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Como mencionado nos momentos iniciais deste escrito a conjuntura política de organização do MCP e os desdobramentos na relação com a gestão municipal da cidade de Fortaleza redefiniram a opção de parte da militância, inclusive uns/umas que participavam da Ocupação Comuna.

Isto transcorreu nos primeiros anos da Comuna, quando já sinalizava o desgaste de militantes com a gestão da prefeita Luizianne Lins, em virtude dos acontecimentos após a campanha eleitoral, na composição das forças políticas na Câmara dos Vereadores e no decorrer da administração democrático-popular do Partido dos Trabalhadores em Fortaleza. Parte da militância do MCP chegou a assumir cargos de chefia ou como funcionários terceirizados na gestão e a ter

dificuldades de mediação entre as pautas e manifestações do Movimento e a Gestão Pública, como foi enfatizado anteriormente.

De acordo com o Caderno Nacional da Unidade Classista: política, organização e formação – O CAD Nacional da Unidade Classista (14/03/2016) (Figura 23) teve sua fundação em 2012 e ocorreu o I Encontro Nacional em 2015 por orientação do Partido Comunista.

A UNIDADE CLASSISTA é uma jovem corrente sindical e operária, fundada em novembro de 2012, com o objetivo de servir como instrumento de ação dos comunistas e seus aliados no movimento sindical e, mais recentemente, no movimento de luta por moradia. Não obstante, já estamos presentes na direção de importantes sindicatos, na construção de oposições sindicais e ocupações urbanas, com boas perspectivas de crescimento. (CAD NACIONAL DA UNIDADE CLASSISTA 01, 2016, p. 4)

A Unidade Classista, não parte de uma proposta local de organização como movimento popular, e, em Fortaleza, assume um caráter muito peculiar de frente urbana de luta por moradia. As ocupações urbanas da cidade de Fortaleza tem erguido a bandeira da Unidade Classista como identidade em ocupações da cidade, como a Ocupação Gregório Bezerra, na Regional V, no bairro do Conjunto Ceará72.

Figura 23 - Unidade Classista

Fonte: http://unidadeclassista.org.br/

72 A Ocupação Gregório Bezerra tem o nome em memória ao político da esquerda brasileira,

pernambucano Gregório Bezerra e existe desde 2016, no bairro Conjunto Ceará na Regional V em Fortaleza. A ocupação esteve acampada num terreno da Prefeitura Municipal de Fortaleza que se encontra num vazio urbano, denominado de área verde, desmatado, em cujas proximidades só tem um posto de saúde e uma escola municipal. Da interlocução com a Prefeitura, foi sinalizada a remoção das famílias para região limítrofe com a cidade de Maracanaú, onde há obras do Programa Minha Casa Minha Vida. A conquista para essa negociação foi compartilhada com a luta e pressão das famílias ocupadas, num prédio histórico no centro de Fortaleza, a Escola Jesus Maria e José, ao lado do ícone da Igreja Pequeno Grande, Colégio Imaculada Conceição e Colégio Justiniano de Serpa. https://www.opovo.com.br/jornal/reportagem/2018/06/a-ocupacao-gregorio-bezerra-e-as- violacoes-de-direitos.html

O contexto das fragilidades do Governo Dilma, da derrocada na direção das alianças políticas de centro-direita com o articulador principal PMDB e do golpe de 2016 com o impedimento da Presidenta eleita, em 2014, numa articulação entre Congresso Parlamentar e Supremo Tribunal Federal, foi o chão da organização da Unidade Classista como uma intenção política do Partido Comunista Brasileiro.

Num momento difícil para os trabalhadores, em que a construção civil, o setor siderúrgico e o setor automobilístico fazem demissões em massa, quando muitas pequenas e microempresas fecham suas portas, as votações do PL 4330 e das MPs 664/665 não deixaram dúvidas sobre as intenções desse governo e do Congresso Nacional. Enquanto o projeto da terceirização foi aprovado com os votos da base aliada (exceto PT/PC do B) e da oposição de direita, as medidas provisórias do plano de ajuste fiscal do governo foram aprovadas pela mesma base aliada, incluindo dessa vez os votos favoráveis do PT e PC do B. No caso das MPs, o PSDB jogou para a plateia, votou contra apesar de apoiar as medidas de arrocho, deixando o desgaste político da aprovação para os partidos governistas. Por sua vez, o STF, julgando a Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 1923, decidiu que a gestão de escolas, universidades, hospitais, museus e outras autarquias, podem ser entregues para as

denominadas Organizações Sociais, as famigeradas OS’s, permitindo, assim, a contratação de professores e funcionários sem concurso público . (CAD NACIONAL DA UNIDADE CLASSISTA 01, 2016, p. 15-16)

Ainda nas análises conjunturais do contexto de fundação da Unidade Classista, vale ressaltar que,

Por sua vez, a resistência à esquerda contra esse processo de adaptação e colaboração de classes, vulgo peleguismo, se deu de forma débil e fragmentada. As iniciativas, em sua maioria a partir do rompimento de correntes que atuavam no interior da CUT, enfrentaram um período bastante adverso, mantendo-se organizadas em pequenas oposições, poucos sindicatos e entidades de servidores públicos. A fundação da CONLUTAS e das INTERSINDICAIS foram expressão desse processo. (CAD NACIONAL DA UNIDADE CLASSISTA 01, 2016, p. 18).

