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E. ANALYSE

1. Risquer sa jeunesse

1.1 Image du risque

L

er e escrever sobre Manuel Laranjeira é sem- pre um desafio e uma agradável redescober- ta, quer pela compreensão de actos, leituras e momentos datáveis num tempo, quer pela coin- cidência impressionante de, cem anos passados, permanecerem vivas e actualizadas as observa- ções e os sentidos, praticamente sem exigência ao uso de palavras novas1.

Manuel Laranjeira nasceu no lugar de Vergada, freguesia de Moselos, Concelho de Vila da Feira, em 17 de Agosto de 1877. O núcleo Familiar de Domingos Fernandes não foge à realidade vi- vencial da época, em que a situação de manifesta pobreza, acompanhada pelos estigmas sociais do analfabetismo, do alcoolismo e da tuberculose, deixam as suas sequelas, através do desapareci- mento do progenitor e de cinco dos seus filhos, orientando declaradamente os percursos e os sentimentos do futuro médico de Espinho numa confrontação permanente entre a vontade das suas motivações e a marca do seu passado. Manuel Laranjeira viveu, conscientemente, es- partilhado entre a incerteza de não conseguir optar pela felicidade da ignorância ou pela an- gustiante tristeza que o conhecimento lhe pro- porcionava. O tormento de se sentir «traidor» perante o destino familiar e, consequentemen- te, de si próprio, por ter sido o resultado da

1 O presente artigo corresponde a um reaver e uso de sínteses,

do autor, apresentadas em conferências e publicações sobre Ma-

nuel Laranjeira.

oportunidade que a fortuna, encontrada em ter- ras do Brasil por um dos seus irmãos, lhe propor- cionou, ao poder estudar e, consequentemente, abandonar uma vida medianamente ordenada em atitudes e comportamentos de predestinado proletário, abala-o e mantém-no num estado de perturbação constante e de sentimento de contra- dição. Paralelamente, à responsabilidade sentida de substituir e ocupar o lugar, prematuramente deixado vago pelo seu pai, o poeta viverá uma relação familial de insatisfação silenciosa, devido à permanente incomunicabilidade e fragilidade de resposta intelectual dos seus familiares. Manuel Laranjeira ao ver-se rodeado por po- bres pescadores, batoteiros de passagem, espanhóis

com a peseta na alta [e] provincianos burgueses,

foi passando de lamentos a amarguras, até à ir- remediável descrença, não encontrando os seus sonhos realização, nem as suas palavras ecos. O poeta – que era simultaneamente médico –, transforma-se num interveniente passivo e, de certa forma, rendido a uma realidade que o obrigava constantemente a desempenhar um papel de observador presente num quotidiano desenhado pela doença, pelo sofrimento, pela amargura, pela injustiça e pela fome física e es- piritual, como prevalências constantes, sensíveis e marcantes de um tempo, visto para si e por si, sem esperança.

Fidelino Figueiredo e Vitorino Nemésio identi- ficam, de uma forma subtil, o perfil e a natureza

do escritor espinhense, reconhecendo-lhe as cir- cunstâncias e as dificuldades, quando afirmam, respectivamente, que Manuel Laranjeira era “um homem de aguda sensibilidade intelectual e

brava independência de carácter, [que viveu uma] curta vida de luta e amargura – luta com uma doença nervosa e amargura de quem quer viver em harmonia com a sua concepção de vida e esbar-

ra em obstáculos intransponíveis2. Possuindo,

o poeta, um temperamento hipersensível, que interiorizava todas as impressões, em vez de as exuberar; Laranjeira era um ser “melindroso, de

uma fina sensibilidade moral, mas cheio de si, ca- paz de dúvidas e primores com a família e os ami- gos, [era, enfim, um] inapto para a indulgência

infinita que cada passo nos pede”3.

Manuel Laranjeira iniciou os seus estudos uni- versitários, em 1899, em Medicina, na Escola Médica do Porto, defendendo tese em 1907, com a apresentação de um trabalho de interpre- tação psicológica do misticismo, denominado “A Doença da Santidade”. O seu saber e os seus interesses intelectuais levaram-no a escrever, in- fatigável e indistintamente, sobre os mais diver- sos temas. A medicina, a crítica literária, musical e artística, a análise política e o comentário so- cial, receberam a sua atenção, denotando-se em toda esta produção dispersa um elo de ligação nas interrogações e nas certezas apontadas, quais condições e estados de espírito, que mais não eram do que o resultado de um ser preocupado que se agitava por entre um mundo inconstante e inseguro, preenchido por optimismos rebeldes e pessimismos descrentes.

