CHAPITRE I. ÉTUDE BIBLIOGRAPHIQUE
I. 7.5.3.2 Influence des cendres volantes sur la chaleur d’hydratation
A literatura memorialista e biográfica, pela importância e complexidade que apresenta, merece um tratamento particular. Um estudo dentro de nosso objeto de estudo. Isso se justifica
porque essa literatura permite o acesso a representações desses imigrantes, mas também a
construção da memória dos diferentes grupos até o momento atual. Nesse sentido, torna-se
importante identificar aspectos comuns a todas elas, tais como: posição social dos autores;
origens; obstáculos e dificuldades enfrentadas na imigração; memória familiar; herança cultural; ascensão social; aquisição de prestígio; lições de vida; defesa de valores morais; concepções de enriquecimento e trabalho; estratégias de negócios; ética comercial etc.
O caráter memorialístico das produções literárias, de acordo com Lejeune (2008),
assume um conteúdo de reinvenção, que se estabelece no limite entre a ficção e a realidade. Neste gênero literário, quase sempre, os autores se identificam como personagens, na medida em que a maior parte das histórias são contadas na terceira pessoa, descaracterizando assim o
texto autobiográfico. Nessa perspectiva, o autor pode ser definido como uma pessoa real e socialmente responsável e, ainda, como o produtor de um discurso. Além dos aspectos das representações e de construção da memória, a literatura memorialista, (auto)biográfica ou genealógica, que apresentamos a seguir, produzida em diversos municípios do interior do estado, nos serviu também para fechar lacunas deixadas por outras fontes, e se tornaram imprescindíveis na medida em que nosso objetivo foi reunir o maior número possível de manifestações e referências sobre a imigração sírio-libanesa no Rio Grande do Sul. Sendo assim, as pesquisas nos levaram a examinar uma série de publicações memorialistas, na maioria das vezes biografias, romances de imigrantes ou livros escritos por descendentes em homenagens a seus pais. Apresentamos abaixo um quadro descritivo desses autores e suas obras.
Quadro 1 - Literatura memorialística da imigração árabe no Rio Grande do Sul autores e obras
Autor Obra/Data de Publicação Gênero Assunto(s) Observações
Tanus Bastani (?)
Os libaneses no Brasil
(1948);
Semana árabe em Porto Alegre (1973).
Memórias. História do Rio Grande do Sul; mascates e imigração árabe no Sul; memórias do pai imigrante em Uruguaiana. Orador da comunidade libanesa. Abdalla Creidy (?-1966) Verbete na Enciclopédia Rio-Grandense (1958). Obra de referência. Imigração libanesa no Rio de Grande do Sul; definição de Líbano e separação entre libanês e sírio. Consul honorário do Líbano em Porto Alegre e filho de imigrantes. Era empresário e industrial. Fuad Abdalla Nader (1925-2013) Abdalla Nader (1894- 1953): De mascate a general do ar e amigo da cultura (2005). Memórias de Abdalla Neder que foi um importante líder comunitário e comerciante Memórias do seu pai, Abdalla Neder, imigrante libanês. no sul do estado.
São memórias biográficas de um personagem do tipo
self made man. História da
cidade de Rio Grande
Mario Salomão Sada (1914-2008) Do Líbano ao Brasil: Construindo Sonhos. (2009) Autobiografia e memórias. Mário conta a história de seu pai, João Elias Sada, imigrante libanês estabelecido em Brodoski, no interior de São Paulo. (2009). Conta a trajetória do pai, imigrante libanês que tornou-se grande empreendedor da cidade.
São memórias de uma trajetória ligada à história de Porto Alegre. Sada foi Grão-Mestre da maior loja maçônica da capital, forte comerciante de tecidos em Porto Alegre e proprietário de uma casa de show “Mil e uma Noites”.
Edison Nequete (1926-2010)
Herança da luta de Abílio Nequete (2008).
Memórias e autobiografia. Edison tem uma
Memórias da família
Nequete,
O autor, nascido em Porto Alegre, foi jornalista da Rádio Nacional no Rio de
redação irônica e poética e seu ‘depoimento’ autobiográfico completa o que se sabe de seu irmão e pai.
incluindo, entre outros, o pai, Abílio e o irmão Lenine.
Janeiro. Sua narrativa humaniza personagens de quem pouco se sabe.
Pedro Vergara (1895-1979)
Olhares sobre Jaguarão
(2010).
Memórias de juventude quando conheceu uma família árabe com quem trabalhou. Alimentação, ambiente familiar, costumes e hábitos de uma família de imigrantes árabes de Jaguarão, referência da juventude do autor.
