• Aucun résultat trouvé

Immunomarquage du parenchyme pulmonaire :

Dans le document en fr (Page 84-90)

Na Igreja Cristã Primitiva vai se desenvolvendo um novo entendimento do que é ser testemunha a partir de sua raiz no grego. Isso acontece em meio às perseguições aos cristãos que ocorreram nesse período, porém, os entendimentos anteriores não são abandonados. Assim, pode-se perceber que o sentido de propagar a verdade do Evangelho permanece ainda presente no entendimento do termo5.

Cantalamessa argumenta que, estudando a história das origens do cristianismo, veem-se dois instrumentos que a Igreja Nascente utilizou para divulgar a sua fé pelo o mundo pagão: o primeiro foi o anúncio da Palavra, o querigma, e o segundo, o testemunho de vida dos cristãos, a martyria, que maravilhava e convertia os pagãos com a vivência do amor fraterno e a pureza de costumes6.

5 Cf. STRATHMANN, Hermann.  In KITTEL, Gerhard. GLNT. V. 6. Edizione Italiana Integrale.

Brescia (Italia): Paideia, 1970. p. 1361.

Assim, do sentido que o testemunho acontece pela ação missionária da Igreja nascente, passa-se ao entendimento de que o testemunho se dá plenamente quando há uma ameaça de morte. Ao mesmo tempo, começa-se a entender que o “testemunho” é reservado a alguém que sela com a sua morte a seriedade de seu testemunho ou de sua profissão de fé, tornando esse entendimento algo próprio desse vocábulo7.

A partir do século II d.C., a linguagem cristã começa a designar como “testemunha”, [ (martys)], o crente que sofre e morre por causa de sua fé. A testemunha, então, será chamada de “confessor” (cf. Eusébio, História Eclesiástica V, 2,3-4) 8.

Confessor, segundo Noce, é aquele que realiza o ato do testemunho e também uma profissão de fé pública diante das autoridades civis ou do povo em geral que lhe tem sentimentos hostis. A confissão diante das autoridades feita sob diversas formas de tortura ou até de penas extremas como exílio e confiscação dos bens, mesmo sem a morte, não diminui

o valor do sacrifício do cristão e da sua disposição a dar a vida. Por isso, a Igreja sempre reconhecia os confessores como um exemplo de vida cristã e os admirava, dedicando-lhes honra e distinção9.

Rordorf alega que a única explicação que se pode ter para a mudança da terminologia é admitir que o espetáculo do martírio devia ser visto como um “testemunho” dado pelos cristãos e os sofrimentos e a morte do mártir seriam uma manifestação da força da ressurreição, porque nos mártires Cristo sofre e vence a morte10.

Os estudiosos discutem se  (martyrein) em 1Clemente 5,4-7 deve ser entendido como martírio, por exemplo na passagem “lutar até a morte” (5,2), que vem antes de ser citado Pedro, que “suportou não uma, nem duas, mas numerosas angústias e, com isso,

7 Cf. STRATHMANN, Hermann.  In KITTEL, Gerhard. GLNT. V. 6. Edizione Italiana Integrale.

Brescia (Italia): Paideia, 1970. p. 1362.

8 Cf. RORDORF, Willy. et all. Martírio. In BERARDINO, Angelo Di (Organizador). DPAC. Tradução de

Cristina Andrade. Petrópolis: Vozes, 2002. p. 895.

9 Cf. NOCE, Celestino. Il Martirio: Testemunianza e Spiritualità nei Primi Secoli. Roma: Edizioni Studium,

1987 (La Spiritualità Cristiana, Storia e Testi 1). pp. 22-23.

seu testemunho alcançou um lugar a ele devido na glória” (5,4). E de Paulo se diz que “depois de haver ensinado a todo mundo a justiça e ter se aventurado até os extremos do ocidente e haver dado um testemunho diante dos governantes, parte então do mundo” (5,7)11.

