aumenta para 48.765 habitantes e a população urbana passa para 28.307 habitantes. Dados obtidos através do site: http://www.franciscobeltrao.pr.gov.br/urbanismo/aspectos/. Acesso em: 06/06/2011.
1431 Uma trajetória de cuidadora doméstica a monitora de creche: “Cada um traz um
dom não é? Acho que esse é meu dom: Cuidar das crianças”
As vivências, culturas e representações da infância escapam aos nossos conhecimentos, conforme acentua Sarmento (2007b), em função de um processo de invisibilização histórico no qual esta se insere. Por isso, conhecer as condições concretas de vida das crianças em diferentes grupos sociais, culturais e econômicos é um aspecto relevante dos estudos que envolvem a infância, pois, conforme apontam Müller e Redin (2007) “ao mesmo tempo em que a infância se apresenta como única [..], também se mostra múltipla, marcadas pelas diferenças de direitos, de deveres, de acesso a privilégios, de faltas, de restrições” (p. 14). Sendo assim, as infâncias estão localizadas nos lugares a elas destinados pelas sociedades, constitui-se em construção histórica, de maneira que os modos de ser criança e viver a infância são variáveis de acordo com as práticas sociais estabelecidas em diferentes tempos históricos e em contextos diferentes (Sarmento, 2007a). A narrativa de Noeli possibilita conhecer um pouco sobre as condições de vida de determinado grupo de crianças num contexto específico.
No início da década de 1970, conforme indicado pela entrevistada, durante o período de uns oito anos, Noeli recebeu crianças em sua casa que permaneciam sob seus cuidados durante vários anos. Durante esse período foram em torno de vinte crianças atendidas por ela, que em um momento cuidou ao mesmo tempo de em torno de oito crianças. Ao rememorar esse tempo já recuado – mais de trinta anos – ela explica que as crianças eram cuidadas como se fossem seus filhos, recebiam os mesmos cuidados que suas filhas recebiam. Sobre isso ela assinala que:
[...] teve crianças que eu peguei recém nascidas e elas saíram daqui com cinco, seis anos, até maiores, que praticamente a gente foi quem criou. Elas chamavam a gente de mãe, meu marido de pai. Não deixando de chamar a mãe deles também quando elas vinham. A gente tinha um carinho muito especial por eles e eles pela gente. Eles ficavam direto comigo, eles só saíam pra passear. Eles moravam aqui. [...] Sim, era como um internato, tinha épocas que tinham 5, 6 bercinhos na minha casa (Entrevista com Noeli, 2013).
Ela complementa esse relato explicando que além das crianças pequenas, as de berço, como ela identificava, haviam as maiores, como por exemplo dois irmãos, uma menina com 6 anos e o menino com 12 anos quando chegaram em sua casa. As crianças permaneciam vários anos com ela. Havia um quarto da casa destinado às crianças que ela cuidava, mas quando as crianças eram muito pequenas ficavam com ela em seu quarto, “os pequeninhos, de berço ficavam no quarto comigo, o meu quarto era grande.
Porque quando são bebê tem que se ter todo o cuidado, a gente tem medo que se afoguem, pode dar uma tosse, então tem que estar olhando”.
Ela conta que na época era sozinha no cuidado das crianças, nunca teve ajudante, apenas suas duas filhas, que eram ainda crianças e prestavam algum auxílio, como embalar o berço dos bebês. As condições de vida eram ásperas:
Era uma época muito difícil, a gente não tinha água encanada, não tinha nada. A água era de um poço que tinha 10 mts de fundura. Tinha que puxar água daquele poço pra lavar a roupa de todas essas crianças. Fralda descartável naquela época a gente não usava, era só fralda de tecido, de pano. Então foi uma época bastante puxada, a vida foi aquela. [...] Já morava aqui mesmo, na cidade. Eu entrei aqui [na casa em que
1432 mora] fazem 46 anos, que eu moro aqui e era tudo mato por aqui (Entrevista com
Noeli, 2013).
Noeli explica que a motivação inicial para começar essa atividade em sua casa foi financeira, ela conta: “Elas pagavam uma pensão, por esse motivo eu iniciei.
Naquela época a gente não tinha muito trabalho. As mulheres eram bastante desempregadas porque empresas eram poucas, você não tinha onde trabalhar”. Ela
comenta que, pelo que recorda o valor cobrado era Cr$ 100,002, por criança, por mês. Pelo seu relato não correspondia a um valor elevado, pois ela acrescenta que além desse valor as mães contribuíam com alguns itens de alimentação e higiene/limpeza. E segue a narrativa contando como iniciou com a primeira criança por indicação de sua mãe:
[...] minha mãe era parteira, ela sempre foi parteira, socorrista rural, como se dizia na época. Aí as mulheres iam até a casa dela e ela dava assistência, tinham os bebês lá com ela. Um dia houve o comentário de uma delas que onde ela estava não podia levar o filho e precisava arrumar alguém pra cuidar. Aí a minha mãe sabendo que eu também precisava de ganhar um dinheirinho, pra ajudar nas despesas da casa, ela disse: eu tenho uma filha que talvez possa pegar e cuidar pra você. Assim, depois que a criança nasceu e deu alta da casa dela, [...] veio pra minha casa. E assim a gente começou (Entrevista com Noeli, 2013).