Escritor gaúcho nascido em Porto Alegre, Vergara foi também advogado, jurista e poeta.
Fonte: Dados compilados pelo autor [s.d.]
Examinando o quadro acima, conclui-se que, entre os escritores descendentes, a maioria faz parte da segunda geração. São geralmente pessoas com um grau de instrução mais elevado do que o de seus pais imigrantes. As narrativas se referem a memórias familiares e em geral vêm associadas a reconhecimento e gratidão pela luta dessas pessoas. O único autor não- dscendente, Pedro Vergara, trata de suas memórias e a lembrança de uma família árabe que conheceu na infância.
Também vamos trabalhar com uma literatura vinculada à formação de municípios ou microrregiões do estado, servindo como uma espécie de documentação da origem de algumas comunidades do Rio Grande do Sul e de seus fundadores, muitos deles de origem sírio-libanesa. Caracteriza-se por ter sido escrita por autores locais que se dedicam a esse tipo de produção.
Os blogs são outra boa fonte de consulta de relatos de caráter memorialístico de descendentes de árabes disponíveis na internet. Um deles é a página Histórias que meu pai contava26, mantida por Aloyzio Achutti. Outra fonte de material memorialístico encontrado na internet são reportagens como a do Jornal Pioneiro, que nos traz informações sobre a trajetória do imigrante libanês Kalil Sehbe, de Caxias do Sul. Outro tipo de fonte que fizemos uso foram as seções de obituário dos principais jornais do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, além dos
informativos de entidades de classe. Cobrimos os anos entre 2003 e 201627, sendo que a maioria
dessas fontes estão disponíveis na internet. A literatura ficcional foi outra fonte de informações sobre a imigração sírio-libanesa no estado que fizemos uso.
26 Disponível em: <http://amicorextension.blogspot.com.br/2012/10/bortolo-achutti-1898-1977.html>. Acesso em: 12 out. 2015.
27 Os nomes aqui expostos não esgotam todos os casos ocorridos no recorte temporal supracitado, tampouco todas as fontes jornalísticas possíveis, mas foram aqueles que a pesquisa encontrou.
A respeito da literatura biográfica ou autobiográfica, mas também no caso da literatura memorialista, é importante pontuar que, de uma maneira geral, observa-se nelas uma tendência a alimentar-se de um modelo narrativo em que sucessos e derrotas são idealizados de acordo com o ponto final das trajetórias que narram. Esse processo foi previsto pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu (2006), que traçou alguns caminhos críticos para entender como se apresentam as representações nesses casos específicos de literatura. Segundo o autor, a única maneira de apreendê-las como tal consiste em tentar recuperá-las na unidade de um relato totalizante com o fito de responder à seguinte questão: a imagem que esses indivíduos/autores construíram de si mesmos ou de seu objeto de estudo em suas obras correspondem à realidade? Eles exprimem com veracidade os fatos e indivíduos que descrevem? Ou suas narrativas significam apenas uma seleção de suas reminiscências?
Para Bourdieu (2005), as leis que regem a produção dos discursos em sua relação entre habitus e o mercado também se aplicam a essas formas particulares de expressão; ou seja, o relato de vida varia, tanto em sua forma quanto em seu conteúdo, segundo a qualidade social do mercado no qual é oferecido. Nessa perspectiva, a vida de uma pessoa não pode ser narrada linearmente sem se considerar as relações que elas estabelecem com distintos agentes, em diferentes campos de atuação, ao longo de sua existência. Uma vida é algo complexo, praticamente impossível de ser explicitado em um discurso cronologicamente ordenado e linearmente construído. Ela surge, porém, nas biografias e relatos memorialísticos como “um todo, um conjunto coerente e orientado, que pode e deve ser apreendido como expressão unitária de uma “intenção” objetiva e subjetiva de um projeto”. (BOURDIEU, 2006, p.184).
No caso específico da biografia, segundo Richard Holmes, (1985, p.83), ela "pode propiciar uma espécie de espelho ético, no qual podemos ver, com uma força súbita, nossas vidas sob diferentes ângulos". Talvez o maior desafio do trabalho bibliográfico seja a maneira como nossas subjetividades nos faz ver, sentir e perceber o outro. Assim, de acordo com Borges (2009, p.232), "a narrativa biográfica impõe uma modalidade de escrita da história profundamente imbricada com as subjetividades do biógrafo", o qual, ao falar de seu personagem no texto que produz, está, na verdade, falando “de si mesmo, projetando algo de suas emoções e de seus próprios valores e necessidades".