Após os mapas, começa a segunda parte, o filme muda a abordagem e passa a descrever como era feito o trabalho e quem eram os trabalhadores das minas. Contrastando com a primeira parte, o mundo agora é subterrâneo e seus habitantes são homens que trabalham duro para cavar a terra e retirar o carvão e seu sustento. Somente neste momento é que vemos presença humana. É também neste momento que entramos, com esses trabalhadores, na coalface, ou no interior da mina propriamente dita.
A seqüência começa com trabalhadores marchando em fila indiana num túnel escuro (fotograma 19). Não há como distingui-los pois seus rostos estão cobertos pelas sombras. O ambiente é muito escuro. A sua marcha é marcada pelos tambores da música de Britten. Eles vão em direção ao carvão, fundo na terra. Mais elaborado, este bloco é composto por inúmeros planos, movimentos de câmera e contém uma carga de informações muito maior. Também é a seqüência de maior duração do filme: seis minutos.
Após esta marcha, dois trabalhadores se destacam (fotogramas 20, 21, 22, 25, 26). São mostrados claramente seus rostos, seus corpos muito brancos, em contraste com as paredes negras da coalface, e seus instrumentos de trabalho como picaretas e pás. Há pouca iluminação, fornecida por lamparinas a gás ou elétricas, mostradas em close up. O objetivo neste momento do filme é descrever o trabalho. O locutor anuncia a primeira referência temporal:
O trabalho consiste em escavar as paredes, quebrar os blocos com as picaretas e colocá-los em pequenos vagões que podiam ser puxados até a superfície por animais, por pessoas ou pela força do pit head (fotogramas 30, 32). Para agilizá-lo, é utilizada maquinaria pesada que quebra as rochas e escava com mais rapidez (fotograma 31). Podemos ver os dois trabalhadores em sua rotina diária. Não há conforto. Também não há muito tempo para descanso.
Os dois mineradores em destaque acabam tendo uma função no filme. Da mesma forma que uma mina acaba representando todas as minas, esses dois trabalhadores representam os mineradores de uma maneira geral, como figuras simbólicas. As imagens e a locução vão apresentando um retrato do minerador que se torna o figura principal do documentário. O locutor vai acrescentando informações às imagens que são mostradas. Uma chama a atenção:
“every year in Great Britain one in every five miners is injuried”
Não há uma simulação ou visão de um acidente de trabalho. O dado é acrescentado à imagem de uma trabalhador lidando com um pesado equipamento. Não há, aparentemente, nenhum sistema de segurança. Ele não usa luvas ou qualquer instrumento de proteção. Pelo contrário, está sem camisa pois, de acordo com o próprio locutor: “temperature often reaches 80 degrees”, ou seja, é quente dentro da mina (fotogramas 21, 25, 26, 30). O dado é, aparentemente, mais um elemento entre as inúmeras informações estatísticas apresentadas.
Às 13h30 eles param para almoçar (nova referência temporal). Sentam-se em qualquer lugar e desembrulham um sanduíche frio que estava enrolado em papel jornal e tomam água (pode ser chá frio – o mais comum) de garrafas de vidro (fotogramas 27 e 28). Há um curto diálogo entre eles, falam sobre o calor dentro da mina naquele dia, que reproduz uma conversa cotidiana, de dois colegas, que poderia acontecer na realidade. Essas, provavelmente, são as cenas que Cavalcanti dirigiu em estúdio visto que há uma representação do real neste instante, inclusive com o trabalho dos atores. Não há indícios de quem eles eram nos créditos.
É pontual este momento. Há inclusive uma parada no seu ritmo. Ele se torna mais lento, não há narração. Há sim uma ênfase no gesto de comer o sanduíche, de abrir a garrafa e
beber o líquido. O som ouvido é o de uma música assobiada. Um relógio marca o retorno ao trabalho (terceira referência temporal importante, agora visual, fotograma 29). E com o relógio marcando o horário de término do almoço, o ritmo de trabalho volta a ser frenético e com ele todo o ritmo do filme, na montagem das cenas e na música.
Em Coal Face, esta cena confere identidade aos homens que trabalham nas minas. Pode ser vista como um jogo de oposições no filme: se antes era possível distinguir sombras na parede, de repente, essas sombras ganham rosto, expressão, movimento. Da mesma forma que o carvão, que demora a surgir, sendo individualizado somente no final da primeira parte. Com as pessoas, não deixa de ser diferente: primeiro as sombras, depois os rostos em close
up. Cavalcanti constrói um filme com cuidado, utilizando efeitos e repetições que lhe
conferem uma identidade.
Até o final, outras profissões são representadas por outros trabalhadores. Na sua maioria são trabalhadores de diversas indústrias, primeiramente, nas minas de carvão e, na seqüência, nos trens, nas fábricas, nos navios, nas usinas de eletricidade. Contudo, não há mais personagens ou diálogos.
“We believe that original (or native) actor, and the original (or native) scene, are better guides to a screen interpretation of the modern world. They give cinema a greater fund of material. They give it power over a million and one images. They give it power of interpretation over more complex and astonishing happenings in the real world than the studio mind can conjure up or the studio mechanician recreate.”104
Este é o segundo princípio do documentário descrito por Grierson. Foi uma prática do GPO Film Unit a utilização de não-atores na produção dos documentários e de outros documentaristas, a começar com Robert Flaherty, por exemplo. Seus filmes usavam este recurso: Nanook, Moana e Man of Aran utilizaram atores não-profissionais. Na verdade, eram pessoas do próprio lugar retratado que representavam situações de seu cotidiano. Essa tendência continuou no Movimento Documentário Britânico. Em outros filmes, como Night Mail, Pett and Pott e North Sea, Cavalcanti também utilizou moradores, trabalhadores ou pessoas ligadas aos temas abordados. Em Night Mail, por exemplo, nos créditos iniciais, os
atores foram creditados como “workers of the travelling Post Office” e “workers of the