Documents, imaginando, quem sabe, o Netuno inabalavelmente burguês como a figura majestosa de André Breton. Pela exposição de imagens espalhafatosas, coloca-se em questão toda a rede de semelhanças integrantes dos valores culturais que dão inspiração à criação de montagens pictóricas na forma desses tabuleiros: “aquelas placas de honra que sancionam a adesão a uma ordem ou uma organização, com as que os integrantes retratados celebram sua filiação e que adornam habitualmente as paredes das instituições de disciplina como escolas, quartéis, oficinas, hospitais ou fábricas” (VERGARA, 2013, p. 50-51). A disposição dos burgueses disfarçados de deuses, que nos remete ao tabuleiro surrealista, pode ser relacionada à própria caracterização da suposta “natureza humana”, questionada no texto “Figure humaine” de Bataille, uma vez que todas as fotos do artigo são de burgueses em casamentos ou poses caricaturais de personagens de teatro. As imagens desse texto batailliano tem a “tarefa” de expor à derrisão, por contraste, o estatuto das formas bem delimitadas.
1.2.3 Uma questão de derrisão: da forma humana à matéria e da matéria à forma humana
Para Bataille, entre os anos de 1929 e 1930, o que está em questão é a ruína das formas humanas, formas estas representadas pela ancestralidade das semelhanças. Por
exemplo, é o casamento burguês retratado na fotografia (figura 5), que Bataille remete à quebra da continuidade da civilização e da cultura, pois, subtraído o idealismo das formas humanas, trata-se de rostos monstruosos. A concepção de uma natureza humana pertence ao limite humano na existência, de modo que, como alude Benjamin Noys: “é nossa tentativa de agarrar uma substância teoricamente atemporal, mas tudo o que agarramos são elementos perecíveis que escoam pelas nossas mãos” (2000, p. 22). Ora, o que é individual, próprio de cada sujeito, é irredutível à semelhança, é monstruoso e perecível em relação à petrificação do sentido da similitude. Bataille leva essa constatação também ao nível cósmico, uma vez que a negação da “natureza” humana desemboca na negação da natureza substancial do universo, mas considerando este em sua concretude, em sua materialidade23, isto é, em sua ausência de forma irredutível.
Em suma, a negação da “forma humana”, de suas “qualidades eminentes”, implica também a negação da forma material pré-estabelecida, idealizada, pois o centro desta problemática é o desvio do antropomorfismo e de suas consequências para o mundo. Nessa medida, em “Le bas matérialisme et la gnose”, Bataille afirma uma não correspondência entre matéria e aspirações humanas, de modo que – fazendo uso de imagens gnósticas de arcontes com cabeças de pato, asnos ou acéfalos – propõe documentar a matéria em sua insubmissão a ideias que a alojariam numa lógica hierárquica (LORIO, 2018). Se a gnose tem como leitmotiv “[...] a concepção da matéria como um princípio ativo” (BATAILLE, 1930a, p. 4), matéria enquanto eterna e autônoma que prolonga a obra criadora e irredutível à moral (formas trevosas e monstruosas dos arcontes, por exemplo), é para firmar uma concepção de matéria insubmissa, pois ela é exposta, sem reservas, nas suas mais cruas contradições através das representações dos arcontes. A referência à gnose é feita tendo como pressuposto, afirmado pelo autor, que ela “[...] não é tão diferente do materialismo atual, compreendo um materialismo que não implica ontologia” (BATAILLE, 1930a, p. 6).
Por mais que Bataille queira trazer à baila uma concepção de matéria que está distante de qualquer hierarquização – hierarquização esta que se dá no ato de submeter a matéria às categorias impostas pelo intelecto –, o autor a classifica como “baixa”. O que é considerado “baixo” é sinônimo de irredutível, o que não entrou na conta da razão de limitar as coisas, tendo em vista o que é “elevado”: “A matéria baixa é exterior e estranha às aspirações ideais humanas e recusa se deixar reduzir às grandes máquinas ontológicas
23 É um movimento de seu pensamento que se inicia em Documents e culmina nas noções de
“excesso” e “dispêndio”, em 1933, no texto “La notion de dépense”. Essas noções serão tratadas de modo mais aprofundado em 1949, na sua importante obra La part maudite.