Nesse primeiro momento não se fala da pregação de Pedro, mas somente da sua paixão e do fato de ter suportado a morte dos mártires. Quanto a Paulo, fala-se de sua pregação, apesar de essa pregação ser de alguém que morre pela missão12.

O uso desse vocábulo, a princípio, é oscilante em um escrito da comunidade cristã de Roma em que o Pastor de Ermas, proveniente do mesmo ambiente romano, ignora o uso de (martys) e seus derivados. Conhece, porém, o martírio e é muito interessado na

questão que se refere ao seu lugar na Igreja e ao prêmio que será recebido no céu (cf. Visões 3,1,9; 2,1; 5,2). No texto há uma expressão que se repete: “com eles que sofreram por causa do Nome”13.

Pode-se perceber que esse vocábulo não aparece nos textos de Inácio de Antioquia, mas traz o sentido do martírio, um sentido de imitador e portador de Cristo.

Assim, o martírio é um sinal do autêntico discípulo de Cristo. Em Justino também se percebe a falta do vocábulo14.

O primeiro texto no qual aparecem os quatro vocábulos fundamentais [ (martys),  (martyrein),  (martyria) e  (martyrion)] já como designação de martírio, como foram entendidos na Igreja Cristã Primitiva, aparece

logo depois da morte de Policarpo na comunidade de Esmirna. “Policarpo, que foi o décimo segundo a subir ao martírio em Esmirna com aquele de Filadélfia... não somente foi um mestre notável, mas também um mártir excelso, cujo martírio todos aspiram imitar, acontecido na semelhança daquele de Cristo no Evangelho” (cf. Martírio de Policarpo 19,1) e

11 Cf. STRATHMANN, Hermann.  In KITTEL, Gerhard. GLNT. V. 6. Edizione Italiana Integrale.

Brescia (Italia): Paideia, 1970. p. 1363. Com tradução livre das citações a partir dos textos em italiano.

12 Cf. STRATHMANN, Hermann.  p. 1363. 13 Cf. STRATHMANN, Hermann.  p. 1363. 14 Cf. STRATHMANN, Hermann.  p. 1364.

“também antes do martírio era feito sinal de toda glória” (cf. Martírio de Policarpo 13,2). Há numerosas passagens em que aparecem os termos já com este sentido de morrer por causa da fé em Jesus Cristo15.

Na comunidade de Esmirna e também na Igreja da Ásia Menor até a metade do século II d.C. já era estabelecido o uso desses vocábulos como martírio. Na Ásia Menor, isto é, na pátria do Apocalipse, segundo Strathmann, aparecem nos escritos os primeiros sinais deste entendimento e, partindo dali, esse conceito foi se difundindo pela Igreja Primitiva16.

Unido a esse entendimento, há outro uso linguístico que aplica o conceito de “testemunha” a uma pessoa que professou a sua fé comprometendo a sua vida, mas sem ter que enfrentar a morte. Assim, Hegésipo chama de  (martyres) os descendentes de Judas, irmão de Jesus, que foram levados diante do tribunal de Domiciano, mas foram absolvidos e posteriormente assumiram funções de coordenação na Igreja palestinense17.

Também Hipólito utiliza esse termo para os cristãos que, condenados a trabalhos forçados nas minas de Sardegna, mais tarde foram libertados e para certo Alessandro, que também foi qualificado com esse termo e foi honrado como tal pelos que o conheciam18.

Porém, percebe-se que o uso de “testemunha” com esse entendimento é esporádico, ou seja, as narrações ainda utilizarão mais o entendimento de que a testemunha é aquele que dá a vida por sua fé. Assim, pode-se ler nos Atos de Justino que os santos mártires completaram o seu testemunho – morreram – professando a fé em Nosso Salvador. Dionísio de Corinto escreve que Pedro e Paulo, depois de haverem ensinado na Itália, deram o seu testemunho – subiram ao martírio – da mesma maneira, isto é, morrendo. Também em 1Clemente se entende esse termo como indicação de martírio. E Hegésipo utiliza-o para falar da morte de Tiago, irmão de Jesus, que foi jogado do pináculo do Templo e depois apedrejado. Assim, ele

15 Cf. STRATHMANN, Hermann.  In KITTEL, Gerhard. GLNT. V. 6. Edizione Italiana Integrale.

Brescia (Italia): Paideia, 1970. p. 1364.

