Partie 1 : La formulation des médicaments et des produits cosmétiques
2. Les différents acteurs de la controverse des excipients
2.2. Les industries et les fournisseurs
A imparcialidade constitui uma das bases do modelo de imprensa liberal-burguês. Para construir a crença de que a notícia é um espelho da realidade, a imparcialidade é
associada à objetividade. Nessa perspectiva, as mídias são concebidas simplesmente como transmissoras da realidade social, restringindo seu papel à busca das notícias e ao uso de uma tecnologia para sua difusão.
Na verdade, tal concepção é um mito, pois esconde a atividade produtiva enunciativa das mídias. Com efeito, a notícia é uma construção: narração de um fato ou reescrita de outra narração. Além do mais, na medida em que, ao descrever um acontecimento, a notícia o define e dá forma, ela ajuda a constituir a realidade como fenômeno social compartilhado (RODRIGO ALSINA, 2009).
Essa compreensão da produção informativa como construção da realidade opõe- se à primeira, que entende a realidade social como algo exterior e autônomo em relação à prática jornalística. É essa ideia que se encontra na base do modelo liberal de jornalismo e que sustenta o mito da objetividade:
O conceito de objetividade que o capitalismo divulga é a descrição dos principais fatos desvinculados das relações de classes em que eles acontecem […] Temos, então, um reflexo falso da realidade. (RODRIGO ALSINA, 2009, p. 251-252)
Contudo, é a visão do jornalista como gatekeeper, isto é, observador externo da realidade – em contraposição à de advocate, aquele comprometido, que toma uma postura perante a realidade social –, que ainda predomina entre os profissionais da imprensa. Segundo M. Rodrigo Alsina (2009), isso evidencia a ficção do caráter apolítico do jornalista ou, no mínimo, da repressão de sua ideologia ao longo do exercício profissional.
Um conhecido ditado do mundo do jornalismo contribui para o que acabamos de dizer: “a notícia é sagrada, o comentário é livre”. Porém, tanto na apuração e redação da notícia, quanto no comentário, o jornalista enfrenta escolhas múltiplas ligadas à seleção e ao tratamento dos fatos. No intuito de dar conta da riqueza e da complexidade do real, a notícia cria, na verdade, uma ilusão do real.
Em termos jornalísticos, tal ilusão se produz seguindo algumas estratégias, conforme assinala Tuchman:
1. Apresentar a possibilidade de contrastar a verdade pretendida, mostrando claramente quem são as fontes.
2. Apresentação de provas adicionais e posteriores que comprovem um fato […]
3. O uso das aspas. O texto fica como se fosse dito por outra pessoa. Isso pressupõe um distanciamento do jornalista e, portanto, não é o jornalista quem está fazendo a afirmação da verdade. Por outra parte, podemos afirmar que o uso da citação acontece para apoiar hipóteses pessoais, apresentando-as como se tivessem sido extraídas da lógica “natural dos acontecimentos”.
4. Estruturação da informação de uma forma adequada. Isto é, em primeiro lugar são apresentados os fatos essenciais.
5. Isolamento da informação da opinião e dos fatos dos comentários (1980 apud RODRIGO ALSINA, 2009, p. 249).
Tudo o que delineamos anteriormente aponta para a possibilidade de considerarmos a imparcialidade como um efeito de sentido do ponto de vista linguístico. Uma vez que a construção da notícia implica um processo de produção discursiva e, ao mesmo tempo, de elaboração textual, pode-se (e deseja-se) conseguir uma impressão de imparcialidade, como resultado do processo, visando ao convencimento do leitor.
Na imprensa, a objetividade, a imparcialidade e a neutralidade se tornam garantia do profissionalismo, no que diz respeito aos jornalistas, e de credibilidade, no que tange ao público. A análise interna dos textos mostra, porém, que não existe texto objetivo nem imparcial, mas apenas textos que produzem o efeito de sentido de objetividade ou de imparcialidade. Nas palavras de Barros:
[...] as escolhas feitas e os efeitos de sentido obtidos não são obra do acaso, mas decorrem da direção imprimida ao texto pela enunciação. Ressalta-se o caráter manipulador do discurso, revela-se sua inserção ideológica e afasta-se qualquer ideia de neutralidade ou de imparcialidade do texto. (2007, p. 78).
O efeito de imparcialidade é particularmente almejado na abordagem de temas polêmicos (BREWER, 2011), situação em que o jornalista deve guardar para si suas opiniões e evitar mostrar-se tendencioso no momento de apresentar visões distintas, considerando que as fontes, elas próprias, não são imparciais.
Do ponto de vista discursivo, como procuramos mostrar, o efeito de imparcialidade é decorrente das projeções da enunciação no discurso, com ênfase para aqueles procedimentos ligados à delegação da voz; da escolha dos temas e das figuras; e dos diálogos que o texto em questão estabelece com outros textos ou discursos. Analisaremos cada um desses elementos.
Como já assinalamos, ao instalar a terceira pessoa no discurso, a debreagem enunciva apaga as marcas da enunciação, produzindo a impressão de afastamento e
criando o efeito de sentido de objetividade. Esse procedimento encena a realidade do fato como externa e alheia em relação ao enunciador.
Por meio das debreagens internas, se dá voz às pessoas do discurso. Mediante o discurso direto e as citações, recria-se a ilusão de diálogo. Se se acrescentam nomes, datas e lugares, por meio da ancoragem, provoca-se um efeito de realidade que produz a impressão de que o jornal apresenta a única verdade possível sobre o fato.
Mais especificamente, o efeito de imparcialidade guarda relação com a delegação da voz a posições diferentes. Esta estratégia tenta reproduzir as complexidades do tecido social, uma vez que as diferentes vozes dão conta das ideologias associadas a camadas ou classes sociais diversas.
Porém, como também frisamos, o próprio enunciador possui um posicionamento sobre o que escreve, por sua vez, condicionado pela sua inserção social e ideologia. Essa posição vai se apresentar no discurso como voz dominante. Assim, as vozes trazidas para o discurso no intuito de criar um simulacro de imparcialidade, na verdade, produzem uma “falsa” polifonia, uma vez que parecem favorecer a sua opinião, ou seja, os seus valores, a sua ideologia.
Quanto à intertextualidade e à interdiscursividade, o texto jornalístico pode parecer mais imparcial na medida em que dialogue mais com outros textos ou discursos e, sobretudo, na medida em que estabeleça mais relações polêmicas com eles, ainda que prevaleça uma voz como dominante.