Sete edições no decurso de 36 anos, entre 1642 e 1678, em quatro línguas diferentes, atestam a circulação de um número considerável de exemplares da obra de Semedo, embora numa dimensão mais modesta do que a registada com outros livros anteriores dedicados à China Ming. É o caso dos de Gonzalez de Mendoza e de Trigault, ambos com um número superior de edições63. De qual-
quer forma, é claro o interesse gerado pela obra em análise, que rapidamente
59 Carta de Thomas Henshaw a Anthony Wood, Verão 1693, cit. por Pasmore, 1982, p. 180. 60 Cuja primeira edição, em latim, datava de 1654.
61 China Monumentis, qua Sacris qua Profanis, Nec non variis Naturae & Artis Spectaculis,
aliarumque rerum memorabilium Argumentis Illustrata, Amesterdão: Apud Jacobum à Meurs. Kircher e Semedo estiveram juntos em Roma, como nos dá conta o primeiro na obra citada (p. 6). Sobre Kircher, veja-se, por exemplo, Findlen, 2004.
62 A partir daqui, apenas conhecemos a edição do texto castelhano em 1731 e, depois, no século
XX, a edição portuguesa de Luís Gonzaga Gomes, com base no texto italiano (Macau: Notí- cias de Macau, 1954 e Macau: DSEJ-Fundação Macau, 1994), além de outras reedições, já no século seguinte, em francês (Jean Pierre-Duteil, ed., Paris: éditions Kimé, 1998) e inglês (Primary Sources, Historical Collections, 2011).
63 Por exemplo, no espaço de quinze anos, a obra de Mendoza conheceu quarenta edições.
Quanto a Trigault, depois da primeira edição, em 1615, rapidamente vieram a lume cerca de quinze novas edições em latim, mas também em francês, italiano, alemão, castelhano e inglês. Veja-se, a este propósito, Lach & Kley, 1993, p. 513.
conferiu a Semedo o estatuto de especialista ou autoridade sobre a China na Europa do século XVII, mas também do XVIII. Vários autores, deste período, jesuítas e não jesuítas, citam-no nessa categoria. Entre estes, temos os já refe- ridos Martino Martini e Athanasius Kircher, mas também António de Gouveia (1592-1677), outro jesuíta da missão da China, ou ainda Johann Nieuhof (1618- 1672), Claude Bernou (ca. 1638-1716), Olfert Dapper (1635-1689) ou Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716), entre outros.
A informação sobre a China, com que o livro abre, estende-se por cerca de 200 páginas, mais do que as dedicadas à actividade missionária, como já assinalado. Na tradição de obras anteriores, como as de Mendoza e de Trigault, abordava-se um variado leque de temas. Em certa medida, o texto constituía-se como uma espécie de enciclopédia, capaz de oferecer uma visão geral sobre a China e os chineses, recheado de pequenas histórias e comparações com reali- dades conhecidas do leitor/ouvinte. Numa retórica própria da época, Semedo declarava, no prólogo, que apresentava tão somente os pontos essenciais sobre a China, disponibilizando num “Libro corto” informação até aí dispersa “por muchos, i largos” livros; a qual se actualizava, uma vez que as anteriores obras “quedan muchos años atras”64. Semedo pretendia ainda corrigir informação mais
antiga, pondo termo às persistentes fantasias sobre a China que continuavam a correr na Europa. A obra integra-se, pois, num evidente processo de acumulação e aperfeiçoamento de saberes sobre o Império Ming, em que se retomam notí- cias que já circulavam, mas que são emendadas, actualizadas e desenvolvidas. Certos temas foram particularmente aprofundados pelo procurador, face a abordagens anteriores, como é o caso das questões relacionadas com a língua ou o sistema de exames. Estes tópicos ganham uma dimensão nova, através de um relato minucioso, especialmente bem informado. No caso específico dos exames, é notável a descrição do decurso das provas, pelo seu rigor e pormenor, mas também pela dinâmica da narrativa, de grande visualidade, permitindo recriar mentalmente o ambiente de um dia de provas, desde o pequeno cubículo do candidato, às instalações e actividade dos examinadores e restante pessoal, ao exterior do complexo e toda a logística e azáfama inerentes.
Por outro lado, também perfeitamente enquadrado no seu próprio tempo, Semedo traça uma representação da China extremamente positiva, marcada pelos habituais tópicos da grandeza do reino; da dimensão demográfica; da
abundância de bens e auto-suficiência; do notável governo e aplicação da jus- tiça; da dimensão intelectual da cultura chinesa, plasmada na promoção e dedi- cação ao estudo, assim como num complexo sistema de exames, que permitia a ascensão sócio-económica, ou na difusão da imprensa, isenta das restrições existentes na Europa. A imagem favorável estende-se aos chineses, enfatizando- -se a grande cortesia, virtude ou habilidade manual daqueles.
Esta imagem encomiástica não deixa, porém, de ser acompanhada por um conjunto de críticas a aspectos considerados menos positivos. A mero título de exemplo, refiram-se questões como a da imensidão de pobres e iní- qua distribuição da riqueza (Semedo, 1642, pp. 14-15); ou a cobiça e falta de escrúpulos dos comerciantes chineses; mas também, o enfaixamento dos pés das mulheres, aspecto em que Semedo se distingue como primeiro autor euro- peu a contestar esta prática, que reduzia a uma “gran tonteria” (Semedo, 1642, p. 47). Assinale-se, ainda, as suas considerações sobre a ineficácia da Grande Muralha, enaltecida por muitos autores europeus (Semedo, 1642, p. 33); ou sobre a negligência a que se tinham votado os assuntos da guerra, o que então se reflectia na incapacidade de fazer face aos ataques manchus, que perturba- vam a ordem política e social do Império Ming (Semedo, 1642, p. 133). Este é, aliás, um dos pontos que mostra a actualidade da informação transmitida por Semedo, que dava conta das invasões manchus em cursos, tema que o procu- rador iria continuar a tratar após o seu regresso a Macau, em 1645, já depois da queda dos Ming65.
Se a obra de Semedo parece perder a sua importância a partir de 1678, ano da última edição conhecida no século XVII, constata-se, no entanto, que continuou a ser lida e citada por outros autores para lá dessa data. O aprofun- damento e difusão do conhecimento europeu sobre a China, que decorria no século XVII, tem pois no texto de Semedo um inquestionável contributo.
65 Veja-se, por exemplo, a sua “Breve Relação do Estado actual da Monarquia da China, com-