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CONCLUSION

Dans le document "No risk, no fun" (Page 74-78)

Por dois anos João de Deus e Raul Xavier par- tilharam o mundo dos vivos, uma vez que o escultor nasceu em 1894 (23 de Março), dois anos antes da morte do poeta. Todavia, não se cruzaram em vida, pois o poeta vivia em Lisboa quando o escultor nascia em Macau. Raul Xa-

vier era filho e neto de portugueses que casaram com chinesas, provindo assim dos cruzamen- tos de sangue e de cultura que os portugueses assumiram com outros povos do mundo. Por isso, e mesmo depois de se ter tornado escultor português em Portugal, Raul Xavier foi um ar- tista “lusófono”, podemos hoje dizê-lo, embora o termo não se usasse ainda no tempo da sua vida. Se, por um lado, o escultor nunca menos- prezou as suas raízes orientais, por outro lado, foi na cultura portuguesa que se formou e para ela contribuiu ao longo em toda a sua carreira artística. A sua personalidade e a sua obra não podem, por isso, deixar de fazer uma síntese singular de culturas distintas, no horizonte mais universal da lusofonia.

Os laços com o Oriente emergem, desde logo, naquela que é considerada a sua primeira obra: o busto de sua mãe macaense (gesso, 1911). Já casado e com dois filhos pequenos, Raul Xavier regressou à sua terra natal para desempenhar um cargo de condutor de obras públicas na cons- trução do porto de Macau, função que desem- penhou entre 1923 e 1925. Essa experiência de dois anos ter-lhe-á servido, sobretudo, para se aperceber de que a sua vocação não estava na administração pública, mas antes no ofício de modelar. Regressado e estabelecido em Lisboa, já com obra feita e reconhecida, o escultor não deixou, porém, de manifestar apreço pelas suas origens macaístas, como ilustra o facto de se apresentar com um costume tradicional chinês na fotografia que serviu de base ao retrato a óleo que dele fez o seu amigo pintor Domingos Re- belo. Podemos mesmo dizer que uma contida

saudade do Oriente se faz sentir em obras signi-

ficativas do escultor, como ilustram: a nostálgica “Fantasia oriental” (placa, 1926), que nos dá um perfil feminino com trança, e que nos toca mais por uma estranheza com ternura do que por algum padrão convencional de beleza; ou a estatueta de Wenceslau de Moraes (1939), ves- tido de quimono segundo fotografia da época, o que permitia sublinhar a japonização do militar e escritor português.

Mas, se Wenceslau de Moraes foi um português que se apaixonou pela cultura nipónica, que o tornou escritor, Raul Xavier foi um macaen- se que se afeiçoou decisiva e definitivamente à cultura portuguesa, que o tornou escultor. Com

efeito, ainda menino de 3 anos, Raul Xavier veio de Macau para Lisboa, onde teve a sorte de en- contrar, para as primeiras letras na escola do Al- tinho20, um genuíno pedagogo, o mestre Palyart Pinto Ferreira, que descobriu uma vocação artís- tica nos desenhos daquele seu aluno. Concluída a instrução primária, Raul Xavier continuou a ter o estímulo e o apoio do professor, que lhe fi- nanciou o curso geral de desenho, de três anos, na Escola de Belas-Artes, sabendo que o pai do jovem, um humilde soldado com família nu- merosa, não tinha condições para sustentar a formação artística do filho. Foi, pois, o mestre Palyart Pinto Ferreira, o grande impulsionador de Raul Xavier para as artes plásticas. O escultor nunca o esqueceria, como o atestam quer a sua colaboração na ilustração de escritos pedagógi- cos do seu antigo mestre quer a medalha que o homenageia e o faz perdurar na nossa me- mória cultural21. Foi ainda a pedido do mestre, admirador de João de Deus, que o jovem Raul modelou um busto do ilustre pedagogo para a Casa Pia, onde Palyart Pinto Ferreira também leccionava. Com a sua obra primeva sobre João de Deus, inicia Raul Xavier o seu percurso na escultura, antes mesmo de se tornar escultor. Após o curso geral de desenho, Raul Xavier co- meçou a sua formação escolar em escultura, na aula de Costa Mota (tio), então membro do Con- selho de Arte e Arqueologia e posteriormente pre- terido em concurso público, a favor de Simões de Almeida (sobrinho), para a disciplina que lec- cionara provisoriamente, por doença do antigo docente22. Com a saída de Costa Mota (tio), Raul

20 Instalada no antigo palácio de Angeja, que fora residência do

físico-mor do reino, no tempo de D. José.