Segundo depoimentos de militantes da Unidade Classista em Fortaleza, participantes da Comuna, a opção transcorreu sem maiores dificuldades nem atropelos.

[...] conhecer a Unidade Classista era a nossa ideia, a forma como se posiciona e deixar claro que também que era ligada ao PCB, não era nada feito às escondidas, nas pressas. É preciso que a gente revele isso, então eu gostei das ideias, principalmente por que são nossas. Claro que nós temos divergências entre nós discutimos sobre uma coisa aqui, ali, senta conversa, planeja, faz formação e a gente tem que entender que a Unidade Classista seria esse lugar, esse local da gente. Seria o espaço da gente que nos aproxima pra fazer esses enfrentamentos das diferenças de classe, dos riscos que existem, desse pensamento esmagador sobre a nossa população mais necessitada e entender que a luta ajuda também a transformar a sociedade. A partir das suas ações (...) era no PCB na luta

dos trabalhadores. (...) continuamos dentro da própria Ocupação, mas agora não como MCP. Tinham as pessoas que participaramque estavam nos núcleos da Ocupação, do Conjunto Palmeiras, o pessoal do Raízes da Praia, no Demócrito Rocha, na Praia do Futuro, inclusive com o pessoal da Comuna a gente levou o pessoal da Comuna pra lá quando foi pra fazer o acordo, quando iam tirar o Raízes da Praia a gente fez lá várias lutas lá de pedir apoio pra Comuna foi muito importante isso (...) foi mais campanha ainda (...) e aí ficou impossível de continuar no MCP (...) nós fomos conhecendo a Unidade Classista e aí também o PCB (...) (IRMÃ DOROTHY, 22/12/2015)

O entendimento de não ter estabelecidas outra Coordenação, quando houve a opção pela Unidade Classista, é avaliado, no depoimento de Leonardo, como um equívoco na continuidade na Comuna como Unidade Classista. E isso pode ter contribuído, também, para enrijecer os grupos mais favoráveis aos encaminhamentos sintonizados com as posições das facções, como a autoconstrução ou a construção dos blocos de apartamento sem as áreas de lazer e espaços de equipamentos sociais que estavam na pauta de reivindicações do MST e MCP, antes do início das obras do conjunto habitacional.

[...] a gente caminhava para a Ocupação e ainda fazia parte do MCP que nessa época estava rachado em três grupos, do grupo da praia (...) aí tinha o grupo da Água Fria. Acho que isso interessa pro trabalho pra vc entender, né? Aí o grupo da Água Fria e aí tinha outro grupo do Montese que a gente fazia parte daqui da regional quatro (...) o MST chamou para o terreno, que era um latifúndio, até tinha esse documento que o MST tinha dado isso há uns dez anos atrás tinha uma relação das (...) terras com donos e tudo mais, o maior era aquele e onde é o Colosso aquele do M. Dias Branco que é na cidade 2000 então eles chamaram pra ocupar nos bairros e nos bairros ainda tinha o MST (...) eles tinham os dados precisos. Aí começaram os preparativos, a gente tinha dois grandes núcleos que era a regional quatro que era o pessoal do Montese e do Demócrito Rocha e tinha umas duzentas pessoas, tinha o do Palmeiras (...) que era umas cento e cinquenta (...) e grupo da gente, grupo grande então o Vila Velha (...) a gente tava começando (...) e lá começaram a chegar os médicos do MST que vinham de Cuba e eles eram os que vieram pela Prefeitura e atendiam na periferia que também era uma forma de a gente conhecer (...) no Vila Velha lá na comunidade (...) perto do morro (..) não sei se tu conhece lá, o povo morra numa área de mangue e já faz os barracos alí em cima.

(...)

com muita sinceridade já tinham acontecido muitos rachas dentro dos núcleos com gente oportunista e aí era um grupo grande, dois grupo grandes (...) quando a gente viu no que ía dar aí a gente faz uma reaproximação aqui com o MST (...) fizemos uma autocrítica dizendo que agora a gente tem que retomar e tal e a gente até acertou que o MST ia cuidar da ocupação e tal a gente até que entendeu que tinha um embate político e (...) então faz o seguinte a ocupação é de vocês, vocês que são um grande movimento (...) a gente ajuda vocês e apoia vocês e a bola é de vocês .... então tá feito (...) então vocês tocam lá e tal (...) mas o MST também não tinha mais tanto fôlego pra tocar e aí ficou aquele clima por lá. A gente fez uma reunião no Frei Humberto pra decidir acabar sobre as determinações que já havia lá dentro (...) aí nesse ponto também que a gente tá faltando na coordenação (...) nós não colocamos uma nova

coordenação lá e a gente avaliava isso como muito ruim, porque a gente já sabia (...) que ninguém tava muito mais pra ir e ficar na ocupação e ou você fica dentro ou sai que tem que ter o tempo todo lá, aí quando cai (...) dessa reunião assim que a gente levou dois anos. (LEONARDO, 11/03/2016).

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