resultantes dessas aspirações” (BATAILLE, 1930a). Nota-se uma dura crítica às concepções metafísicas que tomam a matéria segundo abstrações que dizem o que de fato a matéria é. Assim, no contexto do problema do “baixo materialismo”, é que a crítica batailliana pretende ser a negação das concepções abstratas e idealizadoras, isto é, estranhas à própria monstruosidade bruta da matéria, como salienta Natalia Lorio;
Em “O baixo materialismo e a gnose” (de 1930), Bataille estabelece a arbitrariedade que sustenta o andaime da metafísica: a ideia (ou o Deus abstrato) constitui o estigma metafísico que assume como consequência uma abstração sistemática, onde a matéria permanece rebaixada e quando aparece é coberta pelo manto do abstrato. Libertar a matéria de seu cabestro (hegeliano) e propor um materialismo do baixo é, definitivamente, dar espaço ao que que há de monstruoso e obsceno na matéria. Recuperar os gnósticos e esse caráter maldito constitutivo da matéria é o modo de afirmar as forças e agitações que estão obrando na mesma (LORIO, 2018, p. 19).
Tal concepção de matéria visa escapar ao idealismo. Em Documents, esse objetivo é vestido de denúncia radical nas primeiras considerações sobre a matéria, de modo a levar o sujeito ao encontro, conflituoso, com o lado da natureza e da matéria escamoteado culturalmente. Essas considerações, como afirma Lina Franco (2004, p. 18), “[...] são também um apelo insistente para que o homem fique consciente da natureza que negou”. Ora, se o idealismo é tomado como a negação do que é em nome de um dever ser, a renúncia ao idealismo é justamente a afirmação do que é. A pretensão de uma correspondência entre a ideia da matéria (forma ideal da matéria) e a própria matéria é o que soa absurdo para Bataille, de modo que, quando ele evoca o conceito de materialismo, e, notadamente, o baixo materialismo, é para afirmar a seguinte definição: “É tempo, enquanto a palavra materialismo é empregada, de designar a interpretação direta, excluindo todo idealismo, dos fenômenos brutos e não um sistema fundado sobre os elementos fragmentários de uma análise ideológica” (BATAILLE, 1929b, p. 170). A concepção de “ideológico”, aqui, diz respeito à sistematicidade das categorizações ideais, oriundas do intelecto, e visa a matéria em sua realidade própria. A revista dirigida por Bataille presava por uma defesa cerrada do real (VERGARA, 2013), mas em que sentido a apropriação do “baixo” transparece a adesão ao real? O ultrapassamento das formas nobres e ideais abre espaço para afirmação da existência sem restringi-la, isto é, nega a limitação da sensibilidade. É a partir da guinada etnográfica, que deve de tudo mostrar e de poder chocar24, que Documents se torna a tentativa de “[...]
24 Como bem escrevia o antropólogo e etnógrafo francês Marcel Griaule, no primeiro número de
fazer frente à limitação do sensível, explorar seus sentidos, escavar no baixo e expô-lo” (LORIO, 2018, p. 17).
A passagem pelo umbral antropocêntrico se manifesta, sobretudo, quando Bataille afirma que o dedão do pé é a parte mais humana do corpo (BATAILLE, 1929d, p. 297). A posição ereta, na qual a cabeça humana está apontada para o céu, e o modo como o homem caminha e leva sua vida só é possível graças ao dedão do pé, a parte do corpo menos cultivada por altos valores e que está em constante contato com a sujeira do chão. Escreve Bataille: “O pé humano é comumente submisso a suplícios grotescos que o tornam disforme e raquítico. É imbecilmente fadado aos calos, às indurações e aos joanetes; e, se levarmos em conta usos que estão somente em vias de desaparecer, à sujeira mais repugnante” (BATAILLE, 1929d, p. 297). Bataille levanta o problema do pavor humano em relação ao pé, de modo que conhecemos vários tipos de costumes que expressam esse desgosto: o uso de salto alto para compensar o aspecto baixo e raso dos pés e até mesmo a atrofia proporcionada a eles pelos sapatos de porcelanas nas mulheres chinesas (BATAILLE, 1929d, p. 297). É uma tentativa de esconder essa parte considerada ignóbil, mas que justamente caracteriza o homem, pois está na sujeira. Como disse Hollier: “A sujeira é o próprio do homem, de onde segue que quanto menos uma coisa é limpa, mais ela é humana” (1991, p. XIX).
feio, no sentido europeu dessas palavras absurdas. Ela tem, todavia, a tendência de desconfiar do belo, que é muito frequentemente uma manifestação rara, isto é, monstruosa de uma civilização” (GRIAULE, 1930, p. 46).
Figura 12 – Gros orteil, sujet masculin, 30 ans.