O poeta procurou o «grande mistério da vida» pelo mesmo modo que Antero e Camilo, ten- tando encontrar a sua última verdade no des- manchar da última ilusão: a ilusão da imorta- lidade, pelo que a morte, presenciada a 22 de Fevereiro de 1912, pelas 23 horas, longe de ter sido um acontecimento repentino de impulso imediato foi, antes, uma atitude amadurecida e decidida ao longo de um prolongar do tempo. Este estado de espirito e esta determinação pode

2 Fidelino Figueiredo. Ideias de Paz. Lisboa. Portugália Editora,

1966. pp. 288-289.

3 Vitorino Nemésio. Conhecimento da Poesia. Lisboa. Verbo.

1970. p. 105.

ser justificada por uma dual sintomatologia re- conhecida, quer pelo agravamento de uma do- ença que o tornava refém da dor e do sofrimento desde os meados de 1911, quer, de um modo mais prolongado, por um desencontro espiritu- al tortuoso, explicado no ambiente civilizacional da sua época, em que a passagem do século é sentida com dúvida e desencanto, e irremedia- velmente observado pelas inquietações metafísi- cas de uma geração que vive um novo mundo, de onde a razão expulsou os antigos deuses. No fundamento das nossas opiniões somos de recorrer a Bernard Martocq utilizando a sua observação sobre este diagnóstico de “suicídio oscilante”, previamente determinado entre uma saúde muito precária e um desencanto de ge- ração, quando nos diz que “mais do que a crise

espiritual do seu tempo, mais do que em todas as filosofias aqui ou ali visíveis, mais até do que no marasmo que caracteriza a agonia da monarquia portuguesa ou da abulia da sociedade em que La- ranjeira viveu, é necessário (...) ver no próprio La- ranjeira as razões que o conduzirão a disparar uma bala na cabeça após ter deixado os seus negócios em ordem e se despedir dos amigos. Este gesto não surge de um dilaceramento súbito. É o último acto de uma longa tragédia vivida em silêncio, angús- tia e dor. Esmagado já pela revelação e a experi- ência de uma doença cujo desfecho ele não podia

ignorar”4. É nesta convergência de ideias e sem

contestar o verdadeiro peso da tuberculose ou da sífilis nervosa, que pensamos ser impensável descurar os sentimentos vividos pelo escritor como resultantes da vivência de um intervenien- te intelectualmente activo, num país, também ele, considerado moribundo e onde a realidade quotidiana era vista como tendo perdido signifi- cado e qualquer tipo de atracção.

São agonias e desencantos que o obrigam à du- alidade constante de ser um viajante e um ere- mita. Percorrendo, o primeiro, os caminhos do sentimento e do sonho à procura da “sua salva- ção” e, o segundo, refugiando-se nas memórias dos seus messianismos, como único abrigo às inconstâncias do seu universo. Vivem-se tempos

4 Bernard Martocq. O Suicídio de Manuel Laranjeira. Lisboa. Prelo,

n.º 15. Imprensa Nacional – Casa da Moeda. Abril – Junho, 1987. pp. 60-61.

de crises de consciência, onde o mundo e a sua moral apresentam-se subvertidas e os antigos alicerces sociais ameaçam ruir transformando a sociedade vigente em descréditos absolutos, sus- tentados pela angústia, pela opressão e pela ins- tabilidade. São os tempos da dança do rotativis- mo político do liberalismo constitucional, ou, simplesmente, da ditadura declarada do fran- quismo. É o descrédito total do parlamentaris- mo monárquico, sustentado pelos permanentes desgovernos e corrupções do aparelho governa- tivo e pelos viciados e vendidos resultados elei- torais. São as dúvidas e as incertezas constantes no sistema financeiro e nos resultados económi- cos, a par do desespero, da impotência e da der- rota nas questões internacionais, por ausência de uma política externa com rumo definido. São os desencantos pelo reconhecimento de que o úni- co desenvolvimento declarado é o do obscuran- tismo, da ignorância e da ausência de soluções que alterem os dados. Em suma, são os tempos em que se vivia na renúncia, com a indiferença, o cansaço e o pessimismo demolidor.