As mães eram mães solteiras, algumas empregadas domésticas, outras delas prostitutas, que trabalhavam à noite em boates, por esse motivo diversas das crianças permaneciam na casa de Noeli em período integral, saíam com suas mães aos finais de semana para passear.
Dentre as situações que Noeli vivenciou nesse período houve um fato marcante de uma mãe que deixou a criança sob seus cuidados e não retornou para buscar a criança. Noeli conta que:
[...] apareceu uma mulher que veio pra cidade pra tentar a vida, melhorar a vida dela com uma criança pequena e a dona da casa onde ela foi morar e trabalhar falou pra trazer a criança pra mim, que tinha uns 3 meses mais ou menos, muito doentinho na época. Aí eu fiquei com aquela criança e ela não conseguiu me pagar nem no primeiro mês, nem no segundo, nem no terceiro, só que de uma forma eu tinha dó de entregar aquela criança, porque com tantas dificuldades se eu entregasse a criança, o que ia ser dela. Eu pensava na criança, no bem estar da criança (Entrevista com Noeli, 2013).
A narradora prossegue com a história, contando que a mãe do menino após passados vários meses falou que não poderia pagar pelos serviços e não poderia levar a criança consigo, havia doado a mesma e viriam buscá-la. No entanto, a mãe foi embora, a criança permaneceu sob os cuidados de Noeli e ninguém veio buscá-la. Ainda por alguns meses Noeli, como havia se afeiçoado ao menino, permaneceu com ele, contudo como era preciso legalizar a situação da criança encaminhou ao juizado da infância, conforme narra a seguir:
E a criança já ia fazer um ano, [...] Aí eu fui ver o que podia fazer, eu já tinha ido ao juiz que disse que eu não podia registrar porque a mãe deixou a criança comigo. [...] Então eu procurei o juizado de menores novamente e expliquei a situação. [...] Na época tinha um cunhado meu que eles só tinham uma menina e eles queriam muito
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1433 adotar um menino, ai a gente chamou eles, eram pessoas bem de vida, moravam no
interior, eram colonos fortes, viviam bem. Eles vieram, eu acompanhei eles até o juiz e ele fez a documentação, passou a guarda pra eles por 5 anos e se dentro de 5 anos ela não aparecesse eles podiam adotar, ela nunca mais apareceu. Aí meu cunhado me convidou pra ser a madrinha (Entrevista com Noeli, 2013).
Nessa época Noeli foi umas das primeiras mulheres da cidade a realizar tal iniciativa, alguns anos após o início dessa atividade, relata, outras mulheres passaram também a receber crianças em casa para cuidar. Nesse período não havia creches ou outras instituições no município. Noeli ao ser questionada sobre que outras opções as mães possuíam comenta que:
Aí era onde acontecia a situação onde muitas colocavam o filho pra adoção, davam pra alguém. Porque a situação de muitas meninas que saiam ainda jovens da casa dos pais, grávidas e eles não sabiam e os pais eram mais difíceis de aceitar. Era uma situação em que elas não tinham outra saída a não ser colocar o filho pra adoção. Na época eu conheci muitas que ganharam o bebê – a minha mãe era parteira né – e colocaram pra adoção. Não podiam voltar pra casa dos pais com a criança e sair pelo mundo afora com o filho nos braços também não dava (Entrevista com Noeli, 2013).
O relato de Noeli demarca as diferenças entre infâncias, a partir de diferentes práticas de atenção e cuidado. A cuidadora doméstica era destinada a famílias pobres, principalmente, aquelas que não possuíam a figura do pai, pois se tratavam de mulheres que não tinham com quem dividir a criação de seus filhos, entregando-as ao cuidado de outra pessoa. A cuidadora doméstica aparece na comunidade como uma estratégia de organização e como uma alternativa à falta de creches, ou, outras alternativas institucionais, para apoiar a mulher.
Desde o início da modernidade, tomando contornos e proporções mais amplas no final do século XX, conformou-se novo modo de viver a infância em sociedade, atrelando-a gradativamente à instituições extra-familiares, demarcando um processo de mudança do atendimento à infância da esfera do privado (família) para o público (institucional). Desse modo, compreende-se nesta análise que a prática da cuidadora doméstica trata-se de um modo de institucionalização da infância, embora considerada uma prática informal de atenção à criança, dando-se num clima de relação familiar.
