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Influence de l’addition de fillers

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CHAPITRE I. ÉTUDE BIBLIOGRAPHIQUE

I. M ECANISMES REACTIONNELS ET PROPRIETES DES CIMENTS PHOSPHOMAGNESIENS

I.7 Influence de différents paramètres sur les caractéristiques du ciment phosphomagnésien

I.7.5 Influence de l’addition de fillers

A pesquisa realizada no Arquivo Nacional95 confirmou que 436 das 753 pessoas

identificadas nas fichas do arquivo de recadastramento de estrangeiros entre 1939 e 1949 encontravam-se instaladas em Porto Alegre. Há registros, contudo, da fixação, com efetivos bem menores de sírios e libaneses em outros centros urbanos importantes: Pelotas (84

94 Veja ‘fontes’ na introdução.

registros); Rio Grande (53); Santa Maria (33); Alegrete (18); Uruguaiana (16); Bagé (13); Canoas (8); e em alguns menores: São Sepé (12) e São José do Norte (7). Demais municípios

encontram-se igualmente presentes96, mas com números menos expressivos: Osório (distrito de

Bacupari); Cachoeira do Sul (Restinga Seca); Gravataí; Jaguarão; São Gabriel, Santa Vitória do Palmar, todos com três nomes: Canguçu, São Jerônimo, Viamão, Novo Hamburgo, Encantado, Arroio Grande, Itaqui, São Francisco de Paula, Encruzilhada do Sul e Tapes, todos com dois nomes; e, por fim, com um nome cada, os municípios de Guaporé, São Lourenço do Sul, Dom Pedrito, Santa Cruz do Sul, Camaquã, Passo Fundo, Livramento, Lavras do Sul, Bom Jesus, Rosário do Sul, Estrela, Lajeado, Santo Antônio da Patrulha, Quaraí, Herval, Montenegro e Vacaria.

Mapa 5 – Distribuição de imigrantes sírios e libaneses no Rio Grande do Sul por município (1944)

Na análise comparativa dos dois mapas apresentados, observamos a consolidação, em 1899, do número de imigrantes sírio-libaneses no eixo Porto Alegre-Pelotas-Rio Grande-Bagé. Posteriormente, vemos a inclusão de Passo Fundo e da região de Santa Maria como cidades de grande afluência de árabes em 1944. Ao cabo de 45 anos, os imigrantes médio-orientais e seus descendentes distribuíram-se pela Serra Gaúcha em novas colônias.

96 Deve-se levar em conta que a partir de 1890 diversos distritos de grandes municípios foram desmembrados e se tornaram sedes municipais, a exemplo de Nova Prata de Alfredo Chaves, Ijuí de Cruz Alta, Vacaria de Santo Antônio da Patrulha, entre muitos outros casos semelhantes.

No extremo sul e sudoeste do estado, a presença levantina se difundiu pelos municípios vizinhos de toda faixa da fronteira, com especial destaque para Bagé e Alegrete. A exceção foi o noroeste do Rio Grande do Sul, onde a ausência de informações “zerou” nosso demonstrativo. Os imigrantes mais antigos, radicados em Santo Antônio da Patrulha, Lagoa Vermelha e Vacaria, espalharam-se pela Serra Gaúcha e pela região agrícola de Passo Fundo e Getúlio Vargas, mas também pelos Aparatos da Serra até o litoral norte, em Torres. Os que estavam em Cruz Alta, na geração seguinte, aparecem em Ijuí e Carazinho. No limiar do século XIX, vimos apenas uma família em Santo Ângelo.