As configurações do corpo humano são desqualificadas tendo em vista o deslocamento das considerações acerca dele segundo o prisma do dever ser. Chamando a atenção para o que é baixo, sujo e vil, Bataille coloca em evidência o que escapa da canonização estética do corpo, dando a ele o seu aspecto mais estranho e impossível, tendo em vista os aspecto imanentes, não idealizados, do corpo. A quebra da harmonia da figura humana leva-a ao encontro de sua própria falta de forma. Segundo Juliette Feyel, em Bataille “[a] representação do corpo sai de uma visão condicionada pelo dever ser do homem, o modelo arquitetural, portanto, imposto como cânone estético, filosófico e ético em detrimento do corpo real” (FEYEL, 2008, p. 64). Esse modelo arquitetural é a verticalização da “natureza humana” pelo processo do pensamento racional: em direção ao sol e ao céu, o corpo ereto e a cabeça levantada olhando o mundo de um ponto de vista mais alto.
Para Bataille, a arquitetura é a exteriorização material do dever ser, “[...] é a expressão do próprio ser das sociedades” (BATAILLE, 1929e, p. 117). A arquitetura, nesse sentido, exprime materialmente a formalização e a idealização humanas, cujos monumentos ameaçam os “elementos tumultuosos” sociais. De tamanhos majestosos, as construções inibem os sujeitos. Diz Bataille: “Com efeito, somente o ser ideal da sociedade, aquele que ordena e proíbe com autoridade, se exprime nas composições arquiteturais propriamente ditas” (1929e, p. 117). A “composição arquitetural” é a composição da autoridade da forma levada a cabo pela humanidade em relação a si mesma, materializada na arquitetura, de modo que Bataille, no texto “Architecture”, presente no número 2 do primeiro ano de Documents, ainda acrescenta: “Com certeza, a ordem humana é, desde a origem, solidária da ordem arquitetural, que não é senão o seu desenvolvimento” (1929e, p. 117).
Para Bataille, a crítica à arquitetura visa afirmar a incongruência que sobressalta na representação do deslocamento e das desclassificações do corpo humano. Por isso o dedão do pé é colocado como centro da humanidade concebida a partir do ponto de vista da laceração. O que é central aqui é o deslocamento, ou laceração, da forma corporal, colocados sob a égide da desordem. O dedão do pé é a exposição disso, do aspecto repugnante, ao mesmo tempo único, irredutível, da desordem humana, cujo corpo abriga um ajuntamento multiforme de órgãos (DIDI-HUBERMAN, 2015). O “baixo” revela o que é irredutível e “espalhafatoso”; irredutível à lógica do ideal que instaura uma escala de valores que vai do “alto” ao “baixo”, ou do “belo” ao “grotesco”. Feyel afirma que “[tudo] o que era ‘elevado’ foi moralmente valorizado em relação ao que era ‘baixo’, mas, para Bataille, fazer voltar esses órgãos ‘baixos’ no campo do pensamento permite lutar contra uma atitude geradora de ideologia”
(FEYEL, 2008, p. 64). Os ideais engessam seu objeto, o coloca nas imutáveis formas determinantes. É exatamente contra essa imobilidade que Bataille se opõe, como salienta, quase dezoito anos após Documents, em Théorie de la religion (1948), texto não publicado em vida: “[...] procurei exprimir um pensamento móvel, sem procurar para ele o estado definitivo” (BATAILLE, 1976b, p. 287).
Desde Documents, Bataille visava essa movimentação, ou deslocamento, sobretudo acerca das formas. Ora, esse caminho de “colocação em movimento das formas”, como diz Didi-Huberman (2015, p. 208), enquanto desclassificação da própria “figura humana” é, sobretudo, o caminho de sua humilhação. É a queda da escala de importância, a ruína da hierarquização. A isso relaciona-se a noção de baixo materialismo, estreita à crítica ao antropomorfismo, operada por Bataille.
Beirando ao pitoresco, no verbete “L’homme” – um texto sem assinatura retirado do Journal de Débats de 1929, presente na seção “Dictionaire critique” do número 4 de Documents – vemos a seguinte descrição do corpo humano:
Um eminente químico inglês, o Dr. Charles Henry Maye, esforçou-se em estabelecer, de modo exato, do que o homem é feito e qual é o seu valor químico. Eis o resultado de suas sábias pesquisas:
A gordura do corpo de um homem normalmente constituído bastaria para fabricar 7 pedaços de sabonete. Encontra-se no organismo ferro suficiente para fabricar um prego de grossura média e açúcar para adoçar uma xícara de café. O fósforo daria 2.200 palitos de fósforo. O magnésio forneceria o suficiente para tirar uma fotografia. Ainda um pouco de potássio e de enxofre, mas em quantidade inutilizável.