Ao final da década de 1970 Noeli decide parar com essa atividade em casa, assim ela justifica: “Mas foi um tempo e comecei e me cansar, porque era dia e noite.
[...] E a gente tinha muito trabalho em cuidar daquelas crianças, era muita roupa e tudo... E a gente não tinha tempo pra passear, pra nada, a gente virou escrava do trabalho”. A partir daí Noeli passa a realizar outras atividades de trabalho até tornar-se
monitora de creche e trabalhar nas instituições municipais até sua aposentadoria.
Na década de 1980 foram criadas as primeiras creches em Francisco Beltrão, sob a responsabilidade do setor público. Em 1981 a Associação de Proteção à Maternidade e à Infância - APMI3, iniciou a primeira creche do município junto ao recém criado Centro Social Urbano (Beltrão, 2007).
3 A APMI é atualmente uma organização vinculada à Secretaria da Assistência Social. As APMIs foram disseminadas no Brasil na segunda metade do século XX contando com o apoio técnico e financeiro da LBA (Legião Brasileira de Assistência) com ações voltadas à proteção à criança e à mãe.
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Noeli foi uma das primeiras profissionais das creches municipais, atuou como monitora até a sua aposentadoria, no período de 1983 a 20094, iniciou sua atuação na terceira creche criada no município. Explica que após encerrar a atividade de cuidadora doméstica trabalhou em uma empresa a qual o proprietário tornou-se prefeito do município. Em função do momento de contenção que vivia a empresa, ela pede uma colocação na prefeitura. Assim por indicação do prefeito, ela compareceu a uma reunião no pavilhão da Igreja do Bairro São Miguel que tratou sobre a criação de uma creche municipal, nessa reunião foi realizada a distribuição das funções, conforme relata:
Aí a pessoa que estava encarregada para fazer a colocação dos funcionários no trabalho, disse que precisava de uma para a lavanderia, outra para a limpeza, outra para ser a cozinheira, outra pegava a turma dos grandes, e tinha o berço. Então quando me perguntaram qual a atividade que eu gostaria eu falei que eu vi que ia ter um berçário, e até agora ninguém falou que quer cuidar do berçário, então eu fico com o berçário (Entrevista com Noeli, 2011).
Ela comenta que como já havia trabalhado em casa cuidando de crianças isso contribuiu para a decisão de atuar diretamente com as crianças. A narrativa de Noeli nos remete a observar a constituição histórica dessa profissão vinculada a uma identidade feminina, conforme apontado por Cerisara (1996), que estabelece associações com a maternagem e o trabalho doméstico, fazendo com que essa se caracterize como uma atividade que necessita de pouca qualificação e, portanto, oferece menor remuneração.
A narradora aponta o enfoque presente na década de 1980 no trabalho com as crianças, relatando que a preocupação centrava-se nos cuidados voltados à saúde, higiene e alimentação das crianças, salienta que as condições da época eram precárias, as crianças eram muito pobres:
Ali entrava o banho, cortar a unha, passar veneno para matar o piolho, tinham bicho de pé, [...]. Então a gente fazia tudo, praticamente tudo pelas crianças, era muito difícil. E a gente fazia tudo, alimentava, dava banho, arrumava bonitinha e à tardinha a gente entregava e logo pela manhã no dia seguinte voltava novamente e tinha que fazer tudo de novo. Então a gente se preocupava muito com esse lado, em alimentar, a alimentação e a higiene era praticamente tudo com nós. Tinha criança que fazia a última refeição ali com nós e às vezes só ia fazer outra refeição no dia seguinte (Entrevista com Noeli, 2011).
Sobre essa questão Kuhlmann Jr assevera que em sua origem as creches tiveram uma destinação para a infância pobre, assumindo uma perspectiva assistencialista, que se configurou “como uma proposta educacional específica para esse setor social, dirigida para a submissão não só das famílias, mas também das crianças das classes populares” (Kuhlmann Jr, 2004, p. 182).
Müller (2007) destaca que ao longo da história a vida das crianças tem se transformado em diversos aspectos e se mantido em outros, salientando que a valorização da infância tem sido crescente. O relato que aqui focalizamos ratifica essa compreensão, pois mostra a mudança ocorrida entre as décadas de 1970 e 1980 em um
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Trabalhou com diferentes vínculos empregatícios e cargos – no período de 1983 até 1985 foi contratada como auxiliar de creche, após passou para monitora de creche, ambos com carteira assinada e em 1992 assumiu o cargo como concursada. Em Francisco Beltrão a primeira denominação para o cargo foi auxiliar de creche, posteriormente passou para monitor de creche e, em 2008, foi alterado para educador infantil, de acordo com Lei Municipal N. 3464/2008.
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município brasileiro, mostrando uma mudança de uma década para outra em que o Estado amplia ações de atenção a criança, co-responsabilizando-se por essas junto às