21 Como o atestam também as seguintes palavras de um ami-

go do escultor: «Meu caro Xavier: se a firmeza do seu carácter não me fosse familiar de longa data, bastaria a sua fidelidade constante à memória do seu primeiro professor para ma revelar. Fernando Alfredo Palyart Pinto Ferreira, logo na aula primária, descobriu-lhe a vocação artística e orientou com paternal entu- siasmo os seus estudos no sentido dessa vocação. E o Xavier foi escultor, construiu a sua obra e alcançou renome, como se do- cumenta nas publicações que têm sido consagradas a tal obra. E uma indissolúvel amizade gratíssima o prendeu para sempre ao professor modesto, mas inteligentíssimo que foi esse excelente Palyart.» Fidelino de Figueiredo, “Elogio de um nobre educa- dor (Carta a um Amigo)”, Separata da Revista de Guimarães, vol. LXXI, nº 1-2 (Guimarães, 1961), p.1. Vd. uma fotografia da medalha de Raul Xavier, representativa do mestre Palyart Pinto Ferreira, ibid., p.3.

22 Informação biográfica disponível em: Oldemiro César, Artis-

Xavier seguiu o mestre e deixou a Escola de Belas Artes, não chegando a concluir o curso de escul- tura. Deste modo, o jovem estudante de escultura emancipou-se da Escola e continuou informal- mente a sua formação no atelier do mestre Costa Mota. O valor da fidelidade pessoal primou sobre o da instituição escolar, o que revela um traço de carácter do futuro escultor. Julgamos, por isso, ser fiéis à memória de Raul Xavier, dizendo que os dois mestres da sua vida e arte foram Palyart Pinto Ferreira, nas primeiras letras, e Costa Mota (tio), na escultura. Ambos foram também, por isso mesmo, os dois grandes elos afectivos do es- cultor com a cultura portuguesa.

Ultrapassada a experiência de dois anos de ad- ministração pública em Macau, Raul Xavier estabeleceu-se definitivamente em Lisboa, onde se tornou professor da Casa Pia e mestre de can- teiro artístico da escola de António Arroio, e onde se devotou incansavelmente ao seu ofício de modelar até à sua morte em 1964. O escultor Raul Xavier dedicou grande parte do seu labor artístico a modelar figuras relevantes da cultura portuguesa, e, desse modo, a guardar memória delas, material e cultural. Desde logo, referên- cias contemporâneas ou próximas do seu tempo, e das mais diversas áreas do engenho humano, como sejam: o caricaturista e ceramista Rafael Bordalo Pinheiro (busto, 1917); o médico Fer- nando Bissaia Barreto (busto, 1933); o filólogo e etnólogo José Leite de Vasconcelos (placa, 1934, estatueta, 1942, e medalha, 1948); o historiador Joaquim de Oliveira Martins (placa, 1935); o professor de literatura e ensaísta Fidelino de Fi- gueiredo (busto, 1937); o artista-fotógrafo Ma- nuel Alves de San-Payo (busto, 1944); o pintor Carlos Reis (busto, 1945); o professor e historia- dor de filosofia Joaquim de Carvalho (estatue- ta, 1944, e busto, 1947); o matemático Gomes Teixeira (medalha, 1948); o violoncelista David Sousa (placa, 1948); o arqueólogo Santos Ro- cha (busto, 1953); a poetisa Florbela Espanca (busto, 1955); o pedagogo João de Deus Ramos (medalha, 1955), filho do poeta e pedagogo João de Deus; etc. Esta lista de obras, umas fei- tas de encomenda a propósito de homenagens e efemérides, outras não, pois tão somente feitas por estima de amigo, longe de ser exaustiva, é tas Portugueses. Raúl Xavier – Escultor, Lisboa, 1943, pp.19-20.