O mapa seguinte complementa as informações contidas nos dois anteriores. Ele mostra que outras áreas, no norte e noroeste do estado, especialmente próximas ao rio Uruguai, entre Erechim e Frederico Westphalen, seguindo por Três Passos, Três de Maio, Palmeira das Missões até Santa Rosa, mais a oeste, eram as regiões com menor número de famílias sírio- libanesas instaladas, o que talvez se explique pelo fato de essas últimas áreas de terras devolutas do estado terem sido colonizadas tardiamente, e também por terem sido mais rigorosamente controladas por seus administradores, esse foi o caso de Erechim, que iniciou sua exploração seguindo cartilhas positivistas, o que pode ter contribuído para afastar os sírios da região, cujo tipo de comércio era pouco apreciado por esses administradores (TEDESCO; BATISTELLA; NEUMANN, 2017).

É conveniente esclarecer que o mapa de 1924, apresentado abaixo, em comparação com os outros mapas que mostramos anteriormente, é possível observar os desmembramentos de novos municípios, assim como também o deslocamento da população de origem sírio-libanesa do sul ao norte do estado, ocupando as áreas de novas colônias e reafirmando a sua presença com vigor em Santa Maria e Passo Fundo, e ainda se espalhando pelas regiões central e serrana do Rio Grande do Sul.

436 84 53 33 18 1613 12 8 7 73

Cidades gaúchas por quantidade de imigrantes árabes

1939-1949

Porto Alegre 58% Pelotas 11% Rio Grande 7% Santa Maria 4.5% Alegrete 2.5% Uruguaiana 2.2% Bagé 1.75% São Sepé 1.7% Canoas 1.1% outros municípos 10%

Mapa 6 – Distribuição de imigrantes sírios e libaneses no Rio Grande do Sul por município (1924)

O mapa mostra as regiões econômicas onde as atividades rurais, combinadas com as indústrias das regiões metropolitanas de Porto Alegre, Santa Maria e Caxias do Sul, aparecem com mais força. Também reflete o padrão de urbanização e de mecanização da lavoura encontrados nos municípios da região central do estado, onde alguns desses municípios como Cachoeira do Sul, São Sepé e Santa Maria concentram mais imigrantes sírio-libaneses, que agora já se espalham pela região da Serra Gaúcha.

Compilando os dados extraídos dos 753 prontuários, montamos o gráfico abaixo, que mostra a preferência dos imigrantes árabes no Rio Grande do Sul em se estabelecer nos maiores centros urbanos, confirmando que optavam prioritariamente pelas cidades mais populosas e desenvolvidas comercialmente para se fixar e iniciar suas atividades profissionais.

Gráfico 3 - Cidades gaúchas por quantidade de imigrantes árabes (1939-1949)

O instantâneo de quase meio de século indica que a imigração árabe no Rio Grande do Sul foi um fenômeno concentrado principalmente em áreas urbanas do estado – na capital e nos municípios de Pelotas, Rio Grande e Santa Maria. Esse complexo comercial e logístico correspondia a pouco mais de 80% do número total de sírios no estado. Desta forma, de acordo com o nosso microcosmos, as porcentagens assim se configuram: Porto Alegre, 58%; Pelotas 11%, Rio Grande 7%, Santa Maria 4,5%, e, espalhados por outras cidades do interior, os restantes 19,5%.

No trabalho que fez sobre imigrantes libaneses no Rio Grande do Sul, Creidy (1958, p.308), depois de listar os nomes das famílias pioneiras, informa que “no início do século XX, quando o número de libaneses se tornava maior, muitos vinham para os lares de seus parentes, trazendo seus familiares.” A maior parte fixava-se mesmo na capital, mas alguns se aventuraram pelo interior. O autor compara os mascates a “legítimos bandeirantes”, que enveredavam por regiões que imigrantes de “outras nacionalidades temiam percorrer”. Segundo o autor, os municípios que mais receberam contingentes desses imigrantes no período, além de Porto Alegre, foram Santa Maria, Cachoeira, Passo Fundo, Soledade, Pelotas, Rio Grande, Lagoa Vermelha, Erechim, Vacaria, São Gabriel, Carazinho, Getúlio Vargas, Uruguaiana, São Borja, Itaqui (CREIDY, 1958).