Essas diferentes matérias primas, avaliadas em valores atuais, representam aproximadamente uma soma de 25 francos (L’HOMME, 1929, p. 215, trad. nossa).
Esta descrição estritamente material, química e pitoresca do corpo humano desfaz os ares antropocêntricos, pois o valor do corpo, enquanto valor de troca, mostra-se irrisório. Esta desclassificação humana não é, de nenhum modo, para negligenciar o corpo, como numa atitude ascética. Ao contrário, trata-se de uma afirmação da impossível realidade material do ser humano. E quando se designa aqui “impossível realidade”, é para trazer à baila a noção de “informe”, afirmada por Bataille. Este termo, “informe” (informe), surge como um verbete na seção “Dictionaire critique”, de Documents.
Antes de qualquer coisa é necessário precisar que esta seção, “Dictionaire critique”, visava, em Documents, a abertura de um dicionário que, ao invés de mostrar a fixação do sentido das palavras no léxico conceitual, tratasse de expor “a tarefa” (la besogne) das
palavras, isto é, suas articulações no sentido “extralinguístico”, mostrando-as com todo seu peso histórico. É o caso do texto “Architecture”, também incluída nesse dicionário, no qual a noção de arquitetura não está para definir qual é a atividade do arquiteto, mas de deslocar o eixo da significação e colocar o foco nos modos de existência que a arquitetura configura historicamente na vida social. Como diz Bataille: “Assim os grandes monumentos se erguem como diques, opondo a lógica da majestade e da autoridade a todos os elementos tumultuosos: é sob a forma das catedrais e dos palácios que a Igreja e o Estado se endereçam e impõem silêncio às multidões” (1929e, p. 117).
Para Bataille, usualmente, o sentido das palavras implica sua fixação e permutabilidade no contexto da transmissão de significações, ao passo que a “tarefa” as considera em “[...] sua relação com o que ainda não está dado, com o inominável que, no limite, se põe como intransmissível” (MORAES, 2005, p. 111-112). A relação das palavras com o que não está dado se realiza quando se coloca a vida humana no contexto do deslocamento das formas, exatamente na história dos corpos em sua realidade impossível de determinação; esse âmbito de realização é aquele da “tarefa das palavras”, no qual elas são, segundo Denis Hollier,
[...] unidades lexicais arrancadas do código simbólico, articuladas sobre práticas extralinguíticas, carregadas de uma intensidade que remete, não mais a um processo representativo e comunicativo, mas a uma produtividade na qual a palavra funciona como uma coisa, pesada de todos seus pés históricos, produtividade na qual a palavra não é definida por aquilo que ela quer dizer (seu “sentido”), ela pode muito bem não querer dizer nada, mas pelo que ela faz, pelos efeitos que ela induz (sua “tarefa”) (HOLLIER, 1974, p. 61).
O objetivo do projeto desse antidicionário é notado, sobretudo, no próprio verbete “Informe”. Nele, Bataille salienta que “[um] dicionário começaria a partir do momento onde ele não daria mais o sentido, mas a tarefa das palavras” (BATAILLE, 1929f, p. 382). Michel Leiris e Marcel Griaule escreveram na mesma seção do antidicionário duas “definições” para o verbete “Escarro” (chacrat), antecedendo o verbete “Informe”. Notadamente, Griaule intitula sua “definição” como crachat-âme (alma-escarro) e não tenta dar um sentido ao escarro como “matéria eliminada do aparelho respiratório e eliminada pela boca”, tal como encontramos em dicionários (FERREIRA, 2004). Griaule traz o problema da vergonha sentida pela visão de um escarro lançado para fora da boca; além disso, o escarro também é considerado como originador de milagres, tal como “a saliva de Cristo abria os olhos dos cegos” (GRIAULE, 1929, p. 381). Griaule também traz à tona as diversas tarefas realizadas
através do cuspe em diversas culturas, como na África Oriental, na qual as pessoas, ao abrirem a porta de uma casa fechada a muito tempo, tinham que cuspir para expurgar os demônios da casa vazia, ou ainda na África Ocidental através da noção de “alma-escarro”, a qual é expelida pelo avô e depositada na boca de seu neto dias após o nascimento, com o objetivo de dar o “espírito” à criança (GRIAULE, 1929, p. 381).