16 Cf. STRATHMANN, Hermann.  p. 1365. 17 Cf. STRATHMANN, Hermann.  p. 1365. 18 Cf. STRATHMANN, Hermann.  p. 1366.

sofreu o martírio, foi sepultado e ainda permanece no local onde está seu túmulo, no Templo, tendo-se tornado uma testemunha fiel, para judeus e gregos, de que Jesus é o Cristo19.

Hegésipo utiliza o termo  (martyrein) de modo particular dizendo: “nós te rendemos nosso testemunho e conosco todo o povo que é justo”. E  (martyria) como

simplesmente uma atestação verbal da fé que é plenamente realizada ao dar a vida. Nesses dois casos, entendem-se estes termos como uma espécie de ato jurídico, apontando o que é o testemunho20.

Algo significativo sobre o uso do termo “testemunha” é encontrado no relato dos mártires da Gália meridional no tempo de Marco Aurélio, porque ali pela primeira vez se faz a distinção entre confessores e mártires. O termo “testemunha” (mártir) é reservado a Cristo e àqueles que professaram a sua fé e deram seu testemunho por meio de sua morte. Os cristãos dessa região suportaram muitas vezes provações e tormentos e deram seu testemunho unido aos seus companheiros de fé21.

O termo também é encontrado ainda no sentido primeiro, isto é, referindo-se àqueles que dão “testemunho da verdade”, aos os que são missionários22.

Orígenes chamará de mártires aqueles que derramaram seu sangue e renderam seu testemunho ao mistério da piedade. Para Clemente de Alexandria são mártires aqueles que apresentam uma confissão de fé23.

O testemunho dos mártires foi acolhido sob dois aspectos por aqueles que assistiam a sua morte: com indiferença ou desprezo, ou com uma admiração que poderia até levar à conversão24.

Essa atitude de desprezo ao martírio pode ser vista em relatos como o de Tácito que

19 Cf. STRATHMANN, Hermann.  In KITTEL, Gerhard. GLNT. V. 6. Edizione Italiana Integrale.

Brescia (Italia): Paideia, 1970. p. 1366.

20 Cf. STRATHMANN, Hermann.  p. 1367. 21 Cf. STRATHMANN, Hermann.  p. 1368. 22 Cf. STRATHMANN, Hermann.  p. 1368. 23 Cf. STRATHMANN, Hermann.  p. 1369.

24 Cf. RORDORF, Willy. et all. Martírio. In BERARDINO, Angelo Di (Organizador). DPAC. Tradução de

diz que os cristãos estão “cheios de ódio contra o gênero humano”. Plínio, o jovem, vê neles “teimosia e invencível obstinação”. E Marco Aurélio diz que eles afrontam a morte de forma vulgar. Essas reações, segundo Rordorf, poderiam ser causadas pelas próprias atitudes dos cristãos que, em algumas narrativas, aparecem dirigindo palavras ofensivas aos seus perseguidores, contrastando com as palavras de Jesus na Cruz. Além disso, alguns cristãos manifestavam um desejo excessivo da morte para manifestar a grandeza de sua fé e alcançar as recompensas celestes25.

Todavia a segurança dos mártires também suscitava o interesse e a admiração de pagãos, como observa Tertuliano: “Quem, com efeito, diante do espetáculo dado pelos mártires, não é incitado a perguntar o que há por trás disso? E quem uma vez que procurou, não aderiu, e uma vez aderido, não desejou sofrer?” (cf. Apologia 50,15). Justino confessa ter

se convertido ao ver a coragem dos mártires: “Vendo-os intrépidos diante da morte... eu pensei ser impossível que eles vivessem no vício e no amor dos prazeres” (cf. 2Apologia 12). Além desses, numerosos são os testemunhos de espectadores que

aderiram à fé por meio dos martírios assistidos como espectadores e soldados. Hipólito

escreve que: “Todos, à vista desses prodígios, enchem-se de assombro... e grande

número, atraídos pela fé dos mártires tornam-se, também eles, mártires de Deus” (cf. Comentários sobre o profeta Daniel 2,38)26.