4.3 SÍRIOS E LIBANESES NA FRONTEIRA E NO SUL DO ESTADO

O primeiro texto dedicado especificamente à imigração sírio-libanesa no Rio Grande do Sul é o de Tanus Bastani. Ele conta as memórias do pai libanês, que foi mascate no Rio Grande do Sul no início do século XX. Em “Os libaneses no Brasil”, publicado no Álbum da colônia sírio-libanesa no Brasil, de Salomão Jorge, Bastani, de forma ufanista e memoriosa, se refere assim ao pai:

Quando, no findar do século XIX, o inesquecível pai do autor deste livro mascateava pelo interior do estado sulino, por muitas ocasiões, livrou-se da sanha sanguinária dos ladrões que infestavam a zona de São Francisco Xavier, em direção a Vacaria. Certa vez, indo em companhia de seu fiel animal, uma mula de carga chamada Catarina, em direção à Bento Gonçalves, o animal que já estava acostumado a abrir as porteiras que encontrava no caminho empurrando-as com a cabeça, em dado momento, em virtude de um disparo de espingarda, estranhou o seu dono, e recorcoveando deu-lhe um coice no calcanhar, abrindo enorme ferida nos pés. Ali, curtindo dores atrozes durante quase todo o dia, ficou ao abandono, onde foi socorrido pelo boticário do lugar. Perdeu sua mercadoria e seu animal, tendo que recomeçar novamente a ganhar avida. Não reclamou de ninguém, nunca se queixou das barbaridades que contra ele praticaram. (BASTANI, 1948, p.130).

Fontes diversas97 revelam que os sírios e libaneses estiveram presentes na fronteira do Rio Grande do Sul com o Uruguai e a Argentina desde a segunda metade do século XIX. A proximidade com os países do rio da Prata conferiu características peculiares à presença sírio- libanesa no Rio Grande do Sul, se comparada com esta mesma imigração em outras partes do território nacional. No Sul, a imigração árabe diferencia-se pela convivência de seus membros com outros grupos de imigrantes, especialmente alemães e italianos, mas também com o gaúcho dos limites da Nação. Mascateando por toda a faixa de fronteira, os imigrantes árabes conviveram durante décadas com o gaúcho peão de estância, participando das “carreiras em

cancha reta”98 e aprendendo a montar à moda dos peões da fronteira, usando bombachas e

esporas, cavalgando por cima de um pelego, como confirma a literatura (CHEUICHE, 2003). Becker (1958, p.315) destaca a importância e significado da presença de sírios e libaneses na região:

E, diga-se de passagem, que a influência econômica dos mesmos, na fronteira é grande. E merecidamente, pois por volta de 1900 os representantes de outras etnias, com exceção, talvez, dos portugueses, não se animaram a penetrar naquela região. Os árabes, por sua vez, viam a dificuldade de iniciar com êxito sua vida na região de colonização alemã, italiana e polonesa.

Naquele momento, um contingente razoável de mascates árabes circulava pelo interior do Uruguai e da Argentina, mas também pelo sul do estado, especialmente por Bagé, Alegrete, São Gabriel, Herval, Lavras do Sul, Jaguarão, Arroio Grande, Quaraí, Santa Vitória do Palmar e Santana do Livramento/Rivera, visitando seus clientes nas estâncias, entre peões, colonos e capatazes. Há relatos de filhos e netos de imigrantes libaneses e sírios dando conta que seus avós entraram a pé pela fronteira do Rio Grande do Sul, tendo ido se estabelecer em lugares

distantes como Tupanciretã99 ou Santo Ângelo, nas Missões.

