• Aucun résultat trouvé

Durante cerca de catorze anos desconhece-se em Malaca e na Índia, o que sucedeu a uns juncos que desapareceram sem deixar rasto. Umas cartas escritas por alguns desses cativos, enviadas clandestinamente por meio de mercadores

estrangeiros, vêm pôr fim a uma parte do mistério. Do resto se irá encarregar Fernão Mendes Pinto quando, por sua vez, é feito prisioneiro na China, onde peregrina durante quase um ano.

O vice-rei Zhuhuan armara uma frota para desencorajar a vinda de estran- geiros e o contrabando nas suas ilhas e costas. É o período mais duro das per- seguições, todavia, apesar de acossados e de terem de travar batalha, o lucro é tanto que muitos portugueses continuam a fazer veniaga com os chins.

Em 1548, com tripulações de corsários chineses, bons conhecedores das costas e ilhas, e subornando os loutias corruptos, Diogo Pereira anda com a sua frota, de noite, no contrabando. No ano seguinte, não tendo ainda vendido toda a fazenda, com dificuldade em obter alimentos, o capitão decide regressar com parte da frota à Índia, deixando dois juncos com a carga para a veniaga, comandados por Galiote Pereira e Fernão Borges.

Os portugueses são denunciados à armada chim, quando estão a fazer o resgate das mercadorias, no sul da província de Fujian. O capitão-mor, Lu T’ang, ouvindo dizer que os juncos traziam muita fazenda, prepara-lhes uma cilada, pondo alguns homens armados na praia a desafiá-los com grande surriada, enquanto os vigia com os navios escondidos por trás de um promontório. Os portugueses caem na armadilha, vindo nos escaleres a terra para combater e deixando os juncos desguarnecidos, que são tomados pela armada com morte dos que estavam de guarda, juntamente com muitos tripulantes chineses.

Os sobreviventes, entre os quais se encontram Galiote Pereira, Mateus de Brito, Amaro Pereira e o espanhol Afonso Ramiro, são presos para serem conduzidos a Fucheu, apodados pelos funcionários chins de Diabos Bárbaros. Lu T’ang, para acrescentar a sua glória, faz saber que tomara os navios e fizera prisioneiros os reis de Malaca. Surgira-lhe essa ideia ao ver, na carga dos jun- cos, uns ricos roupões e gorras de veludo dos estrangeiros, que fez vestir a qua- tro portugueses, para os fazer passar pelos reis de Malaca, com promessas de lhes dar melhor tratamento se entrassem na farsa. Vai, então, exibi-los pelos povoados, num cortejo triunfal, sentados em cadeiras e acompanhados pelos portugueses que não falam a língua (para não o comprometerem), metidos den- tro de uma espécie de capoeiras, onde só cabem acocorados, com as cabeças de fora e os pescoços entalados entre duas tábuas enunciando os seus crimes.

Estas manifestações de triunfo chegam aos ouvidos do seu superior, o Hai-

dao fushi6, que o convoca a Chincheo a fim de lhe prestar contas. Lu T’ang sabe

que tem de o convencer a entrar no plano que urdira, para receberem honras e benefícios do imperador. Os criados do capitão põem as capoeiras às costas, suspensas de varais, outros carregam a muita fazenda roubada e, com grande aparato de bandeiras e trombetas, o longo cortejo põe-se a caminho de Chin- cheo. Por todo o lado o comandante é recebido pelos senhores das terras com muitas honrarias e o povo vem gritar vitupérios aos prisioneiros e atirar-lhes pedras e imundícies.

Lu T’ang logra convencer o Haidao do seu plano e dividem entre os dois a fazenda roubada, sem nada dar ao imperador, pondo a correr a história de que os portugueses são ladrões e assassinos. Para preservar o segredo, decidem matar todos os prisioneiros chins, com as suas mulheres e filhos pequenos. Sentindo-se protegidos pelo decreto de Zhu Huan, o dudang (governador), que odiava os portugueses, os dois louteas ousam aplicar a sentença de morte a mui- tos prisioneiros sem a aprovação imperial – uma ofensa de lesa-majestade. Os portugueses que não falam a língua são metidos no tronco (prisão) de Fuchou, cidade principal de Fukien, onde jazem durante anos, em grande padecimento, desconhecendo o que se passa fora da China.

