Considerando que o processo fonológico estudado na presente pesquisa ocorre em contexto morfológico, este trabalho é fundamentado nos estudos de Fonologia Lexical (doravante, FL) do Português do Brasil, pois
no modelo da FL clássica, os componentes da fonologia e da morfologia intermisturam-se, de modo que as regras fonológicas relevantes se aplicam à saída de toda regra morfológica, criando uma forma que é entrada para outra regra morfológica (LEE, 1995, p.05).
A FL é caracterizada pela interação entre a morfologia e a fonologia. Kiparsky (1982), ao analisar o inglês, diz que o léxico de uma língua está organizado em uma série de níveis, que são os domínios para regras fonológicas e morfológicas. O autor propõe quatro princípios básicos para a FL, os quais estão brevemente explicitados a seguir:
1. Hipótese de Domínio Forte (HDF): segundo essa hipótese, todas as regras fonológicas aplicam-se no nível mais alto do léxico.
2. Preservação da Estrutura (SP): por esse princípio, prevê-se que somente os segmentos contrastivos da representação subjacente (fonemas) de cada língua podem ocorrer durante as operações lexicais, de modo que a SP determina os tipos de regras fonológicas que podem se aplicar no léxico.
3. Condição de Ciclo Estrito (SCC): esse princípio funciona como um bloqueio na aplicação das regras, ou seja, as regras fonológicas cíclicas, isto é, lexicais, aplicam-se somente em cada ciclo próprio – o ambiente derivado. 4. Hipótese de Referência Indireta (HRI): por meio desse princípio, explica-se a falta de isomorfia entre as estruturas morfológicas e fonológicas, introduzindo a noção de domínio prosódico, ou seja, as regras fonológicas aplicam-se no domínio prosódico, não no domínio morfológico.
Lee (1995), ao analisar dados do Português Brasileiro (PB), assume que há dois níveis ordenados: nível derivacional (α) e nível flexional (β), que funcionam como domínios da aplicação de regras fonológicas e morfológicas, respectivamente. Seguindo o que propõe Kiparsky (1982), o autor mostra que, no PB: 1º) há dois tipos de compostos: composto lexical e composto pós-lexical; 2º) as regras lexicais sujeitam-se aos princípios da Fonologia Lexical, tais como: o Princípio de Preservação de Estrutura e a Condição de Ciclo Estrito, ao passo que as regras pós-lexicais não se sujeitam a tais princípios; 3º) em relação ao acento primário, há duas regras distintas: uma para o não- verbo, que se aplica no nível derivacional (α); outra, para o verbo, que se aplica no nível flexional (β); 4º) o acento secundário aplica-se no nível da palavra prosódica (ω).
Na FL, há dois tipos de regras fonológicas: as regras lexicais e as pós-lexicais. Estas são caracterizadas por terem aplicação variável e se aplicarem entre palavras, além de não fazerem distinção entre as mesmas, assim, são condicionadas foneticamente e podem introduzir ao léxico novos segmentos. Aquelas são caracterizadas por possuírem aplicação categórica dentro do léxico, além disso,
preservam a estrutura da palavra, por serem sensíveis à informação morfológica. (Cf. KIPARSKY, 1988).6
Lee (1995, p. 11) propõe o seguinte modelo da FL para o PB:
O MODELO DA FL DO PB MORFOLOGIA FONOLOGIA Nível 1 (α) Derivação, Composição I Flexão irregular < - - > Regra 1 Regra 2 Regra 3 :
Nível 2 (β) Formação Produtiva
Flexão Regular < - - > : : Nível ω < - - > : : Pós-Lexical Composição II < - - > Esquema 1: Modelo da FL do PB
O modelo proposto por Lee, representado no Esquema 1, mostra que há apenas um componente fonológico em que há regras lexicais e pós-lexicais. O autor justifica que a postulação desse modelo deve-se à hipótese assumida sobre a interface entre a fonologia e a morfologia. Assim, segundo esse modelo, cada um dos três níveis funciona como um domínio prosódico da aplicação das regras fonológicas e morfológicas (cf. LEE, 1995).
6 “The correlation of lexical - categorizable and postlexical - unconscious is currently rather uncertain.
For instance, glottalling and h-dropping are good candidates for postlexical rules, but are clear markers, or even stereotypes.” A correlação de lexical – categorizável e pós-lexical – inconsciente é bastante incerto. Por exemplo, glotalização e h-queda são bons candidatos para as regras pós-lexicais, mas são indicadores claros, ou mesmo estereótipos. (McMAHON, 1991, p.30 – tradução nossa).
O nível 1 (α) inclui todos os processos derivacionais, a flexão irregular e alguns processos de composição aos quais se podem acrescentar os sufixos derivacionais. Em (3), apresentamos alguns exemplos do autor (LEE, p. 12):
(3) a. [feliz], [[felic]idade] b. [descobrir] [descoberta]
c. [[rádio-tax]ista], [[puxa-saqu]ismo]
O nível 2 (β) inclui a flexão regular do verbo e do não-verbo e a formação de palavras produtivas do português, como as formações de diminutivo (“-inho”, “-zinho”), advérbio (“-mente”) e grau (“-íssimo”), como exemplificam em (4)
(4) a. falo, falava b. flor, flores c. cafezinho
(LEE, 1995, p. 12)
O nível ω (palavra prosódica) é a saída do léxico e a entrada para a sintaxe. Pertencendo ao componente pós-lexical, esse nível prevê que a aplicação da regra é não- cíclica e não afeta as operações morfológicas.
A flexão de gerúndio, que resulta na forma verbal que investigamos, pode ser vista como pertencente ao nível 2 (β), por ser uma flexão regular do verbo. Na seção 3 deste trabalho, apresentamos uma análise detalhada do fenômeno, segundo essa proposta. Além disso, discutiremos o fato de a redução de gerúndio se aplicar variavelmente, o que leva à configuração de um problema teórico, a saber: se a regra se aplica apenas ao morfema de gerúndio, então é de natureza lexical; porém essa regra tem aplicação variável, o que, como ora apresentado, é uma característica de regras pós- lexicais. Após a descrição do comportamento da regra de gerúndio, na variedade em
estudo, retomaremos essa questão teórica e apresentaremos uma interpretação para os fatos encontrados.
A seguir, passamos a tratar da abordagem teórica assumida na investigação de fatores linguísticos e extralinguísticos que possam estar atuando na chamada regra de redução de gerúndio.