II.5 Moyens d’échapper aux limites
II.5.1 Indépendance
Em Portugal, os surdos começaram por formar clubes (Cabral, 2005), onde não era permitida a entrada de ouvintes, nem o acesso destes à Língua Gestual Portuguesa. Em 1934, foi criado o Grupo Recreativo de Surdos-Mudos do Porto; em 1936, nasceu em Lisboa o Clube Os Mudos e, em 1954, surgiu o Grupo
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Desportivo de Surdos-Mudos de Lisboa (Coelho, 2007). As reivindicações políticas começaram a ter maior expressão a partir da criação da Associação Portuguesa de Surdos (APS), em 1958. Esta associação acabou por abrir uma delegação no Porto, em 1974, a qual, no entanto, acabou por se separar da APS por dificuldades de financiamento e articulação, formando a Associação de Surdos do Porto (ASP). Esta rutura deu-se em 1995. Em 1993, tinha sido já fundada a Federação Portuguesa das Associações de Surdos (FPAS). Como refere Coelho (2007), estas comunidades eram inicialmente muito fechadas à presença de ouvintes, com exceção de alguns familiares e amigos próximos. Quando, em 1986, Portugal adere à Comunidade Económica Europeia (CEE), a comunidade surda portuguesa reúne-se com outras comunidades surdas da Europa. Segundo Bettencourt (2008), iniciam-se aí as trocas de informação a nível internacional sobre os problemas dos surdos. Há conferências na Grécia, na Dinamarca, na Holanda e em Portugal. A comunidade surda portuguesa associa- se à luta da Federação Mundial de Surdos e da União Europeia de Surdos, indo ao Parlamento Europeu (PE) e conseguindo a aprovação da Resolução de 1988 (Documento A2-302/87), através da qual o PE fazia um apelo aos governos dos Estados-membros para que fossem reconhecidas as línguas gestuais de cada país (ibidem). Em 1989, com o apoio do Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP) e da Comissão Europeia, a Associação Portuguesa de Surdos (APS) inicia a formação a intérpretes e a formadores de LGP (Carvalho, 2007). Influenciadas pelo movimento associativo surdo internacional, as associações de surdos em Portugal começam a organizar-se dentro da mesma perspetiva. A 20 de junho de 1993, realiza-se em Coimbra o I Congresso Nacional de Surdos, constatando-se a necessidade premente da criação de uma Federação Portuguesa de Associações de Surdos (FPAS), a qual vem a ser criada em dezembro do mesmo ano. Inicialmente, fizeram parte da FPAS a Associação Cultural de Surdos da Amadora, a Associação Portuguesa de Surdos, a Associação de Surdos-Mudos do Concelho de Almada, a Associação de Surdos do Oeste e a Associação de Surdos de Braga.
Neste primeiro congresso, foi criada a Comissão Coordenadora de Iniciativas e Ações em Prol da População Surda Portuguesa (CCIAPPSP), mandatada como “legítima e legal representante das Associações de Surdos Portuguesas” (Carta
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Social da Pessoa Surda, 1993:1) até à criação da FPAS. Esta Comissão assumiu como sua função pugnar pela aplicação no contexto nacional do “Programa Mundial da ONU, relativo às Pessoas Deficientes” (ibidem). Foi também elaborada a Carta Social da Pessoa Surda, a qual exibe um discurso marcadamente médico, centrado ainda na problemática da deficiência auditiva, sua integração e reabilitação. Através dele, a CCIAPPSP apela a uma política essencialmente social: “A plena Integração Social significa a existência de condições que assegurem uma efetiva igualdade de Oportunidades e o Direito à Realização Pessoal, através da participação ativa na Vida Social e Económica dos Surdos Portugueses” (ibidem).
