Esta perícope traz uma grande riqueza de interpretações teológicas que se desenvolveram ao longo dos anos. Vários são os temas que poderiam ser trabalhados neste
44 Cf. BROWN, Raymond. El Evangelio según Juan. Madri: Ediciones Cristandad, 1999. p. 1157. 45 Cf. BROWN, Raymond. El Evangelio según Juan. p. 1315.
46 Cf. BROWN, Raymond. El Evangelio según Juan. p. 1315. 47 Cf. BROWN, Raymond. El Evangelio según Juan. p. 1317.
momento como: o dia de sábado e sua preparação; Jesus como o Cordeiro Pascal; a confirmação da morte de Jesus; o significado simbólico do sangue e da água que saíram do lado aberto de Jesus; o cumprimento da Escritura. Porém, o acento desta reflexão se faz a partir do versículo 35 de Jo 19, tema central deste estudo.
O texto apresenta o testemunho que foi dado por aquele “que viu” – o sujeito da ação – que se encontra aos pés da Cruz. É importante porque é reconhecido como um testemunho presencial daquilo que aconteceu com Jesus Cristo, retomando o sentido da testemunha no Antigo Testamento, ou seja, aquela que presenciou um fato e por isso pode atestá-lo a outros. Porque para que a afirmação daquele que testemunha seja considerada fiel, exige-se o “ver”, e isso é ressaltado na redação do autor do Evangelho de João e, posteriormente, confirmado pela Tradição48.
Segundo Adriano, o verbo “testemunhar” está próximo do verbo “ver”. Aquele que testemunha viu o objeto do seu testemunho não somente com os olhos, mas com uma visão interior, contemplativa, que vê os fatos históricos unidos à realidade salvífica que o transcende, onde a verdade é conhecida pela fé49.
Alguns manuscritos latinos omitem esse versículo, mas, segundo Brown, não se pode duvidar de sua autenticidade. Esse versículo é uma observação feita como parênteses no texto, provavelmente já como algo redacional, mas absolutamente Joanino50.
Essa passagem no versículo 35 coloca um peso extraordinário sobre o testemunho
do “que viu”: transmite o testemunho de um judeu e sabe que fala a verdade. A mesma coisa acontece em Jo 21,24 onde também se constata a autoridade do que é discípulo e por isso pode testemunhar. Cabe ressaltar que essa introdução de
comentários por parte do evangelista acontece outras vezes no Evangelho de João
48 Cf. SCHNACKENBURG, Rudolf. El Evangelio según San Juan: Versión y Comentario. Tomo Tercero.
Barcelona: Editorial Herder, 1980. pp. 357 e 363.
49 Cf. ADRIANO, José. Testemunho e Martírio nas Sagradas Escrituras. RCT, São Paulo, Ano II, n. 08,
pp. 19-40, jul./set. 1994. p. 35.
(cf. Jo 2,22; 6,64.71; 12,6.16.33; 18,9.32)51.
O próprio autor do Evangelho de João apresenta seu livro como um testemunho
verdadeiro acerca de Jesus, porque atesta não somente fatos ocorridos, mas também o valor Salvífico da morte de Jesus testemunhada por quem crê e para que os outros também creiam (cf. Jo 19,35; 21,24)52.
Cabe aqui pergunta: quem é esse “que viu” e que “testemunha”? Todo o Evangelho de João baseia-se em um testemunho originante, que pode ser múltiplo, mas se concentra em alguém que contempla o Mistério de Jesus e que foi arrebatado por ele. Esse arrebatamento, a testemunha o entende como uma evidência. O testemunho, pelo contexto, é dado pelo Discípulo Amado, que aparece no versículo 26, único personagem masculino próximo a Jesus e presente nestes acontecimentos: ele viu, encontrou a fé no transpassado e nasceu do alto. Essa testemunha diz a verdade, e essa verdade tem a função de fazer com que outros também creiam53. Ele é uma autêntica testemunha de Jesus Cristo e de seu testemunho depende o autor do Evangelho de João54.
Mesmo que a testemunha do Evangelho de João nunca pudesse ser plenamente identificada, a Tradição Joanina mantém o seu testemunho atribuindo-lhe um grande valor e sentido teológico. Uma vez que os cristãos que se sucederam não tiveram a experiência com o Jesus histórico, esse testemunho é apresentado como algo que merece credibilidade. Mesmo que esse testemunho não apareça nos outros três Evangelhos, a memória dessa pessoa foi guardada por todos aos quais o Evangelho de João foi escrito. Esse influente testemunho incentiva as comunidades a reforçar sua fé em Jesus por causa do que ele viu55.
O testemunho do Discípulo é um convite a crer. O evangelista testemunha
51 Cf. SCHNACKENBURG, Rudolf. The According to St John. V. 3. New York: The Cross Road Publishing
Company Inc., 1982. pp. 290 e 291.