quanto basta para significar o apreço do escultor macaense pela cultura portuguesa do seu tempo. Raul Xavier conviveu com muitos daqueles dos quais fixou memória nas suas obras, e tornou-se um deles, tendo sido adoptado e reconhecido culturalmente como escultor português. Entretanto, o escultor português de origem ma- caísta foi também um atento intérprete da escul- tura portuguesa do seu tempo, bem como das do- minâncias do modo de ser português que nela se exprime. No seu artigo “A Escultura em Portugal nos últimos vinte e cinco anos”, publicado a 15 de Dezembro de 1948 no periódico Novidades, o próprio escultor Raul Xavier sublinha, como tra- ço comum à personalidade do seu mestre, Costa Mota, e aos discípulos mais ousados do mestre Si- mões de Almeida (sobrinho), algo como o lirismo português23. Este será também o traço dominante de união entre três vultos da história da cultura literária portuguesa, que atraíram o talento de Raul Xavier na sua produção escultórica: o poeta Luís Vaz de Camões, cujo busto (1931) se encon- tra instalado na Biblioteca da Universidade de S. Francisco da Califórnia; o escritor romântico Ca- milo Castelo Branco, ao qual o escultor dedicou vários tipos de trabalhos, como o busto, a estatue- ta e a medalha; o poeta e pedagogo João de Deus, que motivou o conjunto escultórico implantado na sua terra natal, São Bartolomeu de Messines, e inaugurado a 9 de Março de 1964, pouco tem- po depois da morte do escultor, a 1 de Janeiro do mesmo ano. Uma obra madura sobre João de Deus marca, assim, o fim do percurso produtivo de Raul Xavier na escultura.

Para compreendermos o conjunto escultórico sobre João de Deus, porém, talvez não baste o lirismo português, que seduziu o escultor maca- ense. Talvez sejam necessários outros valores tra- zidos do Oriente no sangue de Raul Xavier. Um

23 «Costa Mota, discípulo de Vítor Bastos, teve personalidade

forte, a um tempo lírica de português, e criadora incisiva de es- tados de alma. – […]. – Simões de Almeida (sobrinho), por seu turno, transmitiu a sua arte a discípulos, que se têm distinguido nas correntes modernas, desde o neoclassicismo sereno e equili- brado, até às concepções irreverentes e ousadas em que todavia se manifesta sempre o lirismo da gente portuguesa, e frequen- temente o apreciável sentido decorativo, que vem completar e formar ambiente sugestivo a este lirismo, talvez por vezes dema- siado saudosista, mas evocador. São: Leopoldo de Almeida, Rui Gameiro, Barata Feio, Martins Correia, António Duarte, Anjos Teixeira (filho), etc.» Raul Xavier, “A Escultura em Portugal nos últimos vinte e cinco anos”, Novidades (15/ 12/ 1948).

escritor e jornalista seu amigo, Carlos Sombrio, chamou-lhe o “escultor da serenidade”, especial- mente a propósito da maqueta do monumento a D. Francisco Gomes do Avelar, em frente da Sé de Faro24. Com efeito, a serenidade é uma quali- dade expressiva que domina em toda a estatuária monumental de Raul Xavier. Desde logo, as es- tátuas que personificam simbolicamente ideias nobres, como a “Arte” e a “Ciência” (1932, Pa- lácio dos Desportos, Parque Eduardo VII, Lis- boa), a “Prudência” (1935, Palácio de S. Bento, Lisboa), ou a “Lei” e a “Justiça” (1949, Palácio da Justiça, Beja), acusam uma hierática impas- sibilidade. Também no painel pétreo da batalha de Aljubarrota, “Alegoria a D. Nun’Álvares Pe- reira”, ao calor da batalha, sobreleva a harmo- nia da composição25 e a postura vertical, firme e quase invulnerável, do herói a cavalo, Nuno Álvares Pereira. Mas é, sobretudo, nas pequenas figuras simbólicas, a que os críticos chamavam na época “figuras de fantasia”, que melhor se ex- prime a liberdade criativa de Raul Xavier26, bem como as qualidades mais indissociáveis da sua escultura: entre elas, encontra-se mesmo uma “Serenidade” (1936), a par de uma “Saudade” (1932), de um “Pensamento longínquo” (1941) ou de uma “Melancolia” (1950). Todas estas ideias, estados ou sentimentos são representados por figuras femininas. Há, na escultura de Raul Xavier, uma espiritualidade no feminino, que

24 Cf. Carlos Sombrio, “Raul Xavier: o Escultor da Serenidade

e o seu monumento ao Arcebispo-bispo Gomes de Avelar”, Jor-

nal de Notícias, 30 de Novembro 1939.