Pode-se ressaltar também que o termo  (martyrion) vai adquirindo, com o passar do tempo, o entendimento de uma indicação do lugar em que ocorreu um martírio ou onde foram colocadas as suas relíquias, aparecendo expressão como: “em frente ao altar do mártir”27.

Esse novo significado de “mártir” vai entrando em uso rapidamente na vida eclesial.

25 Cf. RORDORF, Willy. et all. Martírio. In BERARDINO, Angelo Di (Organizador). DPAC. Tradução de

Cristina Andrade. Petrópolis: Vozes, 2002. p. 895.

26 Cf. RORDORF, Willy. et all. Martírio. p. 896.

27 Cf. STRATHMANN, Hermann.  In KITTEL, Gerhard. GLNT. V. 6. Edizione Italiana Integrale.

Além disso, há uma compreensão de que o mártir não luta com “a carne e o sangue”, mas aqueles que realizam os suplícios são instrumentos do demônio e o cristão se empenha na luta contra esse grande adversário. Tal luta é apresentada sob a forma de uma visão na narração do martírio de Perpétua e Felicidade28.

Nessa batalha os cristãos são imitadores de Cristo e, ao mesmo tempo, continuadores

de Sua Paixão. Nesse combate os cristãos não estão sozinhos, pois Cristo combate com eles e permanece ao seu lado. Os cristãos experimentam a Sua ajuda e a do Espírito, que lhes dá capacidade de suportar os mais horríveis suplícios sem lamentar-se e com um sorriso nos lábios29.

Não é rara, nos relatos, a visão da “glória do Senhor” e também os cristãos são preparados, encorajados e confortados por visões e vozes celestes. Pelos sofrimentos alcançam uma condição celeste como afirma a narração do martírio de Policarpo: “não mais homens, mas já anjos”. É como se seus corpos já fossem inundados por um odor divino e alcançando a perfeição pelo martírio, entrassem já na glória celeste30.

Os mártires, por serem portadores do Espírito, produzem milagres com aquilo que se relaciona a sua pessoa – corpos, objetos. Além disso, sua morte tem um valor

propiciatório que apaga os seus pecados, mas também toda a comunidade dos fiéis se

beneficia de seus frutos. Os mártires, devido à sua entrega, já estão “junto do Senhor” e a Ele intercedem pelos vivos31.

Esses são os termos que são utilizados nas antigas “Atas dos Mártires” em narrações como as do martírio de Policarpo, de Justino, de Perpétua e dos mártires da Gália meridional. Essas narrações são cheias de belas evidências, presentes em quase todos os documentos.

28 Cf. STRATHMANN, Hermann.  In KITTEL, Gerhard. GLNT. V. 6. Edizione Italiana Integrale.

Brescia (Italia): Paideia, 1970. p. 1370.

29 Cf. STRATHMANN, Hermann.  p. 1370. 30 Cf. STRATHMANN, Hermann.  p. 1370.

31 Cf. RORDORF, Willy. et all. Martírio. In BERARDINO, Angelo Di (Organizador). DPAC. Tradução de

Na linha fundamental que é adotada, encontram-se temas como a luta contra Satanás e a sequência sobre Cristo e a continuação de Sua Paixão, na qual os mártires são sustentados e dotados de forças e alegria32.

Nessas Atas, o martírio é entendido como testemunho fiel de Cristo, dado em meio aos sofrimentos e pela entrega total de si mesmo até a morte. Sua memória reaviva a natureza testemunhal da Igreja33.

Os mártires dão testemunho da verdade, confessando sua fé diante das autoridades humanas. Essa confissão pode ser sintetizada pela fórmula: “sou cristão”, que significa, ao mesmo tempo, dizer: “sou de Cristo”34, assumindo, com isso, todas as implicações inerentes ao nome de cristão.