52 Cf. ADRIANO, José. Testemunho e Martírio nas Sagradas Escrituras. RCT, São Paulo, Ano II, n. 08,
pp. 19-40, jul./set. 1994. p. 34.
53 Cf. SÁNCHES,Secundino Castro. Evangelio de Juan: Comprensión Exegético-Existencial. 3ª ed. Espanha:
Editorial Desclée de Brouwer, 2001. p. 462.
54 Cf. BROWN, Raymond. El Evangelio según Juan. Madri: Ediciones Cristandad, 1999, p. 1346.
solenemente, aos pés da cruz, para que outros creiam em Jesus. Assim, seu testemunho está ligado ao contexto da revelação no qual o testemunho de Deus à humanidade passa pelo testemunho humano como apelo à fé56.
A testemunha ocular não deve ser confundida simplesmente como fonte da informação histórica, pois nesse sentido também os judeus “não crentes” em Jesus eram testemunhas oculares, mas o crente deve contemplar a glória de Jesus em sua hora57. Ela conhece e revela os fatos numa perspectiva de fé, e isso a faz participar da glória de Jesus. Quem é incapaz disso não consegue apreender a plenitude de seu sentido, sendo necessário o desenvolvimento de uma visão sacramental dos fatos, o que só possível àquele que crê58. Segundo Bultman, ver
é o conhecer próprio da fé59. É a percepção da fé que reconhece na pessoa histórica de Jesus a “verdade” e a “vida”, proporcionadas por essa fé e não perceptíveis na contemplação direta60.
Em todo o caso, o interesse de João não é apologético, mas ele insiste que narra esses episódios para confirmar a fé dos que creem. A referência de seu testemunho não se dá somente no plano visível e material, mas também como conhecimento que se oferece do mundo espiritual. O testemunho presencial do Discípulo Amado fala de uma revelação importante para todos os cristãos que ele simboliza61.
O pronome “ele” se refere claramente ao vidente (o que viu), e isto pode ser considerado um modo arameu de expressar o seu testemunho, não dizendo simplesmente “eu sei que digo a verdade”, o que faz com que a força seja colocada na autoridade daquele que escreveu o Evangelho de João62.
56 Cf. ADRIANO, José. Testemunho e Martírio nas Sagradas Escrituras. RCT, São Paulo, Ano II, n. 08,
pp. 19-40, jul./set. 1994. p. 36.
57 Cf. BULTMANN, Rudolf. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Teológica, 2004. p. 507. 58 Cf. ADRIANO, José. Testemunho e Martírio nas Sagradas Escrituras. p. 33.
59 Cf. BULTMANN, Rudolf. Teologia do Novo Testamento. p. 507. 60 Cf. BULTMANN, Rudolf. Teologia do Novo Testamento. p. 507.
61 Cf. BROWN, Raymond. El Evangelio según Juan. Madri: Ediciones Cristandad, 1999, p. 1363.
62 Cf. LUZARRAGA, Jesús. El Evangelio de Juan: em las versiones Siríacas. Roma: Editrice Pontificio Istituto
O Discípulo Amado foi testemunha de dois eventos relevantes à morte de Jesus Cristo na cruz: de que suas pernas não foram quebradas; e de que um soldado transpassou o seu lado e dele saiu sangue e água63.
Primeiramente, pode-se perceber que em vez de quebrar as pernas de Jesus, um dos soldados enfiou uma lança em seu lado. Atualmente, poderiam ser empregadas as modernas
técnicas médicas para determinar o momento exato da morte, porém, naquele momento histórico, essa pode ter sido a forma mais simples de garantir que Jesus não tinha
mais a vida em si e, por isso, as autoridades poderiam permitir que seu corpo fosse preparado para o sepultamento64.
O soldado, sem dúvida, enfia a lança no peito de Jesus para ter a certeza de que ele está morto65. A realidade da morte de Jesus é confirmada pela lança que abre o seu lado, ao mesmo tempo, o seu poder Salvífico é exposto nos símbolos do sangue e da água, sendo estes a última revelação do Evangelho66.
O fato de o soldado ter aberto o peito de Jesus me coloca diante de uma evidência: Jesus teve um corpo. Trata-se de um fato importante porque é uma afirmação de que realmente o Verbo se fez carne (cf. Jo 1,14), como afirma o início do Evangelho de João, e que, por isso, ele também pode morrer. Assim, a morte de Jesus não é só uma representação de um Deus que assumiu a natureza humana, mas é a afirmação de que Deus se fez homem e verdadeiramente deu sua vida pela humanidade.
Alguns autores centram o testemunho do Discípulo aos pés da cruz no sangue e água que jorram do peito aberto de Jesus67. Ele é testemunha ocular desse fato, e o versículo 35 é
63Cf. COUNTRYMAN, L. William. L’itinerario Mistico del Quarto Vangelo: per Camminare Verso Dio.