25 A “Alegoria a D. Nun’Álvares Pereira”, originalmente desti-

nado e apresentado a forrar a Sala de Aljubarrota na Exposição do Mundo Português (1940) e posteriormente colocado em S. Jorge (Aljubarrota), é para o Prof. Émile Schaub-Koch, este- ta e crítico de arte, a obra mais significativa de Raul Xavier, escolhida para figurar em: Émile Schaub-Koch, Valeurs de Ra-

ppels d’Esthétique Comparative, Lisbonne, Publication sous les

auspices de l’International Institute of Arts and Letters, 1958, fig.109. A mesma obra será, portanto, uma daquelas que me- lhor manifesta o talento do escultor como mestre da composi- ção: «L’energique vitalité de l’oeuvre est question tecnique et ne dépend pas du tout de la vision qu’elle exprime, et qu’elle pourrait exprimer de manières différentes et selon d’autres mé- thodes. Voilà ce que saisit à fond Xavier et ce que certes, en ma- tière de composition, il connaît à fond. Et cette connaissance est celle d’un grand artiste.» Émile Schaub-Koch, Raul Xavier.

Sculpteur Portugais, Lisboa, 1957, p.3.

26 No que sintonizamos inteiramente com as seguintes palavras

de Émile Schaub-Koch: «Il est évident que les plus belles oeu- vres de Xavier ne sont que des valeurs de représentation de sa conscience d’artiste, telle sa Mélancolie, étonnante d’expression créée.» Raul Xavier. Sculpteur Portugais, p.6.

denuncia uma delicada estima pela mulher. A este respeito, é de assinalar o parentesco anímico do escultor com o poeta João de Deus.

A escultura de Raul Xavier é, aliás, toda ela fi- gurativa, e isso valeu-lhe a depreciação de “não moderna”, em comparação com a arte abstrac- cionista. Todavia, nem por isso se tornou mais fácil de caracterizar e de classificar do ponto de vista da crítica da arte. Em 1939, Luís Chaves procurava entrever assim influências e tendên- cias na arte de Raul Xavier:

«Da serenidade olímpica da criação artística pas- sa à violência insatisfeita da realização. Procu- rar-se-ia estremar na técnica de R. Xavier a influ- ência de um outro mestre escultor. Em vão. Talvez impressionista aqui, visão de Rodin que se funde num momento; talvez classicista além, na majes- tade de Cánovas através de mármores de Thor- dwaldsen; realista porventura na lição portugue- sa de Soares dos Reis. Talvez tudo, e de tudo um pouco, e não por espírito de formação ecléctica, feição inferior de impersonalidade; antes porque a arte é omnímoda, e na alma sincera do artista

bem formado brota como fonte da montanha.»27

Afinal, impressionista, classicista e realista, mas não ecléctico. Por sua vez, em 1957, Émile Schaub-Koch procurava definir assim a novida- de da arte de Raul Xavier:

«Xavier é um gótico da época flamejante, isto é, da época em que o gótico se enriquece com o arabesco, e com todas as riquezas do barroco que

acaba de nascer em Veneza.»28

Afinal, uma arte fora do seu tempo, que combi- na tendências remotas. Estes dois testemunhos de crítica favorável ao escultor Raul Xavier ilus- tram bem, todavia, que, quando intenta rotular uma obra de arte pessoal, a crítica facilmente se enreda em contradições insanáveis nas suas apre- ciações. De qualquer modo, o especialista de es- tética comparativa, que foi Émile Schaub-Koch, compara por afinidade a escultura figurativa de Raul Xavier com a da escultora americana Anna

27 Luís Chaves, “Raul Xavier. Escultor”, Letras e Artes, Suple-

mento literário das Novidades, Ano II – 4-VI-1939 – Nº41.

28 «Xavier est un gothique de l’époque flamboyante, c’est-à-

-dire, de l’époque où le gothique s’enrichit de l’arabesque, et de toutes les richesses du baroque qui vient de naître à Venise.» Émile Schaub-Koch, Raul Xavier. Sculpteur Portugais, p.29.

Hyatt Huntington29, e não é por ser figurativa que a arte de um e de outra é uma arte menor. Figurativo é também o conjunto escultórico do monumento a João de Deus, em S. Barto- lomeu de Messines. Raul Xavier adoptou, para o monumento, a iconografia espectável sobre João de Deus, ligada, sobretudo, à sua Cartilha