A história do massacre, porém, não terminou com a sua prisão, pois o povo estranhou a excessiva crueldade dos mandarins e, por todo o lado, se falava dos mercadores portugueses roubados, das tripulações chins assassi- nadas e dos meninos mortos. Algumas das vítimas tinham parentes na terra que se foram queixar aos seus louteas, que enviaram notícia ao imperador, em Pequim. Um mandarim extraordinário foi mandado a Fuchou para fazer um rigoroso inquérito.

A devassa provou a inocência dos portugueses e a culpa dos nobres chins e do dudang. Os dois louteas que tinham executado os cativos, em Fuchou, foram degolados e Zhu Huan suicidou-se antecipando o castigo imperial. Os portugueses absolvidos não tiveram, contudo, permissão para sair da China, sendo exilados para lugares longe da costa, onde alguns morreram e outros lograram fugir, auxiliados por mercadores estrangeiros.

São as cartas de Cristóvão Vieira e de Vasco Calvo e, posteriormente, de Afonso Ramiro e Galeote Pereira, que dão a conhecer, na Índia e no reino, as

mais precisas e realistas informações sobre a China. Apesar da sua condição de prisioneiros e da violência sofrida, ao mesmo tempo que referem a corrupção dos oficiais, a prepotência e crueldade com que tratam o povo, continuam a mostrar aquele mundo como uma imagem de perfeição, sobretudo em relação ao sistema de justiça, à protecção dos pobres e desvalidos, à polícia (civilização) e instrução das gentes, à riqueza e abundância da terra, à beleza das mulheres. E também, dentro da mentalidade portuguesa da época, a insistência de ser uma nação muito fácil de conquistar e subjugar.

Os prisioneiros acham que só seriam libertados se a armada portuguesa atacasse Cantão e se assenhoreasse de toda província. Cristóvão Vieira che- gou a escrever ao capitão-mor um rascunho da carta que ele deveria enviar aos mandarins, quando a armada entrasse no estuário do rio das Pérolas, com o ultimato para a nossa libertação. Calvo escreveu cartas ao capitão- -mor e ao Governador, com um plano bem esmiuçado para conquistar a cidade e província de Cantão, sem grande trabalho e pouco custo, dizendo que o povo era fraco na guerra e se fechava em casa quando havia perigo, obedecendo a quem mais manda. (Barroqueiro, 2011)

Descrevendo minuciosamente a China, Cristóvão Vieira dá instruções sobre como os portugueses poderão tomar a província de Cantão com uma força de apenas dois a três mil homens, porque, embora a pudessem tomar com menos, terão de empregar muita gente nos cargos e lugares necessários para a manter, por ser terra muito grande e com muita gente. Outros cativos dizem também que, sendo o povo tão escravizado pelos mandarins, se os portugueses vierem em força conquistar a terra, não precisam de matar ninguém, porque os chins os ajudarão a tomá-la. A carta de Vasco Calvo é um minucioso plano para a con- quista, indicando os lugares para se fazer as fortalezas, dentro e fora da cidade, os locais onde se acham os armazéns do arroz (para alimentação), das mer- cadorias e das riquezas (mormente da prata), cuja posse deve ser assegurada, passando daí para a conquista de outras cidades costeiras de grandes rendas.

Em 1553, Galiote Pereira consegue fugir para Sanchoão e escreve o seu Tratado publicado só em 1563, com grande divulgação graças à tradução ita- liana. Frei Gaspar da Cruz utiliza-o no seu Tratado. É a visão da China perfeita, da terra melhor regida que pode haver no mundo.