Na literatura memorialística, Fuad Nader escreveu Abdalla Nader: de mascate a general do ar e amigo da cultura (2005). Na obra, ele descreve o início da vida de seu pai que, “não se conformando com a pobreza em que vivia na cidade libanesa de Nabay, tornou-se vendedor ambulante em Rio Grande”. (NADER, 2005, p.15). Segundo o autor, em 1912, três anos depois do período de mascateação, seu pai enfim se estabeleceu como comerciante na cidade. A princípio, por meio da locação de um quarto no mercado municipal; depois, com um modesto

97 Ver, por exemplo, Annuario Estatístico do Estado do Rio Grande do Sul (1924); Becker (1958); Fersan (2005) e Rosa (2005).

98 Esporte equestre muito popular na região do pampa. Para uma descrição detalhada de suas características, ver Golin (1999).

99 Assim nos relatou Cirne Chamun, nascido em Tupãciretã, em 1935, e ex-presidente da Sociedade Libanesa, ao narrar a trajetória de seu pai, Antônio Mansur.

armarinho denominado Flor do Mercado, “nome que revela o temperamento e a alma romântica do filho do Líbano lendário”. (NADER, 2005, p.15).

A história de libanês Abdalla Nader em Rio Grande continua com ele tornando-se representante, a partir de 1931, de uma empresa inglesa de fertilizantes (Trevo) que fez com que o imigrante se aventurasse, utilizando o implemento agrícola que representava na plantação

de cebolas no Litoral Lagunar. De acordo com Fuad Nader100, o experimento “foi uma tentativa

pioneira exitosa também para introduzir em larga escala o fertilizante, tornando a região grande produtora de bulbos, o que garantiu a liderança absoluta do produto no mercado”. (NADER, 2005, p.21). Abdalla expandiu seus negócios como dono de depósitos, empresas de ferragens, mercados e outros comércios e representações em Rio Grande, incluindo a exportação de cebolas e cereais e o ramo da construção civil, chegando ao clímax em 1941, segundo relata Fuad, quando doou um avião ao Exército brasileiro, a fim de apoiar os esforços do país durante a Segundo Guerra Mundial. Com esse gesto de patriotismo, Abdalla foi simbolicamente nomeado pelas autoridades como general do ar.

Pelotas também sofreu grandes influências da imigração de sírios e libaneses. A título de um exemplo de empreendedorismo, como no caso de Rio Grande, o informativo Pelotas 13 horas101, em sua edição online de 26 de julho de 2013, fala da morte naquele mesmo dia, aos 89 anos, do pelotense filho de libaneses Edmundo Modaffar Al Alam. Diz a nota que Modaffar “sucedeu seus pais como empreendedor do comércio em Pelotas, Rio Grande e Porto Alegre” e que era formado em ciências econômicas. Traz a informação de que foi “fundador da Sociedade Libanesa, benfeitor da Santa Casa de Pelotas e do Instituto São Benedito, diretor do Instituto de Menores e do Sindilojas”. Diz ainda que ele “se destacou-se por ter convivido com os mais de 1.500 colaboradores que passaram por suas empresas”.

Pelos lados do Alegrete102, também se formou uma numerosa comunidade composta

principalmente por comerciantes libaneses e sírios. Ferreira (2008, p.69) descreve, entre outras,

100 No obituário do Jornal de Santa Catarina (edição de 17 de junho de 2013), encontramos o nome de Fuad Abdalla Nader. Diz a nota que ele era natural de Rio Grande, e que faleceu aos 88 anos, em 22 de maio daquele ano. A informação se refere a Nader como empreendedor “dedicado ao desenvolvimento do município e à difusão da cultura libanesa”. Sabemos através do obituário que Fuad era “formado em economia e que investiu nos setores de ferragem, conservas alimentícias, leite e adubos”, e ainda que foi “presidente do Conselho Municipal de Educação, do Clube dos Diretores Lojistas e da Câmara do Comércio de Rio Grande”. Na área da educação, a nota informa que foi professor da Universidade Federal do Rio Grande (Furg), da Escola de Engenharia Industrial e da

Escola Técnica de Comércio São Francisco. Disponível em:

http://jornaldesantacatarina.clicrbs.com.br/sc/obituario/fuad-abdalla-nader-61502.html. Acesso em 23 jul. 2017. 101 Disponível em: http://www.pelotas13horas.com.br/noticia/morre-edmundo-modaffar-al-alam--ex-presidente-

da-cdl-7ec05614-b4e6-452d-bc58-823e78f8a368. Acesso em 12 jan. 2017.