Manuel Laranjeira, nas descrições e nos senti- mentos de saudade dos seus epitafistas, é recor- dado como um ser possuidor de uma inteligência perspicaz e de um espírito aglutinante, com uma forte capacidade de análise e de objectividade. Reconhecemos e aceitamos que as intenções re- gistadas nas colunas dos jornais que manifestam estas qualidades ultrapassam a vontade circuns- tancial de querer recordar, de forma simpática e magnânima, o espírito que deixou o mundo dos vivos, a troco de uma bala suicida, na noite de inverno de 22 de Fevereiro de 1912. O escritor, apesar de pertencer a uma geração de vultos que identificavam a Revolução como principal desíg- nio nacional de um povo abandonado e o Repu-

blicanismo como forma solidária para terminar

com a tormenta social existente, não possui a convicção e a força anímica no caminho a seguir. A sua insegurança e a sua insatisfação ideológi- ca, reconhecidas no constante estado de espírito tedioso e pessimista, aproximam-no de todos aqueles que, também, por não terem encontrado a determinação e a resposta necessária à aplica- bilidade dos seus ideais, optaram, como símbolo de vontade e força sobre o desânimo e a apatia colectiva, pela manifestação pessoal do suicídio.

Os seus amigos e companheiros, Teófilo Braga, Miguel de Unamuno, Teixeira de Pascoaes, Júlio Brandão, Eurico de Seabra, entre outros, com- preenderam que a ligação consequente do vene-

rador Laranjeira com as suas venerações Antero de

Quental, Camilo Castelo-Branco, Soares dos Reis e Oliveira Martins, ou seja (à excepção do último), com o “Portugal trágico” dos intelectuais suicidas, tem uma ligação emblemática e uma procura declarada da indignação, manifestada pelo re- curso do protesto através da morte libertadora. Viviam-se os tempos daqueles que, como nos observa Joel Serrão, numa prece estético-religiosa

de Ideal, romanticamente prospectivo, sonhavam

com um perseguido “Amanhã”, onde a lei va-

gamente intuída (porém imanente) que governava os destinos humanos, multiplicar-se-ia, enfim, em flores e frutos. Um “Amanhã”, escrito e dramati-

zado, também, por Manuel Laranjeira, onde a justiça social e o crescente nível educacional e cultural do povo, deixariam de ser a mesquinha trivialidade quotidiana, ao transformarem-se, como que por magia, na idealidade desenhada no sonho. O poeta, sempre acompanhado por nevoeiros e brumas “românticas de afectividade

difusa”, projectava as suas expectativas indefini-

das numa República que havia de proporcionar, pelo domínio do seu ideal, a esperada salvação messiânica e, consequentemente, tão necessária para pôr fim a uma descrente e decadente pátria monárquica. São nestas indecisas esperanças, encontradas quer na ambiência irracionalista da passagem do século XIX, quer nas confusas e, por vezes, delirantes expectativas criadas com a vinda do novo século XX, que o poeta vagueia desolado sem se conseguir opor ao domínio das ideias do seu tempo e à triste e imperfeita reali- dade que o cerca.

Manuel Laranjeira, como muitos da sua geração – João de Barros, António Patrício, Amadeo de Sousa Cardoso, por exemplo –, agonizaram ao descobrir que a realidade que os envolvia esta- va envolta num manto de fatalismo e de miséria moral politiqueira, de indigências e corrupções, de obscurantismos e ignorâncias, em suma, de passividades e apatias que conduziam toda e qualquer atitude de tentativa de mudança à de- sistência e ao abandono, nas suaves delícias da

vagarosa morte do tédio e do pessimismo. La- ranjeira é um interlocutor e um interveniente de excelência neste retrato da intelectualidade por- tuguesa da passagem do século XIX. A leitura e interpretação dos seus pensamentos, escritos no diário, na correspondência enviada para os seus amigos, nas prosas ensaístas, nos artigos políti- cos, na dramaturgia ou na poesia, permitem-nos ilustrar, paralelamente, um conjunto de senti- mentos e as consequentes contradições perante a vida e a sua alma. Os seus escritos, independen- temente da forma e do tipo, demonstrando-nos a dualidade do seu ser, dando-nos a observar o ente sensível e inteligente, em simultâneo com o desfalecimento derrotista de um homem perdido num tempo cronológico que ele próprio ques- tiona se será o seu, quando repute “(...) sinto-me

deslocado do meu tempo... talvez por ser do meu tempo. Mas tenho a impressão de que devia ter nas-

cido há dois séculos ou daqui por dois séculos”5.

