A produção de cartas no século XIX chamou muito a atenção de historiadores e biógrafos por conter uma pratica diferenciada de escrita, a chamada escrita de si. Essa prática presente mais comumente entre cartas de escritores e intelectuais torna-se interessante pois os autores buscam refletir sobre suas ações, existência e reproduzem suas interpretações interiores sobre si na escrita da carta. Essas cartas tomam então não só as comuns perguntas sobre o outro, ou relatos diários, mas expressam a visão do autor sobre os acontecimentos, reflexões que ele faz sobre suas experiências. Dessa forma:
Oque passa a importar para o historiador é exatamente a ótica assumida pelo registro e como seu autor a expressa. Isto é, o documento não trata de ‘dizer o que houve’ mas de dizer o que o autor diz que viu, sentiu e experimentou, retrospectivamente, em relação a um acontecimento. (GOMES, 2004, p. 15)
No caso da narrativa epistolar de si próprio, “trata-se de fazer coincidir o olhar do outro e aquele que se envolve para si próprio quando se aferem as acções quotidianas às regras de uma técnica de vida. ”, (FOUCAULT, 1992, p. 11) A escrita de si é a tentativa de agradar aos olhos do leitor, ao mesmo tempo que utiliza de certa arrogância e utiliza as linhas para fazer reflexões e descrever sobre suas vivências e experiências. Não escrevendo somente o que viveu, mas expressando seus sentimentos sobre tais vivências.
As cartas de Elza e Serafim, podem ser classificadas de duas formas: cartas familiares e cartas intimas, dependendo do momento e qualidade tomada na escrita. Vemos anteriormente que as cartas ainda não compunham um acervo de grandes epistológrafos, pois suas cartas por vezes não seguiam a padrões epistolares, possuíam graves erros gramaticais, afetando a qualidade das cartas. Da mesma forma, especialmente as primeiras cartas tanto quanto de Elza quanto de Serafim, não possuíam grandes reflexões sobre o que chamamos de escrita de si, mas podemos perceber que há um início, ou um ensaio daquilo que futuramente poderia se transformar em uma escrita de si.
Pois podemos perceber a escrita de si não somente como um ato de profundas reflexões sobre o “eu”, mas também como forma de exame, de escolhas das vivências a serem lembradas e tomadas como importantes para sua história pessoal e vivência. Teriam sido capazes de se aproximar a uma escrita de si os irmãos Bertaso? E até que ponto as influencias sobre as
questões de gênero teriam influenciado na prática de escrita de si ou na inexistência dela? Como já observado nos capítulos anteriores, Elza esteve quase todo momento escrevendo suas cartas como forma de relato diário, buscando manter a relação familiar a partir da troca de correspondências. Mas teria havido momentos em que teria expressado suas opiniões e pensamentos sobre suas vivências, teria sido capaz de escrever sobre si?
Provavelmente o que passa nas cartas de Elza e Serafim é um ensaio, pois a escrita epistolar na infância exigia primeiramente o conhecimento gramatical e das normas epistolares, aos quais as crianças até certa idade ainda não tinham o domínio. Contudo, conforme foram crescendo, estabelecendo opiniões, percebendo como suas vivências alteravam seus cotidianos, foram começando, mesmo que sem perceber, a escrever sobre si.
Quando escreve a sua mãe em 1922, Elza afirma: “Já começamos os estudos. A entrada foi hontem. Estou contentíssima porque já começou o mez de julho, agora só penso na chegada de papae. As saudades são tantas! ” (BERTASO, E. 1922. P) Como a maioria de suas cartas, Elza não se demora na sua opinião e sentimentos pessoais, ela conta como se sente, e o que pensa, mas de forma rápida e aparenta ter um ar impulsivo. É dessa forma que Elza escreve sobre si, é nos entremeios do relato cotidiano que Elza se expressa, que coloca seus medos, aflições, alegrias, comemorações, etc. Não são longas expressões, mas não perdem sua significação.