As maiúsculas do texto realçam as palavras-chave e as reivindicações. Destacamos algumas, nomeadamente o direito a um enquadramento jurídico, o direito a todas as ajudas técnicas e sociais necessárias, o direito à existência de serviços qualificados e adequados ao nível da reabilitação e o direito à igualdade de oportunidades no mercado de trabalho. Parece haver na Carta Social da Pessoa Surda sinais de se querer ir mais longe no seu âmbito de abrangência, afirmando-se que “a plena integração dos deficientes auditivos” (ibidem) terá de pressupor:
O esclarecimento da Sociedade e de todas as Instituições no sentido de, por um lado, sensibilizar as mesmas para as enormes potencialidades da Pessoa Surda e, por outro lado, denunciar o modo tradicional como a Comunidade “Ouvinte” costuma “idealizar” a Pessoa Surda, acabando definitivamente com a rejeição, conformismo, compaixão e protecionismo (Carta Social da Pessoa Surda, 1993:2).
Neste documento, parece estar implícita uma rejeição dos modelos de conceptualização da diferença baseados na tolerância e na generosidade. A comunidade surda portuguesa expressa o seu desejo de começar a ser olhada de uma outra forma, diríamos que dentro de um modelo relacional da diferença, como propõem Stoer e Magalhães (2005). Um modelo que rejeite a perspetiva assistencialista e a ação unilateral. Pede por isso “a sensibilização da comunicação social para que dê relevo à problemática da Surdez e reserve espaço para as Organizações de Surdos, permitindo-lhes apresentar publicamente os seus pontos de vista e experiências colhidas” (ibidem: 2).
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Há um apelo para que os surdos participem ativamente nas políticas que lhes dizem respeito, sendo sujeitos dos seus próprios discursos:
2. Que o Governo, em relação às Organizações de Surdos: a) Incremente o seu apoio a essas organizações;
b) Encoraje por todas as formas possíveis a criação e o desenvolvimento das mesmas; c) Possibilite a sua auscultação relativamente às políticas e às decisões governamentais, nas áreas relativas à problemática da Surdez (Carta Social da Pessoa Surda, 1993: 2).
Neste documento, as reivindicações circunscrevem-se a campos restritos, no entanto, sente-se uma consciencialização da necessidade de mudança. São delineadas linhas de ação que realçam a importância de um papel mais ativo das pessoas surdas e das associações que as representam na vida política nacional. Nesse sentido, é exigido ao Estado que apoie estas organizações, que encoraje o desenvolvimento das mesmas e que possibilite a sua auscultação relativamente às políticas e às decisões governamentais, nas áreas relativas à surdez.
Relativamente à educação, este documento constitui um marco. Nele surge pela primeira vez a referência ao uso da língua gestual nas escolas: “Que o Governo Português crie escolas para frequência das Pessoas Surdas, com utilização da Língua Gestual Portuguesa” (ibidem: 3). Exige-se que o Estado Português “reconheça a Língua Gestual Portuguesa como a língua oficial da Comunidade Surda, equiparando a mesma à Língua Oral” (ibidem: 8). Na Disposição XII, são enumeradas várias reivindicações relacionadas com a LGP, tais como a necessidade de divulgação e promoção da mesma junto da comunidade ouvinte, a necessidade de formação de intérpretes de língua gestual e a necessidade de apoio financeiro para a promoção de cursos nesta língua.
A disposição final do documento insiste que “seja reconhecido à Pessoa Surda o verdadeiro direito à igualdade, mantendo o natural direito de ser diferente ou diferente mas igual” (ibidem: 9). Há um apelo ao direito de cada um poder assumir a sua especificidade e incomensurabilidade num mundo em que a diferença está em todos nós (Stoer & Magalhães, 2005). No primeiro Congresso Nacional de Surdos são lançadas as sementes para uma luta organizada em torno do
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reconhecimento da LGP, à semelhança do que estava a ocorrer a nível internacional.
Em Portugal, já existiam alguns estudos sobre a Língua Gestual Portuguesa, os quais acabariam por dar também um contributo importante para o seu reconhecimento. Em 1980, foi publicado o livro de Isabel Prata “Mãos que falam”. Nele eram apresentados cerca de 250 gestos produzidos pelos surdos portugueses e recolhidos em colaboração com a Associação Portuguesa de Surdos. O livro continha o primeiro estudo linguístico sobre a Língua Gestual Portuguesa, conferindo-lhe pela primeira vez o estatuto de língua genuína. Este trabalho acabou por constituir um despertar para os surdos portugueses, influenciando a produção de outros trabalhos que se seguiram.