*

A Espinho de Manuel Laranjeira identifica-se com uma povoação que se espraia no areal en- costado ao atlântico e que com o percorrer do tempo foi sendo vagarosa e dramaticamente apagada pelas investidas do oceano.

Todo este imemorial convívio e gladiar entre a natureza e o homem reflectiu-se, no percurso da vila espinhense, numa conjugação de valores e in- teresses socialmente diferentes, mas que possuíam como ponto convergente, o mar. Por um lado, a vivência permanente de homens e mulheres per- tencentes a um frágil mundo de estacas, pedras, palheiros e fracas dunas, que viviam de lançar redes de arrastar além barras, esperando conse- guirem regressar aos areais com os seus tesouros vivos e crepitantes e, por outro, o repartir do quotidiano veranico com os passeantes burgue- ses, vindos do Porto, de Penafiel e de Amarante para cumprirem com os velhos hábitos de con- vivência, repouso e banhos. O Hotel Particular, o Bragança, a Pensão Nova Estrela e os quartos do Café Chinês, os prédios do senhor Fulgêncio Pereira, do Cardoso Valente ou do Pinto Bas- tos enchiam-se de veraneantes e aqueles “largos

5 Manuel Laranjeira. Diário Íntimo. p. 58.

arruamentos rectangulares” enchiam-se de uma

“espessa multidão, rajada de tipos diversos de foras-

teiros”, a marcar o seu estrato social, a sua pro-

cedência geográfica, o seu estilo e a sua “saúde” material. São os “Janotas de Lamego, da Régua, de

Viseu, com esporins e luvas novas, bigode farto, cha-

péu à banda, brasa ardente no charuto, e no olho”6,

vestindo os recentes casacos com lapela reduzi- da e cintura marcada, os coletes de cor branca, as calças vincadas e estreitas, rasando um sapato de biqueira quadrada. São os ricos comerciantes, os altos funcionários aduaneiros, os digníssimos conselheiros, os ilustres magistrados e as suas ex- celentíssimas esposas que passeiam pausadamen- te com o indispensável toque de classe dado pela bengala na mão masculina e a sombrinha aberta repousada no ombro feminino.

É uma Espinho farpiana e sublime, retratada por Ramalho Ortigão, em que um admirável e preciso conjunto de figurantes, estilos e mo- mentos percorrem e animam o Chiado da vila, na passagem de um século para um outro século. São “eclesiásticos morenos, sólidos, de beiços grossos,

sobrancelhas cerradas, chapéus moles desabados, cabeção e volta ao pescoço, cigarro brejeiro nos dedos”. São “pais de famílias salamanquinas, de jaleco cor de pinhão, sombreiro de toureador, cara rapada, e a trouxinha em lenço de seda suspenso da mão pelas quatro pontas”. São “meninas de tour- nure, vivos de veludo magenta na gola do vestido, chapéu de palha forma Carlos IX, e botinas por engraxar”. São “lavradores minhotos ou transmon- tanos, de capotes de briche com forro encarnado e gola de peles”. São “mulheres do campo, sempre arrepiadas da frialdade do banho, artelhos nus e descarnados, saia pelos ombros, mãos encruzadas no estômago, lenço na cabeça, cabelo em viseira so- bre os olhos, pés arrastando chinelas”. São “músicos ambulantes; tocadores de realejo; rabequistas cegos arranhando a Marseillaise acompanhada á viola; e mendigos de romaria, à moda antiga, de muletas, barbas grandes e sacola ao pescoço, como nos dra- mas da Rua dos Condes; ou de pernas às costas, em monograma, andando nas mãos como fantásticos aranhiços. Tudo isto bole, mexe, rabeia, de cá para lá e de lá para cá, no grande arruamento central a que chamam o Chiado, numa atmosfera vivaz,