Segundo as Atas, o martírio acontece dentro do contexto de perseguição à Igreja, mediante um processo legal em cujo conteúdo se encontra a denúncia, a prisão, o julgamento, a condenação, a tortura e a execução. Isso acontece porque, ao declarar-se cristã, a pessoa assume algo que era incompatível com contexto social, religioso e político da época35.

Dentro desse contexto, Adriano apresenta alguns elementos teológicos que dão sentido ao testemunho: a configuração a Cristo, entendida como união e participação verdadeira e própria no Mistério de Cristo que foi rejeitado e morto, mas que está ressuscitado e glorificado; a máxima da perfeição, que consiste na prova da caridade e do amor perfeito, manifestado na entrega da própria vida; e a participação dos sofrimentos de Cristo, que faz do mártir participante e cooperador especial no Projeto Salvífico de Jesus36.

Continuando esse tema, o testemunho traz um aspecto moral que é converter o mal em bem. Ele convoca ao ato bom, à verdade da vida de Deus e da Igreja, e acaba se tornando o

32 Cf. STRATHMANN, Hermann.  In KITTEL, Gerhard. GLNT. V. 6. Edizione Italiana Integrale.

Brescia (Italia): Paideia, 1970. p. 1371.

33 Cf. ADRIANO, José. O Testemunho nas Atas dos Mártires. In RCT, São Paulo, Ano I, n. 03, pp. 29-44,

abr./jun. 1993. p. 29.

34 Cf. ADRIANO, José. O Testemunho nas Atas dos Mártires. p. 31. 35 Cf. ADRIANO, José. O Testemunho nas Atas dos Mártires. pp. 33-34. 36 Cf. ADRIANO, José. O Testemunho nas Atas dos Mártires. pp. 34-36.

grande argumento em favor do cristianismo: a vida do cristão e a sua capacidade de doá-la quando a isso for chamado. O mártir inaugura uma nova moral, abraçando a castidade, partilhando seus bens e rezando pelos seus inimigos. Ao mesmo tempo, o ato do martírio é um testemunho da própria consciência que obedece a Deus e desobedece ao poder constituído em favor dos atos de justiça que são inerentes à sua fé37.

O martírio, ainda na argumentação de Adriano sobre as Atas dos Mártires, tem uma

dimensão eclesiológica, sendo apresentado como elemento constitutivo primeiro da Igreja. O mártir interpela a Igreja e reaviva sua própria existência, confirmando-a na fé. A Igreja é

dependente do testemunho. Isso implica em alguns aspectos importantes nesse contexto eclesial: o aspecto vocacional, porque o martírio é escolha livre de Deus e uma resposta do homem ao chamado divino – todos são chamados ao testemunho, mas a alguns cabe o privilégio do martírio –; o aspecto sacramental, pois o martírio realiza o Mistério de Cristo, sua presença e ação no mundo através de um caráter pedagógico que mostra uma realidade superior e ensina a alcançá-la; e o aspecto do Novo Batismo, pelo qual o “batismo de sangue” deixa o cristão mais puro do que o batismo da água e, ao mesmo tempo, o sangue dos mártires purifica não só a si, mas também à cidade manchada pelo sangue oferecido aos ídolos38.

As Atas narram não somente o processo, o julgamento e a execução dos mártires, mas também sua coragem e sua fé expressadas nos diálogos e nas orações. Há, então, uma verdadeira espiritualidade martirial fundada na imitação de Cristo e na Sagrada Escritura. Essa espiritualidade encerra uma dimensão escatológica e pneumatológica, na qual o Espírito os guia a uma perfeita conformação com Cristo. Isso não é somente vivenciado em alguns momentos especiais, mas no cotidiano do cristão por uma oferta livre e amorosa da própria vida, e que é a grande preparação para a “hora” do cumprimento de sua vocação39.