Pois a escrita epistolar é um exercício que exige a prática constante e retorno do correspondente, e a partir dessas condições é que “O uso do exercício epistolar prepara as novas formas de escrita de si, que paralelamente começam a desenvolver-se, e concorre com elas: memórias, narrativas de infância, lembranças, autobiografias” (DIAZ, 2016, p. 51) Contudo, até o ano estudado (1923 com 19 anos) esse teria sido o máximo de expressão de si que teria sido capaz de escrever.
Já nas cartas de Serafim a mudança, como observado anteriormente, teria sido muito mais evidente. É m questão de poucos anos de prática que o menino começa a se sentir mais aberto e com maior liberdade para expressar seus sentimentos e opiniões. Serafim se torna um jovem com muita opinião, e ele a expõe com determinação e as defende. Como por exemplo na carta de 1927 (remetida provavelmente a mãe, segundo as expressões contidas na carta):
Eu, nestes últimos dias parece que estou em brazas, ando numa ansiedade idenscriptivel para poder partir. A minha vingança é estudar, tocar flauta, tomar chimarrão, para acele-rar o tempo. Imagina só si tiver que ficar aqui uma semana na espera vapor: acho que meterei a cabeça por estas paredes todas. (BERTASO, S. 1927. M)
O exemplo acima evidência a clareza dos sentimentos de Serafim e a vontade de expressa-las. Diferente de Elza, Serafim se expressa sem entremeios, apesar de em vários momentos justificar suas angustias e opiniões para evitar problemas.
Mesmo que por muito tempo a história compreendeu que a produção de cartas era uma área de maior proximidade à escrita feminina, especialmente ao se tratar da escrita de si. Não é exatamente o caso encontrado nas cartas de Elza e Serafim. Vários motivos estudados podem ter acarretado essa forma de escrita: o fato de Elza ter estudado a vida toda em colégios internos e que estavam muito atentos a produção epistolar das alunas, Elza pode ter se acostumado e optado por uma escrita mais discreta e com menos expressão de opinião. Além disso, a distância e a falta de comprometimento no trato epistolar pelo lado da mãe, pode ter impedido que a filha sentisse abertura para assuntos mais profundos e/ou íntimos. Contudo, Serafim teria também passado pelo colégio interno e vivenciado o constrangimento da escrita vigiada. E isso esteve presente por três anos do período escolar. Mas o detalhe que nesse caso teria feito a diferença é o momento em que Serafim desiste de estudar em São Paulo, ficando na casa de seus pais por mais 3 anos. Logo, o menino teve tempo para se reaproximar da família e vivenciar novas lembranças junto dela. Quando Serafim volta a estudar no internato, mas agora em Florianópolis, ele já teria tido novas experiências junto de sua mãe e seu pai, teria aprendido mais sobre o cotidiano da família e saberia o que esperava ler sua mãe e seu pai.
Assim, quando escreve cartas aos pais, Serafim tem mais abertura a falar sobre sua vida e expressar suas opiniões, além disso, fica evidente que no novo colégio interno não há acompanhamento da produção de cartas pelos alunos, pois Serafim nesse período teria se correspondido com amigos, irmã e tios. Elza não havia tido essa liberdade nos anos escolares, não havia tido muito tempo com a família e uma aproximação intima verdadeira.
Outra possibilidade que haveria influenciado na escrita de si entre as cartas de Elza e Serafim é o fato de Elza, como menina, estudava para ser mulher, mãe e dona de casa. Ela demonstrava isso em suas cartas, sua preocupação não era com seu eu, mas sim com sua família, com a saúde de sua mãe, irmãos, primos. Estava preocupada em saber que todos da casa estavam bem, que seu pai seguia feliz em seus negócios e escrevia sobre seu cotidiano para informar que seguia estudando para tornar-se uma boa moça, estudada e preparada para cuidar de um marido, dos filhos e ter os modos para uma vida social.
Serafim como menino, estava preocupado com sua formação, pouco lembrava da família, apenas dos mais queridos, como sua mãe, pai, Elza e sobrinhos que mais tarde teria. Assim, ele tinha maior liberdade em estar se estudando e refletindo sobre sua educação, sobre
suas experiências. Como homem, teria mais liberdade para expressão essa que seria de grande importância para sua futura vida pública que os pais esperavam que tivesse.