6 Ramalho Ortigão. Ob. Cit.. p. 269.

sacudida, peneirada por uma animação de arraial, confusa de cheiros e ruídos diferentes, impregnada de vapores de fritura e de exalações de caranguejos fermentados ao sol, envolta em poeira, repicada de pregões, de música feirense, do telintar de dinheiro nas batotas, e do estoirar de foguetes na estação, aos

comboios que chegam com banhistas novos”7. En-

fim, “Espinho é, com efeito, e por excelência, além

da costa célebre da sardinha, a piscina consagrada

da magistratura”8

Ultrapassada que era a “Passarele” elevada da es- tação de caminho-de-ferro, qual fronteira entre uma vila velha e uma nova vila, chegava-se aos coretos improvisados da Avenida Serpa Pinto ou do Largo da Graciosa, para assistir a uma actuação da Banda de Música da Real Fábrica de Conservas Brandão Gomes ou, então, nou- tros propósitos fugazmente sentidos, entrava-se no Café Chinês ou no Peninsular para uma re- confortante gasosa, sifão ou outra bebida con- génere, saída da vizinha Fábrica do Mocho, e tudo isto, antes de se procurar a arte mágica do senhor Carlos Evaristo Júnior, no fazer uma fo- tografia pintada para recordar aquele fim de dia de verão. Todavia, estes eram apenas os momen- tos de compasso de espera, onde se escondia a ânsia do saudoso retorno às mesas de roleta ou de bacará. Nesses inúmeros casinos, inexistentes no papel dos decretos, mas brandamente aceites, viviam-se os verdadeiros momentos de exaltação da permanência nesta vila costeira, através de exorbitantes palpites sortudos, ou de desilusões choradas pelas glórias perdidas. Meses em que a pequena vila provinciana se transfigurava numa cosmopolita espectadora das mundanidades das famílias burguesas nortenhas e galegas que repartiam os dias, os locais e as vistas, segundo as referências obrigatórias descritas nos almana- ques de ocasião, a par de presenças menos dese- jadas de outros “peregrinos”, que aos Domingos e Dias Santos, vindos dos lugares e aldeias vizi- nhas “ocupavam a área deixada pelos sistemáticos,

espojavam-se a esmo, pisavam as algas de calças arregaçadas, banhavam-se enfim, numa girândola de gritos e impropérios, saindo de combinações e

7Ramalho Ortigão. As Farpas. Lisboa. David Corazzi. 1887.

(Vol. 1). pp. 269-271.

8 Ramalho Ortigão. Ob. Cit. p. 272.

cuecas coladas a seus volumes”9. Destes, ficavam

as lembranças de passagens desagradavelmente comentadas, quando no dia seguinte, por entre o ondulado da areia “surgia uma extensão junca-

da de papéis de embrulho, ossos de frango, cascas

de melancia”10, que a preia-mar se esquecia de

levar. Tinha sido o dia dos vilões! Os outros, os

fidalgos11, preferiam, após sestas reconfortantes,

apreciar nos seus círculos fechados de clubísticas opiniões, os prazeres de um passeio até à Fonte do Mocho ou até à Ponte da Canha; desfrutar com as penitências oferecidas por uma ida à Ro- maria do Senhor da Pedra; deleitarem-se com um concerto de música variada na Assembleia; assistirem, empoleirados nas janelas dos quartos dos seus hotéis, ao desfile dos carros alegóricos da festa das flores, ou mesmo participarem, mostrando-se ao volante de um último modelo da Argyll; divertirem-se com a última fita muda do Cinematógrafo Avenida ou, ainda, presen- ciarem uma corrida de touros de morte na nova Praça de pedra e cal.

Sempre que terminada a época balnear, Espinho regressa à sua melancolia saborosa e indefinível12 e no, agora, silencioso salão do Café Chinês re- encontramos a pacatez e o sossego da vida social burguesa espinhense. Regressam aos seus lugares as personagens cativas e os imperiosos comentá- rios sobre o último verão. Tertuliam-se as ante- riores cumplicidades de desprezo e de sarcasmo que tinham gozado com as trivialidades vividas, com os amores e as comoções dos suspiros e das indiferenças dos que tinham passado por aquela praia, andado por aquelas avenidas, extasiado os sons dos violoncelos do Peninsular. Ramiro Mourão, Pinto Coelho, Amadeo de Sousa Car- doso, Manuel Laranjeira, ocupavam o espaço deixado vago pelos murmúrios das enchentes do estio e desfiavam, sem perdão, o peso do tédio e da melancolia de serem os únicos residentes na- quele pequeno Espinho de mesas redondas e de cadeiras de espaldares largos, juntando conversas

9 Mário Cláudio. Amadeo. p. 31. 10 Mário Cláudio. Amadeo. p. 31.

11 Termo característico que identificava os veraneantes, enquanto

que a expressão vilões designava os habitantes dos arredores de Espi-

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