Michel Leiris, por sua vez, coloca o escarro como o elemento que rebaixa a boca ao nível dos órgãos excretores. A boca, em seu privilégio de valorações, por ser o lugar das palavras, propiciadora da alimentação e orifício respiratório, rebaixa-se ao expelir cuspe, transforma-se em algo repugnante. Ele diz: “[...] o escarro, de repente, a faz cair no último grau da escala orgânica, lhe dando uma função de ejeção” (LEIRIS, 1929, p. 381). Leiris expõe as conjunturas existenciais que o escarro põe em questão. O escarro que traz o escândalo, que representa o “cúmulo de sacrilégio”, é considerado o agente transformador das relações de semelhanças e da hierarquia projetada pelos homens, pois
[o] escarro é, enfim, por sua inconsistência, seus contornos indefinidos, a imprecisão relativa de sua cor, sua humidade, o símbolo mesmo do informe, do inverificável, do não hierarquizado, pedra no caminho, mole e viscosa, que faz arruinar, melhor que um pedregulho, todos os percursos daquele que imagina o ser humano como sendo alguma coisa - outra coisa que um animal careca e sem músculos, o escarro de um demiurgo em delírio, rindo às gargalhadas por ter expectorado esta larva vaidosa, cômico girino que se infla em carne insuflada de semideus... (LEIRIS, 1929, p. 382, grifo do autor).
O escarro é usado em Documents para tornar sensível a própria noção de informe. Este termo, no antidicionário de Documents, não ocupa tal espaço em vistas da designação do seu sentido, mas, como diz Bataille: “Assim, informe não é somente um adjetivo tendo algum sentido, mas um termo servindo para desclassificar, exigindo geralmente que cada coisa tenha a sua forma” (BATAILLE, 1929f, p. 382, grifo do autor). O deslocamento é o movimento proporcionado pela palavra “informe”, não ressaltando uma exigência por aquilo que não tem forma, mas um deslocamento do modo de se pensar as formas (VERGARA, 2013). Não se tem o direito de reivindicar um sentido para o informe, mas sim o aspecto performativo da palavra; de operar, em sua tarefa, um novo tipo de relação com a linguagem do sujeito que se vê tocado afetivamente pelo “tom” proporcionado por ela. “[...] a tarefa da palavra ‘informe’ é dada nas relações de desgosto que acompanha sua enunciação” (HOLLIER, 1974, p. 64, trad. nossa). O modo pelo qual Bataille escreve seu verbete sobre o informe apela para esse peso material da palavra, peso fonético, que transparece, como um escarro, a própria
irredutibilidade a qualquer sentido, pois o informe, que não tem direito ao sentido, “[...] se faz esmagar por todo lado como uma aranha ou uma minhoca” (BATAILLE, 1929f, p. 382).
Ora, uma revista que se erigiu numa proposta de expor o que há de irritante e inquietante, traz a marca do deslocamento e derrisão do sentido (que implica na forma) ao expor o informe em sua dimensão performativa, pois essa dimensão é o que importa na tarefa das palavras (PENNA; MORAES, 2018). A ausência do alicerçamento do sentido acompanha a ausência da forma, o informe que coloca em questão o idealismo. Postular um universo que obedece a uma forma é coisa dos “homens acadêmicos” e do propósito da “filosofia inteira”, “[...] dar um rendigote ao que existe, um rendigote matemático” (BATAILLE, 1929f, p. 382). Esta imagem do rendigote expressa o trabalho de cobrir uma coisa com algo alheio a ela. No entanto, “[a]o contrário, afirmar que o universo não se parece com nada e que não é senão informe, é dizer que o universo é alguma coisa como uma aranha ou um escarro” (BATAILLE, 1929f, p.328). O universo é considerado como sem forma e em concordância com o que desperta horror, repugnância, vergonha e asco.
O informe como algo “baixo” é também, no fundo, o informe da figura humana. Colocar em questão as formas hierárquicas e domésticas da figura humana, evidenciado o informe em sua tarefa, é expor a monstruosidade da matéria, seus “desvios da natureza”, que a retira da zona de classificação representável. Segundo Vergara, em Bataille “[é] o caráter informe de tudo o que o converte em uma monstruosidade inapresentável, em algo que não pode ser exposto. O informe não se deixa conter, não permite sua inclusão em nenhum sistema classificatório” (VERGARA, 2013, p. 108).
O informe, assim, traz o estatuto do impossível. O agente arruinador da forma, do sentido, das semelhanças, das hierarquias, que transforma o alto em algo baixo e que destrói a possibilidade de pudica apresentação pela evidência da monstruosidade. Nessa perspectiva, junto ao informe, o sujeito é levado ao impossível também. A possibilidade representacional,