37 Cf. ADRIANO, José. O Testemunho nas Atas dos Mártires. In RCT, São Paulo, Ano I, n. 03, pp. 29-44,

abr./jun. 1993. pp. 36-37.

38 Cf. ADRIANO, José. O Testemunho nas Atas dos Mártires. pp. 37-39. 39 Cf. ADRIANO, José. O Testemunho nas Atas dos Mártires. pp. 41-42.

Cristo dá eficácia ao sangue dos mártires como um sinal de seu amor pelos homens, eficácia que acontece quando o cristão entende os seus sofrimentos como uma participação nos sofrimentos de Cristo40. Por isso, desde muito cedo o culto aos mártires e às suas relíquias constitui um aspecto importante na vida da Igreja41.

O mártir transmite uma mensagem de fé aos seus irmãos, e seu ato tem uma incidência direta sobre a comunidade cristã de que participa. Seus sofrimentos geram um grande bem à Igreja e sua perseverança um efeito positivo sobre os seus irmãos, confirmando-os no desejo de seguir Jesus e testemunhá-Lo com a vida em todas as circunstâncias. Ele é membro de uma comunidade de irmãos como um representante diante de Deus e dos seus inimigos, e com seu exemplo, suas orações e seu sacrifício contribuirá para confirmar a sua comunidade na fé42. Assim, a Comunidade Cristã Primitiva se desenvolveu e se tornou ela própria testemunhal. O homem típico do Antigo Testamento que era capaz de sofrer pela lei, como foi apresentado anteriormente, agora é o cristão, capaz de dar a vida pela Pessoa de Jesus43.

Todos esses elementos característicos remontam a elementos do Novo Testamento. A bem-aventurança do discípulo que é perseguido pela causa de Cristo (cf. Mt 5,11ss), a promessa de que o Espírito lhes dará assistência quando forem diante dos tribunais (cf. Mt 10,17ss), a promessa de encontrar a vida, feita àqueles que a doam (cf. Mt 16,24ss),

terminando com o discurso escatológico onde a tradição evangélica oferece uma grande quantidade de termos similares44.

Outra afirmação que dá uma contextualização perfeita para esse novo entendimento de martírio é a de At 5,41: “saíram do recinto do Sinédrio regozijando-se por terem sido achados dignos de sofrer afrontas pelo Nome”. Também nas narrações sobre Estêvão, nas de Paulo e

40 Cf. ADRIANO, José. O Testemunho nas Atas dos Mártires. In RCT, São Paulo, Ano I, n. 03, pp. 29-44,

abr./jun. 1993. p. 43.

41 Cf. ADRIANO, José. O Testemunho nas Atas dos Mártires. p. 40.

42 Cf. NOCE, Celestino. Il Martirio: Testemunianza e Spiritualità nei Primi Secoli. Roma: Edizioni Studium,

1987 (La Spiritualità Cristiana, Storia e Testi 1). pp. 98-99.

43 Cf. ADRIANO, José. O Testemunho nas Atas dos Mártires. pp. 30-31.

44 Cf. STRATHMANN, Hermann.  In KITTEL, Gerhard. GLNT. V. 6. Edizione Italiana Integrale.

dos sofrimentos que enfrentou durante sua atividade missionária e a afirmação de que isso completa os sofrimentos de Cristo (cf. Cl 1,24). Esse pensamento aponta para toda a aceitação que Paulo tem de seus sofrimentos, porque entende que eles acontecem no serviço a Cristo45.

Em outras partes do Novo Testamento aparece esse tom glorioso do martírio como

em Rm 5,3 e 8,17. Na Carta de Pedro os perseguidos são convidados a se alegrar por poder “participar” dos sofrimentos de Cristo (cf. 1Pd 4,13). O autor do Apocalipse aponta para Cristo, o Cordeiro Imaculado, como primeiro e sumo mártir, a testemunha fiel por excelência46.

Esses elementos do Novo Testamento que não estavam ligados diretamente ao termo  (martys) porque esse entendimento da ação “do martírio” foi formado ao longo da vida

Dans le document en fr (Page 84-90)