A Resolução de 1988 do Parlamento Europeu esteve na base da criação no nosso país de uma equipa de dezasseis elementos para a organização do primeiro Gestuário da Língua Gestual Portuguesa (1992), uma espécie de dicionário com palavras e expressões em LGP. Este trabalho, coordenado por António Vieira Ferreira, foi realizado no âmbito do Secretariado Nacional de Reabilitação e contou com a participação de vários elementos da comunidade surda.
No mesmo ano, Maria Augusta Amaral tornou-se diretora do Instituto Jacob Rodrigues Pereira, uma instituição de renome na educação de surdos em Portugal, que faz parte da Casa Pia de Lisboa (CPL) e que por essa razão está sob a alçada da Segurança Social. Ao assumir a direção desta instituição, esta investigadora, que antes tinha sido coordenadora pedagógica na CPL como professora especializada no ensino de surdos, propõs e implementou o método bilingue, tendo a LGP como primeira língua das crianças surdas (Carvalho, 2007). Influenciada pelos estudos que estavam a ser desenvolvidos a nível internacional, iniciou uma investigação com Amândio Coutinho e Raquel Delgado Martins, a qual foi financiada pela Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica (JNICT) e pela Casa Pia de Lisboa (Amaral, 1991). Dela resultou uma obra de referência incontornável para a comunidade surda: “Para uma Gramática da Língua Gestual Portuguesa” (Amaral et al, 1994).
A 15 de novembro de 1995, várias associações representativas das pessoas surdas, de familiares e amigos de surdos, bem como de professores e técnicos
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que trabalhavam com estes alunos, juntaram-se em prol de um objetivo comum. Estamos a falar da Comissão para o Reconhecimento e Proteção da Língua Gestual Portuguesa (CPRPLGP) (Freire, 2011). Enquanto membros desta Comissão, os representantes das várias associações subscreveram uma Declaração sobre a Língua Gestual Portuguesa (1996) que dirigiram aos órgãos de soberania e de administração central e local da República Portuguesa, bem como à opinião pública em geral. Este documento, que será analisado por nós no próximo capítulo, passa a ser a pedra basilar do movimento em prol do reconhecimento da LGP. Coloca a comunidade surda portuguesa na linha das reivindicações da Federação Mundial de Surdos e da União Europeia de Surdos. Dá conta de um conhecimento sustentado dos diversos estudos existentes em torno da língua gestual e da educação de surdos e exige o cumprimento das orientações do Parlamento Europeu.
Para a educação de surdos já não se defende apenas o uso da língua gestual, mas a criação de um currículo bilingue e intercultural. É uma perspetiva mais alargada, que tem implícita uma nova visão dos surdos. A ênfase já não é colocada na deficiência auditiva e na sua reabilitação, tal como acontecia na Carta Social da Pessoa Surda (1993), mas na Língua Gestual Portuguesa enquanto veículo para uma cidadania plena e para a afirmação de uma identidade cultural. Há uma nova atitude epistemológica e política de pensar a diferença, atribuindo aos sujeitos uma agência reflexiva.
A luta junto das Comissões Parlamentares da Assembleia da República dura cerca de dois anos. A CPRPLGP cria um dossier20 com documentação de apoio onde, para além da Carta Social da Pessoa Surda (1993) e da Declaração sobre a Língua Gestual Portuguesa (1996), inclui vários documentos de organizações internacionais, que visam fornecer argumentos sólidos para o reconhecimento da LGP. Entre esses documentos estão as resoluções dos XI e XII Congressos da Federação Mundial de Surdos (1991; 1995), a Resolução do Parlamento Europeu sobre as Línguas Gestuais (documento A2-302/87), a mensagem do Secretário- Geral da ONU ao XII Congresso da Federação Mundial de Surdos, a Declaração de Salamanca e ainda o texto de uma comunicação apresentada por Bernard Mottez, em 1981, no auditório da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
20 Dossier gentilmente cedido pela Associação Portuguesa de Surdos para este trabalho de
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Na mensagem do Secretário-Geral da ONU ao XII Congresso da Federação Mundial de Surdos (1995), este fala da sensibilização das Nações Unidas às reivindicações das comunidades surdas e da publicação em 1994 da Resolução n.º 48/96 “Normas sobre a Igualdade de Oportunidades para as Pessoas com Deficiência”, onde é prevista a utilização da língua gestual na educação de surdos e a presença de intérpretes enquanto mediadores de comunicação.