102 A cidade de Alegrete se localiza estrategicamente equidistante entre as fronteiras com a Argentina, a oeste, e ao sul, com o Uruguai.

a trajetória dos irmãos Boabaid103, que fincaram comércio na cidade. Na rua Demétrio Ribeiro, batizada pela população como a “rua dos turcos”, os Boabaid abriram a Casa Alegrete, depois Casa Paulista, bastante procurada devido ao baixo preço de seus produtos.

Ferreira (2008, p.71) destaca, entre as várias famílias árabes de Alegrete104 aquelas com

nome “abrasileirado”, como os Mendes, os Borges, os Garcia e os Alexandre. O autor transcreve em seu trabalho uma pequena biografia da família do ex-prefeito da cidade, (1973- 1977) Adão Ortiz Houayck, cujo pai chegara ao Brasil no início do século XX acompanhado do irmão. Em 1913, inaugurou o seu negócio, “abrindo a porta para a vinda de novas famílias”. Aloyzio Achutti, um médico aposentado de 83 anos, mantenedor do blog Histórias que meu pai contava traz a seguinte informação sobre seu avô, o imigrante libanês Antônio Mansur: “Ele [o pai Bortolo Achutti] dizia que o meu avô (...) havia nascido em 18 de janeiro de 1869, na cidade de Beirute, junto à baia de Junin, no Líbano.” Segundo seu relato, Mansur

teria vindo para o Brasil no século XIX, mais ou menos no fim da década de 1880 ou no início dos anos 1890. Era solteiro e consta que tinha 17 anos e, se assim foi, deveria ter por aqui chegado em 1887, antes da Proclamação da República. [Veio] acompanhando seu irmão mais velho José, que já era casado e deixara temporariamente mulher e filhos em sua terra natal. (...) Meu avô tinha mais dois irmãos, Maron e Maria, que chegaram ao Brasil mais tarde, na década de 1890. Segundo meu pai, eles teriam vindo, a mando da mãe, para buscar de volta os dois que chegaram primeiro e que teriam vindo somente para “fazer a América”, juntar algum dinheiro e retornar para casa. Meu avô, durante toda a vida, se culpava por não ter voltado para rever a mãe, que morreu sozinha no Líbano, pois os filhos optaram por ficar no Brasil.

(ACHUTTI, [2012]).

Antônio chegou a Montevidéu, “onde desembarcou e, em contato com patrícios, conseguiu caixas de mascate cheias de mercadoria, prosseguindo a pé em direção a Porto Alegre, pelo meio dos campos”. (ACHUTTI, [2012]). A história de Mansur é idêntica à de muitos outros imigrantes árabes que entraram no Rio Grande do Sul vindos do Uruguai, muitos a pé. Aloyzio Achutti prossegue o seu relato: “[Eles] vendiam seus produtos nas sedes de fazendas e vilarejos até terminar a mercadoria”. (ACHUTTI, [2012]). De acordo com Aloysio, seu avô e o irmão dele, José, depois de um tempo em Porto Alegre, foram para Santo Ângelo (Missões), onde abriram um comércio, mas por causa da Revolução de 1893 tiveram que abandonar a região às pressas. Os dois retornaram de carroça. José se radicou em São Pedro do Sul; Antônio, em Santa Maria, onde nasceria Bortolo. Escreve Aloysio:

103 Um dos membros mais famosos da família foi José Boabaid, advogado e político catarinense nascido em Palhoça em 1906 e falecido em Florianópolis em 1972. José era filho de Abrão Boabaid e de Maria Boabaid e casou-se com Déspina Spyrides. Ocupou o cargo de governador do estado de Santa Catarina entre 1948 e 1950 (PIAZZA, 1985). Lacaz (1982, p.24), ao descrever a presença árabe por todo Brasil, também fala de Youssef Boabaid e de seus filhos Aziz e Abrão, “esses novos bandeirantes que muito fizeram pela grandeza do país.” 104 Entre os nomes de sírios e libaneses de Alegrete estão os Júri, Marun, Najar, Reston, Álibi, entre outros.

É interessante que, pelo que eu entendi, eles aqui chegaram sem saber falar português e sem saber escrever com nossos caracteres, o que não os impediu de negociar e ir aprendendo a língua, enquanto iam juntando dinheiro para sobreviver, e depois se tornarem comerciantes até abastados. (ACHUTTI, [2012]).

A movimentação através da fronteira seca, entre o norte do Uruguai e a região de Bagé e Jaguarão, era especialmente intensa. Uruguaiana, por suas conexões fluviais e ferroviárias, também era muito frequentada pelos mascates sírios na virada do século XX. Essa movimentação foi sustentável durante as décadas subsequentes, e, pelo bom momento econômico daquela região do estado, um número razoável de famílias árabes nesses locais se radicou, conforme apontam nossas pesquisas e a literatura (BASTANI, 1946; BECKER, 1958; ROSA, 2005).

O envolvimento dos sírios e libaneses radicados no sul do estado com os entreveros entre os partidários de diferentes oligarquias gaúchas foi inevitável. A Revolução Federalista eclodiu em 1893, quando os maragatos, tendo como líder Gaspar Silveira Martins, que era chefe do Partido Federalista Riograndense, se rebelaram contra o Partido Republicano do Rio Grande

do Sul105, que dominava o cenário político através de seu líder Júlio de Castilhos desde 1891.

No sul do estado, seu maior representante era Luís Gonçalves das Chagas, o barão de Candiota, cujas terras se estendiam “das coxilhas de Santa Maria à cidade de Bagé sem cruzar por outros campos que não fossem os de sua exclusiva propriedade" (CALLAGE, 1929, p.29).

Nessa época, centenas de mascates árabes percorriam vastas áreas do sul do Rio Grande do Sul, especialmente as sedes das grandes estâncias, e não seria improvável que, devido a sua intensa mobilidade, eles acabassem assumindo o papel de mensageiros e arautos dos acontecimentos, dentro e fora das terras dos estancieiros. Isso poderia lhes valer de moeda de troca, garantindo, por exemplo, proteção nas estradas pelos peões das estâncias ou autorização para fazer comércio naquelas terras, junto aos seus empregados, peões e senhoras dos agregados.

Bastani (1946, p.129) refere-se, por exemplo, à amizade dos imigrantes com o barão de Candiota: “Quando, ao findar do século XIX, o inesquecível pai do autor deste livro mascateava pelo interior do estado sulino, teve o amparo do inolvidável gaúcho barão de Candiota, um dos veteranos heroicos da grandeza sul-rio-grandense.”

105 Enquanto os republicanos se estabeleciam com força política em Porto Alegre e eram especializados no uso da máquina administrativa em seu favor, a oposição federalista, os maragatos, mantinha suas bases rurais de sustentação na região da fronteira, dando continuidade à tradição caudilhista e rebelde do Rio Grande (LOVE, 1971).

Aproveitando-se do momento econômico, muitos montaram “bolichos”106 no meio do pampa para vender aos gaúchos. Nossas pesquisas revelaram que no período da Primeira Guerra Mundial havia um importante contingente de libaneses, palestinos e sírios circulando entre Argentina, Uruguai e Brasil, na mascateação, ou com suas lojas e bolichos. Circulavam pelo

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