Assisi: Cittadella Editrice, 1997. p. 203.
64Cf. BLOMBERG,Graig L. The Historical Realiability of John’s Gopspel. England: Inter-Varsity Press,
2001. p. 255.
65 Cf. SCHNACKENBURG, Rudolf. The According to St John. V. 3. New York: The Cross Road Publishing
Company Inc., 1982. p. 289.
66Cf. SENIOR, Donald. The Passion in the Gospel of John. United Kingdom: Grace Wing / Fowler Wright
Books Ltd, 1991 (The Passion Series, V. 4). p. 128.
realmente um atestado de que essas coisas aconteceram como foram descritas e não somente uma invenção teológica do autor.
Essa narração pode indicar alguns pontos de entendimento sobre a intenção do autor: primeiramente, a de que o lado aberto de Cristo atesta a sua morte; em seguida, a de que o fato de não ter-lhe sido quebrado osso algum vai ao encontro do pensamento judaico segundo o qual a desfiguração ou mutilação do corpo era um impedimento para a ressurreição; e a de que o sangue que brota de Cristo é sinal claro de sua humanidade, algo que muitas vezes foi contestado por grupos cristãos que desejavam somente afirmar a sua divindade68.
Tomando por referência os demais momentos em que o conceito de testemunha é apresentado no Evangelho de João, defendo que o testemunho agora apresentado pelo Discípulo aos pés da Cruz não se limita somente ao sangue e água que brotaram do lado aberto, mas que estes também dão testemunho, como comprova a Carta de João, do cumprimento da missão salvadora de Cristo Jesus.
A partir disso, entendo que o Discípulo atesta que na realidade Cristo, livremente, deu a sua vida pelos seus amigos e que nos amou até o fim (cf. Jo 13,1), não havendo maior amor que este (cf. Jo 15,13). No momento em que se verifica a morte de Jesus é que também se entende que a Hora de sua glorificação, anunciada no Evangelho, agora acontece. O Mistério da Salvação em Cristo é realizado e, na Cruz, o seu reinado é definitivamente inaugurado e não pode ser revogado.
O Evangelho de João induz a que se veja nesses fatos um significado simbólico. Jesus vem para entregar sua vida por amor. O lado aberto de Jesus demonstra a evidência que Jesus deixa seu corpo aos seus discípulos e desse corpo jorram sangue e água. Isso significa, na prática, que a morte de Jesus vai permitir que Ele finalmente dê aos homens os bens espirituais que Ele lhes destinou em seu Plano Salvífico69.
68 Cf. BROWN, Raymond. El Evangelio según Juan. Madri: Ediciones Cristandad, 1999. pp. 1362-1363. 69Cf. GUICHOU, Pierre. L’Evangile de Saint Jean: par la Foi a la Vie em Jésus. Paris: P. Lethielleux Éditeur,
Quando Jesus morre na Cruz, sua Obra alcança seu ponto mais alto. Mas o testemunho do que viu serve para mostrar aos crentes um sinal de sua eficácia salvífica. Para isso, assinala que a Obra de Jesus Cristo é fonte de salvação para todos os que creem. Esse testemunho, relatado apenas no Evangelho de João por aquele que viu, é de grande importância, em especial, por reforçar que isso que foi relatado é a verdade70.
Uma questão que pode surgir é: onde se apoia o testemunho que deve ser acreditado pelos cristãos? Basta o olhar daquele que contempla Jesus Crucificado? Ou é Deus que garante o testemunho de um homem?71
O Discípulo que está aos pés da cruz é certamente uma testemunha fiel de um acontecimento histórico e externo, sobre o qual se supõe uma significação de ordem salvífica,
teológica e de fé. Para isso, o autor apela para Jesus como uma testemunha da verdade que ele está dizendo. Nisso se reconhece que o verbo crer está sendo utilizado no sentido absoluto, sem complementos, centralizado na fé cristã na qual o objeto é a Pessoa e a Obra de Jesus Cristo72.
Outro ponto que se pode referir é que o testemunho do Discípulo é confirmado quando ele aponta para o cumprimento da Escritura. Jesus é, então, o Messias esperado por Israel no qual se cumprem as promessas do Antigo Testamento. E como a Escritura é Palavra de Deus, entendo que é o próprio Deus que agora testemunha em favor de Jesus e não somente a pessoa humana que contempla esse Mistério.
Por essas duas passagens da Escritura que foram cumpridas, pode-se entender o misterioso e enigmático caminho que é percorrido para que se cumpram os desígnios
Salvíficos de Deus. Essas palavras ressoaram por longo tempo e agora adquirem nova força e eficácia quando inseridas no contexto da cruz. As palavras dos
70 Cf. GARCIA-MORENO, Antonio. El Evangelio según San Juan: Introduccion y Exegesis. Badajoz-
-Pamplona: Navegraf S.L., 1996. pp. 418-419.