Maternal. Olhando então para o monumento,

o que vemos? Não do ponto de vista do críti- co profissional, mas apenas com o olhar de um observador atento. Vemos a figura de João de Deus, sentada sobre a saliência de um muro, que lhe serve de banco: o pedagogo segura com a mão esquerda a sua Cartilha, erguida sobre o joelho esquerdo, e reclina-se levemente sobre o lado direito, com o cotovelo direito sobre o muro e a mão apoiando o rosto, que olha na direcção do horizonte acima de duas crianças ao lado a ler. Na figura de João de Deus, sobres- sai a tranquilidade, que procede de uma missão cumprida, e a serenidade contemplativa, que era um traço comum à personalidade do poeta e à do escultor. As crianças, por seu turno, não são um detalhe decorativo do monumento, elas es- tão praticamente no mesmo plano fronteiro do pedagogo, porque elas são a sua razão de ser. As crianças foram, aliás, um motivo predilecto do escultor Raul Xavier, que cedo começou a mo- delar a cabeça encaracolada do seu próprio filho e que tomou por modelo o seu neto mais novo para o menino que carinhosamente acompanha a pequena leitora, neste monumento a João de Deus. Há, neste conjunto escultórico, traços cruzados de serenidade e lirismo. Nada espanta por inesperado; tudo se combina sem sobres- saltos na sensibilidade do espectador. Apenas o poeta em pensamento longínquo e duas crianças em atenta leitura, isto é, colhendo o fruto da sua intuição pedagógica, numa suave harmonia entre contemplação e acção, que não sobressai senão pela arte de composição do escultor. Era assim a escultura de Raul Xavier.

29 Cf. Émile Schaub-Koch, Valeurs de Rappels d’Esthétique Com-

1para o Joaquim Domingues

1. Teófilo Braga, a quem devemos algumas das melhores páginas que se escreveram sobre João de Deus, inicia por uma citação de Shelley o estudo votado ao poeta algarvio naquela parte da sua História da Literatura Portuguesa em que trata da “dissolução do ultra-romantismo”. São do prefácio do Prometeu Libertado as linhas bre- víssimas aí transcritas:

Um grande poeta é uma obra prima da natureza, que deve impor-se e se impõe necessariamente ao

estudo de um outro poeta.2

De Teófilo para Pascoaes muda, decerto, a esta- tura poética do estudioso, com larga vantagem para o vate de Gatão. Mas a posição de prin- cípio – como, em certa medida, a perspectiva adoptada – ou a admiração pelo poeta estudado mantêm-se razoavelmente inalteradas.

Nas laudas memoriais da conferência sobre

Guerra Junqueiro, proferida no Teatro Amaran-

tino em 19 de Março de 1950, Teixeira de Pas- coaes começa por nos dar conta de circunstân- cias deveras curiosas, à vista do que nos move:

Frequentava eu o liceu amarantino, quando me apaixonei pela Poesia, isto é, quando, em mim, se produziram os primeiros sintomas duma espécie de loucura transcendente ou mal sagrado… que a saúde é da idade das cavernas, a roer bolotas e raízes. Era meu condiscípulo um rapaz da minha

1 O presente estudo completa, desenvolve e aprofunda o es-

quema tópico da comunicação que, com o mesmo título, se apresentou ao Seminário “Espiritualidade, Cultura e Pedagogia em João de Deus”, realizado em 14 de Abril de 2012, em São Bartolomeu de Messines.

2 Teófilo Braga, História da Literatura Portuguesa, VII, As Mo-

dernas Ideias na Literatura Portuguesa, A Geração de 70, Mem

Martins, Europa-América, 1986, p. 11.

idade, uns quinze ou dezasseis anos, vítima da mesma doença transcendente. Eu rabiscava os meus primeiros versos em papel vermelho; e ele, em papel de carta de namoro. O meu ídolo era Guerra Junqueiro, e o ídolo do meu condiscípulo era o João de Deus. Nas nossas íntimas palestras, em que a vaidade das crianças e dos tolos, a si mesma, se exalta e lisonjeia, eu afirmava, encan- tado: Serei um outro Guerra Junqueiro! E o meu confrade respondia-me: E eu serei um João de Deus! Eu concordava, é claro, para ele concordar comigo. Concordávamos um com o outro, muito sinceramente, que a vaidade é a sinceridade em pessoa. Se há um sentimento em pessoa, é o da vaidade, ou, pelo menos, é o único sentimento que toma figura humana. Alimentávamos mu- tuamente o nosso amor-próprio. Eu, sem ele, não era um Guerra Junqueiro; e ele, sem mim, não era um João de Deus. Chamava-se Nasianzeno, e tinha um olho castanho e outro, azul; ou tinha um olho na terra, e outro, no céu, muito à João de Deus: João, quando calçava de beijos os pés da bem amada; de Deus, quando pairava etere- amente, na abóbada infinita, sustentando, nos

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