Como os orientais eram vistos como enfraquecidos, feminilizados e exóticos, as mulheres orientais, como uma combinação cultural de etnicidade e sexualidade, tornaram-se objeto de fascínio para os ocidentais. Suaves, gentis e obedientes, eram consideradas a melhor escolha para mostrar a elegância e força de um homem branco. O iniciador da imagem da mulher oriental foi John Luther Long, um escritor americano do final do século XIX, que escreveu um conto sobre uma mulher japonesa abandonada por marinheiros americanos. É a versão inicial da ópera Madame
Butterfly. Long nunca foi ao Japão, o material original baseia-se numa história que a
sua irmã e cunhado ouviram quando estavam no Japão: uma gueixa japonesa deu à luz um filho de um empresário britânico, o empresário decidiu levar o filho, a gueixa tentou suicidar-se, mas foi resgatada.
O dramaturgo americano David Belasco usou este material para criar o drama romântico Madame Butterfly (1900). O compositor italiano Giacomo Puccini foi profundamente tocado pelo drama, pelo que o adaptou a uma ópera que estreou em Milão em 1904. Durante muito tempo, a ópera Madame Butterfly foi considerada por muitos estudiosos como um texto modelo para explicar o orientalismo.
A história aconteceu em Nagasaki, no Japão, no final do século XIX. Pinkerton, um oficial americano estacionado no Japão, encontrou uma jovem e bonita gueixa de 15 anos, Cio-Cio-San, eles apaixonaram-se e casaram-se. Para provar a sinceridade dos seus sentimentos, Cio-Cio-San converteu-se à religião do marido e quebrou os laços com os amigos e a família. No entanto, os bons tempos não duraram muito. Pinkerton foi chamado de volta ao seu país, prometendo que voltaria “quando os pintarroxos fizerem os seus ninhos”. Passaram-se três anos, Pinkerton não voltou e casou-se “de verdade com uma esposa americana”. Sharpless, cônsul dos Estados Unidos, levou uma carta de Pinkerton que exigia a dissolução do casamento com Cio-Cio-San. Sharpless e a serva pediram-lhe que aceitasse a proposta de Yamadori, um homem rico perdidamente apaixonado por ela, mas ela recusou, revelando o filho com Pinkerton. Finalmente, a esposa americana apareceu, pedindo-lhe que entregasse o seu filho. Cio-Cio-San percebeu completamente que o marido a tinha abandonado, e terminou a sua vida com um punhal.
Figura 16 - Cartaz da ópera Madame Butterfly66
Madame Butterfly produziu um efeito sensacional, não só porque conta uma
bela história de amor, mas também porque moldou uma imagem idealizada da mulher oriental nas mentes dos ocidentais. A beleza, a timidez, a paixão e a lealdade de Cio- Cio-San satisfizeram as expectativas estéticas do público ocidental relativamente aos orientais. Depois da estreia, a ópera de Puccini tornou-se mundialmente famosa, “Madame Butterfly” converteu-se num protótipo cultural da imagem da mulher oriental e o seu modelo tem sido continuamente replicado e adaptado. Miss Saigon, um musical da década de 1970, passado em Saigão durante a Guerra do Vietname, também usou essa trama: uma terna mulher oriental apaixona-se por um homem ocidental implacável, oferece-lhe tudo sem arrependimentos, incluindo a vida e a dignidade.
Não há dúvida de que o sucesso de Madame Butterfly e as suas obras irmãs é inseparável do conceito de "Orientalismo". Madame Butterfly coincide com a imaginação ocidental do mundo oriental, faz com que o público se sinta estimulado e
extasiado, ao sublimar o amor desolador das mulheres orientais com o suicídio (Liu, 1997, p. 116). "Butterfly" quase igualou a mulher oriental no vocabulário dos ocidentais e tornou-se um estereótipo cultural, ajudando os ocidentais a formalizarem a etnia e o sexo do Oriente: os homens foram usados para descreverem e as mulheres para representarem o Oriente.
Visando os estereótipos culturais sobre o Oriente, o dramaturgo Huang Zhelun (David Henry Hwang) criou uma obra dramática dedicada a derrubar o Orientalismo. Em 1986, ele foi inspirado por um caso de espionagem estranha, criou o drama M.
Butterfly, encenado na Broadway em 1988 e ganhou um Tony Award. Desconstruindo
o estereótipo trazido por Madame Butterfly e invertendo o papel suicida na ópera, o público tem uma nova compreensão sobre o Orientalismo. A ópera conta uma história de amor entre um diplomata francês, René Gallimard, e uma atriz da Ó pera de Pequim, Song Liling. Na verdade, a heroína é um espião e um homem. No final, René trai o seu país e é julgado por traição, depois de descobrir que o seu amor é realmente um homem, ele veste-se como Madame Butterfly e suicida-se em frente de todos.
Figura 17 - Detalhe do enredo de M. Butterfly67
Através das memórias de René, os preconceitos, as fantasias e os desejos dos homens ocidentais relativamente às mulheres orientais são exibidos vividamente
diante do público. Na imaginação de René, a China é um país antigo, decadente e pobre, e a arte é o seu único orgulho. Sob a influência da ópera Madame Butterfly, ele acredita que as mulheres chinesas têm medo, mas admiram os homens ocidentais. Quando ele vê Song Liling pela primeira vez, um ator com a feminilidade oriental retratada na ópera Madame Butterfly, René acredita firmemente que é uma "mulher oriental” à espera de ser conquistada, e posiciona o seu relacionamento num estado de poder e fraqueza.
Obviamente, o diplomata não está apaixonado por uma pessoa, mas por uma imagem fantasiosa da perfeita mulher oriental. Através do monólogo de René, sabemos que ele não é bonito nem talentoso. Embora esteja casado há muitos anos, ele não tem filhos, e também não tem muito sucesso na sua carreira, está sempre perto de ser demitido. Ele foge para a fantasia do Oriente, espera conseguir uma mulher perfeita que lhe é absolutamente obediente. Por causa da relação mestre- escravo entre Oriente e Ocidente, uma mulher oriental absolutamente obediente permite reforçar a sua superioridade étnica e de género e reconquistar a autoconfiança. Isso também confirma o ponto de vista de Said: “...a essência do orientalismo é a distinção inalienável entre a superioridade ocidental e a inferioridade oriental” (Said, 2004, p. 48).
O processo de reprodução do drama pode, intencionalmente ou não, impor o valor cultural de um grupo étnico aos membros de outro grupo étnico: ao mesmo tempo que diz mostrar as suas características diferentes, representa-os como uma caricatura; ao mesmo tempo que diz querer mostrar o seu valor, mata a sua existência (Roach & Reinelt, 1992. p. 14). Madame Butterfly é um exemplo e o surgimento de M.
Butterfly é, na verdade, uma tentativa de quebrar os estereótipos de longo prazo
sobre as mulheres orientais.