71 Cf. SCHNACKENBURG, Rudolf. The According to St John. V. 3. New York: The Cross Road Publishing
Company Inc., 1982. p. 291.
profetas se convertem em um testemunho messiânico e este, por sua vez, em fonte de renovada reflexão73.
Senior, referindo-se à segunda passagem da Escritura que foi cumprida, “olharão para quem transpassaram”, afirma que, na narrativa do profeta Zacarias, o povo olhará para o rei ou o profeta martirizado e chorará por ele74. Isso leva a entender que Jesus é a testemunha perfeita, aquele que dá a vida pela causa em que acreditou.
Ao contemplar o corpo de Jesus transpassado na cruz, a fé vê mais do que o evento externo e reconhece algo mais profundo do que as aparências75. Aquele que olha para o transpassado não é somente o Discípulo Amado, mas todos os representantes da comunidade cristã nascente, reunidos aos pés da cruz e representados pelas mulheres e pela Mãe de Jesus76, também todos aqueles que assistiram à morte de Jesus Cristo; porém não basta apenas ver para alcançar a salvação, é preciso também acreditar. Assim, ver e acreditar são os dois componentes que formam as testemunhas de Jesus Cristo e que vão ser confirmados no envio que o Ressuscitado fará aos seus discípulos posteriormente.
Neste momento, ressalto a figura de Maria que, com o Discípulo Amado se torna uma grande testemunha de Jesus Cristo, seu Filho; ela, que contemplou o Mistério de Jesus desde a sua encarnação, o acompanhou por toda a sua vida terrena e agora está diante do Filho transpassado. Contemplando a Hora de Jesus, Maria permanece fiel à sua missão de ser Mãe do Verbo de Deus, com docilidade e disposição, e acompanhará a Igreja nascente para que também outros creiam em Jesus, o Messias, que cumpriu a vontade do Pai em seu Plano Salvífico até o fim. Ela não somente é testemunha de seu Filho, mas também se torna modelo de testemunho para todos os que serão convidados a testemunhar até a atualidade.
73 Cf. SCHNACKENBURG, Rudolf. El Evangelio según San Juan: Versión y Comentario. Tomo Quarto.
Barcelona: Editorial Herder, 1980. p. 174.
74Cf. SENIOR, Donald. The Passion in the Gospel of John. United Kingdom: Grace Wing / Fowler Wright
Books Ltd, 1991 (The Passion Series, V. 4). p. 127.
75 Cf. SCHNACKENBURG, Rudolf. The According to St John. V. 3. New York: The Cross Road Publishing
Company Inc., 1982. p. 291.
Lendo o texto e as análises apresentadas, percebo algo que não foi mencionado por nenhum dos autores, ou seja, a duplicidade do testemunho que se repete durante o texto de João: são duas as pessoas que dão testemunho (o Soldado e o Que viu); são dois os elementos que dão testemunho (o Sangue e a Água); e, por fim, são duas as passagens da Escritura que dão testemunho (cf. Jo 19, 34-37).
O evangelista ressalta a importância de que um testemunho não é dado sozinho. É um resgate do entendimento de que o verdadeiro testemunho deve ser legitimado por, no mínimo, duas testemunhas, e isso alude ao testemunho que deve ser dado pelos cristãos não de maneira individual, mas comunitária ou eclesial.
A confirmação da morte de Jesus se dá pela ação do soldado que lhe abre o peito; ele é uma das testemunhas desse processo final de Jesus e, com ele, o Discípulo Amado faz o complemento necessário para que realmente outros possam crer que não houve encenação alguma de morte para que Jesus pudesse ser retirado da cruz, mas que Ele realmente morreu.
Em seguida, a água e o sangue dão testemunho de Jesus. Isso é confirmado claramente na Tradição Joanina quando se apresenta que na Primeira Carta de João, fica claro que são três os que dão testemunho: o Espírito e a Água e o Sangue (cf. 1Jo 5,8).
E a mesma Tradição afirma que, se cremos no testemunho dos homens, o testemunho de Deus é maior (cf. 1Jo 5,9). E, como já foi apresentado acima, a Escritura, a própria Palavra de Deus, encerra o testemunho sobre Jesus. Assim, realmente os fatos que ocorreram com Ele são dignos de fé e, ao mesmo tempo, podem ser acreditados por todos, como é a intenção daquele que “viu” e que “testemunha”.
REFERÊNCIAS DO CAPÍTULO III
1.FONTE PRINCIPAL
BÍBLIA: NOVUM TESTAMENTUM GRAECE. 27ª ed. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 2006.