Por outro lado, o texto de Bernard Mottez (1981), “Os surdos como uma minoria linguística”, dá conta da emergência de uma nova visão sobre os surdos: “Considerar os surdos como uma minoria linguística pode aparecer aos olhos de muita gente como uma atitude paradoxal e perigosa ao mesmo tempo. Ela não provirá da recusa em considerar a língua dos surdos como uma língua? (Mottez, 1981: 1).
Na sua comunicação, este investigador fala da necessidade de mudança de atitude e de políticas em relação aos surdos, uma vez que só assim se estará a garantir a verdadeira inserção dos surdos na vida social e cultural de cada país. Dá como exemplo a realidade americana e, mais concretamente, o ensino de surdos na Universidade de Gallaudet, onde a língua gestual é já usada há muito tempo. Destaca o benefício que é para os surdos poderem comunicar através da sua língua natural e desse modo terem acesso a informação que doutro modo lhes estaria vedada. Segundo este autor, o acesso à informação permite à pessoa surda estabelecer o esquema estrutural do mundo que a rodeia e, estabelecer a sua localização no mesmo, podendo dessa forma estruturar-se melhor a si própria. Mottez refere que se tivesse que resumir todas as mudanças ocorridas nos EUA numa só palavra, diria “participação”:
Uma minoria importante da população americana mantida até agora à margem da nação, começa a participar. Ela começa a ocupar funções e empregos que até então lhe estavam interditos. Ela começa a fazer ouvir a sua voz, e especialmente em todas as decisões que lhe respeitam, tomadas outrora pelas pessoas ouvintes (Mottez, 1981: 23).
Segundo o mesmo autor, é sempre em nome da integração que se faz a guerra à língua gestual, mas o caminho não é por aí. A integração dos surdos passa, no seu entender, pelo reconhecimento desta língua. A mudança de mentalidades, no entanto, só é possível se os surdos começarem a ser olhados sob uma outra
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perspetiva, não como deficientes, mas como membros de uma minoria linguística. A comunicação de Mottez é longa. Este fala da língua gestual como primeira língua das pessoas surdas e da língua oral como segunda língua, do surdo como um indivíduo bilingue e da necessidade de abandonar o estigma da inferioridade e da deficiência:
A adaptação ao meio maioritário é sempre tanto mais bem sucedido quando os membros das minorias dispõem de um meio onde, se sintam à vontade, onde se encontrem com pessoas partilhando as mesmas experiências; tendo os mesmos valores e com as quais se podem compreender sem comiseração e sem subterfúgios; de um meio no qual ninguém é deficiente, onde, entre aqueles que lá participam, não existem as barreiras da piedade, do desprezo, do medo, do paternalismo, do ressentimento, ou apenas simplesmente da língua (Mottez, 1981: 26).
Mottez termina a sua comunicação, referindo mais uma vez o exemplo americano e acrescentando o dos países escandinavos. Apela ao reconhecimento das línguas gestuais como garante de paridade no exercício da cidadania para as pessoas surdas.
A Comissão para o Reconhecimento e Proteção da LGP mobiliza contributos internacionais para o suporte das suas reivindicações. A estes junta-se o estudo de Maria Augusta Amaral sobre a gramática da Língua Gestual Portuguesa, já referido por nós anteriormente. Desse modo, consegue-se o reconhecimento da Língua Gestual Portuguesa, através da 4ª revisão da Constituição da República Portuguesa, em setembro de 1997. Através do Artigo 74, n.º 2, alínea h, o Estado Português compromete-se a “Proteger e valorizar a língua gestual portuguesa enquanto expressão cultural e instrumento de acesso à educação e da igualdade de oportunidades”.